Nada de esoterismo, ciência, viagem no tempo, civilizações perdidas ou obscuras iniciativas de pesquisa. Percebi, afinal, que este tempo todo LOST foi um seriado sobre o amor. Quanta saudade...
quarta-feira, 26 de maio de 2010
terça-feira, 25 de maio de 2010
ADORÁVEL PORTA-LÁGRIMAS
A Cosac Naify lançou uma discreta preciosidade no mercado brasileiro: "Fico à espera", de Davide Cali com ilustrações de Serge Bloch. Com um inusitado formato de envelope, o livro é uma coleção de cartas de um menino que devaneia sobre a passagem do tempo, da vida e, eventualmente, a chegada da morte. É uma comovente e delicada história de uma criança que está amadurecendo e, no seu crescimento, ele ri, sofre, se apaixona, tem filhos e envelhece. Um fio de lã vermelha une os inúmeros aspectos da complexa existência, do amor à guerra, do bolo de infância à dor das despedidas. É um punhado de cartas, é um álbum de lembranças, é um livro de rabiscos sem pretensão; é um adorável porta-lágrimas que, apesar de ser destinado às crianças, vai, sem pudor algum, comover qualquer adulto. Ganhou prêmio Livro do Ano no Salão de Montreuil (França), em 2005. Lindo, lindo demais.
Marcadores:
Cultura e Arte,
Efemeridades importantes,
Microblogging,
Recomendo
sexta-feira, 21 de maio de 2010
PARA VER E OUVIR: CHOPIN (ETUDE OP. 10, N. 3 - "TRISTESSE")
Ao piano, Freddy Kempf. Dizem que Chopin foi o "poeta da música". Difícil discordar.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
TEMPO DE DESPEDIDAS
Falta apenas um episódio para o desfecho da série de TV mais importante do século 21. "LOST" reinventou o entretenimento ao misturar ação, aventura, mistério e esoterismo numa série de sucesso que durou 6 anos. No próximo domingo (23), descobriremos, enfim, o que une uma ilha, um grupo de náufragos, um urso polar, uma fumaça escura, viagem no tempo, entre tantos segredos que mexeram com o nosso imaginário nestes últimos anos. Em clima de despedida e nostalgia, Josh Holloway (Sawyer), Evangeline Lilly (Kate) e Matthew Fox (Jack), que protagonizaram um complexo triângulo amoroso, fizeram um ensaio para a Vanity Fair em uma praia do Havaí. Deixará muita saudade...
Marcadores:
Efemeridades importantes,
Fotos e Fatos,
Ilustrando
segunda-feira, 17 de maio de 2010
domingo, 16 de maio de 2010
HÁ ALGO FANTÁSTICO EM SER... DIFERENTE
Wes Anderson encanta novamente como seu filme mais recente: "O Fantástico Sr. Raposo", baseado no clássico homônimo de Roald Dahl. Como em todos os seus filmes, este também é marcado por uma direção elegante, silenciosa e uma deliciosa melancolia marcada por um quê de sonho e devaneio que permeiam todas as suas obras. Aqui, igualmente, a temática central é a figura paterna e sua complexa existência (ou ausência) na família. Anderson tem fascínio em retratar relações familiares complicadas e pais excêntricos, com a cabeça nas nuvens e ideias mirabolantes. É assim em "Os excêntricos Tenenbaums", "Viagem à Darjeeling", "A vida marinha" etc.
O Sr. Raposo é uma figura carismática, cheio de charme e fleugma, e quer levar a vida caçando galinhas. A sua esposa, porém, o convence que este tempo passou e é hora de arrumar um trabalho de verdade. Ela engravida, ele arruma um trabalho como colunista de um jornal e os dois passam a levar uma vida "normal", com contas a pagar e dias a serem sobrevividos. Mas tudo o que o Sr. Raposo mais sonha é em roubar galinhas novamente.
E ele o faz, escondido da mulher, ao invadir as granjas de três vizinhos. O roubo desencadeia uma série de eventos que chegam a proporções épicas, que constroem uma atmosfera caótica e obviamente engraçada, sob a qual se esconde a verdadeira alma desta animação. As crianças vão gostar, claro, dos bonecos animados e das situações cômicas. Mas são os adultos que vão apreciar e se comover com este filme da maneira que ele realmente deve ser apreciado e sentido.
Como tudo que Wes Anderson faz (ainda hoje acho as câmeras lentas de Darjeeling inebriantes), este é um filme lindo na sua mais pura simplicidade e desprovimento de complicação. Anderson não tem nenhuma grande ambição aqui, a não ser pontuar esta história da maneira como ele enxerga o mundo, a vida e as complicações da existência (esse é o maior valor do seu estilo característico).
Porque também há, no calor da discussão sobre galinhas e fazendeiros, reflexões sobre amor, auto-estima, cumplicidade e medo de existir. E um punhado de animais adoravelmente complicados, mas que tanto têm a nos ensinar sobre nós mesmos.
Delicado, precioso e imperdível.
Há algo realmente fantástico sobre o Sr. Raposo...
O Sr. Raposo é uma figura carismática, cheio de charme e fleugma, e quer levar a vida caçando galinhas. A sua esposa, porém, o convence que este tempo passou e é hora de arrumar um trabalho de verdade. Ela engravida, ele arruma um trabalho como colunista de um jornal e os dois passam a levar uma vida "normal", com contas a pagar e dias a serem sobrevividos. Mas tudo o que o Sr. Raposo mais sonha é em roubar galinhas novamente.
E ele o faz, escondido da mulher, ao invadir as granjas de três vizinhos. O roubo desencadeia uma série de eventos que chegam a proporções épicas, que constroem uma atmosfera caótica e obviamente engraçada, sob a qual se esconde a verdadeira alma desta animação. As crianças vão gostar, claro, dos bonecos animados e das situações cômicas. Mas são os adultos que vão apreciar e se comover com este filme da maneira que ele realmente deve ser apreciado e sentido.
Como todos os protagonistas de Anderson, ele é absolutamente desorientado e encantador
Como tudo que Wes Anderson faz (ainda hoje acho as câmeras lentas de Darjeeling inebriantes), este é um filme lindo na sua mais pura simplicidade e desprovimento de complicação. Anderson não tem nenhuma grande ambição aqui, a não ser pontuar esta história da maneira como ele enxerga o mundo, a vida e as complicações da existência (esse é o maior valor do seu estilo característico).
Porque também há, no calor da discussão sobre galinhas e fazendeiros, reflexões sobre amor, auto-estima, cumplicidade e medo de existir. E um punhado de animais adoravelmente complicados, mas que tanto têm a nos ensinar sobre nós mesmos.
Delicado, precioso e imperdível.
Marcadores:
Cinema,
Cultura e Arte,
Desenhos e Animação,
Recomendo
sexta-feira, 14 de maio de 2010
O GATO E A CULPA
Terminou o jantar sem pressa, apreciando cada pedaço, cada gole. Beijou a sua mulher na testa, acariciou o seu rosto, sorriu com ternura para as suas duas filhas adolescentes, pediu permissão para se ausentar e subiu para o escritório.
Os degraus de madeira, aquela madeira centenária que havia pertencido ao seu trisavó, rangiam sob os seus pés. Lâmpadas à meia luz amarelavam o seu caminho e pequenas janelas, como escotilhas, mostravam uma chuva insistente que caia sobre o jardim. Parou alguns instantes e contemplou um punhado de poças de lama e grama ao redor da fonte onde um querubim de braço quebrado parecia sorrir. Trovejava, ocasionalmente, e as explosões pintavam sombras nas paredes que, a um olhar descuidado, simulavam esqueletos.
Fechou a porta do escritório e se sentou à mesa. Uma imponente mesa de mogno vermelho onde habitavam, com muita simplicidade, um bloco de anotações, uma luminária de vidro verde e uma caneta tinteiro, presente do seu avô, quando completara 18 anos. Com a ponta dos dedos, rolou a caneta, para trás e para frente, para trás e para frente, como um pequenino rolo de macarrão. Como se estivesse maquinando algo, mas os pensamentos não ganhavam corpo e pareciam sumir de sua cabeça, como fumaça. Explosões de luz inundavam as suas costas através da imensa janela, de onde ele podia ouvir os pingos golpeando o vidro como pequenos meteoritos.
