sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

O QUE DIRIA NIETZSCHE?


"Quando Nietzsche chorou" é um comovente romance sobre o encontro (fictício) entre o dr. Breuer (mentor de Sigmund Freud, pai da psicanálise) e o filósofo Friedrich Nietzsche. Em função de enxaquecas terríveis e a súplica sedutora de Lou Salomé, o encontro é viabilizado (com resistência de ambas as partes). Mas, com o tempo, ambos se descobrem (e a si mesmos) numa série de diálogos filosóficos que parecem brindar, antecipadamente, o nascimento da Psicanálise. Ao final, diante da constatação do medo da sua solidão, o filósofo alemão irrompe em lágrimas sinceras e aliviadas. Nietzsche chora em um comovente momento de percepção da sua fragilidade. Não queria morrer sozinho.

Uma história bela e tocante, com apaixonante mistura de assuntos tão ricos. O filme, que teria tudo para se tornar perfeito, desmorona numa série - incessante - de equívocos. A produção é pobre (cenários, objetos e figurinos dão a impressão de um filme feito "com o que se tinha em casa"), a imagem é muito iluminada, limpa, "digital demais" (como um filme feito para TV), a direção é criminosamente medíocre (planos banais, cenas sem planejamento, com ar de amadorismo constante), parece não haver direção de fotografia (salvo em raros momentos), efeitos especiais toscos, pouca técnica, pouca arte, pouco lirismo, os diálogos se perdem e se fragmentam em atuações banais, a trilha sonora é negligenciada e nem o elenco se salva. O ator que faz Breuer (Ben Cross) é competente, mas não mais. Katheryn Winnick traz à tela uma Lou Salomé vulgar e sensual (não é assim no livro) e Jamie Elman, como o Dr. Freud, é apagado (uma pena). A única coisa iluminada e em ordem do filme é o maravilhoso Armand Assante, como o próprio Nietzsche. Ele personifica o filósofo alemão magistralmente. Suas palavras têm peso, sua loucura convence, suas lágrimas comovem. ELE, sem dúvidas, é o Nietzsche que queríamos ver na tela: uma muralha intransponível que desmorona em lágrimas verdadeiras. Mas apenas ele se salva. O que, infelizmente, não é suficiente. Lamentável, lamentável. Gostei do filme, parece contraditório dizer. E é. Por que amo Nietzsche e queria, como um capricho pessoal, vê-lo chorar na tela. Então gosto do filme. Mas queria ver outro (o que vi em minha mente, enquanto li o livro). Um filme lento, melancólico, frio, comovente, em torpor, em câmera lenta, como deveria ser esse encontro perfeito de tão belas mentes. Um quadro, uma obra de arte, em movimento vagaroso e elegante, em preto, cinza e cáqui. Assim deveria ter sido o filme "Quando Nietzsche chorou". Um dia, quem sabe.

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