Desde muito cedo eu soube que havia algo de ilhéu em mim. Lembro que deveria ter uns 8 anos quando uma imagem capturou meu olhar por muitas horas: um anjo, deitado sobre uma nuvem pequena, como se ela fosse um país. Não demorou muito para eu me apaixonar pelo "Pequeno Príncipe", tampouco. O fato é que eu sempre flertei com a solidão - talvez mais até do que eu deveria - como se assim eu conseguisse emular a ideia de habitar um país microscópico, um atol, um planeta, uma ilha. E apreciei os frutos disso em igual proporção que sofri com as suas consequências. É algo meio inevitável, acho. Um quê de antisociabilidade disfarçada sob sorrisos que dão a entender que o que mais desejo no mundo é companhia. Nietzsche disse, certa vez, "odeio quem me rouba a solidão sem me oferecer verdadeira companhia". E acho que ele sabia o que estava falando. Porque imaginamos algum tipo de verdade e conforto na ideia de estarmos cercados por pessoas, mas quem nunca se sentiu imensamente só na multidão? Aprecio o silêncio e a companhia, mas talvez seja rigoroso na combinação perfeita de ambos; deve ser isso. Não sei. É tudo muito subjetivo demais. Sei também que sofro, principalmente pelo fato de que não é algo sobre o qual tenho qualquer sombra de controle. É mais forte que eu. Da mesma forma que tenho rompantes de "abstinência de companhia" igualmente sinto o desejo de subir para a caverna e me entreter com as sombras que a luz de fora projeta nas paredes. Será melancolia? Será "personalidade"? Será que é algo assim, fácil de demonstrar, como uma fórmula? Talvez seja o fato de eu não ter tido irmãos ou ter convivido com muitos adultos desde cedo. E talvez não seja nada disso, porque às vezes tudo o que quero é a carona de pássaros imigrantes que me levem para perto de alguém. Acho, em verdade, que é um ofício. E que algumas pessoas são mais qualificadas do que outras nisso. A verdade é que quando mais me convenço de que sou ilha, eis que me afasto abruptamente deste teimoso comportamento insluar, como quem acena desesperadamente por resgate. E lembro de algo que li, há muitos anos; que, quanto mais eu penso que sou ilha, percebo que sou arquipélago.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
FALKLANDS
De repente, como num devaneio que me tomou abruptamente, senti uma necessidade iminente de conhecer as Falklands Islands. Assim, sem explicação.
"PRAIAS"
Sou um entusiasta confesso de filmes femininos, "filmes de mulherzinha". Não tenho nenhum pudor em colocá-los em minhas listas prediletas e de me comover com as suas histórias. Um destes filmes inesquecíveis é o clássico dos anos 80, "Beaches" ("Amigas para sempre"). Estrelado por Bette Middler e Barbara Hershey, "Amigas para sempre" narra a história de duas mulheres, Cecee Bloom (Middler) e Hillary Whitney (Hershey), que se conhecem ainda crianças e atravessam uma vida inteira juntas, seja se correspondendo por cartas ou voando em socorro uma da outra. Eventualmente, as duas se reencontram e seguem juntas uma série de alegrias, decepções, conquistas e brigas. Como acontece na vida real, afastam-se, sem nunca se esquecerem. E acabam se achando, novamente, por causa de um evento que faz Cecee mover o mundo para reencontrar sua amiga. É um filme "bobo", claro, mas sincero e comovente na adaptação do romance de Iris Rainer. Uma história comovente sobre como tanta coisa se perde, na passagem da vida, e como tantas outras permanecem. É onde mora a beleza e o encanto deste filme. A relação sincera de duas amigas, que se conhecem ao acaso numa praia de Atlantic City, mal sabendo que seriam as pessoas mais importantes de suas vidas. E no ocaso, em outra praia não menos importante, são obrigadas a dizerem adeus. É um filme para se assistir num domingo qualquer, como eu fiz, apreciando os sorrisos e os apertos na garganta sem pressa.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
TRANSLUCIDEZ
Ela levantou cedo, como fazia há setenta e nove anos. Abriu vagarosamente a janela e observou a rua por alguns instantes. O dia ainda tinha cor de baunilha e poucas pessoas e carros já podiam ser vistos. Respirou fundo, enchendo os pulmões daquela seiva transparente e sentiu-se viva, cheia de esperança. Tinha certeza de que aquele dia seria especial. Não só porque era o seu aniversário, mas porque estava confiante de que a sua vida seria melhor a cada novo dia. Não tinha mais medos. Não se sentia impotente. De pé, no assoalho daquele quarto em que havia vivido por quase meio século, tomou-se de pensamentos inebriantes.
“Sou jovem. Tenho tudo ainda pela frente. Sou imortal”.
Lentamente dirigiu-se para o toalete. A camisola, amarelada, era arrastada pelo chão, evidenciando alguns velhos furos de traças e rasgando novos por entre as lascas de madeira no chão desgastado. Descalça de um pé, ela quase desfilava enquanto caminhava.
“Hoje quero estar linda como uma estrela de cinema. Como Ingrid Bergman”.
Encostou a porta e se despiu vagarosamente. Os azulejos desbotados estavam cheios de rachaduras e limo. Não havia como disfarçar que aquela era uma casa muito antiga. Sentiu frio e procurou pelo outro pé dos seus chinelos, sem sucesso. Sentou-se e começou a pentear os cabelos, quase enamorada de si mesma, deslizando a escova de madeira pelos cabelos brancos e espessos.
“100 escovadas à noite. E 100 pela manhã. É a minha fórmula secreta”.
Foi até a pia e molhou os olhos, as bochechas, enxugando-se com uma pequenina toalha. Polia-se com o cuidado de quem limpa porcelana fina. Estendeu a mão e agarrou o frasco de perfume. Uma mistura de cheiros adocicados e cítricos, como laranja, limão e açúcar. Borrifou o pescoço e as mãos. Espalhou cuidadosamente por entre dedos, ombros e atrás das orelhas.
“Hoje, no bonde, todos os homens só terão olhos para mim”.
Ela queria deixar o melhor para o final, quando chegava o momento de se olhar ao espelho. E tudo precisava estar perfeito. Toda a indústria, toda a ourivesaria, para então poder se encantar de si mesma por horas naquele banheiro cercado de espelhos cristalinos, que a embebedavam de felicidade. De costas e olhos fechados, armava a sua própria surpresa, como quem vai revelar algo sob uma cortina. Vagarosamente, virou seu corpo de frente para o espelho, abrindo os seus olhos sem pressa.
* * *
Sua filha não conseguia compreender aquela cena. Assustada, pensou em teatro grego, em dança contemporânea, em cinema mudo alemão. Olhou para a sua mãe, tão frágil e idosa, ensanguentada, suas mãos cobertas de cortes e estirada no chão como uma rainha deposta. Não sabia o que dizer. Instintivamente, projetou-se ao encontro do seu corpo, já frio e dormente. Tomou-a nos braços e imaginou que ela poderia ter sofrido um derrame ou um infarto. Os seus olhos eram duas pérolas transparentes e sem vida e seu rosto era uma imagem fantasmagórica. Nenhum músculo parecia responder. E ficou sentada no chão, com sua mãe no colo, cercada de estilhaços e fragmentos de espelhos por todos os cantos do banheiro. Um louco poderia jurar que ali havia chovido vidro. Sentiu sua mãe apertar seu pulso num último sopro de vida, tentando se aproximar de seu rosto, como se fosse lhe sussurrar algo.