Algo cai à sua esquerda e ele rapidamente vira o olhar para encontrar o gato que sempre se escondia no escritório em dias chuvosos. O gato se ajeitou no chão com elegância e num piscar de olhos, como mágica, já estava acocorado sobre o encosto do sofá de couro de porco perpendicular à mesa onde ele estava. E ali, parado, como uma esfinge, o gato ficou observando o homem. Sem piscar, sem mexer a cabeça, o velho gato era uma estátua.
Olhou de volta para o gato e ambos ficaram, por longos instantes, contemplando-se mutuamente. Ele não gostava daquele gato. E naquela noite, especialmente, sentia ainda mais raiva do animal. E ele podia ver em seus olhos. O gato sabia. O gato sabia o que ele havia feito.
Como um inquisidor, o gato o olhava profundamente, como se aguardasse uma confissão. Ele sentia seu coração palpitar dentro do peito, como uma bomba descontrolada. Suor frio escorria de sua testa, como a chuva na janela. O relógio martelava em seus ouvidos como um juiz e os relâmpagos enchiam o velho escritório de vultos que pareciam cada vez mais perto, de mãos erguidas, com longas garras, como se quisessem enforcá-lo.
Do encosto do sofá, o gato continuava olhando-o, como um falcão empoleirado que observa a sua vítima com desdém. Ele não tinha a menor dúvida. O gato sabia. O gato sabia de tudo e ele precisava fazer algo. Não podia suportar aquela culpa. E refletiu que pescoços, de gatos e de homens, são frágeis como gravetos.
Um último relâmpago emoldurou o escritório inerte. Um gato esticado no chão feito um pedaço de pano, um homem pendurado sob o teto, uma folha de papel com desculpas apressadas.
O gato sabia sobre tudo, mas a sua culpa morria com ele.
O gato sabia sobre tudo, mas a sua culpa morria com ele.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
A INSESPERADA PRESENÇA
Ninguém sabia quem era o pai ou a mãe do presidente. "Ele nem deve ter uma", era um pensamento partilhado por todos na empresa. Porque o presidente era um homem rígido, discreto, de poucas palavras. Conhecido e respeitado por ser um destes homens de antigamente, que "se fizeram sozinhos", o presidente era assim, admirado e temido por todos que trabalhavam para ele.
Secretárias cruzavam seu caminho de olhos baixos, enquanto outras, mais abusadas, arriscavam um "bom dia" ou "até logo". Quase sempre sem resposta. Ele passava e, como Átila, deixava silêncio em seu caminho. Conversas eram interrompidas abruptamente, olhares voltavam para as mesas. Era como se o tempo parasse quando o presidente passava.
Ninguém sabia ao certo de onde vinha aquela fama, na verdade. Ele nunca havia feito mal a ninguém, jamais tratara um funcionário sem cortesia e nunca ouviram o presidente sequer elevar o tom da voz. Poucas, aliás, foram as vezes em que ele foi ouvido, até. Como um imperador japonês, sua voz era reservada aos cômodos discretos, dentro dos quais as decisões realmente importantes eram tomadas.
Sabia-se pouco sobre sua vida. Era o filho mais novo, de cinco irmãos, e vivera até os 17 anos no interior, onde ajudava sua mãe e irmãos a cuidar de uma granja e uma horta muito humildes. Sua mãe, viúva, havia cuidado dos cinco filhos com muito esforço e dedicado à vida para que todos pudessem estudar na cidade.
Ao que parecia, ele não tinha mais contato com nenhum irmão. Nem se sabia, de certo, se algum ainda era vivo. Sua mãe morrera, em casa, quando ele ainda estava no segundo ano da faculdade. Mas ele não foi ao enterro. Na verdade, ele nunca mais voltou à sua cidade. Sua vida, desde que foi embora, era aquela fábrica, onde ele teve a sua carteira assinada pela primeira e única vez. Tudo para ele era aquela fábrica. O resto havia se perdido na poeira dos anos.
Ao que parecia, ele não tinha mais contato com nenhum irmão. Nem se sabia, de certo, se algum ainda era vivo. Sua mãe morrera, em casa, quando ele ainda estava no segundo ano da faculdade. Mas ele não foi ao enterro. Na verdade, ele nunca mais voltou à sua cidade. Sua vida, desde que foi embora, era aquela fábrica, onde ele teve a sua carteira assinada pela primeira e única vez. Tudo para ele era aquela fábrica. O resto havia se perdido na poeira dos anos.
O presidente era um homem solitário e muito simples. Viúvo, pai de três filhos homens, chegava ao escritório na primeira hora da manhã, quando sempre aceitava uma xícara de café do vigia da madrugada, que prontamente lhe abria a porta. Agradecia ao velho porteiro com um breve aceno de cabeça e subia para a sua sala. Era também o último a ir embora, limitando-se a oferecer um discreto "boa noite" ao mesmo vigia que, ao amanhecer, recebia-o com café.
Todos os dias. Às vezes até no domingo. E assim se transformou num mito vivo e chefe inesquecível por razões não convencionais. Não era odiado, definitivamente, mas não era amado por ninguém. Ele mantinha distância. De tudo. E seguiu esta rotina todos os anos de sua vida, mesmo com quase 80 anos. Sempre bem vestido, bigode aparado, cheirando à colônia cara, ele era o relógio, a alma e o coração da velha fábrica.
Todos os dias. Às vezes até no domingo. E assim se transformou num mito vivo e chefe inesquecível por razões não convencionais. Não era odiado, definitivamente, mas não era amado por ninguém. Ele mantinha distância. De tudo. E seguiu esta rotina todos os anos de sua vida, mesmo com quase 80 anos. Sempre bem vestido, bigode aparado, cheirando à colônia cara, ele era o relógio, a alma e o coração da velha fábrica.
Eis que certa vez, ao sair para almoçar no restaurante da esquina, onde ia todos os dias, esbarrou com uma senhora, na porta da sua fábrica. Muito idosa, frágil, lenço amarrando os cabelos, roupa puída. Com mãos calejadas, ela segurava uma sacola pesada onde guardava marmitas para vender aos funcionários. A senhora o olhou, com olhos tenros, e sorriu delicadamente, enquanto enxugava o suor do meio-dia que insistia em molhar a sua testa.
Foi quando, inesperadamente, ele tocou o rosto da mulher e se aproximou, abraçando-a longa e carinhosamente. E, sob o olhar espantado de todos, desabou num choro sentido, engasgado, e soluçando como se houvesse arrancado de suas costas toda a dor do mundo.
Foi quando, inesperadamente, ele tocou o rosto da mulher e se aproximou, abraçando-a longa e carinhosamente. E, sob o olhar espantado de todos, desabou num choro sentido, engasgado, e soluçando como se houvesse arrancado de suas costas toda a dor do mundo.
A mulher o abraçou de volta, ainda que confusa, e acariciou os cabelos prateados daquele homem tão bem vestido e perfumado que, por alguma razão, a abraçava. Ela tinha um cheiro de mofo, azaléia, tempero e suor e sobre o ombro de sua blusa florida, as lágrimas pingadas já haviam formado uma mancha.
No dia seguinte, a fábrica amanheceu de luto.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
MAYBE IN ANOTHER LIFE
E se, como em LOST, existir uma outra dimensão em que nós somos exatamente as mesmas pessoas, só que... não somos? PS: Não quero, em hipótese alguma, dar uma de pseudo-filósofo. É uma pergunta mesmo.
domingo, 2 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010
QUEM DISSE QUE LADY GAGA NÃO É COISA DE HOMEM?
Os caras de um grupo de humor da Universade do Oregon (EUA), conhecidos como "On the rocks", provam exatamente isso nesta apresentação de "Bad Romance" totalmente a capella (e extremamente performática). Excelente.
Ficou com vontade de ver o original? Clica aqui.
Ficou com vontade de ver o original? Clica aqui.
O QUE HÁ NO FIM DA ESTRADA?
A vida na terra chegou ao fim, por conta de uma hecatombe que a devastou de ponta a ponta, transformando o mundo - como o conhecemos - num grande abismo cinza e sem vida. Incêndios, inundações, pouco a pouco, tudo foi se desfazendo e levando pessoas a morrerem de fome e até mesmo a se matarem por conta do desespero. Mas ainda assim, o pior ainda estava por vir. O impensável: canibalismo. Neste cenário arrasado, um pai e um filho atravessam uma jornada perigosa e solitária pelos Estados Unidos, ao longo de uma estrada que levará ao Sul, onde supostamente há alguma chance de vida.
