sábado, 10 de março de 2012

O ADEUS À ALICE

Alice chegou do trabalho, numa terça qualquer, equilibrando correspondências, chaves e uma pequena sacola de compras; algumas maçãs, alguns ovos, pão. Ao seu jeito, arremessou tudo sobre o pequeno balcão, que separava a cozinha da sala, e foi ao quarto onde começou a se despir. Morava só nesta época. Seu namorado, que ela havia conhecido em Roma, tinha ido embora havia alguns meses e Alice celebrava a dor e a doçura de ter o apartamento só para ela. A vida só para ela. Aquele apartamento pequeno, onde os dois haviam sido tão felizes. Aqueles lençóis que ainda carregavam o cheiro misturado dos dois. Aquelas paredes rabiscadas, testemunhas inegáveis de dias mais leves. Mas Alice já não tinha tanta certeza se havia feito as escolhas certas que a haviam conduzido até ali. 

Em poucas palavras, ela sentia falta dele. Só não admitiria isso jamais - essencialmente porque ela sabia que era inteiramente responsável por sua partida prematura. Por sua fuga. Eles, que achavam que viveriam uma vida juntos. Filhos, velhos, uma vida. Mas nada disso aconteceria, ainda que Alice ocasionalmente suspeitasse que aquela era apenas uma entre tantas pausas naquela sua aventura européia. Como um filme francês.

Na cozinha, começou a organizar suas compras. E em cinco minutos estava sentada folheando as correspondências. Contas, encartes, aquele punhado de coisas desimportantes que ainda encontram remetentes para enviá-las. Suspirava.

Mas eis que algo chamou sua atenção. Algo novo. Algo especial, que paralizou seus dedos, como gelo. Era um postal. Um cartão postal dele. E de longe, muito longe. Um postal cheio de ideogramas - "estaria em que canto do oriente?" pensava - e então viu que os selos eram do Japão. "Então ele havia partido para o outro lado do mundo", pensou. "O mais longe que conseguiu. Se pudesse, talvez tivesse ido para a lua". Era esse o tamanho da mágoa que separava os dois. 

E ela não o culpava.

Em poucas palavras, era o que dizia o cartão. Um fim numa história sem fim. Uma despedida definitiva. Um cartão, uma última carta, um punhado de últimas palavras, escritas à mão - como deve ser - para desejar a Alice que vivesse uma vida plena. Saudável. Que ela fosse mãe, e que fosse cercada de netos. E de cães. E de dias ensolarados. Que ela tivesse um jardim com um pomar onde pudesse abraçar todas as árvores que quisesse. Que ela tivesse um lago, para nadar nua, desafiando a gravidade. Que a vida sorrisse para ela. Que fosse feliz. Até o último instante. 

Ele estaria longe, desaparecendo pouco a pouco, sem deixar vestígio. Mas não deixaria de carregá-la consigo, em algum canto ainda obscuro de seu peito, como uma memória que, quem sabe, talvez conseguisse se manter aquecida com a passagem dos anos. Sem mágoas, sem tristezas. Pelo menos, não mais do que o necessário. Sim, que ela fosse feliz. Verdadeiramente feliz. Ele realmente queria isso. 

"Adeus, Alice".

Sem endereços, sem telefones, sem contatos.

Um último beijo. Uma lágrima solitária. Um cartão postal feito em pedaços.

Um cartão postal colado de volta com cola e esparadrapo.

O adeus à Alice.

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