Para quem, como eu, não se cansa do delicioso combo gatos+internet, um dos melhores refúgios online sem dúvidas é o icanhascheezburger. Vale pelo menos uma visita por dia para descobrir fotografias e vídeos, tudo com um humor muito peculiar. É o panteão que celebra os bichanos como os verdadeiros donos da internet. Não tem jeito, os gatos são os reis do mundo virtual.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
ILUSTRANDO
Retrato de Mao Tsé-Tung, de Andy Warhol, com contribuição de Dennis Hopper (dois tiros devidamente registrados por Warhol como parte da obra)
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
DIÁRIO DE GATO
"Cat Diaries", filme da Friskies filmado inteiramente por... gatos. Vale cada segundo.
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MINHAS APOSTAS (OU SERIAM TORCIDAS?)
Com a divulgação dos indicados para o Oscar de 2011, registro aqui minhas apostas que são, na verdade, uma torcida. Porque não levo em consideração as questões técnicas ou políticas. É, meramente, quem eu gostaria que vencesse.
Melhor ator: Colin Firth, por "O Discurso do rei"
Melhor atriz: Michelle Williams, por "Blue Valentine"
Melhor ator coadjuvante: Geoffrey Rush, por "O Discurso do rei"
Melhor atriz coadjuvante: Helena Bonham Carter, por "O Discurso do rei"
Melhor roteiro original: "Minhas mães e meu pai"
Melhor roteiro adaptado: "A rede social"
Melhor diretor: Darren Aronofsky, por "Cisne Negro"
Melhor filme: "O Discurso do rei"
Injustiças: como em todas as edições, sempre há algumas injustiças. Lamento por "Blue Valentine" não concorrer a melhor filme, bem como "Never let me go". E, naturalmente, fiquei na expectativa que "Somewhere" pudesse concorrer como roteiro original, filme, direção para Sofia Coppola ou mesmo atriz coadjuvante para Elle Fanning. Fica para a próxima. Agora, é torcer.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
"O SONO É UM TIPO DE ABANDONO"
Desenho de Amarílis Lage, do Blog Cartolina. Lindo demais. Como sempre.
UMA ROADTRIP PARA NÃO ESQUECER TÃO CEDO
Nem todos sabem, mas Joe Hill, um novo autor que tem ganhado muita notoriedade no mundo da ficção de terror, é filho de ninguém menos que Stephen King, o mestre do gênero. Em seu romance de estreia, "A estrada da noite" (já na lista dos mais vendidos do New York Times), Hill constroi uma história eletrizante e absolutamente impossível de largar. Com um texto dinâmico e altamente atmosférico, ele cria cenários, personagens e situações com grande realismo capaz de nos pregar sustos. O personagem principal é Judas Coyne, um ex-roqueiro que aproveita a sua fortuna colecionando objetos mórbidos relacionados a algum tipo de tragédia ou crime. Jude é um eterno solitário, que chama as suas namoradas pelo nome do estado onde nasceram e ignora o seu pai que está no leito de morte. Não é, definitivamente, o herói ideal.
Um belo dia, seu assistente encontra um fantasma à venda num site de leilões. Trata-se de um paletó velho que, segundo o anúncio, vem com o fantasma de brinde. Imediatamente, Jude decide comprar o paletó e, a partir deste momento, sua vida nunca mais será a mesma. Com a chegada da encomenda, vem também o espírito, que Jude encontra sentado numa cadeira de sua casa. De olhos fechados, o fantasma parece cochilar enquanto o roqueiro caminha por um corredor. O fantasma está lá, ele percebe. É real.
Pouco a pouco, Jude descobre que o visitante não foi algo tão acidental quanto ele imaginava e que, talvez, seja hora de pagar pelos erros do passado. Uma dívida a ser acertada. E assim, na companhia do fantasma e de Jude, vamos todos nós por uma estrada de fuga, perigos, sacrifícios e muita tensão que parece não ter fim. Ou, pelo menos, não um final feliz. O que está reservado para Jude, do outro lado da estrada da noite?
Quem ler vai descobrir. Surpreendente e obrigatório para fãs do gênero.
sábado, 22 de janeiro de 2011
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
O AMOR QUE MORRE DIANTE DOS NOSSOS OLHOS
Se um filme como "The Notebook" (Diários de uma paixão) é uma linda (porém completamente fantasiosa) história sobre um amor eterno, "Blue valentine" (me recuso a reproduzir o título brasileiro) é o extremo oposto. Porque é uma história que transpira realidade e não tem pudor em dizer que, sim, o amor nasce como uma explosão que parece durar para sempre, mas como todo ser vivo definha até morrer. Curiosamente, ambos os filmes são estrelados pelo sempre competente Ryan Gosling. Este mais novo conta também com a atuação de Michelle Williams, que está melhor a cada dia que passa.
Apesar de guardar "The Notebook" com imenso carinho entre meus filmes preferidos, tenho que admitir que "Blue Valentine" está mais de acordo como enxergo as relações amorosas hoje em dia. Nós nos apaixonamos, achamos sempre que é para sempre, e nos surpreendemos com a (triste) constatação de que tudo aquilo, antes tão especial e único, também pode ruir sob os nossos pés.
Dirigido belamente por Derek Cianfrance, com muito uso de paralelos e flashbacks para contar a história de um jovem casal quando se apaixona (passado) e o inferno do casamento (presente); este é um lindo filme triste sobre como duas almas podem se encontrar, sentir-se gêmeas, e então se depararem com a estagnação e infelicidade da vida real. Um campo estéril onde o amor não sobrevive e os "tristes namorados" se vêem testemunhas impotentes disso.
No começo do namoro, o desejo incontrolável de Dean (Gosling) em fazer tudo por Cindy (Williams) é apaixonante e corajoso, algo que a encanta imediatamente. Ele toca violão para ela na rua, submete-se à investigação de sua família, apanha e guarda tudo o que ganha de maneira a prometê-la algum futuro.
No entanto, todas estas qualidades que encantaram Cindy, seis anos antes, são praticamente intoleráveis para ela nos dias atuais. Ela não tem mais paciência para ele, até as suas brincadeiras como pai a irritam; ela quer que ele faça algo de sua vida, construa algo, torne-se algo. Dean pareceu, um dia, o melhor rapaz que ela poderia conhecer. Hoje, para Cindy, ele é o pior. E assim é costurada essa melancólica - e muito verdadeira - história: com a ideia de que o amor nasce e morre diante dos nossos olhos.