Cumplicidade na mais profunda solidão marcam o resvalamento em "A Estrada"
Baseado no best-seller de Cormac McCarthy, The Road ("A Estrada"), estrelado por Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee e com participação especial de Charlize Theron, Robert Duvall e Guy Pearce, é um filme impactante e imperdível. Com a direção sensível e precisa de John Hillcoat, vemos na tela - de forma quase documental - a transformação do homem em animal e nesta triste metamorfose, a descoberta dos extremos a que a humanidade pode chegar em nome da sobrevivência.
O mundo é habitado por personagens anônimos, errantes, que vão de ponto a ponto, dia após dia, atravessando vales e florestas de sombras numa luta exaustiva pela sobrevivência. O pai e o filho, igualmente, não tem nomes. Não sabem do tempo, já esqueceram até quem são. Há uma triste cena em que o filho, atônito ao observar um espelho, diz para o pai, "vê, papai, como estamos magros...".
As atuações dos protagonistas são impressionantes. Viggo Mortensen tem algo mágico em seu olhar, ao mesmo tempo determinado e devastado, e é a força máxima que sustenta o filme do começo ao final e nos garante fôlego para aguentar a tensão durante uma série momentos de grande perigo.
A jornada é absurdamente melancólica e perigosa, neste "road movie pós-apocalíptico", mas isso não impede que o filme também presenteie a audiência com momentos adoráveis, como a descoberta do que pode ser a última lata de coca-cola ou uma escotilha que esconde centenas de mantimentos absolutamente impensáveis. Este é um filme que mostra sem pudor o extremo, o limite da vida quando um banho, um raro banho e uma lata de sopa são suficientes para se acreditar em mais um dia.
A jornada é absurdamente melancólica e perigosa, neste "road movie pós-apocalíptico", mas isso não impede que o filme também presenteie a audiência com momentos adoráveis, como a descoberta do que pode ser a última lata de coca-cola ou uma escotilha que esconde centenas de mantimentos absolutamente impensáveis. Este é um filme que mostra sem pudor o extremo, o limite da vida quando um banho, um raro banho e uma lata de sopa são suficientes para se acreditar em mais um dia.
Viggo Mortensen é pura luz num mundo que parece esquecido por Deus
Não há vida, na Estrada, porque ao longo de seus quilômetros infindáveis, só é possível enxergar o vazio, a maldade e o perigo. Essa história se dedica, de corpo e alma, a nos mostrar (como se fossemos acompanhantes) o trajeto de um homem dedicado em garantir que seu filho possa viver uma vida longe do caos. São dois mendigos, desorientados, caçados como animais e dividindo uma linda cumplicidade que só enxergaremos verdadeiramente nos instantes finais. Quando também descobrimos que, se há desepero e morte na Estrada, nela também pode habitar a esperança.
domingo, 25 de abril de 2010
ONDE REINA O CAOS
"Misógeno", "grotesco", "pretensioso", "arte". Muitos são os possíveis adjetivos ao filme "Antichrist" (Anticristo), de Lars von Trier, e nenhum será justo ou equivocado. Porque este filme é, sem dúvidas, o conjunto de todos esses adjetivos e muitos outros mais. Este é um filme raro, polêmico, forte e profundo sobre o qual apenas um argumento é inequívoco: é impossível ficar indiferente a ele.
Na história, "Ele" (Willem Dafoe) e "Ela" (Charlotte Gainsbourg) perdem um filho tragicamente. Após uma belíssima cena, rodada em preto e branco, Lars von Trier constrói o prólogo perfeito para o seu filme que é, ao mesmo tempo, sonho e pesadelo: ao som de "Lascia la Spina", de Handel, o casal faz amor apaixonadamente enquanto seu filho pequeno caminha para uma janela aberta. Tragédia anunciada e um casal em frangalhos. Devastados, os dois fogem para uma cabana, onde tentam um audacioso processo de cura, enfrentando a dor e a tristeza, ao invés de negá-la ou combatê-la.
Amor e morte caminham de mãos amarradas no novo filme de Lars von Trier
Mas, justamente, ao se depararem com a verdade da dor, os dois também se deparam com a dura verdade da existência humana, que pode ser falha, corrompida, má. E nessa turbulenta jornada de cura e auto-conhecimento, os dois seguem um caminho sem volta onde o desespero e a loucura fazem com que eles se percam nos labirintos de suas próprias mentes. Neste momento, já não é possível distinguir realidade de alucinação, certo de errado, fato e suspeita. Na cabana, cercada por uma região de mata fechada chamada Eden ("Paraíso"), Ele e Ela, como Adão e Eva às avessas, descobrem real e dolorosamente que "o caso reina".
"Anticristo" é um filme belo e, ao mesmo tempo, horrendo. Com uma cinematografia fantasmagórica e precisa na intenção em retratar duas mentes perturbadas, este é um filme delicado, na mesma proporção em que é explícito e visceral. É arte na igual proporção em que pode ser interpretado como lixo. Porque não é um filme para todos. É, na verdade, um filme para ninguém, como se Lars von Trier tivesse construído seu próprio pesadelo, num exercício pessoal, egoísta, autista e de celebração de sua própria angústia. Dizem que Trier filmou "Anticristo" num momento de grande tristeza pessoal e isso pode ser percebido em cada segundo deste filme impressionante que destila melancolia.
Definitivamente, "Anticristo" é um filme arrebatador e com certeza não sou a mesma pessoa de antes de tê-lo visto. Ao mesmo tempo, há em mim uma satisfação - talvez inocente - em ter visto este filme, na medida em que é, na pior das hipóteses, uma peça de arte simplesmente imperdível. Não sei interpretar que impacto, especificamente, este filme provocou em mim além do silêncio. Porque esta é a essência e a beleza genuína deste filme: a sua capacidade de nos silenciar.
Fantasmagórica e brutalmente real é a jornada pelo "paraíso"
Despertei ao final deste filme, como quem acorda de um sonho ruim. Mas, de alguma maneira, quis dormir novamente. Talvez nem o próprio Trier tenha noção do poder de sua obra. Na falta de adjetivos definitivos para este filme, um, pelo menos, não me foge à mente: poderoso.
O caos reina em "Anticristo". Mas é justamente no caos que nasce a ordem e "Anticristo" transpira esta reflexão com eloquência.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
quarta-feira, 21 de abril de 2010
BRASÍLIA, 50 ANOS
"Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu País e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino".
Juscelino Kubitschek
Meus sinceros parabéns a minha querida Brasília. 50 anos, horizontal e infinita, e nem um centímetro menos utópica.
sábado, 17 de abril de 2010
LAPSO
Uma bela mulher, de longos cabelos ruivos o acordou com um beijo de bom dia: “levante, preguiçoso! As crianças já estão atrasadas!”. Levantou-se, letárgico. Um pouco de água no rosto, um banho breve, um punhado de roupas escolhidas e dobradas sobre uma cadeira de couro. Vestiu-se. A escada que descia para a sala, coberta com carpete marrom, felpudo, rangia sob os dedos dos seus pés. Meia dúzia quadros na parede, algumas fotografias, um vaso inexpressivo com flores quase murchas. Na cozinha, movimento apressado de pessoas.
“Pai! Anda! Eu não posso me atrasar para a feira de ciências!”, gritou o menino, da porta da casa; as bochechas rosadas e o uniforme pouco arrumado. “Pai, toma seu café com calma, não esquenta”, intercedeu a jovem à mesa, enquanto arrumava os livros para as aulas da faculdade. "Lógica", "Teoria do Caos".
Ele olhava tudo com olhos de vidro, de cansaço e surpresa, como uma máquina obsoleta, incapaz de processar um dilúvio de novos comandos e informações. Mal conseguia levar a xícara de café à boca, enquanto observava aquela cena familiar tão rotineira. A mãe ajudava o filho com uma maquete. O garoto segurava a chave do carro. A garota lia enquanto bebia um suco que parecia ser de maçã, alheia ao barulho da cozinha.
Um cachorro veio à sua perna, lambeu seus pés e ficou aguardando ser afagado. Ele olhou para o cão como quem olha alguma figura mitológica. “Meu bem, você não está atrasado para o trabalho?”, interrompeu a mulher. “Pai, você está bem?”, a jovem completou o inquérito. Ele os olhava inquieto, sem saber o que lhes responder. Pensou em histórias de fantasmas e realismo fantástico. Se é que conseguia, realmente, pensar em algo.
