segunda-feira, 28 de setembro de 2009

DESPEDIDA E ACEITAÇÃO


"Quando você viu seu pai pela última vez?" não é simplesmente um filme sobre a perda. É sobre a passagem, o aprendizado, o entendimento real de se dizer adeus, essencialmente, a uma parte fundamental de nós mesmos. Neste filme precioso, engraçado e melancólico sem exageros, Jim Broadbent e Colin Firth interpretam, respectivamente, um pai (Arthur) e um filho (Blake) que tiveram uma vida inteira de desentendimentos.  Os dois não conseguiam "funcionar" juntos. O pai, por ser um eterno garoto, feliz, inconsequente, determinado em viver cada minuto da vida, sem se levar muito a sério. O filho, oposto de tudo isso, por ser um jovem adulto, sério, envergonhado, muito mais interessado pelos livros que por viver de verdade. Ambos passam anos se testando mutuamente, numa guerra de amor e ódio em que fica parecendo para nós, espectadores, que o filho não gosta do seu pai; quando, justamente, tudo o que ele mais quer é a sua admiração e respeito. A solução que Blake encontra é a mais fácil e ele se afasta de seu "antagonista" para descobrir um caminho próprio para sua vida. Mas é justamente a vida que lhe faz a chamada de volta, para reencontrar o seu pai nos últimos dias. O retorno traz consigo lembranças, reflexões, mágoas antigas, memórias felizes, dúvidas e, inevitavelmente, o entendimento da perda que, para Blake (para nós, nem tanto) é surpreendente e atinge-o como um trem desgovernado. Por fim, este não é um filme indispensável, tampouco se predispõe em sê-lo, mas não deixa de ser uma linda história sobre pessoas simples diante da constatação do inevitável. A pergunta que dá título ao filme é, sem dúvidas, a mais bela e comovente do filme, e encerra-o, como um epílogo. E faz com que nós mesmos repensemos tanta coisa que talvez ainda possamos ver e fazer, antes que seja tarde demais.

PARA VER E OUVIR: CAT STEVENS ("FATHER & SON")

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

QUE MISTÉRIOS ESCONDE O DISTRITO 9?


Num futuro fictício, uma gigantesca aeronave alienígena flutua sobre a cidade de Johanesburgo (África do Sul). Após tentativas fracassadas de contato, o governo local decide enviar uma missão de reconhecimento à ilha de metal que encobre a cidade e lá descobre uma raça de seres extraterrestres doentes e famintos. Os aliens são trazidos para o solo, onde passam a habitar uma zona de quarentena chamada "Distrito 9". Rapidamente, os "camarões", como são chamados pela população local, assumem comportamento humanizado e, quando o governo percebe, o Distrito 9 já se transformou numa favela, consumida por violência, exploração sexual e tráfico de armas. Diante deste cenário caótico, onde a população se vê obrigada a conviver com uma raça marginalizada, começam a surgir eventos de crise social onde há um aumento vertiginoso da criminalidade, transformando Johanesburgo num palco de tensões entre os alienígenas, que vivem de forma "sub-humana" e querem ir embora, o governo que os mantém "seqüestrados" para descobrir seus segredos tecnológicos e o povo que não os quer por perto. Uma divisão militar privada resolve invadir o Distrito 9, para impor uma política de despejo e conduzir os "camarões" a um campo de refugiados. No entanto, há segredos demais sob os escombros e a sujeira do Distrito 9. E são esses segredos que se desenrolam na tela neste filme brilhante, instigante e original de Neill Blomkamp (com apresentação de Peter Jackson). "District 9" é uma mistura extremamente coerente de gêneros, com doses certas de mistério, humor, ação e ficção científica. Costura-se com referências a clássicos como "A Mosca" e é um dos filmes de ficção mais originais, na minha opinião, comparável a "Alien" e "Blade Runner". O filme assume o tempo inteiro uma linguagem documental/investigativa, que faz o cenário parecer extremamente verossímil. É preciso alguns segundos, acabado o filme, para lembrarmos que aquilo nunca aconteceu no planeta. Completamente imperdível para fãs do gênero. O filme estréia em breve nos cinemas brasileiros.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O PODER DA DISNEY EM FAZER A VIDA SER PERFEITA NOVAMENTE



