domingo, 27 de maio de 2012

BARTOLOMEU VALENTIN E O EXPERIMENTO IMPOSSÍVEL

Bartolomeu Valentin era um homem pacato, de coração bom e ambições limitadas. Dedicava os seus dias ao seu trabalho inofensivo, como professor de física aposentado, e ao único hobby da sua vida: modelismo. Bartolomeu era apaixonado por criar, construir e pintar aeronaves. Aviões de guerra, balões, foguetes e todo o tipo de equipamento aéreo. Desde criança, sonhava com o céu, feito pássaro sem asas. 

E a sua vida era boa, confortável e até seria ideal, não fosse um pequeno detalhe: o seu casamento. Ele era refém de uma mulher que parecia ter saído de uma história de terror ou, pelo menos, de uma piada de mau gosto. Uma megera, que controlava os seus passos, seus hábitos, cada segundo de sua existência tão irrisória. 

Tinha poucos [mas bons] amigos, com quem apreciava beber ocasionalmente num pub não muito longe de casa. Quando podia. Quando conseguia. Melhor, quando fugia. Nessas ocasiões fugazes, furtivas, quase etéreas, ele se pegava cercado por aquele punhado de homens sorridentes, felizes e, por alguns momentos breves, deixava-se contagiar por aquela alegria; como se ele também fosse feliz. Abraçavam-se, lembravam da juventude, dos planos e das escolhas equivocadas que os levaram até ali, com cada vez menos cabelo sobre as cabeças e com cintos cada vez mais apertados ao redor das cinturas. Riam, gargalhavam, apesar de todos ali também parecerem guardar seus punhados de melancolias inevitáveis.

Voltava para casa, a passos vagarosos, um caminhar em stop motion. Um caminhar de quem não quer voltar. Mas eventualmente avistava sua casa no horizonte, após a última esquina. A pequenina luz do quarto acesa, a silhueta da sua mulher na janela, esperando-o como um carcereiro. Respirava fundo, olhava para o céu sobre a sua cabeça e, como se conversasse com os astros, buscava força para os últimos metros, para a chave à porta, para os degraus vagarosos, para os gritos que antecediam o momento em que ele, enfim, depositava sua cabeça sobre o travesseiro. Suspirava. Pensava no seu pai, falecido, na sua mãe e irmãos de quem havia se distanciado por causa dela. Sentia-se só e adormecia sob o compasso da sua respiração lenta sob a coberta. 

Um dia, um belo dia, um dia qualquer em verdade, como tantos outros, Bartolomeu decidiu que chegara ao seu limite. Correu para a garagem, para a companhia dos seus modelos coloridos, e trancou-se como uma criança de castigo. Ouvia sua mulher gritando, do outro lado da porta, aquela série de absurdos que ele já havia se acostumado em ouvir. Sozinho, seguro pela porta trancada, fazia mímicas e dublava sua mulher, repetindo cada palavra, como num teatro amador; aquelas ofensas que ele já sabia de cor. E até conseguia rir enquanto fazia isso.

Ela o ouvia trabalhar, aqueles barulhos diferentes, algo de martelo, algo de serra, algo de explosão controlada. Bufava, batia na porta, ameaçava abandoná-lo. Mas Bartolomeu não respondia. Ao final dos dias, saia da garagem, fazia suas refeições, tomava banho e dormia. Sua mulher até tentava descobrir que diabos "aquele homem inútil" fazia na garagem, mas ele desconversava. "Modelismo", respondia, de olhos fechados e de costas para ela na cama. 

Às vezes voltava para o quarto com a roupa queimada, um olho roxo, machucados nas mãos, ao que sua mulher revirava os olhos, com preguiça de averiguar como ele havia se ferido. Dava-lhe as costas. E ele sorria, deitado ao lado dela, também de costas. Desligava a luz do abajur, um sorriso tímido, saboreando o seu segredo. Aguardando ansiosamente pela manhã seguinte, para correr à garagem, para o seu experimento impossível.

Tempos depois, sua mulher estava na cozinha, com uma xícara de chá na mão, quando a casa inteira começou a tremer sob seus pés. As paredes pareciam dançar, derrubando quadros. Porta-retratos dançantes, poeira despencando do teto, cadeiras mexendo-se como se vivas, o gato fugindo em desespero. Ela deixou a xícara cair no chão, desfazendo-se em mil pedaços e correu para debaixo da mesa, salvando-se daquele terremoto. 

E foi quando ela viu na janela, desenhando-se diante dos seus olhos incrédulos, uma imagem absurda. A garagem abrindo-se como uma flor, rasgada feito papel, aquela chama azulada que parecia cegá-la, e um foguete pequenino, não maior que um armário, ganhando o céu até desaparecer como uma estrela no horizonte. Seu marido havia ido embora.

Um dia, um belo dia, um dia qualquer em verdade, como tantos outros, ela recebeu uma ligação de longe. Aquele chiado, aquela distância. Bartolomeu estava do outro lado do mundo, e ele ria, ele gargalhava, do outro lado da linha, feito um menino. É que ele havia conseguido. E, enfim, dizia adeus. Estava livre, havia aprendido a voar.

Seus amigos sentem sua falta até hoje, quando se encontram para beber. E, todas as vezes, com sorrisos largos nos rostos, erguem seus copos e brindam à história impossível de Bartolomeu Valentin, o homem que foi embora nas asas do seu foguete caseiro.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

TRIBUTO À SOFIA COPPOLA



Simplesmente perfeito e me arrepiou dos cabelos aos ossos. Um brinde à musa.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

AMOR PLATÔNICO

Ashley Williams, a Victoria de "How I met your mother". A mulher que o Ted - estupidamente (!) - abriu mão. O amor da sua vida, perdida, sem segunda chance (será?). Misteriosa, delicada, confeiteira, apaixonante, perfeita, linda sob todos os ângulos; não fosse o destino e as decisões (quase sempre equivocadas) do romântico protagonista, não há dúvidas que teríamos conhecido a "tal" mãe dos seus filhos bem antes. Paciência, Ted, você a deixou escapar, erro crasso, imperdoável. Perdeu. Quer dizer, deixou Victoria escapar sem escapar. Nem quando ela esteve do outro lado do mundo. Porque Victoria permaneceu como uma sombra que, ocasionalmente, veio lhe morder os calcanhares. Comigo seria igual. Victoria é meio assim, "difícil de lembrar e impossível de esquecer". Até o dia que em que ela aparecesse à minha porta - como apareceu na dele, feito sonho - vestida de noiva, linda como uma miragem, me chamando para fugir, "agora ou nunca". "Agora", sem dúvidas, "agora!". Não sei quanto ao Ted, Victoria, mas eu iria embora com você.

PARA VER E OUVIR: JOHN MAYER (HOTEL BATHROOM SONG)



"Tudo o que você ainda será, você já é para mim".

