terça-feira, 23 de julho de 2013

AMOR COM COMEÇO, MEIO E...

Um filme delicioso [dolorosamente delicioso], com cheiro de maresia, azeite, tomates frescos. Com sensação de coisa antiga, de lembrança, de saudade. Um filme pequenino, que é arte pura, que é quase perfeito; que nem sei se é filme. Isso é "Antes da Meia-Noite" (Before Midnight), terceiro filme de Richard Dinklater sobre a história de amor de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) que, muitos anos atrás, apaixonaram-se perdidamente. 

A crise também chega para almas tão gêmeas como Jesse e Celine...

Hoje, os dois estão em plenos 40, e com todas as dificuldades e angústias que chegam com a crise de meia idade - e do casamento-, e já não tem mais tanta certeza de nada. Parecem ter perdido o romance, o mistério, a magia, o encanto. Perderam-se em algum lugar do passado, tornaram-se comuns, adultos, chatos. A vida passou a orbitar as preocupações diárias, a educação dos filhos, os projetos frustrados e, também Jesse e Celine já nem tem certeza se querem mais estar juntos.

Este filme é quase inteiramente um diálogo. Sem muitos artifícios, sem muita música nem belas paisagens (apesar de se passar na Grécia). Jesse e Celine estão no baixo Peloponeso, cercados de ruínas e oliveiras e, durante um almoço inocente, se veem na companhia de casais em todas as etapas: jovens apaixonados, um marido e uma mulher e dois viúvos. O amor com começo meio e fim. E isso é um gatilho para uma longa - e difícil - catarse. Uma jornada que eles precisam atravessar juntos. 

E é só o que eu vou dizer.

É que não dá para falar muito sobre "Antes da Meia-Noite". É um filme lindo, perfeito, OBRIGATÓRIO para todos que se encantaram com os outros filmes que compõem esta "trilogia". Honestamente? Espero por mais um daqui a... 10 anos. E outro em 20, 30, 40. O que posso dizer é que tive a sensação de que este filme durou 5 minutos. Como tudo que é bom.

E que passa.

SUPERMAN VS BATMAN

E eis que as mentes por trás do excelente novo filme do Superman, "Man of Steel" presenteiam a comunidade nerd com uma notícia incrível. "Quero que você nunca se esqueça, Clark, que fui eu o homem que o derrotou". E assim descobrimos que o próximo filme do Superman (com o mesmo elenco, incluindo Henry Cavill), que chegará aos cinemas em 2015, será chamado de: "Superman vs Batman".
 
Oh, boy...

segunda-feira, 22 de julho de 2013

PARA VER E OUVIR: SARAH MCLACHLAN ("I'LL REMEMBER YOU")


Caso você tenha gostado da música do vídeo do post anterior.

ADEUS À DUNDER MIFFLIN

É simplesmente impossível acreditar que "The Office" acabou. Prefiro crer que todos eles continuam em algum lugar, fazendo do absurdo a rotina. "Existe muita beleza nas coisas comuns", Pam reflete ao final. E é exatamente isso. E, na falta de mais palavras para elaborar a respeito destes quase 10 anos de escritório, a canção, cantada por Andy, diz tudo.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

O VESTIDO PRETO

"O amor é o que permanecerá", as palavras do padre ainda ecoavam em sua mente enquanto ela mexia nas roupas amontoadas dentro do armário. "Então amem, amem; e isso bastará".

Pinçou um vestido preto cuidadosamente, o seu preferido, o que há anos não entrava mais e, por um instante fugaz, sentiu raiva daquele padre estúpido e das suas palavras vazias. Queria poder entrar naquele vestido preto novamente, mas também esse pensamento rapidamente voava pela janela.

Suspirava.

Ela tentou, ao seu jeito. Entregou-se ao perigoso esporte de comprar coisas inúteis para preencher os vazios em sua vida, mas apenas se endividou além do imaginável. Encontrou hobbies com a mesma velocidade que os abandonou. Arrumou um amante que acabou transformando em inimigo. Passou a comer, então; aquele amor de fácil acesso e que não pede nada em troca. Mais e mais. Até que não coube mais em seu vestido preto. 

E em muitos outros. Mas era daquele que mais sentia falta. Porque ela sabia que ficava bonita nele, que se sentia bonita nele; desejável, que atraia olhares. Ela era jovem, tinha a vida inteira pela frente para fazer o que bem quisesse. Aquela juventude que não passaria nunca.

E então se deparava com a parede das suas soluções que se transformavam em novos problemas. Respirou fundo, de olhos fechados, precisava se acalmar.