“Jogue todos os espelhos fora, Angela. Suas mentiras são perigosas demais”.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
DE VOLTA AO CEMITÉRIO DOS LIVROS ESQUECIDOS
David Martín é um escritor que luta por reconhecimento. Doente e desenganado, ele é abordado por um homem misterioso, com um broche de anjo na lapela, que encomenda ao escritor uma obra épica. Em troca, oferece um mundo de possibilidades financeiras, redenção e cura. A partir daí, desenrola-se uma trama misteriosa pelas ruas da Barcelona do começo do século XX, onde as sombras de um passado não muito distante parecem se esconder em todos os cantos e respirar, como se estivessem vivas. Para quem gostou de "A Sombra do Vento", este novo romance de Carlos Ruiz Zafón, "O jogo do anjo", é obrigatório. É uma pena, porém, que o livro não consiga encantar tanto quanto o primeiro, mas ainda assim transpira o estilo apaixonante de Zafón e permite retornar a lugares e pessoas inesquecíveis, como a livraria de Sempere e Filho e o Cemitério dos Livros Esquecidos. É uma viagem graciosa ao futuro de uma história que não poderia ter acabado em "A Sombra do Vento". Ou seria uma visão do começo de tudo? "O jogo do anjo" oferece um passeio adorável, repleto de mistérios, segredos e perigos, com um desejo incansável de surpreender e desleixo - intencional - em não responder questionamentos semeados ao longo de suas páginas. É ainda mais onírico e etéreo, recheado de momentos em que realidade, sonho e pesadelo se entrecruzam. Imperdível.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
OS AMANTES
Os dois se encontravam pelo menos três vezes por semana. Sempre no mesmo horário, no mesmo lugar. Embarcavam, com a diferença de uma estação, no mesmo trem que os levava ao centro. Ele subia primeiro; ela minutos depois. Olhavam-se, brevemente, enquanto ela se aproximava da barra onde ele se apoiava todas as manhãs. Sem trocar uma única palavra, ela então repetia o que fazia todos os dias: ajeitava a bolsa firmemente sob o braço e segurava o mesmo apoio, onde as mãos de ambos flertavam casualmente com o toque. Algumas vezes, dedos mais atrevidos cumprimentavam uns aos outros enquanto ele e ela olhavam em direções opostas do vagão. Às vezes, ele lia o jornal enquanto ela mexia no celular. E suas mãos, como seres independentes, continuavam a aproximação contida.
Com o passar do tempo, acabaram encontrando naquele ritual o momento mais aguardado do dia. Os dois eram casados, tinham filhos e viviam vidas confortáveis nas quais "tudo está encaminhado". E eram felizes em seus casamentos. Mas tinham juntos, ali, na cumplicidade daquele vagão anônimo, um país sem governo onde podiam se refugiar. E reinar. Ela gostava de ver a repetição de suas gravatas, adivinhando um padrão para as suas escolhas. Azul clara, azul escura, bordeaux. Ele imaginava, a cada dia, se aquele poderia ser o aniversário dela. Sempre anônimos, sempre olhando em direções opostas, sempre mudos. Apenas mãos se tocando no balanço do trem sobre os trilhos.
E assim seguiam, por 23 minutos, até ela saltar primeiro e ele seguir túnel a dentro. Sem palavras nem despedidas, nunca trocavam olhares e raramente permitiam roçar um no outro. Ficavam apenas ali, segurando a mesma barra de apoio, para o entretenimento de dedos ora tímidos, ora desinibidos. Havia algo de erótico e proibido naqueles encontros propositais de mãos e dedos, escondidos sob o barulho e o anonimato. Os dois sentiam o coração palpitar a cada novo sacolejo do trem, quando mãos esbarravam um pouco mais, e palmas se sobrepunham numa deliciosa dança de acasos que os faziam sentir borboletas na barriga. Eram amantes.
Dias, semanas, meses. E os dois repetiam aquela dança invisível e sem importância para o resto do vagão apenas preocupado em chegar a algum lugar. Eles não. Gostavam do trajeto. Ele acompanhava o cumprimento do cabelo dela, curto no verão, longo no inverno, e a alternância do vermelho ao castanho escuro. Ela notava que ele tinha mais cabelos brancos desde a primeira vez que o viu e que costumava ganhar mais peso nos últimos meses do ano.
Armações de óculos, pastas e sapatos novos. Era como mantinham registro um do outro. Completamente anônimos e estranhos, contentavam-se com aqueles encontros efêmeros em que enroscavam os dedos, ora como algemas folgadas, ora como instrumentos de carinho. Nunca se olhavam, nunca se falavam. Até que ela desembarcava e ele seguia seu destino. Era sempre assim. Dia após dia.
Quando um ano se passou, ele decidiu que faria algo inesperado. Embarcou. Segurou o apoio e aguardou. Como já previa, ela entrou, olhou-o por um canto de olho e segurou o apoio a milímetros de sua mão. Seguiram juntos, sentindo a mistura do calor da mão dele ao frio da mão dela, recém saída da rua. O trem parou, portas se abriram e ela se preparou para sair.
Foi então que ele roubou sua mão e seu olhar inequivocadamente. Não a deixou sair. E ali ficaram, de mãos entrelaçadas, observando-se frente a frente, pela primeira vez, sob o som de seus corações saltitantes. Ele descobriu mais cantos e contornos do corpo dela. Ela desenhou novos traços em seu rosto, novas sombras sob seus olhos. Ficaram ali, pela eternidade de alguns segundos, adivinhando-se.
Mas, simplesmente, não sabiam o que dizer um ao outro.
Ela desembarcou e se perdeu sob a luz que cobria a escadaria que dava acesso à rua. Ele se sentou, enquanto dobrava o jornal calmamente guardando-o em sua pasta. Notou que ela havia deixado cair um lenço lilás, que ele delicadamente retirou do chão e guardou em seu bolso. Não sei antes perceber que havia perfume em sua mão.
Os monitores de TV coloriam o desembarque com manchetes do dia. Aparentemente, choveria ao final da tarde, o governo não sabia o que fazer a respeito do surto de gripe e nunca as taxas de financiamento de automóveis estiveram tão atraentes.
Nunca mais se encontrariam.
Quando um ano se passou, ele decidiu que faria algo inesperado. Embarcou. Segurou o apoio e aguardou. Como já previa, ela entrou, olhou-o por um canto de olho e segurou o apoio a milímetros de sua mão. Seguiram juntos, sentindo a mistura do calor da mão dele ao frio da mão dela, recém saída da rua. O trem parou, portas se abriram e ela se preparou para sair.
Foi então que ele roubou sua mão e seu olhar inequivocadamente. Não a deixou sair. E ali ficaram, de mãos entrelaçadas, observando-se frente a frente, pela primeira vez, sob o som de seus corações saltitantes. Ele descobriu mais cantos e contornos do corpo dela. Ela desenhou novos traços em seu rosto, novas sombras sob seus olhos. Ficaram ali, pela eternidade de alguns segundos, adivinhando-se.
Mas, simplesmente, não sabiam o que dizer um ao outro.
Ela desembarcou e se perdeu sob a luz que cobria a escadaria que dava acesso à rua. Ele se sentou, enquanto dobrava o jornal calmamente guardando-o em sua pasta. Notou que ela havia deixado cair um lenço lilás, que ele delicadamente retirou do chão e guardou em seu bolso. Não sei antes perceber que havia perfume em sua mão.
Os monitores de TV coloriam o desembarque com manchetes do dia. Aparentemente, choveria ao final da tarde, o governo não sabia o que fazer a respeito do surto de gripe e nunca as taxas de financiamento de automóveis estiveram tão atraentes.
Nunca mais se encontrariam.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
PARA VER E OUVIR: "CLAIR DE LUNE"
David Oistrakh toca lindamente ao violino "Clair de lune", de Debussy, com Frida Bauer ao piano. Paris, 1962. É para se sonhar acordado.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
O HOMEM QUE DESAPRENDEU A DORMIR
O que havia começado como mera insônia, destas que é até possível fazer piada a respeito, acabou se tornando um pesadelo real. Havia um mês, ele vinha dormindo cada vez pior, cada vez menos. Primeiro, um punhado de noites inquietas. Em seguida, seis horas de sono de má qualidade. Dias depois, cinco, quatro horas. Até, então, não pregar mais os olhos. Não conseguia. Ele havia desaprendido a dormir.