"Up - Altas Aventuras" é um deleite, um deslumbramento, um presente para os olhos e a alma. Dos mesmos criadores de preciosas animações, como "Procurando Nemo" e "Toy Story", "Up" conta a aventura de um vovozinho extremamente convencional: mau humorado, solitário e sistemático. Ele vive na última casa que sobreviveu ao surgimento de um bairro moderno, cheio de arranha-céus e todos os dias se recusa em aceitar propostas de compra para a sua casa - reformada por ele e sua mulher e seu refúgio pessoal. O filme começa com uma seqüência docemente comovente, que resume a vida de um casal, com todas as suas alegrias e tristezas até a constatação inevitável da finitude. Poesia pura, intensa, original.



Após uma vida inteira de viagens planejadas e não realizadas, o sr. Carl Fredricksen está prestes a ser enviado a um asilo. O sonho de sua mulher, Ellie, era conhecer uma terra de cachoeiras, na América de Sul e Carl prometeu levá-la até lá um dia. Ao se lembrar dessa promessa que fizeram quando crianças, Carl amarra sua casa numa nuvem de balões coloridos e parte rumo ao sul. O que ele não contava era com alguns imprevistos, como uma tempestade, um vilão, uma matilha de cães perigosos e uma trupe inusitada para acompanhá-lo até o fim: Russel, um esforçado escoteiro gordinho, uma ave colorida chamada "Kevin" e um cão falante chamado "Doug". Juntos, os quatro atravessam florestas e montanhas enquanto somos agraciados com um banquete visual e de emoções. Como tudo na Disney, "Up" faz a vida ser bela de novo, colorida e cheia de esperança. E essa animação imperdível é completa e competente na sua missão de divertir e emocionar. Ao pegar carona na casa voadora do sr. Fredricksen, encontramos uma jornada de risos e lágrimas. Mas que, ao subir dos letreiros, nos subtrai quilos da alma. É um filme lindo, absolutamente lindo, com conteúdo para adultos e crianças. Uma animação incrível que, pelo seu poder de nos fazer sorrir, também nos faz voar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

PARA VER E OUVIR: "GRANDE FANTASIA TRIUNFAL SOBRE O HINO NACIONAL BRASILEIRO" (L. M. GOTTSCHALK)


Interpretação da pianista brasileira Eudóxia de Barros.

domingo, 20 de setembro de 2009

O DESTINO DA PIPA AMARELA

A Pipa Amarela procurou pelo Vento, mas não conseguiu achá-lo em canto algum. "Onde você se escondeu hoje, meu doce amigo?", perguntou gentilmente. Mas era como se o Vento não estivesse ali. "Você me deixou?", continuou a Pipa Amarela. "Você sabe que sem você eu não posso ir a canto algum... por que não me leva com você pelos oceanos, pelos céus, desertos e florestas?". A Pipa Amarela estava desolada. "Não me acha mais interessante?", seguiu questionando. "Deixe-me voar com você e lhe prometo ser eternamente fiel", a Pipa Amarela implorava. Mas o Vento continuou ignorando-a friamente. "Você esqueceu das nossas promessas? Voaríamos juntos por reinos e países!", exclamou indignada. Mas o Vento não se interessava por suas palavras. "Parece-me, meu doce amigo, que você não me ama mais", concluiu, melancólica. "Percebo que minhas sedas e hastes não são suficientemente fortes para lhe cativar o coração", disse a Pipa Amarela, comovida.

E, então, o Vento decidiu olhar para ela.