Sentou-se à mesa com o seu marido para mais um jantar silencioso. A televisão, quase muda, não muito longe dali. Três, quatro palavras trocadas aleatoriamente e precisamente ignoradas entre o barulho dos talheres. Ela olhou para as suas mãos, sem reconhecê-las. "De quem são essas mãos?", pensou. Aquele tempo que fugia tão rápido quanto os seus pensamentos concretos.

"Meus Deus, eu faço tudo tão errado", deixou escapar com um suspiro, uma mão apoiando a cabeça.

"Para mim está tudo ótimo", ele respondeu, os olhos fixos no prato.

Ao que ela virou o seu rosto para ele com uma máscara de decepção e fúria; os olhos fixos naquele homem que ela havia escolhido tantos anos antes e que já nem conseguia mais entender o motivo. 

Sentia uma raiva primitiva, que fazia a sua mente flutuar pensamentos absurdos em que ela voaria por cima da mesa e o apunhalaria com uma daquelas facas; só para então voltar à realidade após perder o controle daquela ideia. "Que culpa tinha ele?", pensava.

"A culpa é minha", fechava os olhos, "só minha".

"Eu poderia sempre voltar para Savannah", ela confortava a si mesma. "Esquecer disso aqui tudo, inventar outra vida". Mas o que havia em Savannah?

Ela imediatamente lembrava daquele cemitério, esquecido no meio da cidade, os prédios fazendo sombras sobre as lápides. Aquelas centenas de vidas, sob os seus pés. O céu de tantos sob os seus pés.

"E eu estarei ali um dia", pensava, "quando tudo isso aqui tiver acabado".

Bebeu o último gole de vinho, que fez escorregar alguns tomates-cereja pela sua garganta. Sentia os olhos úmidos, as mãos amarradas por todo o tipo de impossibilidade abstrata, o coração galopando dentro do seu peito. "Não sei se ainda dá tempo". 

E ela só conseguia pensar em como gostaria de entrar naquele vestido preto novamente.

E assim ela o fez.

50 anos depois.

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("ISLANDS")

E LÁ SE VÃO MINUTOS DE TEMPO PERDIDO

Mas só sei que eu queria isso em formato tapeçaria, estampando o continente de Westeros em minha parede.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("1000 TIMES")


Possivelmente a canção mais "doída" da sua discografia.

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("CHASING THE SUN")


Mais uma para ouvir em loop.

domingo, 14 de julho de 2013

DESBRAVANDO "THE BLESSED UNREST"

Ainda não tive tempo de explorar "The Blessed Unrest", novo disco da Sara Bareilles, do jeito que gosto (ouvindo repetidamente, diversas vezes). Mas, como eu já esperava, é mais um passo definitivo, que mostra como Sara está ainda mais madura [e profunda] com a sua música. A menina, eternamente marcada pela melancolia oriunda de um coração partido está aqui, claro, impressa nas melodias. Mas ela foi ainda mais longe desta vez. Lindo, lindo disco. Destaque, por enquanto, para "Satellite Call", que é linda que dói.

"This is so you know the sound
Someone who loves you from the ground
Tonight you're not alone at all
This is me sending out my satellite call"

 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

DISCOS PARA SE FICAR DE OLHO

"Paradise Valley", novo do John Mayer
"The Blessed Unrest", da Sara Bareilles

quinta-feira, 11 de julho de 2013

OS GATOS NA GUERRA

Poucas pessoas sabem, mas muitos gatos viajaram (e sobreviveram) à II Guerra Mundial. O principal objetivo de levá-los nos barcos era fazer com que eles neutralizassem a população de ratos que infestava os navios. Naturalmente, a tripulação se afeiçoava a eles (como não?) e alguns certamente acabaram sendo comendados por heroísmo.
 
Ah, e eles tinham as suas próprias mini-redinhas.
 
Via Chongas.

terça-feira, 9 de julho de 2013

TRIBUTO AO [ETERNO] "HOMEM DE AÇO"

É possível que o diretor Zack Snyder tenha encontrado uma bela - e original - maneira de prestar um tributo ao eterno "Homem de Aço", Christopher Reeve, no seu novo filme do Superman. Em determinada cena, especialistas conseguiram filtrar o rosto de Reeve sobreposto ao de Henry Cavill.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

DESCOBERTA


Você me pediu para te escrever algo bonito. "Escreva algo", assim você me pediu, como se as palavras fossem purpurina, que se joga sobre uma folha desenhada com cola onde magicamente uma imagem se forma. "Escreva algo", assim você me pediu.

A verdade é que não sei se levo jeito - se ainda levo jeito - para escrever esse tipo de coisa. Fiquei meio amargo, acho. Não que me falte sentir, em verdade acho que sinto até em demasia (minha força ou minha fraqueza? Ainda não decidimos).