Ele tentava disfarçar o desespero de não conseguir dormir, enganando-se com algumas artimanhas pobres. Fingia bocejos casuais, vendava os olhos com uma máscara de feltro e dizia ocasionalmente, a si mesmo, do sono que sentia. Como se isso servisse para alguma coisa. E como se alguém o estivesse ouvindo.
Mas ele sabia que já não conseguia dormir e a visão do ponteiro do relógio encostando na meia-noite começava a lhe causar palpitação. Meia noite. Uma. Duas. Três. E lá estava ele, sentado no parapeito da janela, observando a cidade acordar para mais um dia. Seu café, frio desde as quatro e meia, era um adorno em sua mão. Os cigarros já faziam pilha no cinzeiro. Sempre que olhava os restos, entre bitucas e cigarros praticamente intactos, não conseguia evitar lembrar de uma fogueira dormente.
Mas ele sabia que já não conseguia dormir e a visão do ponteiro do relógio encostando na meia-noite começava a lhe causar palpitação. Meia noite. Uma. Duas. Três. E lá estava ele, sentado no parapeito da janela, observando a cidade acordar para mais um dia. Seu café, frio desde as quatro e meia, era um adorno em sua mão. Os cigarros já faziam pilha no cinzeiro. Sempre que olhava os restos, entre bitucas e cigarros praticamente intactos, não conseguia evitar lembrar de uma fogueira dormente.
Artista plástico, trabalhava em casa, o que naquele momento era uma bênção. Porque podia se permitir não se barbear, pentear o cabelo ou mesmo trocar de roupa. Vivia só, num estúdio razoavelmente espaçoso e consumido num vendaval de roupas, livros, material de trabalho e louça sem lavar que, duas vezes por semana, era organizado por sua faxineira. Lourdes, uma guatemalteca de personalidade forte e voz doce, e a sua principal referência de convivência social. De alguma forma, ela lembrava-o de sua mãe.
"Um dia o senhor vai acabar sumindo, se afogando, nesta bagunça!", Lourdes gritava do quarto, enquanto desbravava a selva deixada por ele. De sua poltrona, na sala, ele se resumia em consentir com a cabeça enquanto pensava, "até que não seria uma má ideia". Duas vezes por semana. Era um ritual. Além de limpar o apartamento, Lourdes deixava uma tigela cheia de buñuelos com queijo, uma das poucas comidas que ele ainda parecia sentir desejo.
Estava cansado de si mesmo, como se desejasse se despir de si e vestir algo novo. E se angustiava terrivelmente com a ideia de que sua vida poderia estar escorrendo por entre os seus dedos. Sentia como se vivesse num grande mapa de projetos não concluídos, como se todos no mundo estivessem numa corrida e ele fosse o último colocado, sem chance de reposicionamento. Ainda era jovem, mesmo que quase sempre se sentisse como um destes aposentados adoráveis que passam o dia contemplando a corrida dos outros. Ele só não se sentia adorável.
Não é que estivesse deprimido. Não se sentia assim. Verdadeiramente. Era como se houvesse um vazio. Um grande vazio que ele parecia contemplar, todo o dia. E que, de alguma forma, também o contemplava de volta. O fato é que ele não dormia mais. Esse era o problema. Decidiu se consultar com um médico que, após alguns exames, elogiou sua condição física apenas observando uma leve anemia. Deveria tomar mais sol, caminhar se possível, e ingerir mais frutas e verduras. Não pretendia fazer nada disso, obviamente, e decidiu voltar para o apartamento.
No caminho, parou por alguns instantes diante da vitrine de uma loja de discos de vinil. A preferida da sua ex-namorada. Quase todos os finais de semana eles fuçavam as prateleiras e gavetas em busca de alguma raridade e geralmente sem sucesso. Quando ela foi embora, deixou todos os discos e uma frase que ele nunca conseguiu apagar da cabeça. Era uma lembrança que latejava.
Suspirou, resignou-se, e seguiu em frente. Quando estava próximo de virar a esquina em direção ao seu apartamento, porém, sentiu um impulso repentino de mudança de trajetória. Virou-se, como quem se lembra de algo, como quem ouve alguém gritar o seu nome, e desceu correndo as escadarias do metrô.
Lá embaixo, os sons do mundo eram gradualmente substituídos por outros, mais abafados. Sons acinzentados de quase conversas, quase pensamentos, e música vindo de algum canto. Azulejos grafitados, pôsteres rasgados e latas de lixo urgindo por assistência davam tons de caos ao não-lugar. Sentou-se sozinho, num banco de frente para plataforma. Os trens rugiam sobre os trilhos enquanto ele observava as pessoas que subiam e desciam dos vagões. Quando se dissiparam, do outro lado da plataforma seus olhos encontraram um senhor de idade bem avançada. Sentado num banco praticamente em frente ao seu, o velho parecia fazer exatamente a mesma coisa que ele. Observar as idas e vindas daquela estação.
Ele então se levantou, olhou rapidamente se algum trem se aproximava, e atravessou os trilhos com desleixo corajoso. Subiu, aproximou-se e notou que o senhor comia buñuelos com queijo enquanto contemplava, com tristes olhos de vidro, os passantes anônimos e se sentou ao lado do velho. Os dois se olharam por alguns segundos como quem se olha no espelho.
Eis que o senhor, iluminado como se tivesse resolvido uma charada, olhou para ele com o sorriso mais doce do mundo. E tocou sua mão, como quem toca uma miragem. Era como se estivessem sonhando. Um sonho de nostalgia, um sonho de premonição.
Foi quando ele entendeu tudo.
"O senhor se incomodaria se eu encostasse minha cabeça em seu ombro por alguns instantes?"
E, como uma criança, adormeceu profundamente em meio ao caos da estação.
"Um dia o senhor vai acabar sumindo, se afogando, nesta bagunça!", Lourdes gritava do quarto, enquanto desbravava a selva deixada por ele. De sua poltrona, na sala, ele se resumia em consentir com a cabeça enquanto pensava, "até que não seria uma má ideia". Duas vezes por semana. Era um ritual. Além de limpar o apartamento, Lourdes deixava uma tigela cheia de buñuelos com queijo, uma das poucas comidas que ele ainda parecia sentir desejo.
Estava cansado de si mesmo, como se desejasse se despir de si e vestir algo novo. E se angustiava terrivelmente com a ideia de que sua vida poderia estar escorrendo por entre os seus dedos. Sentia como se vivesse num grande mapa de projetos não concluídos, como se todos no mundo estivessem numa corrida e ele fosse o último colocado, sem chance de reposicionamento. Ainda era jovem, mesmo que quase sempre se sentisse como um destes aposentados adoráveis que passam o dia contemplando a corrida dos outros. Ele só não se sentia adorável.
Não é que estivesse deprimido. Não se sentia assim. Verdadeiramente. Era como se houvesse um vazio. Um grande vazio que ele parecia contemplar, todo o dia. E que, de alguma forma, também o contemplava de volta. O fato é que ele não dormia mais. Esse era o problema. Decidiu se consultar com um médico que, após alguns exames, elogiou sua condição física apenas observando uma leve anemia. Deveria tomar mais sol, caminhar se possível, e ingerir mais frutas e verduras. Não pretendia fazer nada disso, obviamente, e decidiu voltar para o apartamento.
No caminho, parou por alguns instantes diante da vitrine de uma loja de discos de vinil. A preferida da sua ex-namorada. Quase todos os finais de semana eles fuçavam as prateleiras e gavetas em busca de alguma raridade e geralmente sem sucesso. Quando ela foi embora, deixou todos os discos e uma frase que ele nunca conseguiu apagar da cabeça. Era uma lembrança que latejava.
Suspirou, resignou-se, e seguiu em frente. Quando estava próximo de virar a esquina em direção ao seu apartamento, porém, sentiu um impulso repentino de mudança de trajetória. Virou-se, como quem se lembra de algo, como quem ouve alguém gritar o seu nome, e desceu correndo as escadarias do metrô.