"Minha doce, inocente, amiga. Jamais acredite nas promessas do Vento. O destino da pipa é colorir os céus e adornar os dias com sua pele delicada e sua dança comportada. Você não deve se atrever em aventurar-se, mas sim continuar a fazer cócegas nas nuvens e divertir as crianças. Ontem, desejamos ser amantes dedicados. Mas, hoje, quero correr só. Quero voar, irresponsável, pelas bandeiras e saias das moças. Quero revirar jornais, folhas secas e desfazer cabelos. Ontem voamos juntos. Hoje, quem sabe, voarei pelas pastagens africanas, pois não tenho lar nem jamais terei. Mas voarei só. Guardo em mim apenas desejos e caminhos. Sou efêmero. Não poderei amá-la. Não mais. E devo partir, agora". E o Vento se foi. E a Pipa Amarela o observou ir embora, com lágrimas nos olhos, enquanto mantinha sua dança de fada infeliz.

E, sozinha, chorou, chorou e chorou...

E as suas lágrimas deixaram-na ensopada e pesada como uma pedra...

Até que ela não mais conseguiu mais flutuar... e caiu, rapidamente, para o seu túmulo de pipa, no chão.

Ao chegar no solo, foi rapidamente envolvida pela Grama, que a observava pender do céu. A Grama abraçou-a carinhosamente, enquanto a Pipa Amarela parecia se desfazer no solo.

"Eu sempre te observei, aqui de baixo. Mas você não passava de um sonho impossível para mim, sempre lá no alto, voando com o Vento. Agora que você está aqui, comigo, te amarei para sempre, minha amiga querida, porque seremos um só com a terra", sussurrou a Grama nos ouvidos da Pipa Amarela.

E a Pipa Amarela sorriu. Ela estava em casa.

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("AUGUST MOON")

sábado, 19 de setembro de 2009

PARA VER E OUVIR: FRED ASTAIRE CANTA "THE WAY YOU LOOK TONIGHT" (SWING TIME - 1936)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"THE BEATLES ROCKBAND"


O jogo "The Beatles Rockband", que acaba de sair para os consoles de última geração, oferece a experiência de tocar, como os próprios Beatles, a discografia mais amada do planeta. O jogo, sem dúvidas,  merece todo o alvoroço que está sendo feito sobre ele. E esse vídeo de abertura é, simplesmente, incrível. Em pouco mais de dois minutos, a inocência, o fanatismo, a psicodelia, todas as cores e sabores que fizeram desta a maior banda de todos os tempos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