Então eu me sento diante desta folha branca, digital, contando as piscadas da barra vertical que parece gritar por um punhado de palavras, e deixo os dedos falarem o que quiserem. Depois olho, repreendo, ajeito, faço remendos. Remédios. Costuro a alquimia que você pediu - talvez pelo mero capricho de pedir.

"Escreva algo [para mim]".

E aí me ocorre que talvez escrever algo seja escrever nada. Escrevendo tudo. Simplesmente escrevendo. Fabricando reflexões - não querendo dizer com isso que elas são inventadas. Não levo jeito para isso. É apenas a dificuldade (momentânea?) em lidar com determinadas ideias. Sentir sem falar? Bom, você entende o que quero dizer.

Acho.

Você me perguntou da minha relação com o tempo, com o esquecimento, a espera, o desapego, a despedida. E eu simplesmente te expliquei que são meus temas sensíveis, do campo das coisas que se pensa e não se fala. Meus segredos. Deixemos assim.

E o que eu faria quando nos reencontrássemos 10, 20 anos daqui? Eu poderia não te conhecer, te reconhecer - e vice versa - ou simplesmente gritar do topo de um prédio que, durante todo este tempo, eu estava simplesmente esperando pela minha mulher.

Nossa solidão. Luz da janela batendo sobre os nossos rostos. Gosto de vinho na boca. Eu e você. Sozinhos no mundo. Nós contra "eles".

O que precisamos está aqui no chão, você costuma falar. Olhar demais para a estrelas é bonito, coisa e tal; deixa a gente mais profundo, mais poético. Mas é no chão das coisas que encontramos a realidade das nossas buscas mais verdadeiras. Você está certa.

Eu acreditava que era a gravidade que atraía as pessoas, que costurava as histórias, unia as almas desencontradas. Não é. Isso é coisa inventada. É farsa. E se no céu há o brilho sedutor das estrelas das nossas ilusões, sob os nossos pés descalços há as pedrinhas, sem graça, ainda que ocasionalmente "coloridinhas", que machucam mas que podem também elas esconder seus segredos.

Os segredos sob os nossos pés. Pés enrolados, pés de lençol, pés de chuveiro. Pés de pato, de cabra, de moleque. É onde habitam os nossos melhores segredos. E talvez você seja o maior deles.

Seu cabelo cor de areia. Seus olhos que me guardam numa prisão de vidro. Sua pele, malte e azeite. Especiaria. Sardas fugitivas, escorregadas na linha da sua cintura. Pernas compridas, braços de bailarina. Pescoço, pêlo, pele. Dedos que tocam, boca, beijos, cheiro de nostalgia. Voz, coisa antiga, perdida. Despedida, despida.

Talvez seja esta uma carta de amor, afinal. Como você pediu, como lhe agrada. Um caleidoscópio de ideias, que você pode manipular, brincar com as peças, um mosaico de peças invisíveis. Mensagem cifrada.

"Escreva algo", assim você pediu.

E aqui está: descobri que pertenço a você.

domingo, 7 de julho de 2013

QUE ELES ESTEJAM JUNTOS [E FELIZES]

Eu nunca imaginava que poderia amar tanto um casal ficcional como Ross e Rachel, de "FRIENDS". Digo do sofrimento, de torcer incansavelmente pelo final feliz, a agonia por conta dos desencontros, a dificuldade em equalizar os ponteiros. Mas então eu conheci Jim e Pam, de "The Office". Os queridos, os muito queridos Jim e Pam, que realmente conseguem levar a ideia de "casal ficccional" para um outro nível. A sintonia entre os dois, almas gêmeas inconfundíveis, que me bombardearam com doses iguais de risos [e gargalhadas], frios na barriga, decepções, lágrimas genuínas de comoção - aquela vontade de abraçar alguém quando eles FINALMENTE conseguiram se acertar. Talvez seja esse o amor mais bonito mesmo, o da ficção, o que ainda é possível celebrar como perfeito, alheio a tudo de errado que há com a vida "real". Sei que torço muito que, em algum louco universo paralelo, eles estejam juntos e felizes. Porque é simplesmente impossível imaginá-los separados.

PARA VER E OUVIR: TRAVIS ("SING")

sábado, 6 de julho de 2013

COURO E PAPEL

"As pessoas tem o direito de fazerem o que bem quiserem das suas vidas", ele pensava consigo no longo caminho ao aeroporto. "É assim que a roda gira". E sentia o seu estômago se contorcer toda vez que via uma placa de trânsito indicando "aeroporto". 

Ela estava indo embora.

Nenhum dos dois entendia, plenamente, a cadeia de eventos que havia resultado naquele momento tão estrangeiro, fora de tom, deslocado, naquela história que eles não pressupunham poder acabar. 

Ele gostava dela, ela sabia; ela gostava dele também. Eventualmente a vida desempenhou o seu hábil papel, manipulando as circunstâncias, criando novas regras para o jogo, inserindo novas variáveis e, quando menos perceberam, lá estavam os dois, dentro do carro, rumo ao aeroporto. 