Lá embaixo, os sons do mundo eram gradualmente substituídos por outros, mais abafados. Sons acinzentados de quase conversas, quase pensamentos, e música vindo de algum canto. Azulejos grafitados, pôsteres rasgados e latas de lixo urgindo por assistência davam tons de caos ao não-lugar. Sentou-se sozinho, num banco de frente para plataforma. Os trens rugiam sobre os trilhos enquanto ele observava as pessoas que subiam e desciam dos vagões. Quando se dissiparam, do outro lado da plataforma seus olhos encontraram um senhor de idade bem avançada. Sentado num banco praticamente em frente ao seu, o velho parecia fazer exatamente a mesma coisa que ele. Observar as idas e vindas daquela estação.
Ele então se levantou, olhou rapidamente se algum trem se aproximava, e atravessou os trilhos com desleixo corajoso. Subiu, aproximou-se e notou que o senhor comia buñuelos com queijo enquanto contemplava, com tristes olhos de vidro, os passantes anônimos e se sentou ao lado do velho. Os dois se olharam por alguns segundos como quem se olha no espelho.
Eis que o senhor, iluminado como se tivesse resolvido uma charada, olhou para ele com o sorriso mais doce do mundo. E tocou sua mão, como quem toca uma miragem. Era como se estivessem sonhando. Um sonho de nostalgia, um sonho de premonição.
Foi quando ele entendeu tudo.
"O senhor se incomodaria se eu encostasse minha cabeça em seu ombro por alguns instantes?"
E, como uma criança, adormeceu profundamente em meio ao caos da estação.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
A ELOQUÊNCIA DAS PEDRAS
"A Partida" (Okuribito) é um lindo filme japonês. E como tudo que é japonês, silencioso, gracioso e belo beirando o etéreo. O filme narra a história de Daigo Kobayashi, um jovem violoncelista que vive com sua mulher em Tóquio. Ele não vê o seu pai desde os seis anos de idade, quando este abandonou sua mãe. Essa mágoa faz com que ele sequer consiga lembrar do rosto de seu pai. A única coisa que restou foi uma memória em que os dois caminhavam na praia e o seu pai o presenteou com uma pedra. Quando, repentinamente, sua orquestra é desfeita, Daigo se vê obrigado a retornar à sua cidade natal, onde viverá na casa deixada por sua mãe. Num acaso do destino e precisando de trabalho, ele arruma um emprego numa agência funerária, onde acaba se tornando um profissional habilidoso. A partir deste momento se desenrola a delicada costura de imagens e sensações provocadas pela história narrada na tela.
Essencialmente, "A Partida" mostra a relação da cultura japonesa com a morte e a passagem. Vemos, ao longo de praticamente todo o filme, a explicação de belíssimos rituais dedicados ao último adeus, onde o silêncio, a calma e a dignidade ensinam as últimas palavras a serem ditas aqueles que se vão. O filme, apesar de seu potencial dramático, carrega no bolso uma alma ensolarada que ajuda a rir, mesmo quando os nós se fazem nas gargantas. Trata-se de uma pequena caixa de surpresas da qual apenas coisas belas e puras podem ser obtidas. Um filme que merece ser visto senão como enriquecimento cultural, como canja de galinha para a alma. Como uma melodia, "A Partida" toca o coração com notas altas e baixas, alegres e tristes e chega à alma com precisão. É um filme sobre acasos. E o acaso, que transforma Daigo Kobayashi num "agente de despedidas", será responsável, justamente, em ensiná-lo que, muitas vezes, o fim é também o começo de tudo.
Essencialmente, "A Partida" mostra a relação da cultura japonesa com a morte e a passagem. Vemos, ao longo de praticamente todo o filme, a explicação de belíssimos rituais dedicados ao último adeus, onde o silêncio, a calma e a dignidade ensinam as últimas palavras a serem ditas aqueles que se vão. O filme, apesar de seu potencial dramático, carrega no bolso uma alma ensolarada que ajuda a rir, mesmo quando os nós se fazem nas gargantas. Trata-se de uma pequena caixa de surpresas da qual apenas coisas belas e puras podem ser obtidas. Um filme que merece ser visto senão como enriquecimento cultural, como canja de galinha para a alma. Como uma melodia, "A Partida" toca o coração com notas altas e baixas, alegres e tristes e chega à alma com precisão. É um filme sobre acasos. E o acaso, que transforma Daigo Kobayashi num "agente de despedidas", será responsável, justamente, em ensiná-lo que, muitas vezes, o fim é também o começo de tudo.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
O BOTÃO DE NAPOLEÃO
Daniel era um menino solitário. Vivia com os seus pais em Marselha, num dos poucos bairros que haviam sobrevivido à ocupação alemã, durante a II Guerra. O pequeno apartamento tinha vista para um grande paredão de concreto que, com algum esforço e quase meio corpo para fora da janela, permitia avistar uma fina linha de oceano que banhava o outro lado da cidade. Era assim, quase pendurado na janela, que Daniel passava muitas manhãs. Tardes e noites também. Ele gostava de "ver" o mar, onde se perdia em pensamentos heróicos nos quais navegava em galeões espanhóis e combatia piratas ferozes. Suas aventuras eram sempre interrompidas pelos gritos desesperados de sua mãe que, quase todos os dias, abandonava a roupa por passar para tirar o filho teimoso da janela. "Você ainda vai cair lá embaixo, Daniel!" Mas não havia quem tirasse aquela ideia fixa da cabeça do menino.
Franzino, esquálido, sempre se machucava nas brincadeiras de rua, algo que lhe rendeu o apelido "Daniel de papel". Como quase nunca participava dos jogos com os meninos, Daniel acabava sempre perdido em seus pensamentos. Quando via os garotos escalando árvores e muros, imaginava os selvagens na África. Quando os meninos faziam brigas e corridas, rapidamente ele os vestia com uniformes e canhões de batalha. Assim era Daniel, um menino de pensamentos.
Daniel não era um menino pobre, embora não estivesse muito longe disso. A vida não era fácil para ninguém com o fim da guerra. No Natal, ganhava às vezes um livro ou soldados de chumbo. E comia chocolate uma vez no ano, quando fazia aniversário. Mas era um menino alegre e carinhoso, destes que nunca voltam para casa com joelhos ralados e vidraças quebradas. Havia algo em Daniel, algo profundo, que ninguém parecia dar muita importância.
Somente uma pessoa sabia que Daniel era um menino especial. Seu avô, Albert, adorava-o e sempre que tinha tempo, passava longas horas com o seu neto em companhia de brioches que trazia quando visitava a família. Os dois atravessavam tardes inteiras discutindo o tema predileto de ambos: Napoleão Bonaparte, "o maior aventureiro de todos os tempos". Daniel jamais esqueceu destas conversas e o cheiro dos brioches que seu avô trazia quase todas as semanas. Guardou para sempre esta memória consigo.
Quando seu avô morreu, apesar de não ter posse alguma, deixou para Daniel aquilo que considerava seu bem mais precioso: um botão de marfim que, segundo ele, havia caído da casaca do próprio Napoleão quando de suas batalhas nas areias do Egito. Vovô Albert usava-o como um amuleto que fazia os olhos de Daniel brilharem como estrelas. Pouco importavam as inverossimilhanças. Para Daniel, aquele botão era o tesouro mais valioso do mundo e ele tinha certeza que havia um dia adornado o uniforme do grande conquistador.
O menino recebeu das mãos de seu pai um pequeno envelope, onde suas mãos pequeninas podiam distinguir um pequeno volume e um bilhete:
"Querido Daniel,
Neste envelope está o bem mais sagrado e valioso para nós, que pertencemos a esta estirpe em extinção de grandes aventureiros. Espero que ele inspire você a viver e narrar grandes aventuras. Guarde-o com cuidado e carinho. Nunca deixe de sonhar. Nunca deixe de acreditar.
Vovô".
Daniel guardou o presente do seu avô por toda a vida. Um botão velho que ele mantinha amarrado ao pulso direito. Seu punho de escritor. "Daniel de papel" acabou se tornando um cultuado novelista de romances históricos, repletos de mistérios e aventuras. Seu tema predileto? A Era Napoleônica.