A mulher falava dos preços do mercado. Aparentemente, o suco de laranja nunca esteve tão caro. Ouvindo uma buzina alta, a jovem se levantou e, num salto, despediu-se, correndo para entrar no carro do namorado. Um carro vermelho, com um rapaz bonito, de óculos escuros, esperando, sorridente. Beijaram-se de forma pouco comportada.
O menino correu para depositar a maquete no banco de trás do carro estacionado fora da garagem. Já sentado no banco do passageiro, gritava como uma sirene de bombeiros. “Pai! Pai! Pai! Pai! Pai!”.
“Ei, o que você tem hoje?”, a ruiva interrompeu seus pensamentos, ajeitando-lhe a gravata e fechando a sua pasta. Uma bela pasta de couro de porco com duas iniciais: A. H. “Você esqueceu de pagar o cartão de crédito? Eles ligaram ontem, alegando que estamos atrasados”. Olhou-a como quem vê os créditos de um filme subirem. Através dela. Um perfume esquisito. Um pouco mais de maquiagem do que deveria àquela hora do dia.
A mulher o conduziu para a porta, trancando-a atrás dele. O sol brilhava intensamente, mas a grama estava molhada, como se tivesse chovido à noite. Na casa ao lado, um homem gordo e de roupão vinha em busca do jornal. Acenou para eles, com cortesia. Do outro lado da rua, uma senhora acenou da janela. Sorriu para os dois. Uma jovem deu bom dia, enquanto passava de bicicleta. No final da rua, cruzou uma viatura da polícia em ronda. Aquele silvo estranho. Azul. Vermelho. Azul. Vermelho.
“Você ainda não me disse o que achou das novas cores para as cortinas. Ficamos com lilás ou bege claro?”, perguntou a mulher enquanto caminhava para um outro carro, dentro da garagem. Ele não respondeu. Apenas a observou, emudecido demais. Ela deu de ombros. Ele estava estranho. Insônia, talvez.
Jogou-lhe um beijo de longe pouco antes de se sentar à direção. Por alguns instantes, olhou a mulher entrar no carro e retocar a maquiagem no retrovisor. Então, após breve meditação, abriu a porta do seu carro, sentou-se e apoiou uma das mãos ao volante.
Antes de dar a partida no carro, porém, questionou-se com certa preocupação: “quem diabos, afinal, são estas pessoas?”
quarta-feira, 14 de abril de 2010
PARA VER E OUVIR: PARAMORE ("THE ONLY EXCEPTION")
Por motivos muito meus, uma linda música que me proporciona deliciosos calafrios e me faz lembrar da minha "única exceção".
terça-feira, 13 de abril de 2010
E JÁ QUE O ASSUNTO É BEIJO...
"Beijando Jessica Stein" (Kissing Jessica Stein) é um filme adorável, imperdível e um daqueles que eu já perdi as contas de quantas vezes assisti. Os diálogos são ótimos, os personagens convencem e todo o filme é rodado em Nova York, o que promove uma deliciosa atmosfera para cenas hilárias, românticas e tocantes. É uma história completa, que não se apressa em nenhum instante e, nem por isso, também se arrasta. De alguma forma, acabamos esquecendo dos atores e acreditamos, nem que brevemente, que estamos acompanhando as vidas de pessoas reais. Muitos se enganam, ao definir este filme delicado e especial como uma comédia romântica sobre a descoberta do amor entre duas mulheres. Esta é uma forma muito superficial de encarar a história e todas as suas nuances tão interessantes. Beijar Jessica Stein é algo muito mais complexo...
Jessica procura o homem perfeito, mas acaba encontrando a garota perfeita...
Jessica (Jennifer Westfeldt) é uma solitária novaiorquina, neurótica e tímida; dedicada ao trabalho, no seu tempo livre, também é uma talentosa (e desconhecida) artista plástica. Pressionada por sua família judaica a arrumar "um bom partido" e se casar e cansada de desilusões amorosas, Jessica decide dar o passo mais ousado de sua vida ao responder a um anúncio romântico de jornal: "elas procuram elas". Com isso, acaba conhecendo Helen Cooper (Heather Juergensen). Helen é o oposto de Jessica e tudo que ela precisa: altiva, animada, engraçada, destemida e sem medo de experimentar as novidades. Com um punhado de tropeços, mas cheias de vontade de acertar os passos, Jessica e Helen acabam se envolvendo e descobrindo uma vida juntas. Naturalmente, isso envolve um punhado de sacrifícios e sofrimento, sobretudo para a família tradicional de Jessica, que tinha outros planos para ela.
O filme segue com ótimo ritmo, misturando polêmica e comédia em doses exatas enquanto vamos naturalmente percebendo em que medida Jessica está (ou não) decidida sobre as suas novas escolhas. Ao redescobrir um amor antigo, Josh Meyers (Scott Cohen), Jessica se depara com uma grande confusão e talvez a mais difícil decisão da sua vida: ficar com o homem errado, por quem sempre foi apaixonada, ou continuar com a garota perfeita, mesmo que isso não defina a pessoa que ela é, de verdade?
Por estas e tantas outras razões, "Beijando Jessica Stein" é um filme ideal para se ver no Dia do Beijo. Porque, como um beijo, é algo vivo, cheio de energia, e repleto de surpresas no caminho.
Jessica Stein é como um beijo: intenso ou delicado, sempre guarda surpresas
O filme segue com ótimo ritmo, misturando polêmica e comédia em doses exatas enquanto vamos naturalmente percebendo em que medida Jessica está (ou não) decidida sobre as suas novas escolhas. Ao redescobrir um amor antigo, Josh Meyers (Scott Cohen), Jessica se depara com uma grande confusão e talvez a mais difícil decisão da sua vida: ficar com o homem errado, por quem sempre foi apaixonada, ou continuar com a garota perfeita, mesmo que isso não defina a pessoa que ela é, de verdade?
Por estas e tantas outras razões, "Beijando Jessica Stein" é um filme ideal para se ver no Dia do Beijo. Porque, como um beijo, é algo vivo, cheio de energia, e repleto de surpresas no caminho.
sábado, 10 de abril de 2010
A DESCOBERTA DE GEORGE
Quando George nasceu, prematuro, na mesma hora recebeu o nome do santo de devoção de sua mãe. Ela havia feito uma promessa ao santo guerreiro que daria o seu nome ao seu primeiro filho caso tudo corresse bem. Apesar de ter crescido num ambiente de profunda devoção religiosa, George se tornou ateu antes mesmo de se tornar adulto. Sentia, desde muito cedo, que não havia necessidade de se apegar a ideias que não fossem concretas e sentia pavor da histeria provocada pelas religiões que, em seu entendimento, desvirtuavam as pessoas das suas próprias decisões. George não aceitava que houvesse um plano maior, além do seu controle terreno. Religião, qualquer uma que fosse, não era o seu negócio. Ele simplesmente não era um homem de fé.
Assim George viveu, por toda a sua vida. Prático, científico, materialista. Como Woody Allen, preferia o ar-condicionado ao Papa e ria, com uma mistura de pena e deboche, da sua mãe, uma senhora adorável, que sempre cheirava a incenso. Quando a visitava, olhava para o altar em destaque na sala, onde uma imagem de São Jorge podia ser vista em esplendor. "Meu Santo vestido", dizia sua mãe, enquanto tocava orgulhosamente a capa de veludo vermelho do santo imponente.
Em situações como estas, George sempre aproveitava a oportunidade para fazer alguma piada sobre os hábitos, as velas, as flores. Todo aquele "teatro" não fazia sentido para os seus olhos de matemático. Mas sua mãe não se incomodava, pelo contrário, olhava para George com um sorriso tenro e dizia, fitando-o nos olhos e acariciando seu rosto: "Ele olha por você, mesmo assim, meu filho".
Em situações como estas, George sempre aproveitava a oportunidade para fazer alguma piada sobre os hábitos, as velas, as flores. Todo aquele "teatro" não fazia sentido para os seus olhos de matemático. Mas sua mãe não se incomodava, pelo contrário, olhava para George com um sorriso tenro e dizia, fitando-o nos olhos e acariciando seu rosto: "Ele olha por você, mesmo assim, meu filho".
George era um homem pacífico, de hábitos comuns. Separado, sem filhos, morava só numa casa confortável perto da universidade onde dava aulas de estatística. Ia de bicicleta para o trabalho, gostava de tomar água de coco ao final do dia e, sempre que possível, encontrava um pequeno grupo de amigos para ouvir jazz no centro da cidade.