Não há muito o que contar a respeito do filme. Melancólico, real, mais real do que gostaríamos que fosse. Não está aqui somente a história dos pobres namorados, Dean e Cindy. É a história de todos nós. O relato na tela da nossa dificuldade (ou incompetência) de fazer o amor sobreviver à passagem do tempo. É um filme doído, humano, impossível de não se identificar.
Estamos todos nós ali, inertes, diante de um passado que um dia foi tão bom mas que já não conseguimos lembrar direito. Como Dean e Cindy, naturalmente, não gostaríamos de estar. Queremos os filmes perfeitos, as histórias de amor do cinema, onde tudo é eterno.
Mas a vida real é feita destas lágrimas que ninguém quer chorar, das palavras duras que acabamos dizendo; mágoas, arrependimentos e das fotografias que registram o que parece impossível de se recordar.
Apesar de guardar "The Notebook" com imenso carinho entre meus filmes preferidos, tenho que admitir que "Blue Valentine" está mais de acordo como enxergo as relações amorosas hoje em dia. Nós nos apaixonamos, achamos sempre que é para sempre, e nos surpreendemos com a (triste) constatação de que tudo aquilo, antes tão especial e único, também pode ruir sob os nossos pés.
Dirigido belamente por Derek Cianfrance, com muito uso de paralelos e flashbacks para contar a história de um jovem casal quando se apaixona (passado) e o inferno do casamento (presente); este é um lindo filme triste sobre como duas almas podem se encontrar, sentir-se gêmeas, e então se depararem com a estagnação e infelicidade da vida real. Um campo estéril onde o amor não sobrevive e os "tristes namorados" se vêem testemunhas impotentes disso.
No começo do namoro, o desejo incontrolável de Dean (Gosling) em fazer tudo por Cindy (Williams) é apaixonante e corajoso, algo que a encanta imediatamente. Ele toca violão para ela na rua, submete-se à investigação de sua família, apanha e guarda tudo o que ganha de maneira a prometê-la algum futuro.
No entanto, todas estas qualidades que encantaram Cindy, seis anos antes, são praticamente intoleráveis para ela nos dias atuais. Ela não tem mais paciência para ele, até as suas brincadeiras como pai a irritam; ela quer que ele faça algo de sua vida, construa algo, torne-se algo. Dean pareceu, um dia, o melhor rapaz que ela poderia conhecer. Hoje, para Cindy, ele é o pior. E assim é costurada essa melancólica - e muito verdadeira - história: com a ideia de que o amor nasce e morre diante dos nossos olhos.
Dean e Cindy dividem um amor que será para sempre. Não, infelizmente, não.
Não há muito o que contar a respeito do filme. Melancólico, real, mais real do que gostaríamos que fosse. Não está aqui somente a história dos pobres namorados, Dean e Cindy. É a história de todos nós. O relato na tela da nossa dificuldade (ou incompetência) de fazer o amor sobreviver à passagem do tempo. É um filme doído, humano, impossível de não se identificar.
Estamos todos nós ali, inertes, diante de um passado que um dia foi tão bom mas que já não conseguimos lembrar direito. Como Dean e Cindy, naturalmente, não gostaríamos de estar. Queremos os filmes perfeitos, as histórias de amor do cinema, onde tudo é eterno.
Mas a vida real é feita destas lágrimas que ninguém quer chorar, das palavras duras que acabamos dizendo; mágoas, arrependimentos e das fotografias que registram o que parece impossível de se recordar.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
QUANDO UM PAÍS MAIS PRECISOU DE UMA VOZ...
...Descobriu que o seu rei era gago e que tinha, como adversário, ninguém menos que o tremor que reverberava, da Alemanha, em todo o continente europeu no amanhecer da II Guerra Mundial. Aqui está a maravilhosa - e inacreditável - história real do rei George VI, da Inglaterra, interpretado magistralmente por Colin Firth.
A história é famosa. Na década de 30, o príncipe de Gales abdicou do trono inglês para se casar com uma jovem americana (de passado duvidoso). Isso fez com que o herdeiro seguinte, o duque de York (príncipe Albert), assumisse o trono. Albert, desde jovem, era conhecido pela gagueira que o imobilizava em público, o que fazia com que qualquer apresentação fosse uma tragédia antecipada.
Mas eis que surge, dos confins da Alemanha, uma sombra que se alastra pela Europa como uma doença. Inevitavelmente, a guerra de Hitler chega à Inglaterra e a nação, mais do que nunca, precisa de um líder que os conforte, oriente e guie nos dias negros adiante.
Neste momento surge Lionel Logue (Geoffrey Rush), um ator de teatro frustado que ganhou notoriedade em Londres por suas habilidades com a oratória. Num último recurso da futura rainha Elizabeth I (vivida lindamente por Helena Bonham Carter), Albert se consulta com Lionel e rapidamente descobre seus métodos nada ortodoxos.
Começa assim uma relação conturbada e afetuosa - quase uma terapia - em que Lionel ajuda Albert a descobrir - e derrotar - seus fantasmas: a formalidade, as obrigações, a impossibilidade de abraçar a naturalidade. Albert é tenso, reprimido, marcado pela sina de viver à sombra do irmão (futuro rei). Aos poucos, a terapia rende frutos e cenas memoráveis que nos dão a certeza que, de uma maneira ou de outra, o rei conseguirá realizar seu discurso.
"The king's speech" (O discurso do rei), filme de Tom Hooper, é, essencialmente, de Colin Firth, que a cada novo trabalho parece chegar ainda mais longe. Sua atuação, como o rei gago, é comovente, engraçada, honesta. Ele se entrega, de corpo e alma, para dar vida a este homem atormentado por uma "deficiência" e que se vê diante de uma responsabilidade para a qual jamais foi treinado. Numa cena emblemática do filme, o rei e seu treinador entram em embate. "Por que eu tenho que perder meu tempo com você?", questiona o sempre impertinente Lionel. "Porque eu tenho uma voz!", responde o rei com veemência. "Sim, você tem" sorri Lionel diante do óbvio que só o rei parece não querer entender.
Nós torcemos por ele, como se fossemos um daqueles milhares de cidadãos britânicos, às vésperas da guerra, sem a menor ideia de como seriam os dias seguintes. E suas palavras, afinal, acalmam e encorajam a todos nós.
Sou encantado com a história de "heróis contundidos" e este não é exceção. Ao final, tive vontade de bater palmas para o sr. Firth e torcerei pelo seu Oscar esse ano. Será mais do que merecido.
