terça-feira, 16 de novembro de 2010

O JANTAR

Chegou mais cedo do trabalho. Intencionalmente. Depositou o paletó sobre a cadeira, com certo zelo e nenhuma pressa. Dobrado em duas partes, usaria novamente no dia seguinte. Colocou algumas sacolas de compras sobre a mesa, arregaçou as mangas da camisa e lavou as mãos com cuidado, entrelaçando dedos, como um cirurgião, na espuma produzida pela água fria que jorrava com força da torneira da cozinha. Não era um dia especial. Longe disso. Era um dia qualquer, mas ele estava determinado a fazer aquele jantar.

Com planejamento, esvaziou as sacolas, organizando itens por categoria e propósito. Um bom vinho a ser resfriado rapidamente. Apenas um susto, para não esfriar demais. Vinho branco, naturalmente.

Frutas da estação, flores comestíveis, folhas variadas, lascas finas de queijo parmesão, presunto cru e um punhado de sementes para compor uma salada colorida, banhada por não mais que um fio de azeite português, um pouco de sal e pimenta do reino.

Um pequenino pote de sorvete de cereja no refrigerador. Para depois. Somente para depois. O gelo machucando delicadamente a ponta dos seus dedos enquanto guardava a iguaria posterior. Sorvete de cereja, um pote pequenino para não cometer exageiros. Não mais que algumas colheradas. Era o suficiente. Mesmo num dia frio e chuvoso como aquele. O suficiente.

Água borbulhante no pequenino fogão de duas bocas. Panelas suadas exalando aromas variados de tomate, cebola, alho, pimenta calabresa, canela, noz moscada. Ervas variadas, um pouco de sal, um pouco de açúcar. No forno, um belo filé de salmão, fresco como se tivesse sido pescado minutos antes.

Para fazer companhia ao peixe vermelho, um pouco de arroz selvagem, alguns legumes e um molho saboroso e levemente picante. Sua receita secreta. 

A sala do pequeno apartamento já estava tomada por um aroma mediterrâneo, como se houvesse, lá fora, um sol amarelo e um mar cintilante, muito gregos, e não aquela chuva forte e acinzentada que fazia tremer a janela. Acompanhou todos os preparativos com olhos atentos, mãos habilidosas, paladar apurado e cuidado com todos os detalhes.

Arrumou a mesa com uma qualidade obsessiva, prestando atenção a todos os itens do seu check-list mental. Toalha de linho (a melhor que tinha), guardanapos de pano, talheres de prata, a melhor louça, os melhores copos, taças. Uma flor solitária, amarela, para adornar o centro da mesa. Um castiçal de prata de três pontas, aceso, para agraciar o ambiente com uma adorável meia luz.

Apagou o fogo, desligou o forno, abriu o vinho para que ele respirasse alguns instantes. Um disco na vitrola antiga acariciando o ar com uma melodia adorável e banal, necessária porém fácil de ser ignorada. Arrumou a louça suja, panelas e utensílhos na pia, um pano com detergente para corrigir eventuais excesssos. Tudo pronto. Decidiu, então, tomar banho.

Arrumou-se também sem pressa e com esmero. Uma camisa branca, calça cinza, ambas de algodão. Confortáveis e elegantes. Sapatos pretos, cabelos penteados, barba, colônia. Mangas dobradas, cinto, relógio.

E caminhou lentamente para a sala. Serviu-se dos pratos, sem exageiro. Primeiro a salada, depois o peixe. Um gole de vinho para antecipar os sabores que estavam por vir. Guardanapo dobrado sobre o colo. Um lindo guardanapo. E uma luz trêmula e confortável dançando sobre a mesa.

E, então, apreciou sozinho o seu jantar.

3 comentários:

Paulo Vieira Milreu disse...

Bravo!

ione gonzalez disse...

Bravissimo! adorei!

Luana Ribeiro disse...

Brindemos à amizade do homem consigo! ;)