Sempre que dava autógrafos, Daniel era indagado sobre aquele estranho amuleto. "Budista?". Ao que ele respondia, com polidez, "algo assim". O botão acompanhou Daniel por toda a vida, sendo então passado a filhos, netos e bisnetos. O famoso "botão de Napoleão". Coincidência ou mistério, curiosamente, aquele velho botão trouxe muita sorte, sucesso e longevidade a todos os "aventureiros" que o herdaram. Aventureiros que, contra toda a bruta racionalidade da vida, "nunca deixaram de sonhar e acreditar".
* * *
"General, este botão acaba de cair de seu uniforme".
"Pois guarde-o, então. Trar-lhe-á sorte. Estamos voltando para casa".
"INVENCÍVEL"
Invencível ("Invictus")
William E Henley
Das profundezas desta noite que me consome,
Negra como o abismo, de ponta a ponta,
A qualquer Deus que em algum canto habite
Eu agradeço por esta minha alma invencível.
Nas garras temíveis das circunstâncias
Eu não estremeço nem desespero,
E mesmo sob as dores do acaso,
Minha cabeça, embora sangrando, permanece erguida.
Além de toda a ira e as lágrimas,
O horror e a sombra se costuram
E ainda assim, a ameaça do tempo
Tudo encontra e encontrará, a mim, destemido.
Não importa o quão estreitos sejam os portões
Ou quantas acusações recaiam sobre mim,
Eu sou o senhor de meu destino.
Eu sou o capitão da minha alma.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
PARA VER E OUVIR: JOHN MAYER ("HEARTBREAK WARFARE")
Se "o amor é um campo de batalha" - e eu acho que ele é -, o novo disco do John Mayer - "Battle Studies" - é uma maravilhosa forma de estudá-lo. Mayer volta melancólico como nunca, transpirando a sensibilidade de sua eterna "crise de 1/4 de vida". "Battle Studies", seu estudo pessoal da batalha que é amar, é um disco que já nasce clássico.
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
VOCÊ DEIXARIA ELA ENTRAR?
Nestes últimos tempos, em que as histórias de vampiro andam tão maltratadas (não citarei nomes, afinal, gosto não se discute) eis que surge um jóia preciosa sobre o tema. Trata-se de "Deixe ela entrar" (Let the right one in / Låt den rätte komma in), um filme sueco, dirigido por Tomas Alfredson e estrelado - maravilhosamente - pelas crianças Kåre Hedebrant (Oskar) e Lina Leandersson (Eli). Oskar é um garoto solitário e que sofre abusos constantes dos seus colegas na escola. Praticamente sem amigos, o menino se refugia em casa colecionando reportagens sobre assassinatos. Quando não está no quarto, o garoto passeia pelo pátio do prédio, sempre coberto de neve. Um belo dia, o menino nota que dois moradores chegaram para viver no apartamento ao lado do seu: um senhor e uma menina da sua idade. "Pai e filha, provavelmente", pensamos. Mas quem chega ali é Eli, uma menina estranha e misteriosa que depois descobrimos ser uma vampira.
Você deixaria ela entrar?
Os dois se conhecem por acaso enquanto Oskar está na frente do prédio, golpeando uma árvore com uma faca. E, neste momento, iniciam uma amizade insólita, marcada por grande cumplicidade. A inocência de Oskar é o contra-peso perfeito para os olhos experientes de Eli. Seus "olhos de gato" demonstram claramente que a menina, ainda que tenha "12 anos", definitivamente já viveu muitos, muitos anos. Completando o triângulo, se é que podemos pensar assim, há Håkan (vivido por Per Ragnar), que logo entendemos ser o "servo" da pequena Eli, da mesma maneira em que Drácula tinha a Henfield. Håkan não é um vampiro justamente para poder ser os olhos e os braços de Eli durante o dia, enquanto ela se refugia no banheiro, o canto mais escuro do apartamento.
Um vampiro só entra se convidado
O título é uma alusão direta à mitologia vampiresca, na qual um vampiro só pode entrar numa casa se convidado. "Deixe ela entrar" é um filme belíssimo e de variados níveis de interpretação. A um primeiro olhar, uma história de amizade e amor pré-adolescente, cheia de sonhos e platonismo. Se pensarmos na neve como uma metáfora, podemos imaginar o que há escondido sob ela. E que segredos essa neve revelará quando derreter? O desfecho do filme - ainda que não muito surpreendente - é um convite a algumas reflexões sobre Eli mas, principalmente, sobre Oskar. "Deixe ela entrar" é um filme de vampiro e, naturalmente, é marcado por suspense, violência e a busca por sangue. Mas é também extremamente tocante, silencioso e original. Subverte o tema ao nos mostrar um filme de vampiro despido do glamour característico dos seres das trevas. A violência do filme não é gratuita, também, na medida em que vemos a vida de uma vampira retratada nas circunstâncias mais mundanas possíveis. Eli não é uma vampira que surge da névoa e seduz suas vítimas. Ela é uma menina selvagem - notem suas unhas sempre sujas - que simplesmente sente fome e precisa se alimentar. O filme é imperdível para qualquer pessoa que se interesse por um delicioso conto vampiresco ou, simplesmente, aprecie um filme especial. Porque este é uma obra-prima.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
"HOMENS NÃO CHORAM"
Meu pai era um homem bruto e sem educação. Havia estudado o suficiente para conseguir assinar seu próprio nome e sua maior decepção era que eu e meus dois irmãos fossemos "doutores", apesar de nenhum de nós termos diploma de médico ou advogado. Três meninos, oriundos de uma família humilde, religiosa. Três meninos que conseguiram na faculdade uma chance de fuga. Nos formamos para fugir. Amávamos papai e mamãe, mas desde muito cedo todos sabíamos que nosso lugar seria sempre longe dali. Mamãe era uma mulher silenciosa, de poucos dentes e poucas palavras. Papai era um homem de mãos calejadas e cheiro de fumo. A única coisa que o pai sempre nos ensinou, porém, é "que homens não choram".
E isso valia para tudo na vida, não importando a dor ou o sofrimento. Homens não choram. Nem quando ele batia em nós. Mas ele era um homem bom, um homem honesto. O coração era bom, generoso, ainda que do seu jeito. Nunca deixou que nos faltasse nada e não foram poucas as vezes em que o víamos sair de casa com o céu escuro das 4 horas da madrugada e voltar muito depois de o sol se pôr, com os pés feridos e as costas dobradas feito ferro fundido.
Ele não gostava de conversar com a gente. Naquela época, eu achava que era porque ele não gostava de nós. Hoje eu compreendo, com pena e culpa, que ele sentia medo de nós. De que falassemos de coisas que ele não entendesse. De que perguntassemos coisas que ele não soubesse responder. Papai era um homem simples, do campo. Seu universo era feito pelos grãos, pela terra, pelas mãos sujas de trabalhador que veste sua camisa com menos furos para ir à igreja.
Quando queríamos conversar com ele, quando pedíamos um pouco de sua companhia, ele nos mandava ajudar a mãe com os afazeres da casa. Era um homem de ferro, um gigante, que, perto de completar setenta e dois anos, aparentava vinte anos a menos em saúde, aparência e vigor. Era um homem forte que, mesmo tão velho, não aceitava ajuda. "Homens não choram".
Ainda me aperta o coração lembrar de quando ele me levou para a rodoviária. Eu era o último irmão indo embora "para virar doutor". Meu pai me deu um aperto de mão mais forte, apertou meu braço por alguns segundos e me desejou boa sorte. Mas eu conseguia ver, por detrás dos seus olhos claros cada vez mais transparentes, a dor da despedida e o desejo desesperado de dizer tanta coisa sem poder, refém de si mesmo. Lembro de sua mão estendida, acenando adeus e em seguida recolocando o chapéu na cabeça baixa. O pai nunca havia abraçado nenhum de nós.