POR TRÁS DA CORTINA DO PODEROSO CHEFÃO


A trilogia de Francis Ford Coppola, “O Poderoso Chefão”, baseada em livro homônimo de Mario Puzo está entre os filmes mais cultuados de todos os tempos. Nenhum elogio é exagerado. A trilogia é perfeição. O primeiro filme foi lançado em 1972 e é estrelado por Marlon Brando no inesquecível papel do “padrinho”, Vito Corleone. O filme ganhou 3 Oscars e conquistou uma legião de fãs que, até hoje, se encantam com o universo criado por Puzo e Coppola. Existem ótimas curiosidades sobre o primeiro filme da saga:
- Polêmica na produção: Joe Colombo, um mafioso americano, promoveu uma cruzada contra a filmagem dos filmes do “Poderoso Chefão”. Ele ameaçou roteiristas e acusou a Paramount de realizar um filme “anti-italiano”. Permitiram que ele se envolvesse na produção e ele solicitou que termos como “Máfia” e “Cosa Nostra” jamais fossem usados e ainda impôs que companheiros atuassem como extras e consultores.
- Marlon Brando decidiu fazer Vito Corleone como um bulldog, por isso o algodão nas bochechas. Insatisfeitos com a maneira como Coppola dirigia o primeiro filme da trilogia, executivos da Paramount consideraram substituí-lo por Elia Kazan. Eles achavam que Kazan trabalharia melhor com o notoriamente difícil Marlon Brando. Ao saber disso, Brando anunciou que se Coppola fosse demitido ele sairia do filme no mesmo dia.
- O diretor Sergio Leone, famoso precursor do gênero “faroeste espaguete” (filmes de faroeste rodados na Europa), foi convidado para dirigir “O Poderoso Chefão”. Ele recusou, afirmando que não gostava da história que, além de glorificar a máfia, não era interessante. Anos depois ele se arrependeu da decisão e acabou dirigindo o aclamado filme de gângsters, “Era uma vez na América” (Once upon a time in America), em 1984.
- O famoso gato segurado por Marlon Brando, nas cenas iniciais de “O Poderoso Chefão” era um gatinho de rua, que o próprio Brando achou nos estacionamentos da Paramount. Ele era louco por Marlon Brando (quem não era?). Em cena, ele ronronava tanto nos braços de Brando, que algumas cenas tiveram de ser refeitas, para que alguns diálogos não se perdessem. Detalhe: O gato não fazia parte do roteiro original.
- O tradicional gorro siciliano, usado, por exemplo, pelos guarda-costas de Michael Corleone, se chama “coppola”.
- Existem 61 cenas no primeiro “Poderoso Chefão” onde as pessoas estão comendo ou bebendo alguma coisa.
- Segundo Al Pacino, as lágrimas de Marlon Brando eram reais na cena do hospital.
- “O Poderoso Chefão” foi eleito “O melhor filme de todos os tempos” pela Entertainment Weekly.
- “Sonny” era o filho mais velho de Don Corleone (Santino, interpretado por James Caan). Esse apelido, escolhido por Mario Puzo para o seu personagem, era o mesmo do filho de Al Capone. As semelhanças, porém, acabam aqui. O filho de Al Capone nunca “entrou nos negócios da família”.
- Quando a Paramount comprou os direitos de “O Poderoso Chefão”, o livro sequer havia sido finalizado e mal tinha 20 páginas.
- Os avós de Al Pacino também são imigrantes vindos de Corleone.
- Orson Welles pediu a Coppola o papel de Vito Corleone, mas ele já havia dado a Marlon Brando.
- Os atores que fazem os filhos de Don Corleone eram, na vida real, pouco mais jovens que Marlon Brando.
- No primeiro filme há 18 mortes (cavalo incluso).
- A versão inicial do primeiro filme tinha 126 minutos e foi considerada curta pela Paramount.

"Bonasera, Bonasera. O que eu te fiz para você me tratar com tanto desrespeito?"

PARA O RESTO DE NOSSAS VIDAS

Um dos meus filmes mais queridos, sem dúvidas, é "Para o resto de nossas vidas" (Peter´s Friends). O filme, de 1992, fala do reencontro de seis amigos que não se viam há 10 anos e que conseguem se reunir e perceber como as suas vidas mudaram (ou, em alguns casos, nem tanto). Andrew, um executivo inglês infeliz e "ex-alcóolatra", que leva a sua esposa (uma atriz de Hollywood); Sarah, uma "ex-ninfomaníaca" acompanhada por seu namorado do momento; Mary e Roger, um casal devastado pela perda de um filho; Maggie, a amiga boazinha e viciada em auto-ajuda; e Peter, filho de uma tradicional família britânica. Ex-atores de teatro amador, a turma é convidada por Peter a passar junta o ano novo na mansão, no interior da Inglaterra, que ele acaba de herdar do pai. O filme parece combinar com a Inglaterra, seu clima, seu humor, sua névoa, com tons e nuances de histeria, melancolia, confusão e felicidade. O reencontro dos amigos de Peter rende risadas, lágrimas, brigas, redenção e, por fim, uma notícia - o motivo da reunião - que surpreende a todos imensamente e ajuda-os a repensar suas próprias vidas. Acho que esse é um daqueles filmes que muitas pessoas acabam não dando muita bola, injustamente. O filme é maravilhoso, delicado, engraçado. A trilha sonora é incrível e o elenco reúne grandes estrelas como Kenneth Branagh (que também dirige o filme), Emma Thompson, Stephen Fry e Hugh Laurie (hoje bem conhecido por seu papel como o dr. House na famosa série de TV). Recomendo. É um filme que fica.