Em poucas palavras, este é um daqueles filmes que nos fazem chorar de alegria.
Absolutamente imperdível.
A história é famosa. Na década de 30, o príncipe de Gales abdicou do trono inglês para se casar com uma jovem americana (de passado duvidoso). Isso fez com que o herdeiro seguinte, o duque de York (príncipe Albert), assumisse o trono. Albert, desde jovem, era conhecido pela gagueira que o imobilizava em público, o que fazia com que qualquer apresentação fosse uma tragédia antecipada.
Mas eis que surge, dos confins da Alemanha, uma sombra que se alastra pela Europa como uma doença. Inevitavelmente, a guerra de Hitler chega à Inglaterra e a nação, mais do que nunca, precisa de um líder que os conforte, oriente e guie nos dias negros adiante.
Neste momento surge Lionel Logue (Geoffrey Rush), um ator de teatro frustado que ganhou notoriedade em Londres por suas habilidades com a oratória. Num último recurso da futura rainha Elizabeth I (vivida lindamente por Helena Bonham Carter), Albert se consulta com Lionel e rapidamente descobre seus métodos nada ortodoxos.
Começa assim uma relação conturbada e afetuosa - quase uma terapia - em que Lionel ajuda Albert a descobrir - e derrotar - seus fantasmas: a formalidade, as obrigações, a impossibilidade de abraçar a naturalidade. Albert é tenso, reprimido, marcado pela sina de viver à sombra do irmão (futuro rei). Aos poucos, a terapia rende frutos e cenas memoráveis que nos dão a certeza que, de uma maneira ou de outra, o rei conseguirá realizar seu discurso.
Colin Firth dá vida, com beleza, elegância e honestidade, ao rei gago, George VI, nesta história real do nosso passado recente
"The king's speech" (O discurso do rei), filme de Tom Hooper, é, essencialmente, de Colin Firth, que a cada novo trabalho parece chegar ainda mais longe. Sua atuação, como o rei gago, é comovente, engraçada, honesta. Ele se entrega, de corpo e alma, para dar vida a este homem atormentado por uma "deficiência" e que se vê diante de uma responsabilidade para a qual jamais foi treinado. Numa cena emblemática do filme, o rei e seu treinador entram em embate. "Por que eu tenho que perder meu tempo com você?", questiona o sempre impertinente Lionel. "Porque eu tenho uma voz!", responde o rei com veemência. "Sim, você tem" sorri Lionel diante do óbvio que só o rei parece não querer entender.
Nós torcemos por ele, como se fossemos um daqueles milhares de cidadãos britânicos, às vésperas da guerra, sem a menor ideia de como seriam os dias seguintes. E suas palavras, afinal, acalmam e encorajam a todos nós.
Sou encantado com a história de "heróis contundidos" e este não é exceção. Ao final, tive vontade de bater palmas para o sr. Firth e torcerei pelo seu Oscar esse ano. Será mais do que merecido.
Em poucas palavras, este é um daqueles filmes que nos fazem chorar de alegria.
Absolutamente imperdível.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
PARECE MENTIRA...
Mas eis que assim, do nada, a Square-Enix anunciou uma continuação direta de Final Fantasy XIII. Lightning estará de volta, ainda em 2011, em FFXIII-2.
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
sábado, 15 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
A SEGUNDA IMPRESSÃO
O filme "O casamento de Rachel" (Rachel getting married) é um ótimo exemplo de que nem sempre a primeira impressão é a que fica. Os filmes têm disso. Estão vinculados a uma série de fatores que podem implicar em gostarmos ou não deles: momento, estado de espírito, maturidade, experiência. Por isso é tão comum rever um filme que havíamos detestado e nos surpreendermos ou, então, um filme que havíamos adorado na primeira vez para descobrir que ele não era tão bom assim. Coisa de momento. Isso acontece comigo com grande frequência, para o bem e para o mal. Perco e ganho filmes na mesma proporção e, deste quase constante 0 x 0, (re)descubro filmes especiais. E fico feliz por isso.
Com "O casamento de Rachel" foi assim. Achei o filme intragável na primeira tentativa. Não gostei do ritmo do filme, ainda que tenha notado - desde a primeira vez - que o roteiro, atuações e direção mereciam uma segunda chance. Anos depois, revendo o filme, percebi como a minha interpretação inicial havia sido equivocada. Este não é um filme ruim, absolutamente. Mas ele precisa, sem dúvidas, de um pouco mais de esforço. Não é tão palatável ou fácil de assimilar sem alguma reflexão.
A questão toda, imagino, está na concepção de uma família disfuncional. Todos nós, de uma forma ou de outra, temos uma família disfuncional. São irmãos problemáticos, primos, tios, avós, mesmo pais. Acho impossível encontrar alguma família que não tenha os seus "esqueletos no armário". Isso para mim é um fato. No cinema, porém, as famílias - quando não são perfeitas - são "charmosamente disfuncionais", o que geralmente é algo cômico ou dramático sempre com um toque destinado a comover o espectador.
Isso, em hipótese alguma, acontece aqui. A família retratada em "O casamento de Rachel" é disfuncional, problemática e verdadeira como as nossas. E, justamente por isso, seja difícil - em imediato - apreciar os personagens ali. Ninguém sente prazer em observar seus defeitos no espelho, correto? Isso cria aquele desconforto e um desejo desesperado de mudar de assunto, de ares.
Esse é o verdadeiro trunfo do filme de Jonatham Demme ("Silêncio dos inocentes") e estrelado - de forma muito honesta - por Anne Hathaway. A história, como o título sugere, narra o casamento de Rachel. No entanto, a questão toda por trás do casamento (seus preparativos e expectativas) é a angustiosa espera pela filha problemática, Kym (Hathaway), que em breve retornará de uma clínica de reabilitação. A família, na medida do possível, é alegre, amorosa, todos tentando viver ao seu jeito, respeitando as diferenças e seguindo em frente (percebam como a questão racial JAMAIS é tema de discussão aqui).
Mas há um passado trágico do qual Kym é protagonista. Aos 16 anos, completamente entorpecida pelo uso de remédios, Kym sofreu um acidente de carro que acabou matando seu pequeno irmão, Ethan. Ninguém se recuperou verdadeiramente deste trauma e Kym, especialmente, carrega-o como um fardo pessoal que, justamente, acabou levando-a para um precipício ainda mais profundo.