O rádio soava algo repetitivo, ignorado pelo peso dos seus pensamentos e do seu silêncio. Ela tinha que ir mas, sendo mulher, sofria por ele não sofrer. Pelo menos, por ele aparentemente não sofrer diante da separação iminente. "Ele é tão duro, tão racional", ela pensava, enxugando uma lágrima solitária com as costas da mão.

"Você está resfriada?".

"Acho que sim".

Mas ele chorava, escondido, todas as vezes que ela fazia café da manhã para ele. Foi assim desde o dia que ele soube que ela partiria. Cafés, torradas, notícias. E aquelas lágrimas envergonhadas que ele ia secar sozinho. 

Estacionaram o carro, o vento gelado congelando o peito. Barulho de rodinhas tamborilando no chão, competindo com as turbinas ensurdecedoras que dão a certeza do propósito do lugar. Setas amarelas, embarque, desembarque. 

Sentaram em silêncio pelo que pareceu uma eternidade. As xícaras de café esfriando, parecendo flutuar pensamentos na carona da fumaça que dissipava. 

"Dizem que é lindo por lá, essa época do ano", ela disse. Ao que ele acenou, concordando, os braços cruzados diante do peito, os olhos perdidos, vagueando.

"Você quer me dizer algo?". Ele negou com outro aceno.

Os ponteiros do relógio dançando melancolicamente, marcando o compasso dos desencontros e das despedidas. Pessoas indo e vindo, presentes, abraços, acenos, sorrisos, lágrimas. Toda a matéria que constitui um aeroporto.

"Eu não serei a última a te amar", ela pensava em silêncio, acariciando a mão dele. Aquele homem silencioso, secreto, habitante de um país solitário, onde ele reinava e mendicava. "Nós dois, sempre nas entrelinhas"

Deram-se as mãos, deixando não ditas as palavras pensadas. 

"Acho que chegou a minha hora", ela se levantou, ajeitando o cabelo. Ele puxou a sua pequenina mala de mão, dando-lhe a outra mão para caminharem juntos.

"Ela leva tão pouco consigo, após todos esses anos", um pensamento que o revirou por dentro.

"Era só você que importava", ela pensou, como se conversassem por pensamento.

Como conversavam.

Caminharam em marcha lenta, até o portão de embarque internacional. Até que o fuso e a geografia os deixassem quase em planetas diferentes. As lojas de coisas inúteis ficando para trás, o ar contaminado por aquele cheiro de concreto e desinfetante, couro e papel. Cheiro de despedida.

Pararam por alguns instantes, diante um do outro, como se algo fosse acontecer. "Bom, acho que é isso", ela disse, um sorriso que escondia toda a dor do mundo.

E então ele se aproximou, abraçando-a delicadamente pela cintura, encaixando a sua cabeça no reino de paz absoluta que habitava entre o ombro e o cabelo dela. Aquele cheiro, o pêlo, o pano. E ela sentia o seu corpo arfando, soluçando, enquanto percebia aquele homem, sua fortaleza inconquistável, derretendo entre as suas mãos. Acariciou as suas costas, abraçando-o de volta. 

E assim ela se foi. 

E, como na vida não existem cenas de filme, e os finais felizes são tão raros como achar dinheiro no chão; sendo o desfecho de tudo o somatório das decisões - sejam elas equivocadas ou acertadas - os dois testemunharam o fim daquela história. Ali, naquele aeroporto sem cor, até ela desaparecer pelos detectores de metal e se misturar na multidão espalhada pelos portões, pelos números e letras, na expectativa das suas jornadas anônimas. 

Não se viram nunca mais.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

[MAIS UM] LUGAR PARA FUGIR

A Dunder Mifflin, de Scranton (PA). Definitivamente um lugar para se chamar de lar. E tardiamente descoberto! Mas, como dizem, "antes tarde do que nunca".

JEITOS ESTÚPIDOS DE MORRER (NOS FILMES)

terça-feira, 2 de julho de 2013

QUEBRA DE CONTRATO

"São apenas cascas de ovos", ele dizia para si mesmo enquanto caminhava pelo apartamento decrépito, "são apenas cascas de ovos". Mas ele sabia, ele sabia, que as cascas de ovos se movimentavam sob a sola do seu sapato.

O lugar era um amontoado de roupas ou restos de roupas, e de coisas, espalhadas pelo que um dia foi um sofá, uma sala. A pia na cozinha amarelada cascateava com louça imunda que, após tanto tempo, já havia se transformado numa amálgama de mofo, limo, de onde pequeninos filetes de água marrom escorriam como veias pequeninas.