Os amigos de Peter cantam juntos "The way you look tonight", numa das cenas mais bonitas do filme

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O ÚLTIMO LUGAR IMAGINÁVEL PARA ENCONTRAR A SI MESMO

Aguardo, com certa ansiedade, pelo lançamento do filme "Moon", de Duncan Jones que, por acaso, é filho de ninguém menos que David Bowie. O filme se passa um futuro não tão distante, onde o astronauta Sam Bell (Sam Rockwell) está quase terminando seu contrato de três anos de exploração na lua. A solidão e o isolamento permitiram que ele refletisse sobre a sua vida e os seus equívocos, enquanto seguia fielmente as obrigações de trabalho. Os dias passam e Sam trabalha no automático, pensando na volta à Terra e à sua mulher, Tess e filha, Eve. No entanto, duas semanas antes de sair da Lua, Sam perde contato com a Terra. Um acidente de mineração acontece e vemos Sam acordar confuso na enfermaria, onde o computador de bordo informa-o que ele esteve desacordado por alguns dias e que sofre de perda de memória. Ao sair da base, Sam encontra um homem acidentado não muito longe dali e descobre que o homem é, simplesmente, ele mesmo... que outros mistérios estarão escondidos na Lua? É por isso que aguardo, tão ansiosamente, pelo lançamento de "Moon".

domingo, 13 de setembro de 2009

"DON'T YOU FORGET ABOUT ME"


A década de 80 é um baú de tesouros cinematográficos. Na minha opinião, somente com filmes dos anos 80, seria possível fazer um top 10. Um ícone inesquecível é "O clube dos cinco" (The Breakfast Club). O famoso filme de John Hughes, de 1984, narra o encontro de cinco jovens, de mundos completamente diferentes. "Eles se encontraram apenas uma vez, mas isso mudou suas vidas para sempre". Numa manhã de um sábado qualquer, alguns adolescentes americanos estão de castigo: um atleta, uma patricinha, um nerd, uma excêntrica e um vândalo. Obrigados a dividir um mesmo espaço da biblioteca e a escrever uma redação sobre "quem realmente são", os cinco se descobrem numa jornada preciosa de auto-conhecimento. Preconceitos e estereótipos vão se desfazendo pouco a pouco enquanto vão cedendo as barreiras; e aquilo que parecia mais improvável acontece: aquele encontro se transforma num ponto decisivo na vida de cada um. Eles dividem sonhos e temores e vão se surpreendendo como, apesar de tão diferentes, são tão parecidos em suas inquietações. Algo muda em todos eles, ainda que isso pareça imperceptível. O filme é absolutamente brilhante e atemporal. Há pouquíssima ação e tudo basicamente acontece na biblioteca, onde acompanhamos os diálogos como se fôssemos o sexto membro honorário do clube. Sentimos empatia e saudade de todos quando esse encontro chega ao fim. Sinto em mim mesmo o impacto das conversas e reflexões tão interessantes. Ao final, um epílogo perfeito para encerrar essa fábula engraçada e melancólica, essa lembrança inesquecível de um tempo de inocências.

PARA VER E OUVIR: CARY GRANT & GINNY SIMMS CANTAM "YOU'RE THE TOP" ("NIGHT AND DAY - 1946)

sábado, 12 de setembro de 2009

O TREM


A grande verdade é que descobrimos mais cedo ou mais tarde que estamos viajando num trem no qual fomos simplesmente obrigados a embarcar. E que não pára. Nunca. Ele segue de estação em estação, nos trazendo pessoas, surpresas, lugares, lembranças, risos, lágrimas, flores e fotografias pelo caminho. E nos fazendo deixar muito de tudo isso para trás, também. Viajar nesse trem é dizer olá e adeus, sem parar. Às vezes é uma sensação agradável, a de estar correndo neste trem do qual não podemos descer. Às vezes é desesperador. Simplesmente desesperador.