Tentávamos mandar dinheiro, presentes, mas ele não aceitava. Roupas, sapatos, meias, tudo era entregue para a igreja. Ele era um homem bom. Bruto, cheio de arestas sem polimento, mas um homem de bem. No dia em que mamãe morreu, voltamos para encontrá-lo sozinho naquela casa que parecia ainda menor para os nossos olhos de homens feitos. Ele estava sentado num pequenino banco de madeira, na frente de casa, onde mamãe costumava descascar milho. Tinha, então, 82 anos ainda que aparentasse muito menos. E nos cumprimentou, com um leve aceno de cabeça. Meus irmãos e eu sabíamos que não o veríamos por muito mais tempo. Queríamos ficar ali, em sua companhia, mas ele continuava relutante. Perguntava pouco sobre nossas vidas e para todas as nossas investidas, dizia que não estava precisando de nada. Meus irmãos voltaram, mas eu decidi ficar por mais alguns dias para descobrir o pai que nunca conhecemos e que eles jamais conheceriam. O pai morreria três dias depois.
Quando eu estava arrumando minha mala para ir embora, ele veio até o quarto, parou com timidez à porta, e me chamou para irmos à cozinha. Sentamos à mesa, tomamos um café de fazenda, coado no pano. E foi então que papai resolveu lembrar de seu tempo de menino, de quando roubava mangas, das primeiras namoradas, de quando começou a trabalhar na lavoura, quando conheceu mamãe, quando cada um de nós nasceu, cresceu e foi embora. Ele olhava para baixo, envergonhado, como se estivesse confessando um crime e eu o sentia engasgar com as próprias palavras. Havia tanta coisa guardada ali, como água represada, suplicando por liberdade. Segurei e acariciei sua mão por alguns instantes e ele não apresentou nenhuma resistência.
"Papai, me ajuda a cortar algumas cebolas?".
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
PARA VER E OUVIR: ELVIS PRESLEY ("JAILHOUSE ROCK")
It just doesn´t get old... Impossível ficar parado. Acho impressionante ouvir que esse cara ainda é um dos artistas que mais vendem discos todos os anos. Aliás, pensando bem, não impressiona nenhum pouco...
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terça-feira, 5 de janeiro de 2010
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
"EU NÃO QUERIA TE ACORDAR... MAS É QUE EU QUERIA MUITO TE MOSTRAR UMA COISA"
Por onde começar para falar de "Onde vivem os monstros" (Where the wild things are)? O novo filme de Spike Jonze, baseado no livro homônimo de Maurice Sendak, é tocante, abissalmente melancólico, absurdamente nostálgico, trará sorrisos e tecerá nós nas gargantas de todos que tiveram infância. E quando digo "infância", não me refiro aos dias de hoje. Quero dizer a infância de devaneios, corridas nas ruas, árvores escaladas, brigas, aventuras e joelhos ralados. Porque é sobre ESTA infância que "Onde vivem os monstros" fala. E para quem viveu ESTA infância, apenas posso dizer que estejam preparados para um filme arrebatador. A história conta um breve momento na vida de Max, um garotinho solitário que, ao ser colocado de castigo, imagina um mundo secreto onde ele é coroado rei de um pequeno povoado de monstros gigantes. Vestindo um pijama de lobo e usando coroa e cetro, Max atravessa uma jornada de descobertas e profundas reflexões.
"Dentro de cada um de nós há uma criatura selvagem"
O filme, de poucos diálogos e trilha sonora de sonho (assinada por Karen O.) é praticamente sussurrado na tela, como uma lembrança que nem sabíamos estar guardada em algum canto da mente. Mas não se enganem: apesar da premissa, "Onde vivem os monstros" não é um filme bobo. Não é comercial nem acessível como Harry Potter ou algo do gênero. Eu diria até que não é para crianças, apesar de ser inspirado num dos clássicos da literatura infantil norte-americana. Spike Jonze construiu uma caixa de lembranças e surpresas que, nas estripulias e malcriações do jovem Max, também fazem homenagem ao menino que ele mesmo foi um dia. "Onde vivem os monstros" é um dos filmes mais incríveis - e improváveis - que tive a felicidade de ver. Não há nada aqui de tradicional, não há lugar comum e, em verdade, quase não há zonas de segurança. É um filme de detalhes e de segredos. E que não tem nenhum pudor em transitar pela melancolia, pela solidão e tampouco tem receio em nos causar tristeza. É como se Spike Jonze simplesmente quisesse partilhar algo especial, belo e triste, e quem se interessar que esteja disposto a saborear o doce e o amargo no trajeto.
Um pequenino filme de detalhes e segredos
Este não é um filme simples, apesar de sua simplicidade evidente. Não é óbvio, não é fácil e definitivamente não agradará a todos. Em resumo, é um sonho breve, de poucos tons e poucas cores. Uma jornada de desbravamento, na qual Max se descobre perdendo seus medos na medida em que também perde um pouco de sua inocência. Um filme para se assistir sozinho. Em verdade, acho que, até agora, não entendi ao certo o quanto "Onde vivem os monstros" me atravessou por inteiro e me comoveu. Posso dizer, com certeza, que ele me proporcionou silêncios e sorrisos de sabores especiais e me permitiu passar alguns bons minutos na companhia do garotinho que um dia eu também fui. Um menino entretido demais com suas aventuras e andanças, capas e espadas, monstros e heróis. É dessa matéria misteriosa e mágica que esse filme precioso é feito. Inesquecível.
sábado, 2 de janeiro de 2010
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
ADEUS AO SARGENTO
Ao ano que se vai, desejo boa viagem. Não sentirei sua falta, mas também não te desejo mal, absolutamente. 2009 foi um ano meio inflexível e autoritário. Ofereceu pouco e a um alto custo, como um sargento desses filmes onde o personagem principal sofre num rigoroso treinamento militar. É como se eu tivesse passado esses últimos 12 meses olhando 2009 por seus calcanhares, na altura de sua bota lustrosa, enquanto ele me ordenava o que fazer e me reprimia quando eu não respondia satisfatoriamente. Houve algumas boas horas, claro, e algum descanso e realização. Foram as pausas para o sono, as refeições, as conversas de alojamento e a correspondência com notícias de casa. No resto do tempo, treinamento puxado, horas mal dormidas, gritaria e exercício exaustivo. Não é que 2009 estivesse me preparando para a guerra - ou pelo menos eu espero que não - mas como se o próprio ano fosse uma guerra. Mas, se aqui estou, no ocaso do ano, é porque venci. Não quero me vangloriar, em hipótese alguma. Talvez eu esteja até sendo exagerado e condescendente comigo mesmo. Mas esse 31 de dezembro, para mim pelo menos, tem um sabor inevitável de missão cumprida. E um desejo ansioso pela chegada de 2010 e suas surpresas. A 2009, minha gratidão pela aprendizagem, um adeus sincero e um aperto de mão. Não mais que isso.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
"GOOD TIMES FOR A CHANGE"
The Smiths - "Please, Please, Please Let Me Get What I Want" (cover do Luxure). Adequado para lembrar do ano que se vai e do outro que já desponta no horizonte.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
UM LIVRO QUE MERECE SER... ROUBADO
Não tenho o menor desejo de encorajar o crime, absolutamente. Mas quem tiver o prazer único de ler "A menina que roubava livros" entenderá o que eu estou dizendo. O bestseller de Markus Zusak conta a história de Liesel Meminger, uma garotinha alemã, esquálida e curiosa, que desenvolve o hábito de roubar livros em plena Alemanha nazista. Uma história delicada, comovente, que parece sussurrada, como um sonho. É um livro que nos faz uma companhia calorosa, porém tímida. Ideal para dias de chuva e é minha leitura de cabeceira neste final de ano. Ao longo do livro, a habilidade narrativa de Zusak nos apresenta personagens e situações como se nós mesmos estivéssemos presentes durante aquele tempo de trevas e histeria. Para tornar tudo ainda mais misterioso e interessante, descobrimos rapidamente que ninguém menos que a Morte é a narradora da história. Por alguma razão, a pequna Liesel marcou a Morte profundamente, de maneira que ela nunca conseguiu esquecê-la. E como a própria contra-capa do livro nos avisa, "quando a Morte decide contar uma história é melhor você parar para ouvir o que ela tem a dizer".