"Plac, plac, plac", a torneira gotejava, ecoando naquela caverna de silêncios, "plac, plac, plac".

As paredes descascavam por trás dos quadros tortos e a luz projetada no lugar, atravessando as cortinas puídas e penduradas, davam ao espaço uma alma angustiante, de covil, de esconderijo.

E de perigo. 

Sons ocasionais capturavam a sua atenção enquanto ele caminhava, passo ante passo, rumo ao quarto. Uma escada de madeira, com tábuas rangendo sob os seus pés, e a porta, semi-aberta, denunciando algum movimento em seu interior.

Lâmpadas quebradas, queimadas, pendiam do teto como frutas apodrecidas numa árvore invernal. E o banheiro escancarado o obrigou a cobrir o rosto com um lenço enquanto ele passava pelo corredor escuro; insetos congestionavam o seu ouvido com tráfego intenso, indiferentes ao movimento das suas mãos tentando espantá-los sem sucesso.

Fechou os olhos por alguns instantes, respirou fundo, e seguiu em frente. 

"São apenas cascas de ovos".

Colocou a mão na maçaneta da porta, fria e viscosa, segurando-a por alguns instantes. Vacilante. E abriu vagarosamente, inundando o ambiente com um som de ferrugem, clichê de filme de terror, enquanto a porta rangia preguiçosamente à sua frente. 

E então a viu. Deitada sobre a cama, cobrindo a fragilidade da sua nudez com trapos, as unhas negras empalando o colchão descoberto. Os olhos, aqueles olhos amarelos, gigantes, felinos, fixos nos seus. A pele branca, quase transparente, lisa feito mármore, tatuada por um sem número de veias azuladas. O rosto imóvel, lábios semi-cerrados, denunciando uma respiração arfante, de bote, uma máscara de terror que o acompanhava centímetro por centímetro enquanto ele entrava no quarto. Estuando-o.

A sua mão tremia enquanto ele buscava a arma guardada sob o cinto, em suas costas. Verificou se a trava estava solta e encostou levemente o dedo no gatilho, enquanto emoldurava a criatura no seu campo de visão. E a... criatura permanecia imóvel, aqueles olhos fixos, amarelos, invadindo o seu rosto como holofotes.

Parou, inerte, como uma estátua diante daquela cena pavorosa. Aquele pesadelo vivo. E sentiu pena do seu alvo, da caça.

"Não tenho mais idade para essa merda".

Aproximou-se, o cheiro ácido invadindo os seus pulmões, fazendo-o prender a respiração. Encaixou a arma nos dedos da criatura e se afastou. Talvez aquilo era o que os contratantes chamavam de "misericórdia".

Ele queria uma xícara de café. Sentia saudade de café.

"Meu Deus, eu cortaria um braço por uma xícara de café".

Para ele, simplesmente alguns dias não eram do caçador. E tampouco da caça. Alguns dias simplesmente não deveriam existir. Deu as costas ao quarto e foi embora, fechando a porta atrás de si. E então desapareceu nas sombras do prédio abandonado.

Minutos depois, um bando de pássaros voou assustado, não longe dali.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

ILUSTRANDO

As foto aquarelas de Fabienne Rivory, que transpiram emoção.


 

PARA VER E OUVIR: JEWEL ("YOU WERE MEANT FOR ME")

domingo, 30 de junho de 2013

O RESTO DE NÓS

Silêncio, solidão poética, abissal, mesmerizante. A chance de vivenciar o final, "o resto de nós", como talvez realmente aconteça. "The Last of Us", exclusivo do Playstation 3, é uma experiência que eu dificilmente conseguirei esquecer. Não é um jogo, não é diversão eletrônica - não é isso que importa, não foi isso o que os desenvolvedores quiseram nos dar. Isso aqui é arte pura, eletrônica e orgânica, coisa viva, que respira, que sangra, sua, que chora e que ri. Com o que é possível. O que ainda é possível. "The Last of Us" é jogo, sim, claro. Mas é também filme, música, livro, poema. E, de alguma forma, memória. Eu nunca irei esquecer as 19 horas que passei na companhia de Joel e Ellie, partilhando das suas migalhas, dos seus sonhos fragmentados, do seu sofrimento. Os sons escondidos nas sombras, que me fizeram prender a respiração, a tensão que correu a minha pele, as girafas que me levaram às lágrimas. Um jogo que transcende a forma, o formato. Eu nem sei dizer o que é isso aqui. Um absurdo. Simplesmente um absurdo. Catarse digital. Puríssima.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

O fotógrafo Heinrich Hoffmann (próximo a Adolf Hitler) recebeu um pedido inusitado do Führer. Ele posaria para um ensaio, enquanto ensaiava para um comício. As imagens servem como evidência de um esforço minucioso da construção de uma imagem. A farsa e a face da tragédia do século passado - e um ensaio fotográfico estranhíssimo. Via Obvious.



