sexta-feira, 30 de julho de 2010
quinta-feira, 29 de julho de 2010
PARA VER E OUVIR: RADIOHEAD ("FAKE PLASTIC TREES")
Obs.: Não é o clipe oficial da música. Mas combinou com o dia, hoje.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
"O QUE NÃO PARECE VIVO, ADUBA. O QUE PARECE ESTÁTICO ESPERA"
Leitura
Adélia Prado
Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras,
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.
DEUS, OS GATOS E A IRRESISTÍVEL PIRRAÇA
Eu não tenho a menor dúvida - há um bom tempo - que os gatos são uma das melhores invenções de Deus. Ele estava muito inspirado no dia que os inventou, porque os muniu de personalidades incríveis, manias engraçadas e características físicas e de personalidade que fazem deles seres absolutamente adoráveis. Mas tenho para mim que o Criador, como nós, também não resistiu à tentação de pirraçar um pouco alguns pobres bichanos. As fotos abaixo falam por mim. Qualquer semelhança com um famoso ditador alemão seria mera coincidência? Ou o que Ele tinha em mente quando fez isso?
Tadinhos...
terça-feira, 27 de julho de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
IMPROVÁVEL FILME PERFEITO
Esses dias cheguei à conclusão que "Indiana Jones e a Última Cruzada" é o filme perfeito. Claro, adoro filmes cult, indie, metidos às filosofias; profundos, repletos de devaneios melancólicos; comédias inteligentes; filmes complexos, esquisitos e difíceis de entender. Adoro. Mas, para mim, ao final do dia, não dá para errar com "A Última Cruzada". Porque está tudo ali. Pelo menos, tudo o que é preciso para duas horas do mais puro, profundo e verdadeiro entretenimento (ajuda muito, também, ser fã das aventuras do famoso arqueólogo).
O famoso arqueólogo nascendo das estripulias de um escoteiro irresponsável
No primeiro ato, vemos o jovem Indy em uma de suas primeiras errâncias como escoteiro. Ao esbarrar, acidentalmente, em ladrões que acabam de encontrar uma relíquia "que deveria estar num museu" ele não pensa duas vezes em enfrentá-los de igual para igual. No percurso extremamente acidental, afunda num poço cheio de serpentes (referência à sua fobia maior no futuro), machuca o rosto com um chicote (duas referências imediatas à famosa arma e à cicatriz no queixo de Harrisson Ford) e acaba vencido por um homem que, entendemos, será para sempre uma referência central no imaginário de Indiana: um destemido aventureiro que tenta consolá-lo ao depositar seu próprio chapéu (mais uma referência) na cabeça do menino derrotado enquanto diz: "não é porque você perdeu hoje, garoto, que precisa se acostumar com isso". Com o pai - presente/ausente - estudando no escritório, naquele instante são formadas as bases do herói incrível que ele viria a se tornar: um menino solitário, órfão de mãe, que descobre em sua independência prematura o caminho não apenas da sua liberdade, mas da sua própria carreira.
Sean Connery e Harrisson Ford como uma das melhores duplas que o cinema já viu
Em seguida, já no tempo presente (década de 30), vemos o sempre assediado professor universitário diante de uma nova aventura: seu pai, o famoso professor Henry Jones (interpretado magistralmente por Sean Connery), desaparece enquanto investigava o mistério do Santo Graal, em Veneza. Indy recebe o diário de seu pai, com valiosas anotações de toda uma vida, e parte para a Itália em companhia do sempre adorável e desorientado Marcus Brody, que rende, mais adiante, uma cena simplesmente hilária. Em Veneza, os dois são recebidos pela charmosa femme fatale Elza Schneider, a professora alemã que ajudava o pai de Indiana Jones e a última pessoa que o viu antes do seu desaparecimento. Indiana e a perigosa loira naturalmente se envolvem amorosamente e partem para a Áustria onde, supostamente, o velho professor está sendo mantido prisioneiro. Mal sabe Indy que Elza está levando-o para uma armadilha já que ela, como era de se suspeitar, é uma agente do III Reich.
Indy sabia que não deveria confiar em ninguém em Veneza. Elza parecia "confiável".
Num castelo medieval Indy encontra seu pai, vivido por Sean Connery, e que é responsável pela maioria das cenas inesquecíveis do filme. Primeiro, ao arrebentar um vaso chinês na cabeça do filho (achando que ele era um nazi) e, mesmo com Indiana cambaleando pela dor, o velho fica radiante ao constatar que se tratava de uma imitação. Depois, na fuga de moto, seu rosto de orgulho ao ver o filho empunhar uma lança como um cavaleiro medieval. E, mais adiante, a famosa cena em que ele espanta pássaros na praia para derrubar um caça alemão que os perseguia. Feliz da vida, com o guarda-chuva nos ombros (como uma espada), ele completa sua atuação com a frase famosa de Carlos Magno: "que meu exército sejam as pedras no chão e os pássaros no céu". O deleite de ver Sean Connery e Harrisson Ford como pai e filho é impagável.
Indiana Jones frente a frente com ninguém menos que o próprio Adolf Hitler que, numa das cenas mais emblemáticas do filme, interpreta que Jones estava li apenas para pedir um autógrafo.
