quarta-feira, 28 de julho de 2010

"O QUE NÃO PARECE VIVO, ADUBA. O QUE PARECE ESTÁTICO ESPERA"


Leitura
Adélia Prado

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras,
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.

Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?

Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

2 comentários:

Rafaela disse...

Eu usei esse texto para exercício de fala para teatro, pra controlar as vírgulas e pontos sem levar em conta a troca de versos.
Tem uma coisinha errada nesse texto (eu acho), no "cadê minha pinga, meu vidro de café?". Não é "pinga" é "binga" que significa esqueiro, rs.

Rodrigo A. disse...

Obrigado, Rafaela, já corrigi!