ILUSTRANDO

Alice X. Zhang - "Lost in Translation"

domingo, 23 de junho de 2013

sábado, 22 de junho de 2013

DRAGÕES E PRINCESAS

Ela pulou em cima dele, no meio da madrugada, como uma gata, acordando-o com um susto.

"Como você pode estar dormindo?", ela perguntou, ansiosa, "não está ansioso por amanhã?".

Ele se sentou sobre os cotovelos, ainda sonolento. E observou a sua filha por longos instantes, como se aquela fosse a primeira vez que ele a via. Os cabelos castanhos anelados, quase selvagens, os olhos esmeralda, exagerados, as sardas espalhadas feito constelações pequeninas, o sorriso cheio de janelas quebradas, naquele rosto iluminado pelos seus 9 anos de idade. 

Aquela menina linda, sua melhor amiga. Ele e ela, sozinhos no mundo.

A menina estava ansiosa porque sabia que o seu pai reencontraria um amor antigo, no dia seguinte. Um amor velho, de carta e fotografia, um amor de jovens, trancafiado sob o peso dos anos e do envelhecimento, um amor destes que fica para trás, quando as correntes do tempo decidem caminhar em direções diferentes.

"Você parece mais ansiosa do que eu", ele respondeu tocando o seu rosto. "Apenas vou encontrar uma amiga"

Ela sorria, um sorriso de gato, a cabeça levemente inclinada sobre o ombro, como se fosse capaz de ler os seus pensamentos. E então se aninhou no seu colo, abraçando-o com ternura, e adormecendo quase imediatamente. 

E ele ficou ali, com a sua filha encaixada sobre o seu corpo, sentindo a sua respiração inocente, leve, aquele quase suspiro. O dia começava a pintar tons de ouro e cobalto na janela do quarto, a madrugada pouco a pouco cedendo espaço para um novo dia. E ele respirou fundo, a cabeça imersa numa centena de pensamentos sem costura, cochilando ao som dos pássaros lá fora e das primeiras buzinas.

Ligou o carro e podia vê-la na janela, olhando-o com ansiedade. Ela sabia, ele pensou, ela entendia. Não era só uma questão de amor ou solidão. Ela já o tinha visto, meditando sobre aquela caixa de lembranças, aquelas fotos; ela sabia das suas lágrimas anônimas e da sua saudade. 

Ela só não falava nada. 

Tirou o carro da garagem e acenou para a sua filha até que a casa se perdeu na esquina e seguiu seu caminho para o restaurante onde reencontraria aquele amor de espera. 

A cidade ao seu redor, passando pela janela do carro, as luzes da manhã, as pessoas, os serviços, o trânsito, a música suave embalando o seu corpo envolvo em ar-condicionado. Ele sentia um frio na barriga que parecia fazê-lo pisar mais forte no acelerador, para chegar mais rápido.

Ficou sozinho à mesa pelo que pareceu uns 10 minutos, era o seu hábito de chegar sempre mais cedo. E então ela apareceu e, mesmo após aquela distância e aquelas décadas, ele soube que era ela. Ainda que não tivesse conseguido reconhecê-la. 

Não é que ela não estivesse bonita, não era isso. De fato, não estava, mas isso não importava. Ela parecia estranha, como se ele estivesse a enxergando por trás de um filtro de realidade que ele nunca teve, já que apenas a lembrança emoldurava os seus entendimentos sobre ela.

Acompanhou os seus passos, o sorriso inexpressivo, os movimentos desajeitados e, por um instante, quis sair dali. Cumprimentaram-se e ela se sentou para imediatamente inaugurar um monólogo monocórdico sobre todos os aspectos que faziam da vida dela a coisa mais interessante da existência na terra. Seu carro, seus hábitos, seu trabalho, suas coisas. 

"Deus, como ela é chata", ele pensava, a mão sob o queixo, disfarçando um sorriso.

E a mulher continuou tagarelando sem parar, o batom manchando alguns dentes, a maquiagem pesada nos cantos dos olhos, a pele flácida do seu rosto, o cabelo e as roupas esquisitas, como se ela tivesse caído de uma máquina do tempo quebrada. E ele ficava pensando o tempo todo no que cozinharia para a sua filha, quando voltasse. 

"Fettuccine carbonara", pensava, "ou quem sabe cachorro-quente"

Sorria, então, verdadeiramente. 

Olhava o relógio, discretamente, e torturava-se com aqueles ponteiros que se arrastavam no seu pulso. E a mulher continuava falando sem parar, rindo das suas próprias piadas sem graça, cutucando-o desnecessariamente.

"Não fique me tocando", ele pensava com um sorriso amargo. "Eu não te conheço"

"Eu não gosto mais de você".