O terceiro ato começa com a fuga da Áustria. Não antes de Indy tentar despistar os nazis ao dizer que Marcus Brody, que "fala mais de 12 idiomas e conhece todos os costumes", já está há dois dias no Egito, provavelmente com o cálice em mãos. E eis que vemos o pobre Brody em Iskanderum, sendo assediado por vendedores de galinhas e perseguido por temíveis agentes da Gestapo. Indy quer ir ao seu encontro, mas seu pai o convence a voltar justamente para Berlim, no meio da boca do leão, para recuperar o seu diário onde ele anotou as respostas para os desafios do Graal. Na capital alemã, Indy se vê engolido por uma parada do orgulho ariano e inevitavelmente esbarra no próprio Hitler que, ao pegar o diário em mãos, pensa que Jones é mais um jovem oficial em busca de um autógrafo. É simplesmente bom demais para ser verdade.
Um cavaleiro espera por 700 anos para passar adiante a responsabilidade de proteger o Santo Cálice
Quando saem (ou melhor, fogem) de Berlim, Indiana Jones e seu pai tomam o caminho para o Oriente Médio onde, supostamente, está o Graal. No caminho, uma batalha aérea e uma corrida desesperada contra um tanque em pleno deserto: a famosa cena que culmina com a "morte" de Indiana Jones, que retorna para ver seu pai, Brody e Sallah, lamentando a perda em mais um momento engraçado e inesquecível. É o começo do ato final, em que todos chegam ao templo para enfrentar os três desafios mortais que aguardam quem tenta encontrar a taça utilizada por Jesus Cristo em seu último encontro com os apóstolos.
Já perdi as contas de quantas vezes vi esse filme e ele me emociona como na primeira vez, quando minha mãe me levou ao cinema para vê-lo em 1989. E nunca, em nenhum momento, o filme perde ritmo, fica chato ou sem propósito. Ele transpira, exala, esse humor inocente e o amor de atores que se entregam sem medo na tela. São os atores, as cenas, os diálogos memoráveis, a música emblemática, o conjunto perfeito, afinado como uma orquestra impecável, que me faz ver tudo aquilo, ali na tela, com um sorriso em 180 graus no rosto. Verei tudo - ou quase tudo - que surgir no cinema e que me pareça minimamente interessante. Choro, rio, me angustio e gargalho com filmes que me marcam, me marcaram e que ainda me marcarão no futuro. Mas, não tem jeito, é na "Última Cruzada" que encontro sempre a minha primeira opção quando quero, simplesmente, me perder para me achar numa sessão de cinema sem pretensão. Imperdível. Inesquecível.
sábado, 24 de julho de 2010
PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("AUGUST MOON")
Aos mais observadores, sim é um post (intencionalmente) repetido.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
A FITA E A SEMENTE DO ABSURDO
Por onde começar para falar deste filme tão inacessível? "A Fita Branca" (Das Weisse Band), de Michael Haneke, não é um filme fácil em nenhum sentido. É difícil falar sobre ele; explicá-lo; muito menos recomendá-lo. Na tela, vemos uma explosão silenciosa, letárgica, num preto e branco austero, gélido, onde um narrador conta eventos macabros que se passaram num vilarejo alemão do começo do século XX. A pequena vila vive sob o domínio de um barão, rico fazendeiro que emprega metade dos cidadãos e, por causa disso, é temido e respeitado como um senhor feudal. As mulheres são inexpressivas donas de casa, os homens respondem pelo trabalho braçal e as crianças se esforçam em não incomodar. Não há sentimentalismos tampouco há algum calor humano sob nenhuma perspectiva neste ambiente que - supostamente - se propõe a ser um microcosmos da Alemanha pré-I Guerra Mundial. Todos vivem uma existência bucólica, construída em torno do trabalho, da colheita, da escola e da igreja, sem grandes ambições ou perspectivas.
Que pessoas serão, no futuro, essas crianças tão reprimidas? Aí está o questionamento de Haneke
Eis que no centro desta vila pacata começam a surgir misteriosos acidentes e eventos violentos, marcados por morte, espancamento e tortura. Ninguém sabe ao certo o que se passa e as investigações não rendem grandes resultados. Atento a esses acontecimentos, vemos um jovem professor (que também é o narrador, já idoso) compreendendo que algo muito errado está acontecendo enquanto tenta, com esforço, se aproximar de uma babá por quem está apaixonado. Mas rapidamente ele se vê vencido por uma estrutura social rígida e que não aceita seus questionamentos e suposições sobre a possibilidade que as crianças sejam responsáveis pelas atrocidades. A fita branca, que dá título à história, é referência a um dos mecanismos repressores utilizados pelo pastor local, que amarra um laço no braço dos seus filhos para lembrá-los da pureza e da inocência. Uma metáfora poderosa para emoldurar a ideia de uma geração antiquada e violenta que, a partir de uma brutal repressão moral, social, sexual e religiosa, moldou com mãos habilidosas as jovens mentes alemãs que, décadas depois, levariam o nazismo ao poder. Lindo e horrendo filme. Difícil de recomendar. Ao mesmo tempo, é impossível não fazê-lo.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
CARTOLINA - BLOG DE AMARÍLIS LAGE
Lindo, lindo blog de ilustração, cultura e arte que esbarrei inusitadamente ao final do expediente de trabalho hoje. Fortuita descoberta quando tudo já parecia desenhado como um final de dia qualquer: Cartolina, blog de Amarílis Lage, editora da Revista Criativa, que "vive rodeada por papéis e canetas. Ganha a vida escrevendo e perde a noção do tempo desenhando". Merece ser visto, revisto e compartilhado. Sem pressa. Queria poder guardar esse blog no bolso.