Bonito demais, Sr. Mayer, não me canso de dizer. Bonito demais.

domingo, 20 de maio de 2012

ILUSTRANDO

Edward Burne-Jones - "São Jorge"

sábado, 19 de maio de 2012

"LOST IN TRANSLATION"

Encontraram-se de forma meio inesperada. Esbarraram-se é o termo mais adequado. A bebida que quase molha a roupa, os corpos se readequando, os pedidos de desculpas realmente sinceros. Toques desajeitados, risos deslocados. Os olhos que se encontram, meio sem querer, e interrompem-se, descobrem-se no caminho. Os sons, as luzes, aquele caleidoscópio de informações caóticas como cenário.

Os dois se olharam, por alguns segundos breves, naquele tempo fora do tempo, em que a música alta aos seus ouvidos parecia abafá-los num silêncio meio metafísico. Naqueles instantes, havia apenas eles, ali, cercados pela multidão de sorrisos e corpos dançantes. Permaneceram anônimos. Parecia apropriado. De que adiantam nomes que os ouvidos não conseguem compreender de qualquer forma? Conversaram coisas absurdas, destas em que perguntamos as horas e ouvimos "ontem" como resposta. E isso não foi um empecilho. Para nada. Riam, riam muito, provavelmente de coisas diferentes.

Ele gostou da camiseta dela. Uma camiseta amarela, desconcertantemente justa, com uma frase que dizia tudo. Ou pelo menos tudo que ele precisava saber. Ela sorriu quando o pegou olhando para sua blusa como se ele estivesse olhando para outra coisa.

Ela parecia gostar do cabelo dele, ocasionalmente mexendo nos fios com as pontas dos dedos, brincando de crochê. O calor que deixava-os levemente suados, a necessidade de gritar ao pé do ouvido, aquela corte, aquela eletricidade desajeitada.

Antes que percebessem, viraram dois pares de olhos fechados. Viraram mãos se entrelaçando sobre o jeans das suas calças, viraram mãos procurando cinturas, viraram bocas se descobrindo com curiosidade. Aquela dança discreta, sustentada contra uma parede trêmula, embalada pelo martelo das notas e do silêncio que eles haviam fundado ali, na multidão.

Ele percebeu uma curiosa mancha vermelha, saltando pouco acima da sua cintura. A folha da bandeira do Canadá, tatuada de uma forma muito sensual, como uma marca de nascimento, quase ilha ao seu umbigo em forma de gota. "Longa história", ela disse, misteriosa. Ele não tinha tatuagens para mostrar, o assunto ficaria para depois. Tocou a folha, acariciando-a com a ponta dos dedos, querendo tocá-la com a ponta dos lábios. Ficaria para depois.

Viraram então um um longo abraço, uma dança romântica, alheia ao movimento acelerado da música; carinhos cuidadosos no rosto, na nuca ensopada pelo calor; suas mãos ao redor da linha da cintura dela, os braços dela ao redor do seu pescoço. Um encaixe tão inesperado quanto a colisão dos seus corpos horas antes. Um encaixe que funcionava, aquelas pernas entre pernas, peso e contra-peso. Brincando de namorar. Viraram olhos falantes, tão hábeis quanto as bocas. Viraram a passagem do tempo. Aquelas horas breves em que já não importava tanto o contexto, a história, o futuro.

Eles eram aquelas horas anônimas. Até virarem um casual desencontro, costurado por sorrisos, por toques despretensiosos e gentilezas. Até quase virarem um número, um nome, uma rede social.

Até virarem uma despedida nunca oficializada. Desaparecendo, feito mágica. Existiram? Até virarem o dia seguinte, colorido por sorrisos saudosos, destes que embalam os sonhos e nos dão a certeza que vivemos uma noite inesquecível.

Melhor assim. É o que constitui a matéria do que dura para sempre.

terça-feira, 15 de maio de 2012

NASCIDO E CRIADO

Ouvindo [devorando] "Born & Raised", novo disco do John Mayer. Ainda que eu não tenha uma opinião precisa sobre a sequência das faixas - algo que vem naturalmente com o tempo - afirmo sem sombra de dúvida: o Sr. Mayer conseguiu novamente. Pop maduro, com um interessante(tissimo) tempero country (quem imaginaria!). Me fez lembrar "Elizabethtown", me deu vontade de ir ao Kentucky, me deu vontade de procurar por Claire. Um trabalho inesperado e surpreendente, transpirando nostalgia. Palmas, senhor, palmas!

O SENHOR DOS GATOS

Durante tempo demais ele tentou entender o seu papel entre eles. Ele não compreendia as suas piadas, não tinha aquela graça natural, aquela elegância, aquele silêncio. Não sabia se comportar como eles. Aqueles saltos precisos, daqueles equilibristas dos muros. Ele era o pior gato do mundo. O desajeitado, o que virava as garrafas, espalhava o lixo, derrubava os vasos das flores. E não compreendia como os outros gatos ainda o aceitavam ali, entre eles, aquele bando de senhores da noite.

Não tinha muito jeito com as gatas, que tampouco davam bola para ele. Não gostava de peixe, nem de leite, nem de escaladas perigosas. Gostava do sol, de deitar sobre a grama. Gostava de correr com as crianças do parque. Gostava de carinhos em seu corpo, de bolas, de pipas.

Ele não conseguia pertencer. Os gatos riam de longe, daquele seu jeito sem jeito. Ficavam todos ali, sentados, em ordem, meio prussianos, enquanto ele saboreva a manhã com a língua ao vento feito flâmula.

Havia aquele abismo entre ele e os outros gatos. Como se estivessem perdidos na tradução. Não se entendiam. Melhor, os outros gatos se entendiam perfeitamente; ele é que parecia se perder nos dialetos. Olhava-os com cara de bobo, sem entender muito bem o que falavam; aqueles planos sem nexo, cheios de artimanhas e estratagemas. Aqueles cálculos precisos que não faziam o menor sentido para ele. Os gatos partiam, em pelotão, e ele ficava para trás. Corria atrás deles, chamava-os, ao que eles corriam ainda mais rápido e desapareciam nas sombras.

Era quando ele se sentia o mais solitário dos gatos.

Mas, ainda assim, era melhor do que vagabundear sozinho pelas ruas. Era melhor que dormir só, nos cantos. Os gatos não eram ruins, pelo contrário; eram companheiros discretos, eram soldados, não dançarinos.

Numa noite particularmente perigosa, o bando estava sendo ameaçado por um homem de olhos vermelhos que parecia ter a altura de um prédio. Ele exalava um odor forte, azedo, por cada poro de seu corpo e olhava para ele e seus irmãos com um ódio paralizante. Olhos que comunicavam maldade. Quando ele os encurralou, naquele beco anônimo, onde os gatos estavam longe de seus deuses, ele percebeu que suas vidas acabariam ali.