É o simples medo de envelhecer, de enfrentar a vida sozinho. Quando chega a nossa vez, a nossa deixa, a hora de assumir o bastão desta corrida já vivida por tantos antes de nós. É que não queremos que a viagem acabe. Não queremos dizer adeus a quem amamos. É que não queremos ver os nossos pais irem embora. É agonia de nos enxergarmos mais velhos no espelho, quando sabemos como somos bons em "sermos jovens". 

Talvez seja a grande dificuldade de nos desprendermos, desapegarmos de tantas posses e propriedades mentais e materiais e dizermos adeus a pessoas e a momentos que simplesmente ficam para trás; não por que assim escolhemos, mas por que simplesmente a vida nos obriga que assim seja. Adeus e olá. Olá e adeus. Por que o trem segue seu caminho e nada nos resta a não ser abraçar seus inúmeros vagões e paradas, enquanto contemplamos o que passa por suas janelas velozes. Só não dá para parar o trem. Só não dá para descer. É um fato inquestionável.

Por isso enfrentamos a angustiosa necessidade de conversar com alguém, para encontrar alguma resposta, algum conforto. Buscamos nossos pais, avós e irmãos que já viveram o suficiente desta jornada, para nos explicar um pouco sobre o que ainda vem pela frente. Uma tentativa infantil, quase ingênua, de perguntar uma última vez se é possível descer do trem e voltar para casa, onde é seguro, nosso último bastião, dentro do qual não envelhecemos e a vida deixa de ser assustadora.

“Espere um pouco mais, acumule algumas décadas e renegocie a sua jornada”, tentam nos confortar com algum sucesso, “mas não pare nunca este trem, não troque por nada este pedaço do caminho que você já correu”. No fim das contas não devemos mudar nada do que construímos até onde estivermos e aceitar que o trem não pára mesmo. E ao invés de nos ocuparmos tanto em questioná-lo e tentar a qualquer custo tirá-lo dos trilhos, descobrirmos que pode ser boa a jornada. Por que ela subtrai na quase igual proporção em que soma. Não nos rouba nada, apenas negocia e renegocia. Estamos em troca, todo o tempo. E somos melhores a cada novo dia.

Abraçar a viagem. É difícil, mas é o que deve ser feito, dizem-nos os mais experientes. Abraçar a viagem. Dizer adeus aos nossos pais e olá aos nossos filhos, por que em breve será a vez deles, o momento deles de subirem no trem, seguindo a viagem que é só deles, e se preparando para nos dizer adeus. Por que tudo corre velozmente para o pleno fechamento de um círculo. E também este círculo não pára, por que é contínuo e se refaz em si mesmo, com a perfeita e magistral alternância de papéis. Pais que são filhos. Filhos que se tornam pais. Até todos irem embora e até todos chegarem. É o destino final. É o trem da vida. E, ao final do dia, tudo estará bem.

John Mayer canta "Stop this train" (Live in LA)

SAUDADES DA "BAÍA"




"Mungunzá"? Impagável...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

PARA VER E OUVIR: ERIC CLAPTON ("BEFORE YOU ACCUSE ME")

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

ILUSTRANDO

"Boulevard Diderot" - Fotografia de Cartier-Bresson

PARA VER E OUVIR: ERIC CLAPTON TOCA "TEARS IN HEAVEN" (JAPÃO)