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PARA VER E OUVIR: JOSÉ GONZALEZ CANTA "FAR AWAY" (TEMA DE RED DEAD REDEMPTION)
José Gonzalez canta "Far Away", parte da trilha sonora do aclamado jogo western "Red Dead Redemption", blockbuster da Rockstar para Playstation 3 e XBOX 360.
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Para ver e ouvir
PEQUENO FILME DE GRANDES CENAS
"The Last Station" ("A Última Estação") é um filme baseado na biografia do cultuado autor russo Leo Tolstoy. Mas, apesar de se propor a narrar os últimos momentos da vida do escritor, o grande triunfo deste pequeno filme é o seu elenco. Chrisopher Plummer interpreta Tolstoy com muita propriedade e Paul Giamatti convence como o seu melhor amigo, o perigoso Vladimir Chertkov. No entanto, Helen Mirren, como a esposa explosiva e possessiva (Condessa Sofya) e James Mcvoy, como o jovem aspirante a escritor, Valentin, é que brilham (e que, não por acaso, desenvolvem grande cumplicidade na trama). Pertencem a eles duas cenas que, sozinhas, são motivos para se assistir a esse filme. Na primeira, Valentin vai às lágrimas quando Tolstoy pergunta a ele sobre seus textos ("Eu sou um zé ninguém e você, Tolstoy, pergunta sobre o meu trabalho?"). Na segunda, Sofya consegue um raro momento de intimidade com o seu marido, o que rende uma cena engraçada e absolutamente adorável no quarto do casal.
Helen Mirren (Sofya) e James Mcvoy (Valentin) roubam o filme com atuações comoventes
Por fim, Tolstoy não é o que mais interessa no filme (e fiquei em dúvida se isso foi algo intencional ou não) porque "A Última Estação" é, primeiramente, sobre o amor e, consequentemente, sobre os seus complexos desdobramentos. O que o filme retrata, ao mostrar o círculo social dos meses derradeiros de Tolstoy, é uma rede de idealizações intermináveis: um rapaz que se apaixona por uma menina indomável. Um escritor que só tem olhos para o seu melhor amigo. Uma esposa que se sente abandonada e vive em busca de um marido ausente. Um amigo que enxerga Tolstoy como um profeta. Não são relações funcionais do ponto de vista da realidade mas, nem por isso, permitem que sejam estes casos de amor superficiais. Imagino que, justamente, o grande pecado cometido por todos eles, sem exceção, é o amor em excesso. Aqui está um filme muito discreto, dono de uma trilha sonora modesta e tocante e formado por um punhado de cenas memoráveis. Não é a estação final, absolutamente, mas uma parada bem vinda para respirar beleza e calor humano.
terça-feira, 20 de julho de 2010
domingo, 18 de julho de 2010
"OS MEUS LIVROS" - JORGE LUIS BORGES
Jorge Luis Borges ("A Rosa Profunda")
Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.
Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
FAMOUS LAST WORDS
Da janela do seu apartamento ele imaginou ter enxergado o diabo. Amanhecia lentamente e, ao acender mais um cigarro, ele percebeu que talvez estivesse alucinando. Não havia ninguém lá, apenas a rua, calma e deserta, com tons acinzentados gradualmente amarelando com as primeiras luzes, mais impertinentes, que começavam a preencher as sombras da madrugada.
Levou a mão à boca e tragou ainda mais lentamente, de olhos semi-cerrados, sentindo a fumaça cobrir o seu rosto por inteiro. Via pingos de luz como se estivesse escondido por detrás de uma cortina. Debruçou-se então sobre o parapeito e ansiou por reflexões de alguma relevância, mas foi como se abrisse uma gaveta vazia ou uma caixa de fotos insignificantes. Nada.
Sentou-se na janela, com os pés descalços voltados para rua e roçou-os com preguiça contra o muro de pedra fria. Havia um vento, um musgo, uma poeira e ele sentia aquela mistura lhe cobrindo os calcanhares de maneira irresistível. Pensou num punhado de pessoas e eventos passados; coisas perdidas no caminho, apostas mal sucedidas, amizades desfeitas e romances medíocres. Por alguns instantes sentiu saudade de sua família, mas também esse pensamento se mostrou rapidamente rarefeito. Não sentia saudade de ninguém.
Precisava se vestir para o trabalho. Mas era como se o seu corpo estivesse preso. Não se tratava de letargia ou preguiça. Pelo contrário. Ele não queria sair dali, não queria se levantar da janela. Queria permanecer ali, à mercê de si mesmo, contemplando o formigueiro urbano que gradualmente começava a se manifestar. Mexeu os pés para um lado e para o outro e se lembrou de quando era criança, com as pernas afundadas na grande piscina da casa de seus avós.
Para um lado e para o outro, para um lado e para o outro.
O vento ocasionalmente lhe desarrumava os cabelos. Passava a mão levemente sobre a cabeça, sempre pensando se haveria ali mais fios brancos. Mais um cigarro para aquecer o rosto e as mãos. Era uma manhã inesperadamente fria.
Havia algo, meio sem nome, dentro dele. Algo que parecia corroê-lo. Uma ânsia, uma raiva, uma mágoa que, misturadas, davam a sensação de que seu corpo poderia implodir, de dentro para fora, a qualquer momento. Lembrou, novamente, de pessoas e eventos passados. E brincou consigo mesmo de uma forma como há muito tempo não fazia. Imaginou-se com poderes mágicos. Fazê-los desaparecer. Não eram pensamentos de vingança. Não necessariamente.