Ele e seus irmãos se olhavam. Tremiam, como se cada osso de seus corpos pequenos se mexessem de forma desornedada. Aqueles olhos rasgados, amarelos, azuis, verdes, de cores indefinidas, que comunicavam a mesma coisa. Aquele medo. Aquela sentença. O homem se aproximava, saboreando o que faria ao bando, feito torturador.

Foi quando ele entendeu tudo. Foi quando tudo ficou claro feito o dia.

Ele olhou para seus irmãos, acuados, abraçados no canto, aqueles miados de desespero. E, sem pensar duas vezes, fez seus pulmões e sua garganta explodirem num trovão de sons graves que fizeram o tempo parar, naquele instante.

O homem olhou para ele, imóvel. Seus irmãos olharam para ele, paralisados. Ele se sentia como um gigante, seus olhos abertos feito dois grandes faróis, arfando, as costas se movimentando rapidamente, como uma besta. Ergueu suas presas que pareciam punhais e cerrou seus dentes numa máscara de terror.

O homem tropeçou e caiu num canto, protegendo seu rosto com as mãos, enquanto ele voava ao encontro do gigante de olhos vermelhos, mordendo e estraçalhando sua pele como um boneco de pano. O homem gritava, pedia socorro, se debatia, mas ele sustentou aquele ataque até que seus irmãos tivessem tempo suficiente para fugir.

Olhou-os escalando as paredes, habilidosos, para a segurança. E então soltou seu prisioneiro, que o observava apavorado, imundo, do chão, sob a misericórdia das suas patas. Então, com a elegância de um príncipe duelista, abandonou seu oponente e se retirou, sem olhar para trás. Seus irmãos o observavam, do alto dos muros, saudando-o numa sinfonia desordenada de miados alegres.

Era tudo tão simples. Ele sempre fora um cão.

E, agora, era o senhor dos gatos. 

AMOR PLATÔNICO

Brooke Fraser. Não sei se é a doçura da sua voz, a fé das suas palavras, ela ter nascido em dezembro ou simplesmente por ser da Nova Zelândia. A verdade é que a ignorei por muito tempo, sabe-se lá porquê. Timing, acho. Há algo leve e iluminado a respeito de Brooke Fraser que me toca imensamente, e que me dá a certeza que ela é uma mulher de toque suave e fragilidade apaixonante. Destas mulheres que sabem cuidar. De verdade. Que realmente sabem, tipo dom, tipo arte. Mas podem ser também seus cabelos escuros, que hoje me chamam atenção. Ou seus olhos eloquentes, ou sua voz sussurrada, meio coisa de sonho. Ou pode ser, talvez, quem sabe, porque adoraria conhecer a suavidade dos seus carinhos. É isso. É um amor platônico diferente. Sem segundas intenções, de quem somente gostaria de ser cuidado.

domingo, 13 de maio de 2012

LOVE SHOULD NOT BE ONE OF THEM


MUROS



MUROS
Konstantinos Kaváfis

Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesar,
ergueram à minha volta altos muros de pedra.

E agora aqui estou, em desespero, sem pensar
noutra coisa: o infortúnio a mente me depreda.

E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!
Quando os ergueram, mal notei os muros, esses.

Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.
Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.

sábado, 12 de maio de 2012

15 DE ABRIL - DIRECTOR'S CUT

O telefone tinha o peso do mundo em suas mãos. A madrugada sussurrando em seu ouvido, embalada pelo relógio da cozinha, martelando a passagem dos segundos. Ela precisava ligar para ele. Ela sufocava, engasgava. Precisava ouvir a sua voz. Ligava e desligava o aparelho. Não sabia o que dizer. Não saberia. Tantos anos haviam se passado. Tudo estava há tanto tempo para trás. Mas aquilo era mais forte que ela. Como uma onda, uma avalanche, como uma dor sem fim. E ela sabia que a cura era ele. 

Após perder a conta de quantas vezes ligou e desligou o aparelho, decidiu por fim em deixá-lo mudo, quieto, sobre a mesa. E, envolta no silêncio da noite, abandonou aqueles pensamentos rebeldes e voltou para o quarto. Seu marido estava na mesma posição, como se nem um segundo tivesse passado, e ela adormeceu sob o martelo das horas. As pálpebras ficando pesadas, sucumbindo diante dos primeiros raios de luz que se desenhavam na janela. Em breve acordaria para um dia cheio no trabalho. Precisava dormir.

E ele desapareceu, mais uma vez, na passagem dos seus dias.

* * *

Os anos se passaram. Mais até do que ela gostaria de tomar nota. E eles foram bons para ela, trataram-na bem, com uma gentileza que podia ser percebida na leveza dos seus pensamentos e na preservação da sua beleza. Com pouco mais de quarenta anos ela era uma mulher linda. 

Mas havia aquele algo. Aquele algo sem nome, perdido, que, vez ou outra, vinha mordiscar o seu calcanhar. As decisões não tomadas no passado, as escolhas que talvez tivessem mudado tudo; eles, que um dia chegaram tão perto disso. Eles que chegaram a saborear um grão do que viria a ser o seu futuro juntos. Eles que abriram mão, uma outra vez, daquela decisão tão fácil e aparentemente tão impossível. A de permanecerem juntos de uma vez por todas. Como se outras oportunidades viessem na esquina. Aquele jogo perigoso de brincar com o tempo. Por tempo demais.

O destino pareceu ter perdido a paciência. Eles se equilibravam numa frágil linha de incertezas que eventualmente os afastaram. Voltaram aquele frágil estado do "nos vemos qualquer dia desses", até que passaram a não se ver mais. E, quando menos notaram, a vida voltou a entrar em cena, apresentando novos personagens, novos cenários, novas situações.

O fato é que, inevitavelmente, eles perceberam que os 20, os 30 haviam ficado para trás. Aqueles anos derradeiros, ainda amigáveis às irresponsabilidades. Aquela época em que as vidas ainda podem ser mobilizadas pelo poder da prosa, da poesia, da música, dos filmes. Passados os 40, os dois tiveram que vestir a incredulidade, tornaram-se mais amargos, com aquela noção de que a vida nunca será mesmo do jeito que desejamos, por isso devemos simplesmente nos contentar e seguir em frente. 

O que passou, passou. O que vivemos, vivemos. E o nosso melhor se eterniza, de alguma maneira, na importância da caixa de fotografias e daquelas lembranças mais vivas que começam a enfraquecer na mente. 

Os dois até conseguiam se falar, em raras ocasiões dedicadas quase inteiramente à discussão das efemeridades. O clima, o trânsito, o trabalho, o cansaço. "Bom te ver", "precisamos almoçar um dia desses", "claro, vamos combinar". Seus olhos ainda guardavam um pouco daquela chama de antes, claro; aquela saudade domada, escondida; é o tipo de coisa que não desaparece simplesmente. A chama só não era forte o suficiente para fazê-los ignorar o que havia se tornado irremediável.