Ele ficava observando aquela mulher esquisita à sua frente e buscando, no emaranhado dos seus pensamentos, onde estava o seu amor juvenil? Para onde ela havia fugido? Não restava mais nada ali, nenhum grão da mulher incrível que habitava as suas lembranças tão calorosamente. O corpo, os olhos, o sorriso, o humor. Tudo havia se perdido. Ela hava desaparecido e aquela pessoa à sua frente era alguém que ele não queria na sua vida. 

Ela pediu licença para ir ao toalete. Ele então aproveitou a oportunidade para chamar um garçom e pagar a conta. E, sem cerimônia, deixou a mesa. O prato quase intocado, a taça de vinho cheia, o guardanapo imaculado. 

E caminhou, lentamente, e então quase correndo. Abrindo as portas do restaurante como quem abre a porta de uma prisão. Ele estava livre daquela ideia. E havia compreendido melhor algo que sempre lhe parecera tão claro.

Deu partida no carro e voltou para casa, encontrando a sua filha brincando de dragões e princesas na sala, com a babá. Ela se virou e iluminou a sua vida com um dos seus sorrisos mais desarmantes e correu para o seu encontro. E os dois ficaram ali, parados, abraçados, pela eternidade de alguns segundos. Ela queria saber tudo sobre o seu encontro.

"Ela não apareceu", ele disse, sorrindo.

"Ela é estúpida", a menina respondeu inconformada, "mas você ainda vai encontrar o amor da sua vida, eu sei"

Ao que ele a olhou nos olhos, acariciando o seu rosto. 

"Eu também sei", ele disse, abraçando-a novamente. "Eu sei"

E naquela noite decidiram comer fettucinne carbonara.

E cachorro-quente.

"AO MARAVILHAMENTO"

Uma mulher, estrangeira, sussurrando as suas reflexões de amor - e de ódio - sobre um homem silencioso que ela nunca esqueceu. Um padre, sedento de fé, desesperado por um sinal da existência de Deus. Um homem, inerte, quase indiferente, e que inevitavelmente seduz e esmaga as mulheres que o amam vorazmente. Uma mulher, em lutos, na solidão da reconstrução de um rancho, dividida entre a culpa e o desejo. É sobre a (folgada) costura entre estas diversas histórias que fala "To the wonder", novo filme de Terrence Malick (de "A árvore da vida"). 

Fica difícil falar muito sobre um filme que, em si, quase não fala. Ao mesmo tempo, não quero dizer com isso que este é um filme "mudo" ou que não chega a lugar algum. Bem o oposto. Como "A árvore da vida", "To the wonder" é absurdamente belo, sinestésico, sussurrado, como se fizéssemos parte de um segredo, em que observamos aquelas vidas com muito mais voyerismo do que envolvimento. 

Em poucas palavras, acredito que este seja um filme sobre amor. Ou a falta dele, ou a busca por ele.  Ou sobre a sua degradação que, como tudo que é vivo, também morre. Começamos o filme com uma linda e passional história de amor, em que uma francesa e um americano se derretem na França. Ela quase canta o seu amor por aquele homem, estrangeiro, silencioso, americano, e o seu desejo de fugir e passar a vida com ele. 

Em paralelo, entendemos - no "presente" - que aquela história acabou. E, neste momento, conhecemos uma americana, que está se envolvendo com o mesmo homem e, inevitavelmente, sofrendo com a sua incapacidade de amar. E, orbitando este universo de amores tão fragmentados, está um padre, errante, desesperado por encontrar a sua fé, achar o Cristo que ele tanto prega.
Um filme absurdamente belo, como é de se esperar de Malick. Um filme sobre o prazer e a dor de amar

É tão difícil explicar os filmes de Malick... O título é perfeito. É uma questão de "maravilhamento". Como a primeira mulher de fato diz, ao descrever a sua história de amor: "nós subimos juntos a escada rumo ao maravilhamento". É exatamente isso o que fazemos, numa trajetória em que é fácil compartilhar da ansiedade, da inquietude, do desespero que habitam as histórias de amor profundas.

Estou cada vez mais convencido de que ele é um dos diretores (e roteiristas) mais especiais desta época. Malick é um "alquimista da beleza" e converte os seus filmes não em narrativas diretas, linerares, mas em exposições caleidoscópicas de imagens, sons e sensações. Os seus filmes são sinestésicos, imersivos, silenciosos e é preciso embarcar na sua jornada, beber da sua poção, e realmente se entregar para absorver (e "entender") o filme. 

Não é uma questão de apontar um "final", seja ele feliz ou triste, mas de expor a existência sobre diferentes ângulos que, em determinados momentos, se cruzam (colidem) como assim a vida é. O amor é a espinha dorsal em torno da qual este lindo filme se constrói. Não é um filme fácil de se gostar e muitos julgarão desnecessariamente poético - ou pretensioso. Mas é uma experiência inesquecível para quem o aceitar.

