sábado, 8 de janeiro de 2011

ELES TÊM TUDO. MENOS TEMPO

Este é, possivelmente, um dos filmes mais tristes que vi em muitos, muitos anos. Estou falando de "Never let me go", dirigido por Mark Romanek, baseado no livro homônimo de Kazuo Ishiguro que foi considerado pela Time o "melhor romance da década". A história, que mistura realidade e ficção científica, transpira melancolia ao longo de todo o filme. É tudo muito simples e restrito, num minimalismo percebido em diálogos contidos e enquadramentos de câmera que tentam muito mais ser fotografias do que movimento. Ao mesmo tempo, é tudo tão complexo, tão profundo, que emudecerá a muitos. Emudeceu-me imensamente.

No elenco, Keira Knightley, Carey Mulligan e Andrew Garfield. Eles dão vida a três crianças que habitam um imponente orfanato no interior da Inglaterra. Tommy (Garfield), Ruth (Knightley) e Kathy (Mulligan) são amigos de infância e, rapidamente, desenvolvem um complexo triângulo afetivo que não se romperá com a passagem dos anos. 

Acontece que o belo orfanato é, na verdade, um "celeiro" onde clones são criados de forma íntegra e saudável para prover seus "originais" com os órgãos que precisarão eventualmente. Assim, sem segredos, sem mistérios, essas crianças são encarceradas - ainda que muito bem cuidadas - e apresentadas a uma missão de vida pré-determinada. Todos precisam se preparar para "completarem" (o eufemismo elaborado pela organização responsável por todo o processo) e, assim, deixarem de existir em função dos seus originais. A missão máxima, o sacrifício final.

Para alguns, há ainda a possibilidade de trabalhar como assistentes, cuidando dos demais doadores, o que prorroga um pouco o tempo até "completarem". Mas, inevitavelmente, esses jovens se deparam com as mesmas dores, descobertas, dúvidas e deleites de uma vida normal, "real": sonhos, desejo, paixão, ciúmes. Mas o que fazer com essas vidas "de segunda categoria"? É tudo em vão? 

Eis aqui um filme muito difícil de explicar, resenhar. Tenho reflexões silenciosas, pessoais, que não consigo converter em palavra escrita. Essa é uma história erguida, fundamentalmente, na (angustiosa) reflexão sobre "o que estamos fazendo com o nosso tempo?". Todos ali estão vivendo, esperando o momento de "completar", para garantir a continuidade de uma outra vida. Uma é mais importante que a outra. Mas o que dizer do tempo? Ele passa para todos. E todos, sem exceção, "completamos" não é mesmo?

Muitos vão odiar este filme. Muitos vão se perder nele.

Para mim ele é devastador.

Lindamente devastador.

Um comentário:

ione gonzalez disse...

A pergunta filosofica é premente.A maior parte das pessoas vive sem jamais se perguntar sobre ''o sentido da existencia'',nem o que estão fazendo e como estão fazendo na condução de seu destino.
Resultado do imperativo capitalista:
TER !!! PERDEU-SE O :SER ?
O mundo está mudando numa velocidade aterrorizante.Ainda não estamos no mundo da clonagem,mas já podemos observar um sentido existencial completamente diverso nos ''bebês de proveta'',chamados de ''presentes'',parecem congelados
no adjetivo,alem disso contam´se em serie numérica,por ex: ''sou o ovo 1,ou sou o ovo 2...
Tempo de espetacular estranheza,só a arte pode nos agraciar com alguma simbolização,já que a arte está sempre no tempo do porvir.

Obrigada por esta resenha,é preciso refletir.