RUAS E AVENIDAS
Mudar de cidade, digo, para inventar uma nova vida, é uma das experiências mais marcantes que alguém pode vivenciar. Ainda mais para "alguém como eu", PHD na arte de criar raízes e apegos. Porque neste processo de (re)descoberta, muito - também em nós - ganha novidade. Aprendemos não somente sobre o novo, mas sobre o que ficou para trás. Na cartografia de novas ruas e avenidas, muito de nossas vidas também se redesenha diante dos olhos, como uma verdade que sempre esteve escancarada mas que, por alguma razão, só fica clara depois que as afastamos dos olhos. Pelo menos é o que sinto, todos os anos, quando volto para a cidade onde nasci para as festas. Observo em silêncio, as ruas e avenidas, da mesma forma que fazia quando criança. Por detrás dos vidros cristalinos, imaginando e construíndo memórias e aventuras ao longo dos antigos trajetos que hoje experimento como turista. Fico recordando, com certa nostalgia, para onde aqueles caminhos me levavam e para que finalidade. Quando eu corria pelas ruas e avenidas desta cidade como se nelas estivessem narradas as histórias não só do meu passado, mas de meu futuro, também. "Morrerei aqui, será?". Mas eis que mudei de cidade. Mudei a vida. Reinventei a vida. Reinventei um lar. E, ainda que vir até aqui seja "voltar para casa", inevitalmente me deparo com a reflexão de que "venho para a minha casa para então voltar para a minha casa". Para as novas ruas e avenidas onde vou desenhando meu presente, novamente imaginando se também estou escrevendo o meu futuro. Percorrendo novos caminhos e registrando para onde eles vão me levando. Não sei. Acho que o retorno é nostálgico, sempre, porque ele escancara no meu rosto que tanto mudou, mesmo que tão pouco pareça ter mudado. É a minha angustiante reflexão sobre a finitude. Algo meio xiita e ortodoxo, rigoroso, de quem "às vezes se pega sem querer aproveitar a festa, pela certeza que ela em breve se acabará". Assim diz minha mãe, em tantos dos seus momentos de sabedoria. Vivo orbitando esses mundos aos quais pertenço intimamente e contraditoriamente desesperado de medo de não pertencer a nenhum verdadeiramente. Ou então fico simplesmente pensativo demais. É a chuva na janela. É o cheiro de comida caseira. São as fotos, as dezenas de fotos espalhadas que, em sua desconstrução caleidoscópica e nada cronológica da minha história, narram inequivocamente a finitude que tão inocentemente insisto em combater. Ruas e avenidas. Quando o céu nublado se desfaz milagrosamente em raios amarelos e o calor do sol volta a ter sabor de baunilha, relembro que estou feliz, em casa. Enquanto não volto para casa para a companhia de minhas novas ruas e avenidas.
sábado, 19 de dezembro de 2009
O JARDIM JAPONÊS
Angela acordou com uma sensação imperativa de limpeza. Precisava limpar tudo, livrar-se de toda a sujeira que conseguia enxergar pelas paredes, móveis, tapetes e quadros. Tudo parecia revestido de limo, poeira e terra. Algo, uma força maior do que ela mesma, a impelia por todos os cômodos daquela casa antiga. Sentia-se em dívida com aquela herança. Deveria zelar pela imensa casa da colina, notória pelos bailes de outras épocas e fantasmas de dias mais recentes.
Os nativos não arriscavam sequer cruzar a vereda que cortava o grande portão de ferro. Era um caminho prático, que conduzia à pequena cidade com extrema rapidez. Não, nem crianças, nem velhos, nem moças, ninguém se autorizava a cortar caminho por ali. Evitavam a casa como quem evitava o diabo. Preferiam descer pelas montanhas, era mais seguro. Havia algo ali, para dentro dos portões caídos e enferrujados. Algo velho, muito velho, que sussurrava por entre a grama alta e o barulho das tábuas que se retorciam como se conversassem umas com as outras. Havia algo ali. Algo sinistro, que fazia as mais velhas arregalarem os olhos e mastigarem cada palavra ao dizerem que “aquela era uma casa de mortos”.
Mas aquela casa era tudo que restava à Angela. Seu marido a havia abandonado. E seus filhos, já deixando a universidade, haviam esquecido dela há anos. Tudo o que sobrou era a casa de seu velho tio, meio-irmão de sua mãe, um famoso fazendeiro de tabaco que havia perdido tudo em dívidas, jogos e mulheres. Alguns ainda a disseram que tudo foi destruído pelo seu atrevimento insistente em “mexer com forças que não deviam ser incomodadas”.
Naquela manhã, no entanto, era como se um exército de sombras e vozes e ventos a arrastassem por toda a propriedade. Sentia-se sem pés, flutuando a um palmo do chão. Observava as árvores mortas, um balanço preso por apenas por uma corda, um velho poço, fontes dágua com anjos desfigurados pelo tempo e restos de móveis do que um dia foi um jardim.
Então se viu parada diante de um gigantesco relógio de parede. Desperta do transe, sentiu um ímpeto violento de derrubá-lo no chão. O barulho ensurdecedor fez os cachorros latirem ao longe. Mas isso pouco importou à Angela que, caminhando descalça sobre restos de vidro, ponteiros e engrenagens ainda agonizantes, deparou-se com um túnel escuro, aberto grosseiramente na parede, mas perfeitamente escondido atrás do relógio, quando ainda inteiro.
Sem pensar duas vezes, abaixou-se e, no limiar de engatinhar, enveredou-se pelo buraco escuro, como uma fenda no tempo. Não conseguia, sequer, enxergar suas mãos. Rastejava. Sentia os joelhos sujos e as mãos úmidas, enquanto prosseguia. E não enxergava absolutamente nada. Nem ouvia nada. Era como se estivesse só, completamente só, num espaço sem donos, sem regras, sem física. Apenas tinha o desejo de continuar. Aos poucos, começava a sentir pequenas pedras por entre seus dedos, e um sopro de vento ameaçava tocar o seu rosto. Até que começou a enxergar um ponto de luz, quase se perdendo no infinito. Foi quando teve a certeza de continuar.
Num determinado momento, sentiu que o seu túnel ficava cada vez mais estreito, apertando seu corpo contra as paredes molhadas, que já a sufocavam. Mas nem por isso deixou de continuar. Seu queixo começava a roçar no chão, quando pôde enfim avistar uma pequenina janela. Havia chegado ao seu ponto de luz. Forçou com o punho fechado a pequena abertura por onde mal passaria uma criança pequena. E arrebentou as dobradiças com a sua determinação.
Espremeu-se como uma enguia e, com angustiosa dor, conseguiu se projetar para fora daquele ventre de barro e pedra. E assustou-se com o silêncio que a circundava. Estava de pé, num jardim japonês, branco, estranhamente sem cor alguma e em silêncio abissal. Grama branca, pedras brancas, lanternas brancas, cerejeiras brancas, céu branco, sol branco. Seu corpo estava branco, e seu cabelo, vestido, unhas e pés e mãos. Tocou-se como quem toca uma miragem e percebeu que tudo aquilo era real. Brutalmente real.
Angela olhou para trás, procurando o seu caminho de retorno. Mas ele havia se fechado, como uma ferida cicatrizada, que deixa evidente a silhueta de corte recente. E desmaiou, sentindo vividamente cada centímetro do seu corpo batendo contra o chão branco, sem cheiro nem temperatura. A fina areia a envolveu e ela pôde sentir mãos delicadas correndo pelo seu cabelo, pescoço, rosto. Não quis mais abrir os olhos. Deixou-se afundar, lentamente, sucumbindo como uma pedra que corta a água do mar no seu trajeto para o fundo. E sentiu-se em paz.