Sorriu, deixando escapulir um último rastro de fumaça pelo canto da boca. Queria que aquelas pessoas o vissem naquele momento. Elas nunca iriam acreditar.
Ficou de pé no parapeito da janela. Abriu os braços em cruz. Fechou os olhos. Respirou profundamente.
E, então, voltou para o quarto fechando a janela atrás dele com um pensamento fixo em sua cabeça. Uma ideia resolvida.
"Decidi me tornar um homem mau".
quarta-feira, 14 de julho de 2010
FALANDO DE FUTEBOL
Passada a Copa na África do Sul, a copa HD, impossível não pensar, pelo menos um pouco, em futebol. Maracanã, final da Copa do Mundo de 1950. Tempo em que a vida ainda era analógica. Excêntrica saudade e nostalgia de um tempo que eu não vivi. Foto de José Medeiros (Acervo IMS).
segunda-feira, 12 de julho de 2010
"O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO CRESCER?"
É com essa famosa reflexão infantil que começa "O Pequeno Nicolas" ("Le Petit Nicolas"), filme francês baseado no livro homônimo de René Goscinny. Ministros, ciclistas, empresários, bandidos, policiais. São inúmeras as opções que o pequeno Nicolas vislumbra para os seus colegas de classe. Ele, no entanto, não consegue responder a essa pergunta. Porque Nicolas quer ser exatamente quem ele é: filho único, um menino amado por seus pais carinhosos e que vive uma vida confortável e alegre em Paris. Nicolas não quer ser bombeiro, cowboy ou astronauta. Ele quer ser, para sempre, o pequeno Nicolas.
Nicolas quer ser exatamente ele mesmo quando crescer.
Essa premissa é mais do que suficiente para construir um filme absolutamente mágico e encantador, que se desenrola na tela como se estivéssemos ouvindo uma história de ninar. Mas eis que Nicolas suspeita que a sua realidade perfeita pode estar ameaçada: ele imagina que a sua mãe está grávida. A ideia de ganhar um irmão é absolutamente aterrorizante e Nicolas e seus amigos partem numa verdadeira cruzada para "resolver" esse problema com um arsenal de ideias que envolvem gangsters, intoxicação infantil, um cassino clandestino, entre inúmeros planos não muito bem sucedidos, mas que rendem situações absolutamente hilárias e improváveis.
Nicolas e sua trupe: criatividade para resolver o grave problema de se ganhar um irmão.
O filme é inteiramente construído de forma delicada e sutil, com muita dedicação em nos forçar a enxergar o mundo por olhos infantis: os planos baixos (com adultos gigantes), cenários exagerados para ilustrar a percepção sempre hiperbólica de uma criança e a deliciosa fantasia de que qualquer coisa no mundo é possível. "Le Petit Nicolas" consegue, ao mesmo tempo, manter esse tom infantil (quase bobo) sem jamais deixar de interessar os adultos. É uma linda história, sobre um tempo de inocências possíveis, onde meninos da década de 60 se divertem com pouco e fazem dos dias banais de escola aventuras inesquecíveis. Até que, enfim, entre tantas estripulias, Nicolas possa responder com muita convicção à pergunta impossível formulada por sua professora. Adorável, inesquecível e imperdível.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
O "BOM DIA" DE UM GATO
Essa é Magic, a maior gata do mundo (raça Savana), dando bom dia. Só quem tem gato sabe como é.
O EXPRESSIONISMO DE JOSEPH MINTON
"Decepção" (2007)
Joseph Minton é um pintor expressionista contemporâneo. Conhecido por linhas dramáticas e melancólicas, com uma arte muito inclinada ao dark e à fragilidade dos seres humanos. Não é uma beleza fácil de ser percebida e apreciada, mas ela surge vagarosamente na delicada costura de emoções que ele impõe aos seus quadros. Nascido em 1974, Minton é um autodidata que começou a pintar aos 18 anos. Sem nenhuma formação tradicional, desenvolveu suas próprias técnicas, que consistem em combinar cores semitransparentes em linhas grossas, com pouco interesse em movimentos precisos e controlados. Um reflexo das emoções condensadas que ele tenta demonstrar em suas obras. "A Tempestade" (2008)
"Dezembro" (2007)
"The Beckoning" (2008)
"O mundo não vai esperar" (2008)
"Mulher de cabelos vermelhos" (2008)
terça-feira, 6 de julho de 2010
6 DE JULHO DE 1907
Pintando "As duas Fridas", em 1939. Em lembrança do aniversário de Frida Kahlo. Se viva, completaria 103 anos hoje.
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domingo, 4 de julho de 2010
INSIGNIFICÂNCIAS IMPORTANTES
Confesso que me surpreendi bastante com o filme "Remember Me" ("Lembranças"), estrelado por Robert Pattinson e Emilie de Ravin. Talvez por implicância ou puro preconceito, mas a verdade é que assisti a esse filme esperando desistir dele na primeira meia hora. Não é nenhum filme especial ou memorável, absolutamente. É mediano em praticamente todos os sentidos, mas também é um filme honesto, bem intencionado e completamente despretensioso e, talvez por isso, eu tenha me deixado convencer.