Além disso, alguns livros e discos antigos traziam novidade para a grande casa que dividia com Crono, seu gato siamês que havia sido castrado há duas semanas e passava dias e mais dias deitado sobre uma grande almofada azul da qual se levantava, ocasionalmente, para comer ou frequentar a sua caixa de areia. Ele gostava de conversar com o gato, que parecia observá-lo com bastante atenção. Fazia carinho em sua cabeça, e ele respondia prontamente, vibrando como um aparelho elétrico a cada novo afago. "Desculpe por ter feito isso com você, mas é para o seu bem. E nunca esqueça: você não é nem um pouco menos homem agora. Pense que perdeu um acessório, só isso".
Aos 49 anos, George se deparou com a maior provação de sua vida. Após alguns exames de rotina, ele descobriu que tinha um câncer nos testículos. Ele viu o seu mundo desabar naquele dia. Era como se estivesse despencando, num abismo sem fim, onde a sua vida parecia se desfazer como névoa e poeira.
Quando contou essa notícia à sua família, sua mãe chorou um choro diferente. Um choro de coragem. Um choro de quem se arma para a guerra. Ao ver o seu filho soluçar, sozinho num canto, aproximou-se e disse, com convicção e veemência: "Não desespere, meu filho, porque nós venceremos essa". George agradeceu o conforto, mas em sua cabeça havia espaço apenas para pensamentos de probabilidades. Causas e efeitos. Ações e consequências.
O tratamento começou e se provou mais doloroso e sofrido do que George podia imaginar. Alternava momentos de esperança e desepero enquanto seguia para as sessões de quimioterapia a que se submetia. Inicialmente, houve um quadro de melhora, mas rapidamente o seu estado piorou a um ponto crítico. George via as horas sumindo por entre os seus dedos enquanto percebia que ficava mais no hospital do que em casa. O tempo, o seu tempo, era cada vez mais fugaz.
Numa tarde especialmente nublada, George se sentiu consumido por pensamentos melancólicos. Sabia que o seu corpo definhava e enxergava um homem de cem anos no espelho. Deixou um envelope pardo sobre a mesa, contendo um bilhete breve com mais instruções do que reflexões. Levou seu gato, Crono, para a casa de sua irmã, beijou-a e abraçou seu corpo com grande demora, como se estivesse dizendo adeus. Ouviu-a dizer palavras de conforto e esperança, enquanto caminhava para a porta da rua, mas nada daquilo fazia qualquer sentido para ele.
George saiu, observou o movimento e a rotina da cidade com olhos de turista. Tentou respirar fundo, mas uma tosse áspera o impediu de continuar. Passou a mão sobre a cabeça quase sem cabelo, olhou para as mãos de centenário e sentiu as roupas ainda mais folgadas. "Que tipo de homem eu acabei me tornando?". Não via mais sentido em nada daquilo ao seu redor e tinha a impressão de ser um observador de si mesmo, coadjuvante em seu próprio corpo.
Atravessou a avenida com algum desleixo, quase invisível para os poucos carros que iam e vinham naquelas primeiras horas do dia. Descalço, andou sem pressa pela areia que massageava seus pés. Gostou daquela sensação e sorriu brevemente enquanto seguia seu caminho em direção ao mar que estava especialmente calmo naquele momento.
A água já começava a esfriar e George sentia cada novo centímetro escalando seu corpo frágil e dormente. Pés, cintura, ombros. Sentia o barulho das ondas, o sal da água e um canto de gaivotas voando não muito longe. O movimento o levava para cima e para baixo, como um barco de papel, e George decidiu fechar os olhos, antes do seu mergulho final. No instante derradeiro de sua passagem na terra, George sentiu vontade de conversar com Deus. "Perdoa-me, Deus, porque eu não consigo mais continuar".
E o mar engoliu George, cobrindo-o rapidamente e deixando-o inconsciente. Subitamente, sentiu o sol nascendo no horizonte e percebeu duas mãos habilidosas erguendo seu corpo, levando-o graciosamente para a areia. "Ainda não, George. Ainda não". Ele não conseguia enxergar o rosto do seu salvador que, naquele momento, era não mais que um vulto gigante ao seu redor. Um bombeiro, um salva-vidas.
"Porque você está me ajudando?", perguntou com palavras tossidas. "Eu não aguento mais, não consigo continuar", completou. Ao que o estranho respondeu, com um sussurro que pareceu ventar em seus ouvidos: "você consegue, sim. E mesmo quando não conseguir, não desespere porque eu vou te carregar em meus braços". E então George apagou num sono profundo.
Quando abriu os olhos, George estava numa cama de hospital. A luz branca feriu os seus olhos, enquanto ele tateva por alguma informação. Viu sua mãe e sua irmã olhando-o radiantes. E aguardou alguma explicação. Sua última lembrança era ter caminhado em direção ao mar. Nada mais.
Sua mãe acariciou sua cabeça e com uma fina lágrima nos olhos explicou ao seu filho tudo o que havia acontecido até ele ser trazido ao hospital. George ouviu incrédulo e pareceu recordar alguns fragmentos de memórias sem conexão.
Seis meses depois, os médicos deram a George a inesperada notícia de que ele estava completamente curado. Não sabiam como, mas ele estava são como se nunca tivesse ficado doente. Algo que, mesmo a medicina em sua infinita sabedoria definia por "milagre". "Deve haver alguém olhando por você lá em cima, George, porque você nunca esteve tão bem".
A brisa salina mexia em seus cabelos de forma muito especial naquela manhã em que decidiu caminhar cedo na beira da praia. Gostava do calor do sol em sua pele e sentia como se tivesse não mais que vinte anos. Achava-se um novo homem. George havia vencido uma batalha que ele sequer tentou ganhar. E como Einstein havia percebido tantos anos antes, descobriu que não havia milagres na vida, mas que todos os aspectos da vida eram milagres.
Emoldurado, na sua sala de jantar, o recorte do jornal que noticiava a história do "homem desaparecido que havia sido encontrado na areia da praia, envolto num grande manto de veludo vermelho".
Quando contou essa notícia à sua família, sua mãe chorou um choro diferente. Um choro de coragem. Um choro de quem se arma para a guerra. Ao ver o seu filho soluçar, sozinho num canto, aproximou-se e disse, com convicção e veemência: "Não desespere, meu filho, porque nós venceremos essa". George agradeceu o conforto, mas em sua cabeça havia espaço apenas para pensamentos de probabilidades. Causas e efeitos. Ações e consequências.
O tratamento começou e se provou mais doloroso e sofrido do que George podia imaginar. Alternava momentos de esperança e desepero enquanto seguia para as sessões de quimioterapia a que se submetia. Inicialmente, houve um quadro de melhora, mas rapidamente o seu estado piorou a um ponto crítico. George via as horas sumindo por entre os seus dedos enquanto percebia que ficava mais no hospital do que em casa. O tempo, o seu tempo, era cada vez mais fugaz.
Numa tarde especialmente nublada, George se sentiu consumido por pensamentos melancólicos. Sabia que o seu corpo definhava e enxergava um homem de cem anos no espelho. Deixou um envelope pardo sobre a mesa, contendo um bilhete breve com mais instruções do que reflexões. Levou seu gato, Crono, para a casa de sua irmã, beijou-a e abraçou seu corpo com grande demora, como se estivesse dizendo adeus. Ouviu-a dizer palavras de conforto e esperança, enquanto caminhava para a porta da rua, mas nada daquilo fazia qualquer sentido para ele.
George saiu, observou o movimento e a rotina da cidade com olhos de turista. Tentou respirar fundo, mas uma tosse áspera o impediu de continuar. Passou a mão sobre a cabeça quase sem cabelo, olhou para as mãos de centenário e sentiu as roupas ainda mais folgadas. "Que tipo de homem eu acabei me tornando?". Não via mais sentido em nada daquilo ao seu redor e tinha a impressão de ser um observador de si mesmo, coadjuvante em seu próprio corpo.
Atravessou a avenida com algum desleixo, quase invisível para os poucos carros que iam e vinham naquelas primeiras horas do dia. Descalço, andou sem pressa pela areia que massageava seus pés. Gostou daquela sensação e sorriu brevemente enquanto seguia seu caminho em direção ao mar que estava especialmente calmo naquele momento.