Ficou aquela marca. Aquele algo sem nome, habitando suas almas, como uma letra escarlate; que pulsava, vermelha, sempre que os dois se encontravam. Como se para lembrá-los de que eles jamais seriam indiferentes um ao outro e que teriam que se conformar com a ideia de que não seriam comuns. Seriam para sempre aquele não vivido. Seriam aquelas duas pessoas separadas pelo peso dos seus equívocos. 

Então os filhos. Novos endereços. Novos aniversários. Os cabelos cada vez mais prateados e as visitas aos médicos cada vez mais frequentes. Então netos. As imagens mentais desbotando, sendo substituídas pela felicidade sincera da realidade possível. Nunca se esqueceram, é verdade. Mas já não habitavam mais o pensamento um do outro. Pelo menos não com tanta frequência. Algo que vem com o tempo, com a maturidade e com o cérebro cada vez mais hábil em pregar peças. 

No ocaso de sua vida, ele revirou as suas coisas em busca de uma foto. Velha, amassada, com as pontas rasgadas. Ele e ela num restaurante em algum país que ele não se recordava mais. Ela estava linda, os cabelos negros sobre os ombros, os olhos pequeninos, o sorriso discreto para a câmera. Ele, do outro lado da mesa, sorridente, tão feliz em estar ali em sua companhia. 

Tocou o rosto dela na foto com a ponta dos dedos. Um sorriso tímido, um suspiro. A foto novamente depositada entre as suas coisas. A mão levemente trêmula sobre o peito. Dizendo adeus.

***

A xícara se desfez em mil pedaços ao cair no chão. A família se virou para ela, com um susto. "O que aconteceu?", os olhos daquelas pessoas ansiavam. "Não é nada, escorregou das minhas mãos, me desculpem", ela sorriu para sua linda família, aqueles genros, netos, filhos; os olhos pequeninos escondidos sob os óculos embaçados. 

Esperou até que todos voltassem às suas ocupações. Num soluço contido, ela continuou a ler a notícia que a atravessou como um relâmpago, como uma onda. Aquele nome, ali, em destaque nos obituários, como uma piada sem graça. 

Então veio aquele pensamento desconexo. Aquela imagem. Ela lembrou dele, sorrindo, para ela; aquele riso, aquele olhar que durante aquele tempo eterno e breve foi dela e que o destino levou embora. 

Sorriu, os olhos úmidos, um suspiro, um nó na garganta, como quem termina um livro. Só então ela se deu conta que havia chegado ao fim aquela história de desencontros. Procurou uma janela para dizer ao vento: "eu ainda sinto a sua falta", como se ele pudesse ouví-la de algum lugar. 

Depositou os óculos sobre a mesa, guardando, pela última vez, aquele seu segredo. Então uma brisa repentina, impertinente, prenúncio de chuva, que a fez buscar agasalho no calor da sala.

"Eu também, meu amor, eu também".

sexta-feira, 11 de maio de 2012

PARA VER E OUVIR: JUSTICE ("D.A.N.C.E.")

quinta-feira, 10 de maio de 2012

CAROLINA E O ANJO

Carolina chegou a Buenos Aires como uma clandestina. Uma estranha, perdida, sem posses, vivendo de sonhos e da ideia que moraria com um artista em San Telmo. Seu namorado argentino, um artista de rua de feições bonitas e olhos dissimulados, ganhava algum dinheiro fazendo bicos. Mas rapidamente Carolina percebeu que estava só, realmente só. E que precisava fazer algo a respeito. Inventar-se ali.

Caminhava, sem muito destino, pelas ruas movimentadas. Navegava os becos e avenidas, de ônibus e metrô, desbravando aquele universo tão novo para ela. Sentia-se dona de si, dona do mundo, contemplando aqueles monumentos, aquela cidade velha e, naqueles instantes, sentia uma felicidade inebriante, maior do que o seu corpo.

A euforia durou a extensão de uma semana. Os monumentos já se repetiam diante dos seus olhos, as ruas tornavam-se lugares comuns, as lojas tão inacessíveis, o tango que ela já não via tanta graça, o sotaque que já não lhe parecia tão charmoso. Sentia-se perdida. Tentou alguns trabalhos, sem muito sucesso; tentou acompanhar seu namorado na rua, também sem sucesso.

E foi em San Telmo, pela primeira vez na sua vida, que Carolina passou fome. E, também pela primeira vez, que decidiu compensar os vazios que corroiam seu corpo com drogas. Anestesiou-se, enfim. Sentada, no chão, as costas magras contra a parede, o sol de tarde pintando seu rosto com tons púrpuras e avermelhados. E, naqueles momentos breves, a vida era menos assustadora.

Não sabia, ao certo, o que fazia ali. O relacionamento provou-se incipiente e sem sentido. Um dia, por diversão, adrenalina, ou pura desistência, Carolina decidiu roubar uma máquina fotográfica. E o fez, com habilidade e sangue frio, sem perceber as câmeras de segurança testemunhando todos os seus movimentos. E os seguranças que a esperavam na porta. Naquele dia, o mais solitário de todos, Carolina apanhou, num quarto nos fundos da loja, pelo seu crime. E não sabia o que mais a incomodava; se a dor no seu rosto, que latejava, ou simplesmente por não se importar.

Eventualmente, os seguranças decidiram deixá-la ir. Não prestaram queixa. Carolina caminhou pelas ruas, sentindo o rosto queimar. Chorava, envergonhada, escondia-se nas sombras. Olhava-se nas vitrines das lojas de grife e não reconhecia o que via: uma garota magra, maltrapilha, cabelos descuidados, suja, doente. E não entendia com clareza a cadeia de eventos que a haviam levado até ali.

Ela era uma menina só. Salvo pelos avós, Carolina não tinha ninguém no mundo. Nenhuma família, nada de irmãos, primos ou tios. Sua mãe havia morrido quando ela era criança e seu pai era um desaparecido cuja existência só era documentada por uma foto, um telefone, um endereço.

Apesar de todo o sofrimento a que se submetia, sua aventura em Buenos Aires acabou se extendendo por mais tempo do que ela podia imaginar. E, eventualmente, ela conseguiu achar algum eixo na passagem dos dias. Arrumou um trabalho como andadora de cães, que dava a ela alguma renda. Cada vez mais dependente de drogas e bebidas, porém, o dinheiro desaparecia de suas mãos. Alimentava-se mal, dormia pouco, não sorria, não aprendia nada. Um grande vazio, um grande hiato que gradualmente começou a fazer eco em sua alma. Carolina decidiu que precisava voltar. Só não sabia como.