A chegada de Kym deixa a família em constante estado de pânico e expectativa
Por conta disso, a "presença" de Kym é desconcertante. Ácida, agressiva, intransigente, impertinente, egoísta; ninguém sabe o que esperar dela e sua presença pesada na casa cria um constante ambiente de pânico e expectativa. Ela é imprevisível, instável, inconstante, volátil. Num momento, ri, abraça, ama sua irmã e família. Num outro, quase imediatamente, é irônica e violenta. "Você está tão magra; poderia jurar que voltou a vomitar", Kym diz a Rachel enquanto ela prova o vestido de casamento.
Inevitavelmente, Kym provoca um turbilhão de emoções na sua breve estadia em casa. Ela chega, como um furacão, mas sabe do seu prazo de validade. Ela sabe que quer - e precisa - ir embora. Este reencontro provoca uma catarse familiar, uma troca de confissões veladas, a abertura de um baú de mágoas e lembranças que ninguém queria abrir, muito menos na véspera de um casamento. Mas esse parlamento coletivo, de uma forma ou de outra, também se mostra necessário e frutífero sob inúmeros prismas. Kym fere aqueles que ama, para ser ferida de volta e, talvez assim, enxergar mais claramente os seus fantasmas. É o seu jeito e, certamente, o faria diferente se pudesse. Isso é o que faz a atuação de Hathaway tão comovente.
Kym sabe, perfeitamente, dos seus defeitos e da sua capacidade (auto)destrutiva. Ela só não é capaz de fazer diferente, é como se isso estivesse realmente além da sua capacidade. Podemos ver isso em cenas emblemáticas em que ela, alguém tão incrédula e sarcástica, fecha os olhos para repetir - como num ato de fé - as reflexões de auto-ajuda do seu grupo de dependentes anônimos. Kym deseja ser diferente, "normal", se ajustar. Ela só não sabe como fazê-lo.
Anne Hathaway desfila um show de interpretação neste papel caótico, profundo, atormentado - quase "feia" - tão diferente das personagens delicadas e encantadoras com as quais ficou famosa. Dando vida à uma Kym tão perdida, Hathaway mostra outras cores e isso é parte da alma deste filme. Os olhares, sorrisos, lágrimas; o desejo desesperado de viver - mesmo que isso implique em atentar contra a própria vida - Kym é um ser nu, caminhando solitário entre aquelas pessoas que não a compreendem e que, provavelmente, nunca compreenderão.
Anne Hathaway desfila um show de interpretação neste papel caótico, profundo, atormentado - quase "feia" - tão diferente das personagens delicadas e encantadoras com as quais ficou famosa. Dando vida à uma Kym tão perdida, Hathaway mostra outras cores e isso é parte da alma deste filme. Os olhares, sorrisos, lágrimas; o desejo desesperado de viver - mesmo que isso implique em atentar contra a própria vida - Kym é um ser nu, caminhando solitário entre aquelas pessoas que não a compreendem e que, provavelmente, nunca compreenderão.
Mas, como nas nossas famílias disfuncionais (e verdadeiras), há espaço para a mágoa, sim, e para a redenção. Porque nós também amamos aqueles familiares que nos fazem mal, que nos ferem. É parte do contrato, da lógica que sustenta qualquer família disfuncional. Não há exílio, longe disso, mantemos perto aquelas pessoas que, normalmente, iríamos querer longe. Isso é ilustrado lindamente numa cena de cortar o coração em que Rachel dá um banho em sua irmã, Kym. Um momento comovente, imensamente delicado, decisivo. "Estou tão feliz de você estar aqui, com a gente", diz Rachel para sua irmã.
Se Kym pudesse, se fosse capaz disso, ela feria tudo diferente
Não, definitivamente, não é fácil gostar de "O casamento de Rachel". Como a própria Kym, o filme se esforça para que não gostemos dele. Basta não ceder a esse jogo para descobrir um filme, mais que bonito, honesto e muito bem feito. Um filme realmente necessário.
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011
"SOMEWHERE ONLY WE KNOW"
Em breve, nos cinemas, uma animação inédita (felizmente 100% 2D) da clássica história infantil "Winnie the Pooh". É simplesmente bom demais para ser verdade...
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
A DUALIDADE DO CISNE
"Cisne negro" (Black Swan), novo filme de Darren Aronofsky e forte candidato ao Oscar, é muito mais que cinema. É filosofia pura, psicologia em forma de nitroglicerina, um filme que parece pulsar na tela como um ser vivo. É mais que arte, é um acontecimento. Natalie Portman dá vida - gloriosamente - à frágil bailarina Nina, que se vê repentinamente diante da maior oportunidade de sua vida: viver a cisne rainha de "O lago dos cisnes".
Com o desafio, fronteiras pessoais a serem vencidas: ela precisa dar graça ao cisne branco, Odette, algo que imediatamente consegue fazer. Igualmente, precisa dar vida ao cisne negro, o que exige imensa libertação física e quase sexual. Aqui, para Nina, parece haver uma muralha impedindo-a de encontrar o sucesso. Nessa jornada, extremamente visceral, de mutiliação física e emocional, ela precisa ser princesa e monstro até um ponto em que tudo parece fugir ao controle.
Num jogo brilhante de espelhos e constantes dualidades - sendo branco e preto a mais óbvia - Aronofsky constrói uma trama imensamente complexa em que acompanhamos não somente a trajetória de Nina, como bailarina, mas o caminho da sua própria loucura. Para se transformar em Odile, o cisne negro, ela precisa recorrer a extremos, dando vida - quase literalmente - a um alter ego sombrio e transgressor. Vagarosamente, a história de Nina começa a se misturar com a história dos próprios cisnes e, quando menos percebemos, já não é possível separar ficção e realidade, vida e espetáculo, inocentes e culpados. Diante do espelho, Nina e seu reflexo parecem se mover em compassos distintos.
Natalie Portman vive Nina, uma frágil bailarina que precisa quase renascer para dar vida aos cisnes de Tchaikovsky.
Este é um filme que, como a dança, é banhado em lágrimas, suor e sangue. Difícil de ser relatado, não há palavras suficientes; este filme precisa ser visto, vivido. É uma experiência quase interativa, uma vez que as cenas costuradas com maestria parecem torcer e contorcer os músculos do próprio espectador. Natalie Portman é uma aparição e seu ponto máximo - a final metamorfose no lindo pássaro negro - é uma cena que permanecerá em minha mente por muitos anos.