"Lembranças", em verdade, é um diamante bruto. Falta lapidação, só isso. Poderia ter uma trilha sonora mais envolvente, uma fotografia mais elaborada, direção mais ousada. Mas o elenco é bom, dedicado, e consegue inflar muita energia à história. Robert Pattinson está muito bem (talvez sua melhor atuação até hoje) e raras foram as vezes em que lembrei do vampiro que o consagrou. Consegui enxergá-lo, realmente, como um rapaz da alta sociedade novaiorquina, perdido e indeciso sobre a sua própria vida. O mesmo vale para Emilie de Ravin, a famosa Claire de "Lost". Ela também me convenceu como uma garota especial, interessante e que luta para sobreviver a um grande trauma de infância. O elenco é o grande trunfo deste filme que, por muito pouco, não é um pequeno grande filme.
A história conta as vidas de um grupo de pessoas que, por um acaso urbano, acabam se entrelaçando. Tyler (Pattinson) é um rapaz solitário, reflexivo, e que não tem a menor ideia do que fazer da própria vida, apesar de, no fundo, ansiar muito em fazer 'algo'. Vive à sombra da morte prematura de seu irmão mais velho e se vê preso entre a necessidade de cuidar da sua irmã caçula e infernizar seu pai ausente e autoritário (interpretado muito bem por Pierce Brosnan). Tyler cita Gandhi, apropriadamente, quando diz que "tudo o que você fizer em sua vida será insignificante, mas é importante que você o faça mesmo assim". Ele conhece Ally (de Ravin), uma garota que perdeu a mãe tragicamente e que vive com seu pai (Chris Cooper), um policial que, anteriormente, havia prendido Tyler por causa de uma briga de rua.
Os dois se envolvem e os distantes mundos em torno de ambos começam a colidir, ora pacifica, ora caoticamente. Tyler e Ally pertencem a universos que dificilmente poderiam coexistir e isso determina uma série de eventos que, potencialmente, podem afastá-los. A grande beleza deste filme é acompanhar a trajetória de seus personagens centrais - e dos interessantes personagens secundários - enquanto eles vão desenhando as soluções, encontros e desencontros da difícil arte de existir. Tudo para que, num decisivo momento final, todos percebam que é preciso viver e seguir adiante, não importam os dramas individuais.
Mas que, nem por isso, é preciso esquecer.
sábado, 3 de julho de 2010
sexta-feira, 2 de julho de 2010
segunda-feira, 28 de junho de 2010
"A ELEGÂNCIA DO PORCO-ESPINHO"
Uma zeladora de meia idade, viúva e desencantada pela vida. Uma menina de 11 anos que planeja o seu suicídio para o próximo aniversário. Um japonês delicado e misterioso. Gatos preguiçosos por toda a parte. Um condomínio de luxo em Paris, recheado de pessoas superficiais e movidas à "psicanálise, calmantes e champanhe". Esse é o cenário de "Le Hérisson" ("The Hedgehog"), filme francês baseado no romance "A Elegância do Ouriço", de Muriel Barbery.
Uma linda história sobre amor e encontros improváveis
Apesar de o livro não oferecer uma leitura fácil, já que é marcado por um ritmo lento e dezenas de referências filosóficas, a história é interessante e narra a vida comum (e nada comum) de parisienses que, por alguma razão do destino, acabam se relacionando. Renée, a zeladora, é uma mulher fechada, cultíssima, mas que faz questão de ser vista como ignorante, para facilitar o "relacionamento entre as classes", afinal, "quem quer uma zeladora pretenciosa?". Paloma é uma alma velha trancafiada no corpo de uma menina de 11 anos que, como uma lagarta sonha por uma metamorfose que a ajude a reinventar a própria vida. Refém de uma família fútil, com a qual não consegue estabelecer nenhum vínculo afetivo, Paloma passa os seus dias compondo um diário em vídeo sobre o seu plano de romper com a existência mundana. Repentinamente, surge Kakuro, um solitário japonês que se encanta com os mistérios de Renné e estabelece com ela uma amizade doce e sincera. O título oferece uma delicada metáfora - criada pela menina Paloma - e que amarra as reflexões finais sobre o destino daquelas pessoas, Rennée especialmente.
Apesar de filmes baseados em livros geralmente decepcionarem, considero esse caso uma exceção interessante. O filme me agradou muito mais que o livro que, confesso, não consegui me prender. A direção discreta e precisa elimina uma série de entraves da narrativa escrita que ajudam muito a condução da história na tela e deixam a trama muito mais acessível.
Por fim, não é nada demais. É um filme que traduz muito da sua principal protagonista, que enxerga muito pouco em si mesmo mas, ao mesmo tempo, tem tanto a oferecer. É uma linda história sobre o amor e encontros improváveis. E de um encantamento surpreendente. Basta não temer os espinhos que cobrem o ouriço. Ainda sem data para lançamento no Brasil.
Apesar de filmes baseados em livros geralmente decepcionarem, considero esse caso uma exceção interessante. O filme me agradou muito mais que o livro que, confesso, não consegui me prender. A direção discreta e precisa elimina uma série de entraves da narrativa escrita que ajudam muito a condução da história na tela e deixam a trama muito mais acessível.