Um dia, uma manhã qualquer de terça-feira, Carolina desmaiou no meio da rua. É a sua última lembrança de Buenos Aires. O céu sem nuvens, o dia ensolarado, as árvores e postes rodopiando ao seu redor, o chão sujo e frio sob a sua bochecha. Uma lágrima escorrendo pelo seu rosto, formando um pequeno rabisco no concreto.

Percebeu que algo, alguém, um homem a ajudava. Respondia as suas perguntas mas percebia que ele não compreendia o que ela falava. Mostrou seus documentos, aquele emaranhado de papeis jogados na sua bolsa puída. Disse que não tinha dinheiro, que não fazia uma refeição digna havia dias e que nem se lembrava ao certo onde morava. "San Telmo", ela dizia. "San Telmo".

Sentiu aquela mão firme puxando-a. Aquela voz calma, de orientação. Aquele vulto nublado, sem rosto, que ela não conseguia enxergar com clareza por detrás dos seus olhos confusos. Seus olhos famintos, seus olhos químicos. O homem falava, pausadamente, ao que ela apenas concordava sem entender uma palavra. Ele conversava ao celular, olhava para ela, tocava a sua mão com carinho. Ele sorria. Ela sabia que ele sorria.

Carolina se lembrava dos barulhos. Portas abrindo e fechando. Motor de carro, buzinas. A chegada a um aeroporto, aquele barulho inconfundível da navegação aérea. Um portão de embarque, sorrisos educados, mãos carinhosas sobre seus ombros, levando-a para frente, para corredores, para cadeiras. E então absolutamente nada. Um vazio, uma noite sem fim.

E então Carolina acordou. Em casa. Na casa dos seus avós. Estava de volta. Não sabia como, mas estava de volta. Observou-se ali, no quarto da sua infância. Aquelas bonecas cheias de nomes, aqueles animais de pelúcia, as fotografias sorridentes. Havia tomado banho, seu cabelo estava penteado, vestia uma roupa limpa e deitava seu corpo exausto sobre lençóis que cheiravam a amaciante. Soluçou baixinho, sozinha, completamente tomada pela delícia absurda daquelas coisas simples. Sorria, com as mãos sobre os seus olhos úmidos. Olhou pela janela, o sol se pondo. Adormeceu por horas. Dias, talvez.

A manhã seguinte veio como uma revelação. Carolina queria um eixo. Queria buscar o tempo perdido, queria acertar as contas com o destino. Ela buscaria o seu pai.

ESPERANDO POR SARA

Sara Bareilles divulgou o lançamento de um novo EP para 22 de maio: "Once Upon Another Time", com as canções “Stay”, “Once Upon Another Time”, “Sweet Whole”, “Lie To Me” e “Bright Lights and Cityscapes” já em pré-venda no iTunes.

E assim, cá estou eu, esperando por Sara.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

ILUSTRANDO

Velasquez - "As Meninas"

O FAROL

"[...]por mais que tenhamos sempre a opção de não mais deixar que nos assustem, você foi um anjo que invadiu meu espaço aéreo. Engraçado como conseguimos o que desejamos quando temos força para pedir isso intensamente e eu devo ter pedido por você, contudo inglória é a forma de conceber este encontro em meio a coisas que não podem ser ditas ou sentidas. Mas temos sempre várias opções em cada fato que nos acontece e eu escolho ter meu espaço aéreo invadido por você, que irá descobrir, um dia, quem sabe, que tudo pode ter dado errado no passado, mas também que tudo pode dar certo comigo".

***

Ele contemplou por horas aquelas palavras escritas a mão, com pressa, por ela. Aquela caligrafia sem ensaio, reflexo do que ela tinha a dizer, sem premeditação. Segurava o papel em suas mãos, como um mapa do tesouro e se ele fechasse os olhos, por alguns instantes mágicos, conseguia sentir o cheiro dela, o seu toque, o sabor do seu corpo. Mas então tudo desaparecia com o vento gelado que invadia o seu corpo e o obrigava a abrir os olhos para aquela paisagem árida, vazia que ele atravessava.

Aquela despedida estranha. Aquela despedida sem sentido. Ele havia partido, com a cabeça inebriada por pensamentos de mudança quando cada osso, cada célula de seu corpo suplicava que ele permanecesse ali. Exatamente ali. Invadindo aquele espaço aéreo, descobrindo que tudo poderia dar certo com ela. Sem ir a lugar algum. Mas inglória era a forma de conceber aquele encontro. Ela estava certa. Sempre esteve.

Ele estava longe, quando aquelas palavras voltaram feito onda. Sentiu-se afogando naquele oceano de reflexões confusas, naquelas águas negras dos equívocos que marcavam a sua vida adulta. Ele naufragava. 

Agarrou-se àquelas palavras na sua noite mais escura. Seu corpo tremendo de medo, de frio. Sentia-se abandonado pelo destino. Sozinho. Bestializando-se. Desistindo. Até que viu um raio de luz no horizonte. Aquele sinal, aquele código secreto, inesperado, aquela orientação, aquela manifestação com um quê de miragem.

Percebeu, então, que ela sempre esteve ali. Distante, brilhando em algum ponto do seu horizonte envolvido em sombras. Ela estava ali, de alguma forma, emanando luz. Não deixando-o se perder muito do caminho, impedindo-o de esquecer a estrada da volta. Aquele barco sem bússola.

E, acompanhando aquela luz distante, como quem contempla uma estrela, ele pulou na água feito um cão sem dona. Ansioso, desesperado, para voltar. E ali, parado, flutuante, decidiu nadar maré acima. Em busca daquela luz.

Era hora de retornar. Para o seu Farol.

terça-feira, 8 de maio de 2012

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("STAY")



Lindo, novo single. Perfeito para quem tem alguém para se dizer: "Fique. Fique esta noite".

PARA VER E OUVIR: ZIZI POSSI ("ASA MORENA")

domingo, 6 de maio de 2012

A CIÊNCIA DOS PRIMEIROS ENCONTROS

Os dois decidiram se encontrar no restaurante e evitar aqueles jogos de adultos de "quem busca quem" e, assim, neutralizar quaisquer situações constrangedoras pós-date. Se tudo desse errado, cada um teria sua rota de fuga. "Um beijo, até um dia" e todos estariam salvos.

A escolha do restaurante também era importante. Algo de casual, para que todos os assuntos fossem bem vindos, e de romântico, afinal seria um encontro. Nada muito romântico, porém, para que o cenário em si não fosse um incentivador de nada. Ele deveria ser um facilitador se as oportunidades assim se apresentassem.

Todo esse pragmatismo não inibe as expectativas, porém. Toda a carência é carência. Toda a curiosidade é curiosidade. Toda a solidão é solidão. Duas pessoas num primeiro encontro trazem consigo aquelas pesadas bagagens de frustrações e desejos. É inegável. Banho, perfume, camisa, calça. "Esse perfume é muito forte", "essa roupa não combina","ela me verá sem calças hoje?".