Perfeccionista, Nina quer viver seu papel da forma mais intensa e verdadeira possível. Uma dança perigosa com ela mesma sobre um palco que parece construído em cima de cacos de vidro e espelhos quebrados. Esses fragmentos - que parecem ressoar uma alma igualmente fragmentada - revelam imagens confusas, ora nítidas ora camufladas; dia e noite entrelaçados em passos ágeis que parecem surgir não de um, mas de dois pares de pernas. E asas. É a dualidade do cisne.
Palmas incessantes, incansáveis, para o sr. Aronofsky.
Ele merece cada uma delas.
sábado, 8 de janeiro de 2011
ELES TÊM TUDO. MENOS TEMPO
Este é, possivelmente, um dos filmes mais tristes que vi em muitos, muitos anos. Estou falando de "Never let me go", dirigido por Mark Romanek, baseado no livro homônimo de Kazuo Ishiguro que foi considerado pela Time o "melhor romance da década". A história, que mistura realidade e ficção científica, transpira melancolia ao longo de todo o filme. É tudo muito simples e restrito, num minimalismo percebido em diálogos contidos e enquadramentos de câmera que tentam muito mais ser fotografias do que movimento. Ao mesmo tempo, é tudo tão complexo, tão profundo, que emudecerá a muitos. Emudeceu-me imensamente.
No elenco, Keira Knightley, Carey Mulligan e Andrew Garfield. Eles dão vida a três crianças que habitam um imponente orfanato no interior da Inglaterra. Tommy (Garfield), Ruth (Knightley) e Kathy (Mulligan) são amigos de infância e, rapidamente, desenvolvem um complexo triângulo afetivo que não se romperá com a passagem dos anos.
Acontece que o belo orfanato é, na verdade, um "celeiro" onde clones são criados de forma íntegra e saudável para prover seus "originais" com os órgãos que precisarão eventualmente. Assim, sem segredos, sem mistérios, essas crianças são encarceradas - ainda que muito bem cuidadas - e apresentadas a uma missão de vida pré-determinada. Todos precisam se preparar para "completarem" (o eufemismo elaborado pela organização responsável por todo o processo) e, assim, deixarem de existir em função dos seus originais. A missão máxima, o sacrifício final.
Para alguns, há ainda a possibilidade de trabalhar como assistentes, cuidando dos demais doadores, o que prorroga um pouco o tempo até "completarem". Mas, inevitavelmente, esses jovens se deparam com as mesmas dores, descobertas, dúvidas e deleites de uma vida normal, "real": sonhos, desejo, paixão, ciúmes. Mas o que fazer com essas vidas "de segunda categoria"? É tudo em vão?
Eis aqui um filme muito difícil de explicar, resenhar. Tenho reflexões silenciosas, pessoais, que não consigo converter em palavra escrita. Essa é uma história erguida, fundamentalmente, na (angustiosa) reflexão sobre "o que estamos fazendo com o nosso tempo?". Todos ali estão vivendo, esperando o momento de "completar", para garantir a continuidade de uma outra vida. Uma é mais importante que a outra. Mas o que dizer do tempo? Ele passa para todos. E todos, sem exceção, "completamos" não é mesmo?
Muitos vão odiar este filme. Muitos vão se perder nele.
Para mim ele é devastador.
Para mim ele é devastador.
Lindamente devastador.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
PARA VER E OUVIR: J.S. BACH ("VARIAZIONI GOLDBERG BWV 988: ARIA DA CAPO - 1981")
Ao piano, Glenn Gould.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
HAPPY NERD YEAR
Começo o ano assistindo cada minuto da trilogia extendida de "O Senhor dos Anéis" que, além de oferecer os filmes em novas versões com mais de 3 horas de duração (cada), ainda está recheada com mais de 12 horas de material extra, entre documentários, imagens, vídeos e segredos da produção. Vale cada real e cada segundo investidos. É como viver a experiência na Terra-Média novamente; sofrer com o fardo e a responsabilidade daquelas pessoas que deixaram tudo para trás por "algo que valia se lutar". E me preparo, desde já, para a coroação de Aragorn. "Meus amigos, vocês não se ajoelham para ninguém", diz o novo rei aos pequeninos hobbits. Choro todas as vezes.
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
AO ANO QUE VEM. OU SAUDADES DE 2010
2009 foi um ano de sombras e retrocessos e será esquecido, um dia, espero. 2010 foi o oposto; um ano de paz, serenidade, iluminação e conquistas abundantes. Deixará muita, muita saudade. A 2011 que chega, uma reflexão repetida para um ano inédito. Mas tem funcionado até hoje:
“Mantenha-se simples, bom, puro, sério, livre de afetação, amigo da justiça, temente aos deuses, gentil, apaixonado, vigoroso em todas as suas atitudes. Lute para viver como a filosofia gostaria que vivesse. Reverencie os deuses e ajude os homens. A vida é curta.”
(Marco Aurélio)
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
ALICE E O FANTASMA
Quando Alice completou 18 anos, vivia um dos momentos mais complicados e decisivos de sua vida. Sentia-se presa, perdida, sem rumo. Devia escolher uma universidade, mas não tinha a menor ideia do que queria fazer de sua vida. Sonhava em desenvolver uma habilidade com a qual pudesse expressar o turbilhão de ideias que fervilhavam em seu peito, mas julgava-se incapaz de fazer isso. Achava medíocre tudo o que fazia. Suas fotos, poemas breves, desenhos com carvão. Alice se sentava à mesa e às vezes trabalhava por horas para então rasgar tudo em mil pedaços. Gritava em silêncio, olhando-se no espelho, todas as manhãs; os olhos avermelhados pela insônia recorrente, umedecidos por lágrimas que ansiavam por liberdade. Alice sentia-se só, mesmo entre os seus melhores amigos. Queria sair de sua cidade, seu país. Precisava deixar seus pais, precisava encontrar seu caminho.
Numa manhã qualquer, levemente nublada, Alice viu o sol nascer novamente na sua janela. Deitada em sua cama, num amaranhado de lençóis e travesseiros onde lutava desesperadamente para se aninhar, Alice já havia perdido a conta de quantas vezes acompanhou a passagem das horas, as madrugadas perdendo cor, o contorno do dia ganhando as paredes do seu quarto. Sentou-se, com desleixo, na beirada de sua cama e levantou o seu corpo com esforço, os pés descalços sobre o assoalho frio que a fez sentir calafrios. Sentia como se pesasse uma tonelada, ainda que seu peso real não fosse muito mais que 55 quilos.