A água já começava a esfriar e George sentia cada novo centímetro escalando seu corpo frágil e dormente. Pés, cintura, ombros. Sentia o barulho das ondas, o sal da água e um canto de gaivotas voando não muito longe. O movimento o levava para cima e para baixo, como um barco de papel, e George decidiu fechar os olhos, antes do seu mergulho final. No instante derradeiro de sua passagem na terra, George sentiu vontade de conversar com Deus. "Perdoa-me, Deus, porque eu não consigo mais continuar".
E o mar engoliu George, cobrindo-o rapidamente e deixando-o inconsciente. Subitamente, sentiu o sol nascendo no horizonte e percebeu duas mãos habilidosas erguendo seu corpo, levando-o graciosamente para a areia. "Ainda não, George. Ainda não". Ele não conseguia enxergar o rosto do seu salvador que, naquele momento, era não mais que um vulto gigante ao seu redor. Um bombeiro, um salva-vidas.
"Porque você está me ajudando?", perguntou com palavras tossidas. "Eu não aguento mais, não consigo continuar", completou. Ao que o estranho respondeu, com um sussurro que pareceu ventar em seus ouvidos: "você consegue, sim. E mesmo quando não conseguir, não desespere porque eu vou te carregar em meus braços". E então George apagou num sono profundo.
Quando abriu os olhos, George estava numa cama de hospital. A luz branca feriu os seus olhos, enquanto ele tateva por alguma informação. Viu sua mãe e sua irmã olhando-o radiantes. E aguardou alguma explicação. Sua última lembrança era ter caminhado em direção ao mar. Nada mais.
Sua mãe acariciou sua cabeça e com uma fina lágrima nos olhos explicou ao seu filho tudo o que havia acontecido até ele ser trazido ao hospital. George ouviu incrédulo e pareceu recordar alguns fragmentos de memórias sem conexão.
Seis meses depois, os médicos deram a George a inesperada notícia de que ele estava completamente curado. Não sabiam como, mas ele estava são como se nunca tivesse ficado doente. Algo que, mesmo a medicina em sua infinita sabedoria definia por "milagre". "Deve haver alguém olhando por você lá em cima, George, porque você nunca esteve tão bem".
A brisa salina mexia em seus cabelos de forma muito especial naquela manhã em que decidiu caminhar cedo na beira da praia. Gostava do calor do sol em sua pele e sentia como se tivesse não mais que vinte anos. Achava-se um novo homem. George havia vencido uma batalha que ele sequer tentou ganhar. E como Einstein havia percebido tantos anos antes, descobriu que não havia milagres na vida, mas que todos os aspectos da vida eram milagres.
Emoldurado, na sua sala de jantar, o recorte do jornal que noticiava a história do "homem desaparecido que havia sido encontrado na areia da praia, envolto num grande manto de veludo vermelho".
terça-feira, 6 de abril de 2010
DIA D.
Todas as pessoas, em algum momento das suas vidas, vivem um "Dia D". O dia decisivo, de transformação, da virada da maré. Um ponto de transição na jornada. A curva, a mudança das águas. O meu foi quando eu te conheci. Porque você invadiu a minha Normandia, tomou-me de assalto, no segundo em que os nossos olhares se encontraram. E foi como se o céu gris daquela manhã tivesse sido tingido com o vermelho do seu cabelo. E desde então você passou a cintilar minhas manhãs com fogo, onde ora me queimei, ora me aqueci. Quando eu contar essa história aos nossos netos, acrescentarei sempre algo novo. Você estaria com uma flor no cabelo, eu com uma pena na jaqueta. Quem se importará?
Naquela manhã fria e chuvosa, em que eu julgava inocentemente estar desembarcando para te conquistar, eis que foi você quem saltou, sem aviso, nas minhas areias calmas, com seus ventos de novidade, de modernidade; com seus passos decididos e seus carros de combate. E me mostrou a guerra e a paz. Com seu jeito delicado e belicoso, de bailarina armada, você me pacificou. E mesmo mergulhado em seu bom combate, ou mesmo confuso por ele, descobri que você, como os heróis juvenis 1944, também me resgatava das trevas.
Com você, ingressei de verdade na guerra da vida. Aprendi seu idioma, seus costumes, as leis do seu país. E me rendi sem resistência. Porque você reinventou o meu mundo, como eu o conhecia. Porque você me reinventou. Fui argila e bronze em suas mãos habilidosas que ora moldaram e acariciaram; ora bateram e cortaram.
Você me mostrou novos caminhos, novas cores. Abriu meus cadeados e minhas fechaduras, com paciência gatuna ou com martelo e maçarico. Tudo ao seu jeito. Foi paciente com minhas infantilidades imperdoáveis e implacável com meus deslizes mais casuais. Mas sou seu cativo, seu território conquistado, quem disse que me cabe questionar os seus termos? Porque se você trouxe desafio e regra, também trouxe o progresso. Correndo para acompanhar o ritmo dos seus passos, eu acabei evoluindo como quem deixa a paisagem para trás na janela do trem.
Enquanto você enchia as minhas mãos com as novidades que pegávamos no caminho, nem percebi o que acabava deixando cair. Descobri novas importâncias ao seu lado e me desapeguei de muitas coisas que tinham outro valor antes de você transformar o meu mundo. Disse adeus, para sempre, a parte do menino em mim que já deveria ter me desfeito. Só você me mostrou como. Você igualmente me ajudou a construir o homem em mim e o menino que ficou, e que sempre ficará, acabou se transformando no Peter Pan a quem você mesma recorre quando precisa fugir desesperadamente para a Terra do Nunca. Quando cansamos, juntos, da realidade e nos escondemos dos relógios, crocodilos e piratas.
Somos garotos perdidos. Casados e crianças. Bela e Fera. Dante e Beatriz. Humildes aprendizes e pedantes catedráticos na discussão das nossas ciências. Falamos uma língua que ninguém parece entender, rimos das piadas ocultas, pintamos as horas com cores que só a gente enxerga. Porque, se de um lado temos metades que não se encaixam, de outro parece que somos a mesma pessoa.
O engraçado é que hoje percebo que eu, de invadido, acabei te transformando também, invasora. Lembro com saudade dos seus olhos de menina, quando nos encontramos. E mesmo que de alguma forma eles tenham sumido na passagem dos anos, em algum lugar eles ainda estão refletidos hoje nos seus olhos de mulher. Porque viramos adultos chatos, juntos. E, de alguma forma, também não viramos. São as nossas aventuras diárias, em que vamos das manhãs de calmaria às noites de fogo cruzado. E inventamos armistício, cessar-fogo, paz duradoura. E declaramos independência. E reinventamos tudo, novamente. Todos os dias. Das cinzas, mesmo quando tudo parece perdido. E juntos, mesmo quando separados.
"Porque você nunca está mais longe de mim do que as batidas do meu coração".
E o meu dia D. é você.
Naquela manhã fria e chuvosa, em que eu julgava inocentemente estar desembarcando para te conquistar, eis que foi você quem saltou, sem aviso, nas minhas areias calmas, com seus ventos de novidade, de modernidade; com seus passos decididos e seus carros de combate. E me mostrou a guerra e a paz. Com seu jeito delicado e belicoso, de bailarina armada, você me pacificou. E mesmo mergulhado em seu bom combate, ou mesmo confuso por ele, descobri que você, como os heróis juvenis 1944, também me resgatava das trevas.
Com você, ingressei de verdade na guerra da vida. Aprendi seu idioma, seus costumes, as leis do seu país. E me rendi sem resistência. Porque você reinventou o meu mundo, como eu o conhecia. Porque você me reinventou. Fui argila e bronze em suas mãos habilidosas que ora moldaram e acariciaram; ora bateram e cortaram.
Você me mostrou novos caminhos, novas cores. Abriu meus cadeados e minhas fechaduras, com paciência gatuna ou com martelo e maçarico. Tudo ao seu jeito. Foi paciente com minhas infantilidades imperdoáveis e implacável com meus deslizes mais casuais. Mas sou seu cativo, seu território conquistado, quem disse que me cabe questionar os seus termos? Porque se você trouxe desafio e regra, também trouxe o progresso. Correndo para acompanhar o ritmo dos seus passos, eu acabei evoluindo como quem deixa a paisagem para trás na janela do trem.