A vontade de conquistar, pura e simplesmente. E, então, observar o fruto da conquista. Aquele tiro na madrugada e o barulho de algo despencando no horizonte. Um alvo. O quê? Não se sabe. Um alvo.

Ele, que sempre foi dado ao cavalheirismo, decidiu chegar mais cedo para não fazê-la esperar. Ela chegou cinco minutos depois. Ele se levantou, cumprimentaram-se com aquela mistura de excitação e educação. Aquela combinação curiosa em que tentamos demonstrar interesse, sem revelar muito; como se aquele fosse o momento mais casual do mundo.

Aqueles segundos iniciais constrangedores. O menu que parece estar em alemão, aquela falta de intimidades. Aquele silêncio que é gradualmente rompido pelos cruzamentos, pelas interseções, pelos gostos comuns. Filmes, livros, músicas. As mãos, desajeitadas, que se ocupam em ajeitar os talheres e brincar de xadrez com o sal e a pimenta.

Mas, como mágica, as coisas começam a fazer algum sentido. Um sentido caótico, mas algum sentido. As mãos já se mostram mais confiantes e apontam os detalhes, como mãos de perito. As pernas se esbarram, ocasionalmente, como instrumentos de apoio, para darem mais drama à cena, para elevarem os nervos, aumentarem a tensão entre os dois. Ação e reação. Ataque e defesa.

Então os nomes dos irmãos. Dos pais. Das cidades visitadas. Os países. Os estudos, os trabalhos que cansam mais do que satisfazem. As contas que pelo menos são pagas. Os idiomas, as curiosidades. As experiências inesquecíveis. Os constrangimentos engraçados - e que podem ser compartilhados - não aqueles que vão com a gente para o túmulo. Ela flerta, ocasionalmente, tocando a mão dele. Comenta a cor dos olhos dele, não sabe se "são cinzas ou azuis". Ele flerta de volta, ensaiando um olhar fotográfico, como se fosse o homem mais profundo da terra e ela a única mulher do planeta.

Mas, então, no meio daquele teatro de perfeições, os dois se olham e, na troca inesgotável de palavras até conseguem perceber honestidades sem segundas intenções. Como duas pessoas boas, observando-se nuas, diante do espelho.

Ela quer uma carreira. Uma vida de adulta. Filhos, cães. Ela quer um apartamento pequeno, que possa decorar de forma encantadora. Ele só sabe o que não quer. Sabe o que quis e nunca teve. Sabe o que não quer mais. Sabe do que se perdeu no caminho. Não que ele tenha se tornado incrédulo. Não, isso nunca. Ele apenas prefere não caminhar por essa vereda. É um caminho perigoso demais. Diz a ela, lacônico, que "quer ser feliz".

E, assim, mão sob o queixo, resolve escutá-la por longos minutos, aquela narrativa até interessante sobre medicina veterinária, filmes franceses e móveis de vime. Piadas ocasionais para temperar o diálogo. Ela ri, e ele observa que seus olhos se fecham de forma charmosa. Ele sorri, em resposta. Ela o elogia, de forma discreta. Ele parece ter acertado na escolha da camisa.

Ele olha o pão sobre a mesa, as taças de vinho pela metade. Os arredores, aquele barulho caótico, gostoso, de cinquenta pessoas falando ao mesmo tempo. Gosta de estar ali, melhor, gosta de estar com ela, e, quando volta a realidade, sente-se compelido a tocá-la, com delicadeza. Casualmente, deposita sua mão sobre a dela e percebe que não há resistência. Os dois sorriem. Aqueles dois completos estranhos.

Mas ele também pensa em outras companhias. Passados e pretéritos. E, observando o oceano revolto das linhas na toalha sobre a mesa, percebe que sente saudades. De quê, não sabe definir. Falta de um outro lugar, talvez. Uma outra vida. Aquele hábito. Aquele algo mais forte que ele. Aquela sua vontade de olhar pela janela no trem. De caçar os perdidos. De chorar por eles. Ela o faz despertar do transe, com um comentário engraçado.


Até que as coisas estão indo bem, afinal.

Ele pensa na ciência dos primeiros encontros. Quer escrever sobre isso assim que chegar em casa e pragueja em pensamento não ter uma caneta para rabiscar algumas ideias no guardanapo. De qualquer forma, era um guardanapo de pano. Paciência, aposta na memória.

Decide observá-la em detalhes. O cabelo liso, castanho, cortado de forma irregular. O rosto fino, entre o branco e o dourado, a boca carnuda de uma forma não necessariamente sensual. O nariz proeminente, étnico, que muito o agrada. Algo de marroquina que ele acha irresistível. Os olhos gigantes, eloquentes, bem desenhados. Percebe que ela sorri com os olhos. Isso é bom. O pescoço comprido, algumas sardas espalhadas como estrelas. Uma tatuagem discreta, quase imperceptível, sob a orelha esquerda. "Seria um símbolo do zodíaco?". O vestido elegante, respeitoso e sensual, destas mulheres resolvidas que sabem que não é preciso revelar nada para seduzir muito. As mãos de dedos compridos, um anel discreto, que era de sua vó.


"Ela é uma mulher atraente", pensa. "Definitivamente". E fica se perguntando o que ela está achando dele. Os olhos sorriem, é verdade, e ela parece entretida. Ela o elogia, de forma natural. Toca-o com motivo, esbarram as pernas de forma não premeditada. Parecem gostar da companhia um do outro.

A comida é boa. Ela come com muitas pausas, de um jeito quase entediante, mas que ele acha charmoso. Ela se autoriza a provar do seu prato, sem pedir permissão. E isso o agrada também; há algo de encantador nas pessoas que não fazem muitas cerimônias. Trocam garfadas, numa dança de beijos não dados. Elogios suspirantes à comida. Elogios com propriedade, de quem gosta de comer, de quem saboreia.

O vinho é bom. Nada de especial. Bom. Inebria, anestesia, relaxa. E os dois vão, pouco a pouco, se aproximando. "Porque você não senta ao meu lado?", ela diz com doçura enquanto os olhos falantes dão uma ordem. Ele gosta disso, não revela que gosta, claro, mas gosta. Sentam-se juntos. O perfume dela é suave, dando a impressão de que talvez ela nem esteja usando perfume. Um creme hidratante, talvez. O cabelo tem um cheiro especial, que o faz fechar os olhos instintivamente. Algo de coco, de manga, algo de nostalgia.

Ele observa seu decote, com discrição, sem ela notar. Ela é uma mulher bonita, educada, inteligente, engraçada. E ele começa a ficar ávido em descobrir os seus defeitos. Os escondidos, os poréns, as linhas ilegíveis do contrato. Para descobrir que são todos perdoáveis ou para que a mágica se acabe ali. Mas ela não dá chances para isso. Ela sorri, parece ler seus pensamentos.