Por fim, não é nada demais. É um filme que traduz muito da sua principal protagonista, que enxerga muito pouco em si mesmo mas, ao mesmo tempo, tem tanto a oferecer. É uma linda história sobre o amor e encontros improváveis. E de um encantamento surpreendente. Basta não temer os espinhos que cobrem o ouriço. Ainda sem data para lançamento no Brasil.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
“SOLIDÃO CONTENTE” – TEXTO DE IVAN MARTINS (EDITOR-CHEFE DA REVISTA ÉPOCA)
O que as mulheres fazem quando estão com elas mesmas
Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.
Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.
terça-feira, 22 de junho de 2010
PARA VER E OUVIR: SARAH MCLACHLAN - NOVO SINGLE - "LOVING YOU IS EASY"
Apresentação no David Letterman Show para o lançamento do novo disco, "Laws of Illusion".
sábado, 19 de junho de 2010
PERDIDOS PRAZERES
Mesmo muito doente, meu avô não abriu mão de fazer algo que, desde sempre, eu o via fazer: ir todos os dias, ao final da tarde, à livraria Perdidos Prazeres, que ficava a uma quadra da sua casa. Minha vó contava que ele visitava aquela livraria desde os anos 40, quando ainda estudava Direito. E até a véspera da sua morte ele visitou a livraria, onde ficava das cinco da tarde até as sete da noite. Sempre. Ía sozinho, em silêncio e se despedia da minha vó, com um carinhoso beijo na testa. Todos os dias.
Minha vó o via se levantar, pegar o paletó e se ajeitar diante do espelho. Ela sorria, disfarçando uma melancólica conformação. Era o que ele gostava de fazer, todos os dias, desde quando se casaram. Após quase 60 anos, não havia mais do que reclamar. Era seu raro, seu único prazer. Ele estava doente e ela apenas dizia para ele tomar cuidado.
Às sete e meia, quando chegava em casa, entrava sorrindo e, nas tardes em que eu passava com a minha vó (mesmo já adolescente), meu avô trazia em mãos pães doces que comíamos com café. Acho que ele era chegado às rotinas. Mas eu nunca entendia ao certo o que meu avô tanto procurava naquela livraria. "Perdidos Prazeres". Ele não me parecia muito apreciador de literatura e, na verdade, entre os poucos livros da casa havia, em grande parte, velhos livros de Direito e alguns de poesia, de minha vó.
Tampouco ele falava em literatura. Quando tento me recordar, acredito que em nenhum momento de minha vida conversei com meu avô sobre livros. Ele tinha outros prazeres. Gostava de cartas, de música e de partidas de futebol. Gostava de pescar com o meu pai e de festas de casamento. Adorava conhecer os namorados das minhas tias e de brincar com os três gatos da casa. Mas não livros. Pelo menos, não que eu me lembre. Mas ninguém se permitia questionar isso. "É o que as pessoas velhas fazem", minha mãe me explicava quando eu era criança. Meu avô gostava de ir à livraria e ninguém questionava.
Na madrugada em que ele morreu, em casa, sereno e sem sofrimento, minha mãe me acordou à meia-noite. "Vovô morreu". Eu tinha 16 anos na época e lembro de chorar, profunda e copiosamente, exatamente três anos depois desse dia. Estava no primeiro ano de faculdade e visitei minha vó, como fazia quase todas as semanas. Encontrei-a remexendo caixas, gavetas e armários. Ela estava separando dezenas de objetos e roupas do meu avô para serem doados e me perguntou se eu gostaria de ficar com algo.
Abri o enorme armário de jacarandá - em que eu gostava de me esconder quando era criança - e vi uma coleção de ternos bonitos, bem cortados, destes que jamais ficam fora de moda. "Porque não fica com um?", minha vó interrompeu meus pensamentos. "Acho que ele iria gostar". Passei a mão, carinhosamente, pelos ombros dos paletós, como se me permitisse um último, um atrasado carinho nos ombros do meu avô. E nem percebi quando meus olhos transbordavam em lágrimas que eu não sabia explicar de onde viam. Percebi, apenas naquele momento, o quanto eu amava meu avô e quanta saudade eu sentia. Mas, principalmente, o quão pouco foi o tempo que passamos juntos. Três anos depois. Minha vó me abraçou, com delicadeza, e até hoje lembro do cheiro de lavanda da sua roupa que amparava os meus soluços inesperados naquele dia.
Escolhi um paletó azul marinho, solitário, já sem a calça. Apenas uma jaqueta muito surrada mas com tanto charme que bem poderia ser vendida numa loja sofisticada ao preço do resgate de um rei. Minha vó sorriu, passou a mão no peito do paletó. Parecia saudosa e me explicou que aquele havia sido o primeiro paletó do meu avô, justamente o único que ele tinha quando era jovem. Ele o havia vestido por todos os anos da faculdade, já que não possuia meios na época para ter mais de um. Minha vó queria lavá-lo, mas eu não aceitei. Vesti-o imediatamente e senti naquela roupa velha o abraço final que não havia dado em meu avô. Senti um conforto imenso, de despedida e fui embora.
No caminho, instintivamente, mexi nos bolsos e nada encontrei. A não ser por um cartão de visitas, tão velho e amarelado, que parecia se desfazer em minhas mãos. Nele, um endereço extremamente familiar, e um nome em letras garrafais, numa grafia que exalava coisa antiga: "Perdidos Prazeres". Ao fundo, apenas um nome, quase desenhado numa linda caligrafia feminina: Amália. Parei alguns instantes, intrigado com aquele pequenino mistério. Quem era Amália? E que motivo havia feito meu avô guardar aquele cartão, intocado, dentro de um paletó mais velho até que o meu pai?