Enquanto você enchia as minhas mãos com as novidades que pegávamos no caminho, nem percebi o que acabava deixando cair. Descobri novas importâncias ao seu lado e me desapeguei de muitas coisas que tinham outro valor antes de você transformar o meu mundo. Disse adeus, para sempre, a parte do menino em mim que já deveria ter me desfeito. Só você me mostrou como. Você igualmente me ajudou a construir o homem em mim e o menino que ficou, e que sempre ficará, acabou se transformando no Peter Pan a quem você mesma recorre quando precisa fugir desesperadamente para a Terra do Nunca. Quando cansamos, juntos, da realidade e nos escondemos dos relógios, crocodilos e piratas.
Somos garotos perdidos. Casados e crianças. Bela e Fera. Dante e Beatriz. Humildes aprendizes e pedantes catedráticos na discussão das nossas ciências. Falamos uma língua que ninguém parece entender, rimos das piadas ocultas, pintamos as horas com cores que só a gente enxerga. Porque, se de um lado temos metades que não se encaixam, de outro parece que somos a mesma pessoa.
O engraçado é que hoje percebo que eu, de invadido, acabei te transformando também, invasora. Lembro com saudade dos seus olhos de menina, quando nos encontramos. E mesmo que de alguma forma eles tenham sumido na passagem dos anos, em algum lugar eles ainda estão refletidos hoje nos seus olhos de mulher. Porque viramos adultos chatos, juntos. E, de alguma forma, também não viramos. São as nossas aventuras diárias, em que vamos das manhãs de calmaria às noites de fogo cruzado. E inventamos armistício, cessar-fogo, paz duradoura. E declaramos independência. E reinventamos tudo, novamente. Todos os dias. Das cinzas, mesmo quando tudo parece perdido. E juntos, mesmo quando separados.
"Porque você nunca está mais longe de mim do que as batidas do meu coração".
E o meu dia D. é você.
sábado, 3 de abril de 2010
sexta-feira, 2 de abril de 2010
"O VENTO DA VIDA PÔS-TE ALI"
Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
Pablo Neruda
quarta-feira, 31 de março de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
TRISTE BORBOLETA
Acordou naquela manhã com uma ideia fixa na cabeça: “preciso me livrar desta angústia que quer me matar”. Sentia-se feia e disforme. Acreditava, dia após dia, que era uma mulher sem graça. Apalpava a pele flácida na esperança de que algum milagre pudesse ter acontecido enquanto dormia e passava a mão pelos cabelos desgrenhados em decepção. Todas as manhãs. Não gostava mais de si. Achava-se uma mulher feia. Sentia-se uma mulher feia.
Ninguém conseguia explicar o seu comportamento. De uma hora para outra, era como se tivesse enlouquecido. Tudo era muito estranho, quase surreal. Num domingo qualquer passou a se vestir daquela forma, com o rosto maquiado como uma pintura abstrata. Raspou a cabeça, as sobrancelhas e todos os pêlos restantes do corpo. Sentia-se uma mulher torta, uma mulher quebrada. Sentia-se como a cria de um quadro de Dalí com um desenho de Picasso.
Eventualmente, todos começaram a se afastar. Por medo, asco, vergonha, estranheza. Ninguém conseguia explicar o que havia acontecido a Joachim para ele agir daquela forma. Nunca havia feito nada errado. Havia sido sempre um menino correto, bem comportado. Terceiro filho de uma família de judeus ortodoxos, nunca deu problemas nem durante a adolescência. Havia se transformado num homem silencioso, é verdade, e notoriamente solitário. Tinha suas excentricidades, mas não incomodava ninguém em sua solidão de jovem velho ermitão de trinta e oito anos.
Morava nos fundos da casa de seus pais. Trabalhava na garagem, o dia inteiro, mexendo em motores velhos e eletrodomésticos condenados. Tinha mais dois irmãos, que moravam em Tel-Aviv servindo ao exército e uma irmã morta num terrível acidente de barco. Era uma família estranha, mas que não demonstrava suas estranhezas a ninguém. Eram extremamente reservados, até. E talvez por isso o menino Joachim tenha sido uma criança isolada. Mas isso não era justificativa. Não para o que estava acontecendo com ele.
E assim continuou, por meses. Perambulava pelas ruas como um louco. Escondendo-se nas sombras das esquinas, com medo de si mesmo, parecendo estar em busca de um destino sequer conhecido por ele. Foi quando se deparou com um cartaz de um salão de beleza maltrapilho, no centro de cidade: “Você é uma mulher linda, não importa o que eles digam”. Olhou fixamente para a placa desbotada, quase em transe religioso. E teve uma epifania.
Correu para dentro e se trancou no banheiro, assustando uma meia dúzia de mulheres tristes que estavam ali, cuidando umas das outras. Assustadas, ouviram o som de um touro numa loja de cristais. Era como se alguém tivesse aberto os portões do inferno, dentro do pequeno banheiro. Ouviam o rapaz urrar com ira, êxtase, dor, cólera. E o escutavam se debater e quebrar o que tivesse ao seu alcance. Sentiram medo e chamaram a polícia.
Joachim se observou perplexo, por horas nos restos de espelho caídos no chão do banheiro. Narciso às avessas, tinha uma confusa atração pelo seu reflexo, que, ao mesmo tempo, parecia odiar visceralmente. Queria se cortar inteiro com os cacos espalhados aos seus pés. Sentia ódio de tudo e vontade de gritar até os pulmões estourarem. Apanhou um longo pedaço de espelho, em formato de foice, acocorou-se no chão e como um samurai de Kurosawa fez de si uma triste madame borboleta, em desesperada metamorfose, naquele obscuro canto de cidade.
Quando a polícia chegou, meia hora depois, já era possível ver um rastro de sangue correndo por debaixo da porta. Sentiram cheiro de tragédia e chamaram uma ambulância para salvar a sua vida.
* * *
Ela não podia acreditar no que estava acontecendo. Semi-acordada, sozinha naquela cama de hospital, tocou o rosto inteiramente coberto de ataduras. Pulsos, pescoço e ventre enrolados em panos ensopados. Teve vontade de chorar. E chorou silenciosamente, soluçando sob a penumbra de seu quarto, enquanto se agarrava na fria barra de metal de sua cama. Segurava-se na cama com força para não despencar no abismo que parecia querer engoli-la.
E no limiar de seu retorno à sanidade que ainda era possível, chegou a uma revelação: era, definitivamente, a mais feia de todas as mulheres.
E não tinha mais dúvida alguma. Havia se transformado num homem.
sexta-feira, 19 de março de 2010
NO CALOR DO ALASKA
Após longo confinamento, uma mamãe ursa é vista pela primeira vez com o seu filhote, na costa do Alaska. Linda imagem, de puro calor nos polos, e cada vez mais rara. Em consequência do aquecimento global, os ursos polares correm risco de extinção. Fotografia de Steven Kazlowski.
quinta-feira, 18 de março de 2010
FIDÉLIO E O RÁDIO
Fidélio era um homem comum, de hábitos simples e poucas ambições. Havia sido assim por toda a sua longa vida, mas nem por isso se considerava um homem insatisfeito. Pelo contrário, era altivo e agradecido. Tinha 82 anos, viúvo há oito, pai de três filhos e avô de dois netos. Todos homens. Vivia só, num pequeno apartamento onde era assistido por um jovem enfermeiro, Javier; um cubano muito atencioso, contratado por seus filhos depois que ele quebrou uma perna tentando trocar uma lâmpada. "O senhor ainda vai acabar me matando do coração!", dizia Javier, sempre que corria para evitar que aquele homem tão frágil e sem referência da própria condição se machucasse em alguma aventura doméstica.
A saúde de Fidélio era boa mas, segundo o seu médico particular, ele já estaria desenvolvendo um princípio de Alzheimer. Nada muito grave, porém. Isso só era percebido quando trocava os nomes dos filhos ocasionalmente, esquecia o dia da semana ou repetia alguma história. Não mais que isso.
Seus filhos e netos o visitavam com bastante frequência. E ele sempre gostava de fazer da ocasião um evento. Mandava Javier fazer café e comprar biscoitos, dava notas de 5 para seus netos universitários e criticava o governo de 10 anos antes. Quando todos iam embora, Fidélio gostava da companhia do seu rádio e ficava por horas e horas, tarde a dentro, com ele ao pé do ouvido. Quase sempre acordava Javier, há muito cochilando no sofá, para pedir que o ajudasse a se trocar para dormir. O enfermeiro disfarçava o cochilo enquanto Fidélio lhe dava palmadas carinhosas no rosto. "Javier, você sente sono demais".