Ela tem um sinal no canto da boca, como um satélite. Ela comenta os sinais que ele tem no rosto, nas mãos. Olham-se, por alguns instantes mudos. Um momento esquisito, de silêncios, aquela sensação de que o tempo parou e que as duas bocas vão se encontrar. Ele observa os lábios dela, agora muito mais sensuais, e não tem certeza se eles são habitualmente úmidos e vermelhos ou se é o efeito do vinho em sua boca e nos pensamentos dele.

Mas não se beijam. Um barulho na rua, um vidro se quebrando, o momento se desfaz. Ajeitam-se na cadeira. Falam em sobremesas. A ela agradam mais as frutas. A ele o chocolate. Escolhem algo no meio do caminho. Dividir uma sobremesa parecia mais do que adequado. Gemidos, olhos semi-cerrados, o deleite com os sabores doces, levemente amargos, gelados, algo de pêra, algo de creme, algo de mousse de chocolate. A sobremesa ideal.

Percebem que são as últimas pessoas ali. Percebem as horas que voaram. Então a conta, a realidade. Ela quer pagar, claro. Ele não deixa. Combinam que "ela pagará a próxima". Haveria uma próxima, então. Ele pensa em tomar um café, ela não quer. Desiste. Aquela brisa mais fria, surpreendente, de uma cidade que castigou seus habitantes com 32 graus o dia inteiro. Ele sente vontade de abraçá-la. Mas hesita. Oferece sua jaqueta, ela nega.

Levantam-se. Olham-se por alguns instantes breves enquanto ela ajeita o cabelo, a bolsa, e ele guarda chaves, carteira, os objetos utilitários do mundo masculino que, por regra, devem ser carregados separadamente. Ela quer ir ao banheiro. Ele espera. Ela volta, sorrindo, e ele nota que ela é muito mais alta do que imaginava. Ela segura os sapatos nas mãos, os sapatos novos, "de primeiro encontro", que machuvavam seus pés. E ele acha isso a coisa mais encantadora do mundo.

Despedem-se dos garçons, agradecem. Rumo ao estacionamento. Os dois carros parados em lados quase opostos. Ela senta à direção e ele ri com a bagunça do carro. Uma piada sem graça, como se fosse a casa de um caramujo. Os dois riem. Parecem não querer se despedir. Mas ela é direta, sem cerimônias. "Gostou dele, mais até do que deveria admitir, mas não trairia a sua regra de não beijar no primeiro encontro. Há que manter o mistério". Ele sorri, concorda, as bochechas denunciando timidez. Virando menino.

Desejam-se bons retornos. "Avise-me quando chegar", dizem um ao outro. Aquela desculpa para se falarem um pouco mais. Para conversarem durante a madrugada aquelas conversas interessantes até quem sabe o sol começar a se desenhar na janela. Aquela deixa para transformar o primeiro encontro num segundo. E um segundo num terceiro.

Ela liga o carro, aquela casa caótica sobre rodas, com roupas, pastas de trabalho, e brinquedos de cachorro espalhados. Ele gosta da música que começa a tocar. Há algo muito sexy em garotas que ouvem The Strokes. Ele comenta sobre isso, naturalmente. Sorriem. Ele fecha a sua porta, um beijo no rosto. Ela o segura pela nuca, um carinho discreto.

Combinam tudo sem combinar nada. E ele volta para o seu carro. Desabotoa mais um botão de sua camisa, mãos nos bolsos da calça, como se fosse um rapaz italiano. Sente-se charmoso naquela noite.

A verdade é que não há ciências sobre os primeiros encontros. E ele se dá conta disso diante do volante do seu carro, sorrindo; e lamentando, mais que tudo no mundo, não poder levá-la em casa naquela noite.

sábado, 5 de maio de 2012

ILUSTRANDO

Gustav Klimt - "O Beijo"

O HÓSPEDE

A porta do quarto se abriu, com um chiado lento e fantasmagórico, extremamente apropriado, como numa mansão, num filme de fantasma. Ela, que sempre teve um sono leve, um sono angustiado, de quem não consegue depositar a cabeça sobre o travesseiro com a devida paz dos justos, abriu os olhos em mórbida curiosidade. A porta, entreaberta, denunciava um movimento estranho no fiapo de luz que se projetava entre o quarto e o corredor.

Estava sozinha. Sentiu medo.

O silêncio havia sido imediatamente substituído pelos batimentos acelerados do seu coração, que cavalgava dentro do seu peito, fazendo sua cabeça, seu corpo inteiro reverberarem. Seu corpo pulsava no compasso daquele batimento amedrontado.

E então ela viu algo. Um par de olhos, amarelos, imóveis, observando-a da pequena abertura, como dois faróis gastos. Dois olhos cor de mostarda, dois olhos absurdos, que a fitavam do escuro, sem piscar.

Num movimento quase automático, cobriu seu corpo com o lençol. Como se houvesse algo de mágico naquele tecido, como se ele pudesse protegê-la de alguma maneira. Como se ela estivesse invisível. E tentou se convencer que aquilo era apenas uma alucinação. Uma imagem fabricada pela distorção dos seus pensamentos. Seus pesadelos químicos.

Não era.

Uma mão projetou-se das sombras, arrastando a porta sem pressa. Uma mão branca, azulada, uma mão de dedos compridos e finos, feito velas, que começavam a tatear o contorno da porta, da parede, como uma aranha albina.

Aquelas unhas compridas, em tons marmóreos, como a mão de um morto. E ela percebeu que estava diante de algo terrível. Como se a maldade estivesse ali, encarnada, diante dos seus olhos úmidos.

A mão então abriu espaço para um vulto. Um vulto sem forma, uma sombra que se movia, flutuante, projetando-se pelo quarto inteiro como se tivesse tentáculos.

Ela cobriu seu corpo inteiro, buscando orações no fundo da sua mente; como se essas meditações, tão negligenciadas no passado, pudessem salvá-la de alguma forma naquele momento de aflição. Buscava aquelas frases de poder, aquelas afirmações, costurando as expressões de que se lembrava numa oração desconexa, incoerente, que definitivamente não a aproximava de Deus.

Era em vão.

Lamentava, em silêncio, todos os seus erros, todos os seus pecados, toda a maldade que havia trazido ao mundo. Estava sendo punida, sabia, e arrependia-se como uma criança que lamenta, anos depois, as inocentes torturas da infância. 

Sentiu os dedos gelados percorrendo o pano sobre o seu corpo; ásperos, como se tivessem espinhos. As unhas arranhando superficialmente suas pernas, cintura, braços. Sentiu os dedos ao redor do seu pescoço, em leve conscrição. E então aquele rosto se projetou diante dos seus olhos. Aquele rosto terrível, aquele olhar, aquela expressão para a qual ela não conseguia encontrar descrições. Aquele horror sem nome, nem identidade.