UMA PROVA DE AMOR


A premiada propaganda (ganhadora em Cannes) da Niños con Cancer

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O MISTÉRIO DA TORRE NEGRA

Um detetive investiga o submundo de paris em 1818. Seu nome: Vidocq, um mestre do disfarce e o terror dos criminosos da França pós-revolucionária. O famoso detetive tem uma nova missão: investigar o mistério por trás da morte do príncipe Luís Carlos, filho de Maria Antonieta e Luís XVI. Oficialmente, o menino de 10 anos teria morrido brutalmente durante a Revolução Francesa, mas é possível que o jovem dauphin ainda esteja vivo, o que mudaria imensamente o cenário político francês. Como assistente, o excêntrico Vidocq convoca Heitor Carpentier, um estudante de medicina que ainda vive com sua mãe, uma viúva de posses razoáveis no Quartier Latin. Os dois esbarram num homem sem nenhuma memória de quem é, o que levanta suspeita de que ele talvez seja o príncipe dado como morto. A partir daí, um mergulho profundo em revelações e descobertas que levam o investigador e o seu assistente a conquistar justiça de qualquer maneira. Essa é a trama de "O mistério da Torre Negra", de Louis Bayard, um romance policial cheio de intriga, conspiração e o desejo de traçar a redenção de uma família real deposta e destruída pela revolução.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

PARA VER E OUVIR: THE RADIO DEPT. ("PULLING OUR WEIGHT")

domingo, 6 de setembro de 2009

MOMENTOS INESQUECÍVEIS DE "OS INTOCÁVEIS"


Quatro homens batalhando heroicamente contra o império de Al Capone. Para tudo ficar ainda mais épico, tudo ao som de Ennio Moricone.


A famosa cena do tiroteio na escadaria. Tensão à flor da pele.


"Baseball": descobrindo a tirania e o sangue frio de Al Capone.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

DESVIO

"Três formas de amar" (Threesome) começa e termina com reflexões valiosas. Qual o verdadeiro significado da palavra "desvio"? Na sua origem etimológica, "sair do caminho". Eis a idéia central deste cultuado filme do anos 90. Escrito e dirigido por Andrew Fleming, "Três formas de amar" narra o encontro de 3 pessoas que, ao se encontrarem, se perdem por completo. Stuart (Stephen Baldwin) gosta de Alex (Lara Flynn Boyle), que gosta de Eddy (Josh Charles), que gosta de Stuart. Esse triângulo amoroso, nascido do mero acaso, constrói uma história cheia de nuances e reviravoltas interessantes. Mas esse não é um filme meramente de temática e conotação sexual (ou homossexual). Isso seria uma forma muito banal e óbvia de interpretá-lo. Para mim, é um filme muito maior que isso. É uma história sobre amor, descoberta, amadurecimento, separação. Um filme sobre a idéia de que nada é para sempre e que as nossas vidas são formadas por lembranças, momentos e encontros efêmeros, que se vão e até se perdem, mas não sem antes nos marcar para sempre. Esse filme é exatamente sobre isso. Um recorte, uma lembrança. Neste caso, "um desvio", numa viagem planejada, que acaba se transformando em seu melhor momento. Ou, pelo menos para Eddy, Alex e Stuart, o mais inesquecível.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("BETWEEN THE LINES")



Linda que dói. Sempre.