No seu aniversário de 83 anos, o sr. Fidélio ganhou dos seus netos um ipod recheado de músicas antigas. Eles viam o avô sempre com o ouvido no rádio e tentaram melhorar de alguma forma a sua vida, tão sem caprichos. Fidélio agradeceu com felicidade comovente, mesmo sem nem saber exatamente o que era a caixinha de acrílico em suas mãos. Nunca nem abriu, guardando-o com carinho na cômoda de sua cama, onde deixava um punhado de importâncias: um terço de prata, fotografias de sua mulher, um livro de Pablo Neruda e dezenas de cartas amarradas com fita vermelha.
Desde que se tornou viúvo, Fidélio encontrou uma calorosa companhia no rádio que ouvia em volume tão baixo que todos pensavam estar desligado. Ele podia ficar por horas, sentado quase imóvel, com o pequeno rádio. Atento, como se ouvisse instruções, Fidélio nem parecia dar bola para os acontecimentos ao seu redor. Apenas o rádio tinha importância. Os médicos disseram que era normal, algo como uma muleta emocional, um autismo temporário, e aconselharam os filhos a observar e respeitar o hábito do pai, sem grandes preocupações. Que mal havia em ouvir um rádio, mesmo em volume tão baixo? Era o que ele queria fazer e todos aceitavam. Mas só Fidélio sabia o quão especial era aquele rádio em suas mãos.
Um dia seu neto mais velho perguntou o que tanto ele ouvia com tamanha concentração. Ao que Fidélio retrucou, sorridente e sem cerimônia, que "ouvia a voz de Deus". Todos se olharam por alguns longos instantes e, desconcertados, julgaram tê-lo interpretado de forma equivocada. E deduziram, num melancólico parlamento de silêncios, que ele estava demente. Por mais quatro anos Fidélio continuou na companhia de seu rádio, sempre sob olhos de comoção de seus filhos e netos.
Chovia forte na manhã em que Fidélio se foi. Era como se o céu estivesse de luto. Javier foi acordá-lo para tomar café e o encontrou deitado, imóvel, em paz. Havia morrido em seu sono. Ao lado da cama, sobre a cômoda, percebeu o velho rádio que Fidélio nunca largava. Sorriu como quem sorri de uma criança inocente, segurou o aparelho por alguns instantes e se surpreendeu de como ele era leve. Sacudiu algumas vezes ao ouvido e constatou que o rádio era oco e sequer possuia pilhas. Depositou então o aparelho sobre a cama, ao lado de Fidélio, e sorriu novamente, com certa tristeza. Sentiu pena de Fidélio como nunca havia sentido de nenhuma pessoa antes. Acariciou os cabelos ralos em sua cabeça, fez uma breve oração e foi até a sala para ligar aos seus filhos. "Ele passava o dia inteiro ouvindo um rádio vazio e sem pilhas".
Fidélio parecia dormir o melhor sono de sua longa vida, com o rosto sereno e iluminado com um sorriso de quem não sente culpa. E o rádio estava lá, próximo ao seu corpo.
Eis que na lateral do aparelho uma pequenina luz azul piscou três vezes e desvaneceu, lentamente, em companhia de um chiado que parecia sussurrar até se transformar em silêncio.
De todos no mundo, aquele era o menos vazio dos rádios.
Chovia forte na manhã em que Fidélio se foi. Era como se o céu estivesse de luto. Javier foi acordá-lo para tomar café e o encontrou deitado, imóvel, em paz. Havia morrido em seu sono. Ao lado da cama, sobre a cômoda, percebeu o velho rádio que Fidélio nunca largava. Sorriu como quem sorri de uma criança inocente, segurou o aparelho por alguns instantes e se surpreendeu de como ele era leve. Sacudiu algumas vezes ao ouvido e constatou que o rádio era oco e sequer possuia pilhas. Depositou então o aparelho sobre a cama, ao lado de Fidélio, e sorriu novamente, com certa tristeza. Sentiu pena de Fidélio como nunca havia sentido de nenhuma pessoa antes. Acariciou os cabelos ralos em sua cabeça, fez uma breve oração e foi até a sala para ligar aos seus filhos. "Ele passava o dia inteiro ouvindo um rádio vazio e sem pilhas".
Fidélio parecia dormir o melhor sono de sua longa vida, com o rosto sereno e iluminado com um sorriso de quem não sente culpa. E o rádio estava lá, próximo ao seu corpo.
Eis que na lateral do aparelho uma pequenina luz azul piscou três vezes e desvaneceu, lentamente, em companhia de um chiado que parecia sussurrar até se transformar em silêncio.
De todos no mundo, aquele era o menos vazio dos rádios.
terça-feira, 16 de março de 2010
O PESO DA CHUVA
Um assassino está à solta. Suas vítimas são todas crianças, encontradas afogadas na água da chuva, após dias desaparecidas. A marca conhecida dos seus crimes é um pequeno origami deixado sobre os corpos. Em torno deste cenário, orbitam quatro pessoas comuns. Um pai desesperado. Um policial doente. Um investigador com dependência química. Uma mulher insone. Pessoas sem nenhuma ligação aparente umas com as outras e que se veem subitamente envolvidas com a série de crimes promovida pelo "Assassino do Origami". O que poderia ser um roteiro de um interessante thriller policial é, na verdade, um jogo exclusivo do Playstation 3: Heavy Rain, desenvolvido pela Quantic Dreams, já é considerado mais um passo na evolução do entretenimento digital. Heavy Rain coloca o jogador na pele de quatro personagens, reponsável por todos os seus atos, desde escovar os dentes e tomar banho a interagir com outras pessoas ou mesmo morrer. Tudo em caráter definitivo. Não há "continue". O jogo é construído sobre decisões interativas que conduzem a narrativa até o seu desfecho. Cada palava conta. Cada gesto, cada ação. Um jogo que promete levar os jogadores ao limite, testando suas emoções e raciocínio, sob a premissa de "até onde você iria para salvar quem você ama"? Heavy Rain é uma aposta no público adulto, maduro, sendo definido, inclusive, como "filme interativo" e não videogame. Alguns críticos associaram o jogo ao aclamado filme "Seven", tamanha a tensão promovida pelo jogo que, naturalmente, é recomendado para maiores de 18 anos. Em Heavy Rain não há "vidas", "pontos" ou "níveis". Há mistérios, profundos e envolventes, e a curiosidade humana em desvendá-los. E, naturalmente, o preço a se pagar pela curiosidade.
Marcadores:
Cultura e Arte,
Efemeridades importantes,
Microblogging,
Nerd Pride,
Recomendo
quinta-feira, 11 de março de 2010
SOBRE O RETORNO DE UM AMOR IMORTAL
Eis que surge Andrew Lloyd Webber com a notícia de seu novo musical: "Love Never Dies", a ser inaugurado em Londres. A trama, supreendentemente, será uma continuação direta da idolatrada história do "Fantasma da Ópera". Os eventos se passarão uma década após os eventos de Paris, em Nova York (Coney Island), onde Christine aceita um convite para um trabalho mal sabendo que o seu fantasma também atravessou o oceano para continuar admirando-a nos bastidores. No vídeo, a canção tema, "´Till I hear you sing", é cantada por Ramin Karimloo, que interpretará o Fantasma. Eu que tive a grata oportunidade de assistir ao Fantasma na Broadway por duas vezes só posso acreditar que este novo show, sem a menor sombra de dúvidas - e apesar de toda a controvérsia - será mágico também. É o toque de Midas de Webber. Eis que surge o Fantasma da Ópera, do silêncio e das sombras, quando todos já haviam se conformado com o "fim" de sua história. A história de seu amor desesperado por Christine. Um "amor que nunca morre".
Marcadores:
Cultura e Arte,
Microblogging,
Música,
Para ver e ouvir
quarta-feira, 10 de março de 2010
TREZE
Após longos anos de espera, atrasos e rumores, 9 de março de 2010 entra para a história como o dia de lançamento (ocidental) do aguardadíssimo Final Fantasy XIII. Pura arte digital, o supra sumo da qualidade narrativa e de entretenimento da mais famosa franquia de JRPGs. Meu lado geek, sempre presente, só tem apenas uma palavra a dizer: celebremos.
Assinar:
Postagens (Atom)


