Gritou para que aquela criatura desaparecesse, sumisse. Ao que ele respondeu, saboreando cada palavra, estalando a língua entre os dentes ainda mais amarelos que os seus olhos.

"Eu não irei embora nunca mais".

A DOR E A NOBREZA DA VIDA QUE IMITA A ARTE

Roberto de Cesare, interpretado pelo sempre indefectível Ricardo Darín, é um homem de meia idade, solitário e rabugento. Ele vive num pequeno apartamento anexo à sua loja de ferramentas, em Buenos Aires. Ele é um homem de hábitos simples, repetitivos, que narram os dias iguais de sua vida amena, sem emoções nem grandes acontecimentos. Ele vive à sombra da saudade de sua mãe, que nunca conheceu, e de seu pai, que morreu quando ele tinha 19 anos. Os seus dias se resumem em abrir sua loja, contar os pregos que sempre vem em menos número do que o prometido, comer comida gordurosa, tomar uma cerveja e dormir às 23h. Sem exceção. Esta é a história de "Um conto chinês" (Un cuento chino), pequeno filme de Sebastián Borensztein e mais uma estrela nessa constelação de tesouros que é o cinema argentino.

Ricardo Darín dá vida a Roberto, o homem mais solitário do mundo

Mas Roberto tem um hábito curioso. Ele coleciona histórias absurdas, como a notícia que narra a guerra entre a Argentina e a Inglaterra; um casal de amantes que despenca de um precipício num carro, por conta de um freio de mão solto; ou a de um barbeiro que assassina seu cliente, com um susto, em função de um acidente de trânsito.

Roberto só não sabia que a história mais absurda de todas ainda estava por vir e que seria vivida por ele mesmo. Um belo dia, a solidão da sua vida é invadida por um imigrante chinês, Jun, que chega a Buenos Aires sem nenhum tostão e sem falar uma palavra de castelhano. Roberto e Jun se encontram, por acaso, e o argentino não consegue deixar o chinês à própria sorte. Decide ajudá-lo, por mais que isso signifique jogar sua rotina precisa pela janela.

"Há algo de nobreza e de dor em você", diz Mari, uma linda mulher que flerta despudoradamente com Roberto, que tenta ignorá-la. E o encontro entre Roberto e Jun é prova das sábias palavras da apaixonada vizinha. Mas parece que não há mais espaço para o amor na vida de Roberto. Isso é algo que se perdeu em algum lugar do passado e que ele parece não ter mais habilidade em recuperar.

Jun surge como um acaso na vida de Roberto. E a transforma para sempre

Após uma série de tentativas frustradas de dar um rumo à vida de Jun que estava em busca de seu tio, Roberto se dá por vencido e aceita - com grande sacrifício - a convivência que parece fazê-lo enlouquecer. Mas, rapidamente, Jun se mostra um companheiro útil e interessante, que, de uma forma ou de outra, facilita a vida de Roberto. Até os dois, enfim, entenderem os caminhos a serem seguidos.

Esta é uma linda história. Uma história absurda, improvável, impossível. Sobre um homem só, completamente só, que precisa ser encontrado por outro homem, que vem do outro lado do mundo, para dar um rumo à sua própria vida. Um conto chinês, sim, onde a vida decide imitar a arte e não o contrário. 

Absolutamente imperdível.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O AMIGO EM PERIGO


O amigo em perigo
(uma variação)

Esta é a curtíssima história
de um amigo em perigo.

Que só pedia abrigo,
Que se salvou de um castigo,
Que flerta com ser antigo,
Que não faz inimigo,
Que é príncipe e mendigo,
Que enamora o umbigo,
Que fala consigo,
Que se entrega como artigo,
Que é grão e é trigo,

E que tem na saudade à janela,
um jazigo.

É o amigo em perigo,
Que espera, lá fora, 
soldado ao postigo, por um dia contigo.

PARA VER E OUVIR: THE STROKES ("YOU ONLY LIVE ONCE")

quinta-feira, 3 de maio de 2012

ILUSTRANDO

Edward Hopper - "Office in a small city, 1953"

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A SENHORA SEM HORA

A senhora sem hora
(uma variação)

Esta é a curtíssima história
de uma senhora sem hora.

Que feito água evapora,
Que feito esfinge devora,
Que feito tempo demora,
Que é fauna e que é flora,
Que é noite e aurora,
Que é silêncio e é sonora,
Que é forte e que chora,
Que a presença decora,
Que a boca é de amora,

E que marca a minha pele,
como catapora.

É a senhora sem hora,
Que eu espero, lá fora,
para que comigo ela venha embora.

PARA VER E OUVIR: JOHN MAYER ("BACK TO YOU")



Back to you. It always comes around. Back to you. 
I tried to forget you, I tried to stay away, but it's too late.

terça-feira, 1 de maio de 2012

PARA VER E OUVIR: SANDY ("PÉS CANSADOS")


Talvez isso "me deixe menos cult". Mas eu não me importo que isso me deixe menos cult.

"Depois de tanto caminhar
Depois de quase desistir
Os mesmos pés cansados
Voltam pra você".

EL AMENAZADO


EL AMENAZADO
Jorge Luis Borges

Es el amor. Tendré que ocultarme o que huir.
Crecen los muros de su cárcel, como en un sueño atroz.
La hermosa máscara ha cambiado, pero como siempre es la única.
¿De qué me servirán mis talismanes: el ejercicio de las letras, la vaga erudición, el aprendizaje de las palabras que usó el áspero Norte para cantar sus mares y sus espadas, la serena amistad, las galerías de la biblioteca, las cosas comunes, los hábitos, el joven amor de mi madre, la sombra militar de mis muertos, la noche intemporal, el sabor del sueño?

Estar contigo o no estar contigo es la medida de mi tiempo.
Ya el cántaro se quiebra sobre la fuente, ya el hombre se levanta a la voz del ave, ya se han oscurecido los que miran por las ventanas, pero la sombra no ha traído la paz.
Es, ya lo sé, el amor: la ansiedad y el alivio de oír tu voz, la espera y la memoria, el horror de vivir en lo sucesivo.
Es el amor con sus mitologías, con sus pequeñas magias inútiles.

Hay una esquina por la que no me atrevo a pasar.
Ya los ejércitos me cercan, las hordas.
(Esta habitación es irreal; ella no la ha visto.)
El nombre de una mujer me delata.
Me duele una mujer en todo el cuerpo.

PARA VER E OUVIR: JOHN MAYER ("SHADOW DAYS")



"I'm a good man, with a good heart
Had a tough time, got a rough start
But I finally learned to let it go
Now I'm right here, and I'm right now
And I'm hoping, knowing somehow
That my shadow days are over
My shadow days are over now"

Nunca antes uma canção do Sr. Mayer me transpareceu tanto.