De repente, senti uma chuva de pensamentos me cobrindo as ideias, como uma onda revolta. Corri, a passos largos, para a notória livraria do meu avô e parei sob a entrada, como um peregrino: "Perdidos Prazeres". Caminhei lentamente, ouvindo um tilintar atrás de mim, destes que denunciam a entrada de um novo cliente.
Não havia ninguém por perto e percebi que era a primeira vez que eu entrava naquele lugar. A livraria era um espaço interessante, antigo, como estas livrarias que vemos nos filmes, com longas prateleiras de madeira e livros do chão ao teto, como um sebo. Havia aquele cheiro de papel, plástico e madeira no ar. Poltronas e tapetes espalhados criavam uma atmosfera aconchegante e, se vivêssemos numa cidade fria, o centro da livraria poderia ser adornado com uma lareira. Mas não era o caso. Foi quando notei o quanto eu estava suando.
Não havia ninguém por perto e percebi que era a primeira vez que eu entrava naquele lugar. A livraria era um espaço interessante, antigo, como estas livrarias que vemos nos filmes, com longas prateleiras de madeira e livros do chão ao teto, como um sebo. Havia aquele cheiro de papel, plástico e madeira no ar. Poltronas e tapetes espalhados criavam uma atmosfera aconchegante e, se vivêssemos numa cidade fria, o centro da livraria poderia ser adornado com uma lareira. Mas não era o caso. Foi quando notei o quanto eu estava suando.
"Porque você não tira o casaco, meu filho?", ouvi uma voz doce ao meu lado. Uma senhora de bochechas rosadas e cabelos grisalhos encaracolados me abordou. Havia um brilho em seus olhos e era como se eu a conhecesse. Ela sorria, esperando meu consentimento. Tirei o casaco e entreguei em suas mãos. Ela dobrou com cuidado e descansou o paletó do meu avô sobre uma cadeira.
"A senhora, por acaso, se chama Amália?, perguntei. Ao que ela consentiu, com certa curiosidade. Abracei-a, com muito carinho, e notei que ela retribuiu meu abraço. "Ele a amou por toda a vida, até o último dia", sussurrei. Ela não parecia entender aquela estranha situação e deve ter me julgado como louco, mas disfarçou bem. Quando me preparava para ir, lembrei que havia esquecido o paletó na livraria, mas rapidamente percebi que assim é que deveria ser. Olhei uma última vez para o letreiro e acenei para a senhora, que acenou de volta, por detrás do vidro polido e marcado por longas letras douradas. "Perdidos Prazeres".
"A senhora, por acaso, se chama Amália?, perguntei. Ao que ela consentiu, com certa curiosidade. Abracei-a, com muito carinho, e notei que ela retribuiu meu abraço. "Ele a amou por toda a vida, até o último dia", sussurrei. Ela não parecia entender aquela estranha situação e deve ter me julgado como louco, mas disfarçou bem. Quando me preparava para ir, lembrei que havia esquecido o paletó na livraria, mas rapidamente percebi que assim é que deveria ser. Olhei uma última vez para o letreiro e acenei para a senhora, que acenou de volta, por detrás do vidro polido e marcado por longas letras douradas. "Perdidos Prazeres".
Quando voltei meu olhar para a rua, acabei esbarrando numa moça que caiu no chão com o trombo. Ela tinha cabelos vermelhos, compridos, e sorriu do chão quando eu prontamente fui em sua ajuda. Olhamos um ao outro nos olhos por não mais que dois segundos. Ainda segurava sua mão quando ela me deu a entender que precisava entrar. "Você trabalha na livraria?", perguntei. "Não, apenas ajudo a minha vó às quartas-feiras. Ela é a dona, aquela senhorinha ali", disse, ainda sorrindo e apontando para o vidro. "Posso te ver mais tarde?". "Pode. Pode, sim".
E, entre os meus mistérios flutuantes, eu tive todas as certezas que poderia ter na vida.
"Casarei com esta mulher".
E, entre os meus mistérios flutuantes, eu tive todas as certezas que poderia ter na vida.
"Casarei com esta mulher".
sexta-feira, 18 de junho de 2010
E FOI-SE EMBORA SARAMAGO
AS ÚLTIMAS PALAVRAS DE JOSÉ SARAMAGO (1922/2010)
"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma".
Foto de Sebastião Salgado (Saramago nas Ilhas Canárias - 1996).