Não devia ser ainda 6 da manhã e Alice percebeu que a casa dos seus pais ainda estava submersa naquela penumbra que antecede o começo oficial do dia. As portas fechadas, aquela atmosfera de sono que somente os insones conseguem perceber. A sensação de que todos no mundo dormem menos você. Alice sentia o sono dos outros em sua pele.
Caminhou vagarosamente para a cozinha, onde esquentou água numa chaleira para fazer café. Quando começaram os primeiros choros da água borbulhante, Alice correu para fechar a porta e evitar acordar a casa. Praguejou como se sentisse raiva, como se a chaleira fosse uma pessoa que gritava apenas pela vontade de pirraçá-la. E isso a angustiava porque, mais do que tudo no mundo, Alice temia enlouquecer.
O cheiro inebriante de café fresco tomou conta da cozinha, invadindo cada poro do corpo de Alice, acalmando-a como se ela pudesse levitar. Alice sabia dos efeitos medicinais do café em seu corpo e corria para ele como se fosse um antídoto para as suas dores mais secretas. Cada gole daquele líquido negro, fervente, descia a sua garganta como remédio e Alice sentia como se todo o caos do seu mundo ainda tivesse esperança. Como se as paredes ruídas estivessem se reconstruíndo, como mágica.
Com a caneca fumegante em mãos, Alice saiu da cozinha em direção ao grande sofá da sala. Terminaria ali o seu café onde, esperava, também adormeceria por algumas horas. Às vezes dava certo. Parou no meio do trajeto, porém, imobilizada por algo que até então não tinha notado. Havia um homem sentado no sofá, de costas para ela. A caneca se espatifou no chão, café derramado por todos os lados, Alice com as duas mãos sobre a boca ainda que não tivesse a menor intenção de gritar.
Vencido o susto, Alice caminhou a passos de gato, em direção à sala, contornando o sofá com o cuidado de um piloto de corrida, para ver um senhor de idade, bem vestido, de cabelos penteados, bigode aparado, sentado no sofá com os olhos fechados, como se cochilasse. Ele tinha uma daquelas caras, destas que conseguimos nos afeiçoar sem esforço. Parecia vindo de uma máquina do tempo, com suas roupas dos anos 50 e aquela aparência de limpeza, como se tivesse acabado de sair do banho e cheirasse à colônia cara.
Alice não fazia a menor ideia de quem fosse aquele homem mas algo dentro dela, completamente inexplicável, deu a Alice a certeza de que aquele era o seu avô.
Ela não o conhecera muito bem e tinha poucas lembranças dele. O avô de Alice havia morrido pouco antes de ela completar quatro anos e todas as memórias eram um grande emaranhado de imagens estáticas, borradas. Mas Alice poderia jurar que aquele era o seu avô. Ela era meio estranha, sabia, e tinha destas mediunidades. "Gostava de falar até com as árvores", sua mãe sempre dizia nas conversas para ilustrar o jeito diferente que Alice tinha para lidar com os lugares, pessoas e situações. Não havia dúvidas, aquele era o seu avô.
Sem medo algum daquele fantasma que parecia irradiar uma luz tênue na penumbra da sala, Alice aproximou-se com o receio de uma criança curiosa, em direção ao sofá. Sentou-se ao lado do homem, que abriu os olhos e sorriu para ela um sorriso que ela jamais havia conhecido. Um sorriso de bondade incandescente. Ele segurou em sua mão e os dois ficaram ali, trocando olhares, naquele parlamento silencioso e eloquente como se estivessem navegando pelas vidas e histórias um do outro, sem a necessidade de palavras banais.
Sem a menor cerimônia, Alice se aninhou no sofá, deitando a cabeça sobre o colo do seu avô que pouco depois começou a fazer carinhos delicados em sua cabeça. Movimentos circulares aleatórios em sua testa e cabelos. Alice fechou os olhos, como se estivesse submersa numa névoa que parecia tomar o seu corpo inteiro numa onda inédita de relaxamento.
Alice abriu os olhos. Sua mãe tocava seu ombro, levemente. "Porque dormiu no sofá, minha filha?".
Sentou-se, ainda inebriada, como se tivesse dormido por 100 anos. Olhou para os lados, mas encontrou a sala de sempre, apenas sua mãe estava lá, observando-a com olhos carinhosos. Inventou qualquer desculpa para a caneca quebrada, mas sua mãe parecia pouco se importar com aquele incidente. E sentiu aquela desolação de quem acorda de um sonho bom, percebendo a ingrata surpresa da realidade. Queria voltar a sonhar e encontrar o seu avô.
Abraçou sua mãe por um longo tempo. Pediu desculpas. Sentia-se à deriva. E voltou para o seu quarto, caminhando com a pressa de um turista, para mais um festival de repetições que seria o seu dia. Havia acordado, não havia mais nada a se fazer.
Mas eis que encontrou, sobre o seu travesseiro, um postal muito antigo, que quase se desfazia em suas mãos. Na foto, todo o esplendor do Coliseu, em Roma. Era um cartão-postal que o seu avô havia enviado, muitos anos atrás, para o seu pai. O fundo, amarelado, revelava uma caligrafia bonita, destas que não se vê mais hoje em dia, com um relato breve de dias ensolarados numa cidade incrível que transpirava história. A tinta, gasta, fazia com que as palavras quase desaparecessem.
A última linha, porém, estava escrita num azul vivo, recente, naquela mesma linda caligrafia de antigamente. Alice correu os dedos sobre as palavras, borrando-as levemente.
A última linha, porém, estava escrita num azul vivo, recente, naquela mesma linda caligrafia de antigamente. Alice correu os dedos sobre as palavras, borrando-as levemente.
E sorriu, com os olhos umedecidos e o coração tomado por toda a serenidade de que precisava.
"Tudo vai dar certo, meu bem".
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
AS CRIANÇAS ESTÃO BEM
Como é difícil falar deste filme tão fácil de se encantar. Só consigo imaginar reflexões belas a respeito deste filme tão especial que por pouco não ignorei. "The kids are all right" (Minhas mães e meu pai) é uma das melhores surpresas-indie que vi nos últimos tempos. Poderia ser um irmão de alma de "Sideways", filme com uma energia muito semelhante e que me irradiou de forma muito parecida ao final. Há muito e muito pouco a se dizer sobre "The kids are all right", mas posso resumir muito bem ao dizer sem equívoco que este é um filme absolutamente imperdível.