Um filme comovente, duro, emocionante, penetrante, dolorido, como as lembranças podem ser. 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

quarta-feira, 19 de junho de 2013

QUASE, SRA. COPPOLA. FOI QUASE

Just a note to self.

ADEUS A JAMES GANDOLFINI

Morreu hoje, com 51 anos, o eterno Tony Soprano. Triste. Gostava muito dele.

PARA VER E OUVIR: JOHN MAYER ("PAPER DOLL")


Tem cheiro de disco novo no ar...

ELE ESTÁ DE VOLTA

Confesso que uma parte, pequena, muito pequena, de mim ainda guardava receios sobre o novo filme do Superman, "Man of Steel". Algo de incredulidade e de ciúmes - minha ira pelo desrespeito de fazerem mais um ator vestir o manto que Christopher Reeve usava como roupa, não como fantasia.

Mas então eu vi. Eu VI "Homem de Aço" e os arrepios e as lágrimas que tomaram conta do meu corpo pela curta duração deste filme que, para mim já é uma obra de arte, não deixaram mais nenhuma dúvida: Christopher Reeve, o Superman, nos deixou um dia, foi embora, para algum lugar que desconhecemos. Mas Henry Cavill o trouxe de volta.

Isto nunca foi uma fantasia. Isto foi sempre a sua roupa. Como substituí-lo?

Mas o Super Homem voltou para nós, não estamos mais sós, e, pela primeira vez em tantos longos anos, temos de volta a proteção incansável, a bondade, a esperança que são a matéria que constitui este super homem. E que estampam o seu peito, por meio da heráldica alienígena que enfim compreendemos...

Descobrimos a mesma história de sempre, mas com um olhar profundo, poético, que faz com que tudo pareça inédito ao mesmo tempo. E entendemos a complexidade da vida deste menino, este navegante das estrelas, tão desesperadamente amado por dois pais e por duas mães, e que, como Jonathan Kent  (muito bem feito por Kevin Costner) bem diz "veio até nós com um propósito e que, nem que isso lhe tome a vida, ele deve descobrir qual é".

Clark Kent é um cidadão errante, vagando pelo mundo, mudando de cidades, de trabalhos e deixando um rastro de feitos incríveis. Há sempre alguém que "viu o que Clark fez" e isso é o que permite que ele seja encontrado pela astuta Lois Lane.

Eu nunca imaginei que ele pudesse voltar, após Christopher Reeve ter nos deixado...

Em resumo, e para não estragar as várias surpresas, esta é uma história sobre a invasão da Terra, quando o General Zod, o antagonista de Jor-El (pai do Super Homem), lindamente vivido por Russel Crowe (dignamente à altura de Brando), vem ao nosso planeta em busca da última semente de Krypton, o filho que escapou à destruição: Kal-El. "Ele não é um de vocês", diz Zod em sua transmissão internacional, "entreguem-me Kal-El e a Terra será poupada".

Diante desta ameaça, Clark, que ainda está descobrindo as suas origens toma uma posição frente ao seu lar, ao seu país, ao seu planeta que inevitavelmente o considera um estrangeiro. E esta teia de eventos monta um caleidoscópio de explosões e emoções que fazem deste um filme - e uma atuação - dignos do nome.

Cavill é um novo Super Homem, não há sombra de dúvidas, com um novo traje, uma nova ótica em que a história de um dos mais amados super-heróis de todos os tempos é narrada. Mas também é respeitoso ao legado de Reeve em momentos delicados, sutis, quase subjetivos em que somos contaminados, contagiados, pela energia deste homem, deste "super homem", que talvez tenha no seu amor pela humanidade o seu maior poder, o seu atributo inquestionável.

E também a sua dor.

Na tela, efêmera, testemunhamos a glória e o caos deste Deus que escolheu caminhar entre nós. Sua solidão, sua abissal solidão, numa vida dedicada à onipresença.

Há uma poética, uma beleza absurda, uma força colossal nas mãos de um homem que é aço e ternura. E que é capaz de fazer girar um planeta com a mesma facilidade com que se ajoelha aos pés de uma mulher amada, indefeso, em busca de um abraço que possa acalmar seu sofrimento. Um homem invencível, ou quase invencível, mas que não está imune ao riso e à lágrima.

Um filme não de horas ou minutos preciosos. Um filme de SEGUNDOS preciosos. E que tive o prazer transcendental de ver numa sala de cinema que terminou a sua projeção com aplausos calorosos. Uma explosão coletiva, de vários nomes e idiomas anônimos, que parecia celebrar a mesma coisa:

Ele voltou.