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quinta-feira, 17 de junho de 2010
PARA VER E OUVIR: THE STROKES ("I´LL TRY ANYTHING ONCE")
Obs.: Não é um videoclipe oficial (é um fanmade video). Mas nem por isso menos interessante.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
POSTER E TRAILER DE "SOMEWHERE", NOVO FILME DE SOFIA COPPOLA
Após muita espera e especulação, saem o primeiro poster e o trailer oficial de "Somewhere", novo filme de Sofia Coppola (ainda sem título no Brasil). Este será o quinto filme da carreira de Sofia, diretora de talento inegável e estilo inconfundível (apesar de "The Virgin Suicides" ser a sua estreia oficial, o primeiro trabalho de Sofia como diretora e roteirista é, na verdade, "Lick the Star"). "As Virgens Suicidas", "Encontros e Desencontros" e "Maria Antonieta" partilham sempre de uma fotografia onírica (infelizmente "Somewhere" não contará com o talento de Lance Accord), tons e devaneios melancólicos, e são marcados por trilhas sonoras inesquecíveis. Destaque, no trailer, para a música de Julian Casablancas, dos Strokes que já permite sentir um pouco o tom do filme que, a um primeiro olhar, parece se aproximar muito da atmosfera de "Lost in Translation". Na história, um ator de Hollywood (Stephen Dorff) repensa a sua vida após a visita da sua filha de 11 anos (Elle Fanning), tendo como cenário o tradicional hotel californiano Chateau Marmont. Estreia prevista para dezembro nos Estados Unidos (sem previsão por enquanto para o lançamento brasileiro). Literalmente, esperar para ver. Mas quando se trata de um novo filme de Sofia Coppola - pelo menos para mim - a espera sempre vale.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
quarta-feira, 9 de junho de 2010
O FASCINANTE FASCISMO DE LADY GAGA
Ela está, indiscutivelmente, cada vez mais perto do poder combustível e criativo de Madonna. E, ao mesmo tempo, fundando um espaço muito próprio na indústria. Lady Gaga, em "Alejandro", flerta perigosamente com o fascinante fascismo, tabus religiosos, a morte e o sexo. Não sei que opinião formar sobre a música (ainda), mas do ponto de vista plástico é simplesmente fenomenal.
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terça-feira, 8 de junho de 2010
sábado, 5 de junho de 2010
PORQUE GLEE É REALMENTE LEGAL
Confesso, eu também me rendi a "Glee", o novo seriado-teen-musical-do-momento. Mas aí é que está. Ou não está. "Glee" é, e não é, um seriado-teen-da-moda. Ok, é um drama musical, num cenário razoavelmente previsível, onde adolescentes tão talentosos que bem poderiam estar na Broadway cantam pelos corredores de uma escola norte-americana. Há as líderes de torcida, com seus vestidos colados e rabos-de-cavalo, bem como os esportistas e os nerds; os professores compreensivos e os tiranos. E a novela de sempre, sobre quem está apaixonado por quem. Mas, então, porque razão "Glee" é realmente legal e não mais do mesmo? A resposta é simples. "Glee" é cool. Porque é uma fantasia que abre espaço para todos. Não é preciso ser perfeito para estar aqui. Entre os talentos musicais, todos podem brilhar. Negros, asiáticos, latinos, gordos, gays, cadeirantes. E não porque o seriado quer ser politicamente correto e assumir um tom político de "sitcom para as minorias". Não há nada disso aqui e "Glee" não faz questão nenhuma de ser "o seriado sobre os coitadinhos". Sim, há algo "loser" a respeito de ser "Glee", mas quem se importa? É onde todos podem se expressar, gritar a plenos pulmões e não se deixar sufocar (mais) pela sociedade do perfeito. Não é o fim da tirania da beleza na TV mas não tenho a menor dúvida que é um lindo passo em direção a isso. E um passo engraçado, também, e cheio, cheio de charme. "Glee" é o máximo.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
QUALQUER COISA QUE FUNCIONE PARA VOCÊ
Woody Allen está de volta, no seu melhor estilo. Com um texto afiado, brilhante e uma comédia ácida, mal-humorada, incrédula, irônica e sem nenhum pudor em ofender e chocar. "Whatever Works" (estranhamente nacionalizado como "Tudo pode dar certo") é um típico filme deste, que é um dos diretores mais controversos, polêmicos, amados e odiados do mundo. Larry David interpreta Boris (no papel central do gênio incompreendido e hipocondríaco), um físico indicado ao Nobel e que vive como um eremita em Nova York, dividindo seu tempo com um punhado de amigos intelectuais, aulas de xadrez para "crianças burras", música clássica e noites sem sexo. Um homem atormentado, que acorda de madrugada em pânico por causa "do horror", canta parabéns enquanto lava as mãos (é o tempo exato para matar os germes) e acha que deveria haver "acampamentos para diretores de cinema" e "campos de concentração para filhos". No centro desta vida segura - e tipicamente woodyalleana - surge Melody, interpretada deliciosamente por Rachel Evan Woods. Ela é uma caipira, do Mississipi, que fugiu do lar protestante em busca de liberdade na Grande Maçã. Por uma casualidade, ela acaba indo morar com Boris e vira a sua vida de ponta cabeça. Quando tudo parece, enfim, revirado, eis que surge a sua mãe, Marietta (Patricia Clarkson), que acabou de ser largada pelo marido e vem para encontrar sua filha em Nova York. Como um vírus, a grande metrópole também exerce um poder fasciante na mãe religiosa e protetora, que descobre talentos e desejos que nem ela conhecia. No meio desta metamorfose de vidas, quando ninguém mais esperava nada, aparece o pai de Melody, John (Ed Bagley Jr.), um homem do interior, durão e filiado à Associação Nacional de Armas, que se arrependeu de ter largado a mãe e vive uma profunda crise existencial. Reviravoltas, reviravoltas e mais reviravoltas, tudo temperado com um dos melhores textos de Woody Allen nos últimos tempos. Já está entre os meus preferidos e é, para mim, o sucessor espiritual de "Desconstruindo Harry", meu favorito até hoje. Como o título sugere, há um pessimismo instantâneo a respeito da sua visão sobre a vida. Mas neste pessimismo há espaço, também, para a celebração da vida, do amor, e de "qualquer coisa que funcione para você". Genial, original, hilário, surreal, histérico, absurdo, ofensivo, perfeito. Imperdível.
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