A história, belamente dirigida por Lisa Chlolodenko, narra a vida nada convencional de uma moderna família americana. Nic (Annete Bening) e Jules (Julianne Moore) são casadas e resolveram ter dois filhos via inseminação artificial - e a partir do mesmo doador. Desta empreitada, nasceram Joni (filha de Nic) e Lazer (filho de Jules). Quando Joni faz 18 anos decide procurar o doador e assim conhecem Paul (Mark Ruffalo), um neo-hippie boa praça que deu certo na vida. Ele é dono de um restaurante da moda, vive de maneira ecologicamente correta e chega como um furacão na vida de Nic e Jules, mudando tudo de maneira aparentemente irreversível.
No começo tudo vai muito bem e, de uma forma ou de outra, todos se enamoram com a construção desta família improvável. Mas rapidamente esta frágil estrutura se desfaz - de maneira quase previsível - numa trama de choros e risos que dá uma alma singular e muito honesta ao filme. Todos se relacionam de formas distintas com Paul e isso eventualmente cria uma série de conflitos que faz com que a anteriormente "perfeita" família de Nic e Jules pareça estar ruindo também.
Eis aqui um filme despretensioso e completamente adorável. O elenco brilha do começo ao fim com atuações muito verdadeiras que iluminam a história de quase duas horas. Uma comédia com toques de drama, um drama com toques de comédia. Mas não faz sentido buscar um gênero aqui, porque há espaço para tudo.
"The kids are all right" é um filme humano, sincero, engraçado, comovente, tocante, apaixonante sobre a vida possível. A vida que cada um pode realizar, cada um ao seu jeito. Sem expectativas, sem padrões, preconceitos ou ideais de perfeição.
As crianças estão bem, sim.
Todos estão bem.
AMOR PLATÔNICO
Sara Thomas, de Serendipity. Paixão à primeira vista, ao som de "I don´t want to wait in vain", de Annie Lennox. Sara, contemplativa, cruzando a baía de São Francisco. Ela vai se casar com um rockstar; vida de sonhos, viagens pelo mundo. Mas algo dentro dela, muito secreto, a impede de esquecer um estranho que conheceu comprando luvas na véspera de Natal. Conversas sem compromisso, patinação no gelo numa noite mágica, um café inesquecível, um par de luvas separadas. Quase anônimos, nunca esquecidos. Sara é o tipo de mulher que vira a nossa vida de ponta cabeça sem esforço. Ela acredita nas estrelas, nos sinais, nos astros, no destino. Nada é por acaso, não há coincidências. Há uma linha que une ou separa as pessoas e essa é sua religião. Apaixonante sob todos os pontos de vista. Linda sem intenção, engraçada, destemida. Sara invade uma cerimônia de casamento que nunca aconteceu. Lágrimas no olhos. Ela sempre esteve certa. Feliz casualidade, uma nota de cinco dólares e Amor nos tempos do cólera. Neve e calor. Mulher e criança. Sei exatamente o que Jonathan estava pensando. Não dá para tirar Sara da cabeça.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
PARA VER E OUVIR: PHOENIX ("LOVE LIKE SUNSET - PART 2")
Ainda tentando transpirar a embriaguez de "Somewhere". Mas sei que essa é uma catarse sem prazo de validade.
2010 - FILMES QUE FICARAM
Indiscutivelmente, o ano de 2010 foi um celeiro de filmes inesquecíveis. Foram muitos os filmes impactantes, relevantes, comoventes, engraçados, indispensáveis que assisti desde janeiro. Faço aqui uma singela retrospectiva daqueles que vi esse ano (tenham estreado em 2010 ou não) e me tocaram de alguma maneira. Filmes que ficam. Filmes que ficaram.
Direito de Amar (A Single Man)
A Fita Branca (Das Weisse Band)
O Golpista do Ano (I love you Phillip Morris)
A Origem (Inception)
O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas)
Onde vivem os monstros (Where the wild things are)
O segredo dos seus olhos (El secreto de sus ojos)
O fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox)
A Estrada (The Road)
Tudo pode dar certo (Whatever works)
Zumbilândia (Zombieland)
Um lugar qualquer (Somewhere)
Minhas mães e meu pai (The kids are all right)
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domingo, 26 de dezembro de 2010
SOFIA CONSEGUIU NOVAMENTE
Johnny Marco tem uma ferrari que ele gosta de rodar em círculos, como um carrinho de controle remoto. Johnny tem mulheres lindas ao seu redor, que se despem e dançam para o seu entretenimento. Johnny Marco tem o mundo aos seus pés, as luzes dos holofotes, a curiosidade da imprensa e milhões de dólares de sua carreira de ator bem sucedido de Hollywood. Como um príncipe, vive acastelado no clássico hotel Chateau Marmont, em Los Angeles, onde atravessa seus dias que correm de forma circular, como repetições, a base de whisky, remédios e falsas companhias. Johnny Marco tem tudo. E, ao mesmo tempo, não tem nada. O que Sofia Coppola quer nos dizer com esse seu novo filme? Onde ela quer chegar? Melancólico e agridoce, "Somewhere" (Um lugar qualquer) não é trágico como "As Virgens Suicidas", frenético como "Maria Antonieta", tampouco, comovente como "Encontros em Desencontros" mas, como tudo na obra de Coppola, carrega a sua marca registrada: a crônica minimalista e silenciosa de protagonistas solitários em busca do entendimento de suas próprias vidas.
Stephen Dorff vive Johnny, um ator beirando os 40 anos de idade, que se vê preso num universo solitário, vazio e sem rumo. Pobre menino rico, sem conseguir se envolver verdadeiramente com ninguém, Johnny caminha como um morto-vivo, entorpecido por remédios, álcool e pura melancolia. Falta de destino. Sem um lugar para ir. Mora num hotel, onde é um ilustre hóspede bajulado constantemente por homens e mulheres em busca de se aproveitar de sua fama e riqueza. Os seus dias são inexpressivos, superficiais, e ele parece correr as ruas de Los Angeles anestesiado.
Tudo isso muda quando sua filha, Cleo (Elle Fanning), vem morar com ele. Sua ex-mulher vai viajar e deixa a filha sob seus cuidados. A chegada de Cleo é, justamente, um ponto de mutação e iluminação. O filme ganha novos contornos, ganha música, e descobrimos que, na companhia de sua filha, Johnny Marco encontra a melhor pessoa que poderia ter ao seu lado. Algo reconhecido num momento comovente do filme em que percebemos a breve - e fundamental - mudança que a menina de 11 anos fez na vida de seu pai que, aparentemente, já havia dado tudo por perdido. "Me desculpe por não estar por perto", ele confessa, abafado pelo barulho das hélices de um helicóptero.