A NOBRE ARTE DE RIR DA TRAGÉDIA

O fenomenal filme "A Queda! As últimas horas de Hitler" possui um gêmeo cômico, uma outra metade, uma versão light. Trata-se de "Minha Quase Verdadeira História" (Mein Führer). Escrito e dirigido por Dani Levy, essa comédia refinadíssima se propõe a documentar, de maneira "definitiva", os bastidores dos últimos dias de Adolf Hitler. Entre os inúmero trunfos deste filme delicioso está a catarse pura dos alemães ao falarem do maior pesadelo da história humana. Ao mostrar um Hitler chorão, deprimido, carente e inseguro, o filme destrói o mito e o medo, sem jamais negligenciar o genocídio, a psicopatia e a esquizofrenia de uma nação e de seu líder supremo.
A história se passa no final de 1944. Hitler está deprimidíssimo às vésperas de fazer um discurso de convocação da nação alemã à resistência. Mas como um homem deprimido poderá ser capaz de acender a chama nacionalista de um povo? Nem o próprio Hitler se recorda mais de como era o seu tempo de grande orador. Para contornar a situação, o Ministro da Propaganda, Joseph Goebbels (Sylvester Groth) decide resgatar um professor de teatro judeu de um campo de concentração: o famoso ator Adolf Grünbaum (Ulrich Mühe). O plano é simples. Com a ajuda de um "tutor" especializado em artes cênicas, o Führer será treinado para voltar à antiga forma e conquistar a nação. No entanto, isso é apenas um ardil do habilidoso Goebbels para executar um golpe de Estado e formar um novo governo na Alemanha. A partir desta premissa, o filme nos presenteia com situações esquisitas, inusitadas e até absurdas...
O que acontece, naturalmente, é que Hitler passa a adorar o seu "professor" e chega ao ponto de abraçá-lo tenramente, enquanto chama-o de “meu amigo judeu”. Para mim, o ápice do impensável é ver o ditador alemão, em crise de insônia, indo se deitar entre o judeu Grünbaum e sua esposa que, no meio da noite, tenta sufocá-lo com um travesseiro. O filme flerta em ser uma comédia de absurdos e algumas cenas nos convencem disso. Mas é impossível resistir a esse filme. Ele é simplesmente bom demais. E tudo é feito com muita qualidade e cuidado, ao mesclar imagens de época com atuais, alguns efeitos especiais e até citações à deusa imperfeita, Leni Riefenstahl (a cineasta oficial do partido nazista).
É difícil descrever esse filme, porque fica parecendo que a comédia perdoa e esquece. Mas isso jamais acontece. E está justamente aí a genialidade do diretor: falar sobre Hitler, fazermos rir de Hitler sem que, para isso, esqueçamos dos crimes cometidos por ele. O filme é absolutamente brilhante e em nenhum momento desrespeitoso com a história e a memória da civilização ocidental. "Minha quase verdadeira história" nos ensina a rir da tragédia, como um exercício saudável, não como humor negro. E por isso, também, esse é um filme tão belo e especial. Imperdível.

ILUSTRANDO

"Mask of Fear" - Paul Klee (1932)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

CONVITE PARA UM SONHO


Existe um filme muito especial e muito pouco conhecido. Um sonho gravado em filme. Uma lembrança de infância materializada. Trata-se de um curta metragem francês (34 minutos), de Albert Lamorisse, rodado em 1956. Uma jóia pequenina, quase perdida, quase esquecida. Perfeito para todas as idades, eras e gerações, "O Balão Vermelho" (The Red Balloon/Le ballon rouge) é um filme composto por som, imagem e música, mas praticamente sem diálogos. É um filme sussurrado, silencioso, de uma delicadeza comovente. Pura poesia e beleza que convence que a vida é linda e perfeita. Tudo gira em torno de um garotinho, que encontra um balão vermelho preso a um poste. A partir daí, o balão "segue" o menino, onde quer que ele vá, como um cão. E como se tivesse vida própria, o balão demonstra vontades e sentimentos na tela, o que torna a experiência de assistir a esse filme algo incomparável e inesquecível. O filme ganhou o Oscar de melhor roteiro original. Imperdível.

SETEMBRO

Curiosamente, tenho uma relação especial com o mês de setembro. Destino ou mera coincidência, setembro sempre é mês de surpresas, renovação, recomeço e boas notícias. É o mês que aponta a luz no fim do túnel, a calmaria após a tempestade, a chegada da cavalaria. O mês que, já em seu nome, carrega meu número da sorte. 7. É o mês que merece todos os meus melhores clichês. Claro, tenho paixão pelo mês de dezembro - mais por razões biográficas - mas setembro é o mês que me chegou em silêncio e foi se mostrando especial e demonstrando que seria para mim um mês diferente dos outros. O mês de apostas certeiras, de esperanças e de expectativas. O mês do "tudo vai dar certo". Tem sido assim a uns bons anos e espero que continue a sê-lo. Setembro. Bem vindo.