A convivência com Cleo promove uma revolução silenciosa na vida de Johnny que, num momento final de catarse, se questiona seu papel no mundo e decide, enfim, sair de sua mimada letargia e fazer algo a respeito de sua vida. Ele se descobre feliz, completo, na companhia de sua filha. E a repentina saída dela escancara o vazio completo que ele somente parecia suspeitar. Enquanto Cleo estava por perto, Johnny redescobriu o sorriso, a paz de espírito; não bebeu, não se drogou. A solidão expõe as suas feridas abertas, que parecem pulsar enquanto ele resolve ligar, justamente, para a sua ex-mulher. "Eu não sou sequer uma pessoa", ele confessa.
Mas também a falta de sua filha ilumina Johnny com algumas certezas tímidas. Ele percebe que ainda que não saiba qual seja o seu lugar, pelo menos não é mais trancafiado nas paredes daquele hotel impessoal. Johnny decide que é hora de rumar a algum lugar seu. "Somewhere".
A convivência com Cleo promove uma revolução silenciosa na vida de Johnny que, num momento final de catarse, se questiona seu papel no mundo e decide, enfim, sair de sua mimada letargia e fazer algo a respeito de sua vida. Ele se descobre feliz, completo, na companhia de sua filha. E a repentina saída dela escancara o vazio completo que ele somente parecia suspeitar. Enquanto Cleo estava por perto, Johnny redescobriu o sorriso, a paz de espírito; não bebeu, não se drogou. A solidão expõe as suas feridas abertas, que parecem pulsar enquanto ele resolve ligar, justamente, para a sua ex-mulher. "Eu não sou sequer uma pessoa", ele confessa.
Mas também a falta de sua filha ilumina Johnny com algumas certezas tímidas. Ele percebe que ainda que não saiba qual seja o seu lugar, pelo menos não é mais trancafiado nas paredes daquele hotel impessoal. Johnny decide que é hora de rumar a algum lugar seu. "Somewhere".
A visita inesperada de sua filha, Cleo, transforma o mundo de Johnny Marco por completo. Mas onde Sofia Coppola quer chegar com "Somewhere"?
Definitivamente, "Somewhere", ainda que irmão de alma de "Lost in Translation", não é tão imprescindível quanto o filme que deu à Sofia o Oscar de melhor roteiro original. "Somewhere" mostra uma nova cor, um novo traço de Sofia. Um lado mais maduro, sem dúvidas, mais árido, melancólico, certamente mais europeu que americano. Ela não abusa, jamais, de suas cenas, mantendo quase todo o filme em planos estáticos, com diálogos breves que dão lugar a metáforas e pouco uso de trilha sonora (algo que me causou certo estranhamento, já que é tradição em seus filmes a utilização de músicas emblemáticas para a construção de cenas e sequências).
O elenco, como sempre, é bem escolhido e Dorff e Fanning brilham juntos em grande sintonia, como se fossem realmente pai e filha ligados (e separados) pela falta de convivência. A ausência de Lance Accord (diretor de fotografia dos seus últimos 3 filmes) também não me passou despercebida. Senti falta, sem dúvidas, da iluminação poética e profunda de Accord que sempre enriqueceu os filmes de Sofia.
O elenco, como sempre, é bem escolhido e Dorff e Fanning brilham juntos em grande sintonia, como se fossem realmente pai e filha ligados (e separados) pela falta de convivência. A ausência de Lance Accord (diretor de fotografia dos seus últimos 3 filmes) também não me passou despercebida. Senti falta, sem dúvidas, da iluminação poética e profunda de Accord que sempre enriqueceu os filmes de Sofia.
Em hipótese alguma me permito sequer cogitar que "Somewhere" seja um filme ruim. Primeiro, pelo capricho mimado de fã. Segundo, porque fica evidente que o filme não é tão acessível quanto os últimos. "Somewhere" é um filme que pede um pouco mais de paladar, um pouco mais de atenção, para que ele germine em nossas mentes. "Somewhere" não é um filme para ser visto. É um filme para ser REvisto.
"Um lugar qualquer", um filme sobre parenthood. Apenas isso. Ou tudo isso.
A grande discussão proposta por Sofia Coppola é a paternidade/maternidade, sem dúvidas, e também esse tema transita pela alienação e o limbo que Sofia sempre propõe em seus filmes. Pais "perdidos", filhos "perdidos". Não necessariamente. E aí entra Elle Fanning que brilha, como uma estrela doce e incandescente na tela. O nosso desejo imediato é de correr para ali, adotá-la, provê-la com carinho, atenção e curiosidade para suas histórias e atividades. Numa cena de profunda comoção vemos esta menina absolutamente rara, especial e encantadora engolindo um choro tão sentido porque sua mãe não disse quando voltaria e seu pai viaja o tempo inteiro. Um choro angustiado, de solidão antecipada. É uma das cenas mais comoventes do filme e que, como o próprio filme, pode ser partida em muitas camadas de reflexão. "Pais sejam bons para as suas filhas", poderia dizer John Mayer com a sua emblemática canção "Daughters"; "mães sejam boas para as suas filhas também". É a mais pura verdade.
Johnny descobre que precisa encontrar um lugar seu. Um destino. Um lugar qualquer.
"Somewhere", filme sobre o qual nutri tantas expectativas, surge, para mim, como um filme que mostra um pouco mais de Sofia Coppola como diretora, mulher e mãe. Seu filme, centrado na reflexão da responsabilidade de pais sobre os seus filhos, talvez seja um ato muito pessoal de Sofia sobre a sua própria maternidade recente.
Este não é um filme sobre garotas adolescentes, sobre paixões inesperadas numa cidade improvável ou delírios de uma rainha infantil. É um exercício de arte sobre quem somos nós, primeiramente diante de nossas vidas, e, naturalmente, diante das vidas daqueles que trazemos ao mundo. O compromisso. A ideia de que esse é um contrato para sempre, imutável, sem espaço para negociação. E, possivelmente, o melhor contrato já concebido. "Os filhos são as melhores pessoas que você conhecerá", diz Bob à Charlotte, em "Lost in Translation". E, justamente sob esse prisma, "Somewhere" é um triunfo. E assim sorrio, diante dos créditos finais, com a certeza inquestionável de que Sofia conseguiu novamente.
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