* * *
“Esta noite tive o sonho mais estranho de minha vida”, disse Angela ao seu marido que, fechando a porta de casa, sequer olhou em sua direção. “Tenha um bom dia, Angela”, disse apenas, “não me espere para o jantar”.
Conformou-se, como sempre. Limpou a mesa das migalhas de pão e lavou toda a louça. Sobre a cômoda, ainda estavam as correspondências não abertas, desde o dia anterior. Para ela, apenas um envelope, de um escritório de advogados associados.
BLAKE, NORTHWEST & FUKUGAWA – ADVOGADOS ASSOCIADOS
* * *
Não havia quem não apreciasse a misteriosa arte de Eiko Yamasaki. Suas gravuras estampavam camisetas, postais e inspiravam diretores de cinema e estrelas pop. Seus motivos eram sempre os mesmos: mulheres desesperadamente sós, caminhando por jardins sem cor, povoados de sombras e fantasmas. Quando questionada sobre suas inspirações, tinha sempre pronta a resposta:
“Estas mulheres estão vivas. E habitam os meus sonhos, todas as noites”.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
"ODE AO GATO" (PABLO NERUDA)
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.
Oh, pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
tigre mínimo de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh, fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o por e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.
PARA VER E OUVIR: CAETANO VELOSO CANTA "PALOMA" EM "FALE COM ELA", DE ALMODÓVAR
Linda homenagem de Almodóvar, ao transformar Caetano Veloso em um sonho num de seus filmes mais especiais. "Fale com ela" é, inteiro, um sonho.
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
COISA DE SONHO
Vitrine da Maison Hermès, em Tóquio. Design de Tokujin Yoshioka. Modelos virtuais "sopram" de verdade os lenços delicados em exposição. Um deleite para os olhos, um absurdo de minimalismo. Extremamente silencioso e japonês. Coisa de sonho.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
NIKOLAI E O SONHO
Dificilmente Nikolai se afastava da janela. Era sua morada, seu refúgio. Era o espaço onde passava dias e noites, noites e dias, com breves interrupções para os outros afazeres de sua vida. Nikolai era conhecido por sua discrição. Movimentos curtos e precisos, caminhar comedido, silencioso e elegante, mas carinhoso e dedicado com seu principal protetor: um senhor de 89 anos, famoso professor de música, já nos últimos suspiros da sua passagem pela terra.
Nikolai foi praticamente adotado por ele, num desses acasos do destino em que duas almas se esbarram por alguma razão qualquer e decidem continuar juntas. Nikolai e seu protetor eram companheiros fiéis numa vida de muitos silêncios. Nos dias ensolarados, o velho gostava de caminhar até a esquina, onde comprava peixe e pão frescos. Almoçavam juntos, salmão e pão preto, no terraço do velho apartamento em Paris.
Em dias chuvosos, gostavam de contemplar juntos a janela molhada e a cidade cinza no horizonte restrito daquele recorte de meio metro quadrado que emoldurava uma Paris lindamente iluminada e colorida. Nesses momentos, o velho bebericava conhaque e balbuciava algumas lembranças desconexas de um passado já há muito perdido na poeria do tempo. Um passado de recitais e alunos medíocres, de festas e moças mais ávidas por casamentos de contos de fadas do que pelo saber musical. Nikolai não se manifestava e preferia observá-lo atento, ocasionalmente se distraindo por algum passarinho na janela ou um bocejo incontrolável. Nada que incomodasse o velho, no entanto.
E assim eram os últimos dias daqueles dois amigos inseparáveis. Até que, enfim, o velho professor não se levantou mais de sua cama solitária. Havia partido. Nikolai entrou vagarosamente no quarto, passo ante passo, e contemplou o corpo frio sobre o catre daquele quarto sem luxo, incrédulo à sua maneira e demonstrando supresa e melancolia. Sentou-se por alguns instantes e olhou para o teto como se conseguisse visualizar seres flutuantes. E resignou-se com a ideia de que seu protetor o havia deixado, caminhando lentamente até o antigo piano que decorava a sala como uma ilha de mogno vermelho num oceano de cinzas.
Lá, deitou elegantemente sobre o teclado frio que abraçou seu corpo pequenino como uma almofada de marfim e ébano. Fechando os olhos vagarosamente, pareceu-lhe estar ingressando em mais num daqueles sonhos enigmáticos que tinha quase todas as noites. Seus sonhos de gato. Sonhos em que não era um gato, mas um garotinho solitário.
Nikolai foi praticamente adotado por ele, num desses acasos do destino em que duas almas se esbarram por alguma razão qualquer e decidem continuar juntas. Nikolai e seu protetor eram companheiros fiéis numa vida de muitos silêncios. Nos dias ensolarados, o velho gostava de caminhar até a esquina, onde comprava peixe e pão frescos. Almoçavam juntos, salmão e pão preto, no terraço do velho apartamento em Paris.
Em dias chuvosos, gostavam de contemplar juntos a janela molhada e a cidade cinza no horizonte restrito daquele recorte de meio metro quadrado que emoldurava uma Paris lindamente iluminada e colorida. Nesses momentos, o velho bebericava conhaque e balbuciava algumas lembranças desconexas de um passado já há muito perdido na poeria do tempo. Um passado de recitais e alunos medíocres, de festas e moças mais ávidas por casamentos de contos de fadas do que pelo saber musical. Nikolai não se manifestava e preferia observá-lo atento, ocasionalmente se distraindo por algum passarinho na janela ou um bocejo incontrolável. Nada que incomodasse o velho, no entanto.
E assim eram os últimos dias daqueles dois amigos inseparáveis. Até que, enfim, o velho professor não se levantou mais de sua cama solitária. Havia partido. Nikolai entrou vagarosamente no quarto, passo ante passo, e contemplou o corpo frio sobre o catre daquele quarto sem luxo, incrédulo à sua maneira e demonstrando supresa e melancolia. Sentou-se por alguns instantes e olhou para o teto como se conseguisse visualizar seres flutuantes. E resignou-se com a ideia de que seu protetor o havia deixado, caminhando lentamente até o antigo piano que decorava a sala como uma ilha de mogno vermelho num oceano de cinzas.
Lá, deitou elegantemente sobre o teclado frio que abraçou seu corpo pequenino como uma almofada de marfim e ébano. Fechando os olhos vagarosamente, pareceu-lhe estar ingressando em mais num daqueles sonhos enigmáticos que tinha quase todas as noites. Seus sonhos de gato. Sonhos em que não era um gato, mas um garotinho solitário.
* * *
Um solavanco repentino retirou Nikolai de seu sono profundo como um susto. O trem acabava de chegar à estação, consumindo tudo ao seu redor em fumaça e barulho. Era uma manhã muito fria quando Nikolai chegou com sua mãe à Paris, em 1948.
"Veja, Nikolai, que linda cidade. Seremos felizes aqui, meu filho, estou certa de que seremos felizes aqui".
Nikolai olhou para sua mãe, que sorria, maravilhada com os ares de Paris. Filho de um paraquedista morto na guerra, Nikolai chegava à cidade e enfim conheceria o seu avô, que não via desde o seu nascimento. Com a luz que lentamente começava a despontar, colorindo as ruas preto-e-branco, Paris se descortinava diante de seus olhos iluminados e ávidos pelas novidades. Nikolai aprenderia a tocar piano com o seu avô. Era esse o plano. E rapidamente o menino esqueceu de seu sonho. Mais um sonho enigmático em que era, não um garotinho, mas um gato de pelo listrado e olhar silencioso.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
PARA VER E OUVIR: SARAH MCLACHLAN ("I WILL REMEMBER YOU")
Hino oficial da saudade e da nostalgia. O filme no clipe é "Os irmãos Mcmullen".
sábado, 5 de dezembro de 2009
EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. SEMPRE.
V
T.S. ELIOT
So here I am, in the middle way, having had twenty years—
Twenty years largely wasted, the years of l'entre deux guerres
Trying to use words, and every attempt
Is a wholly new start, and a different kind of failure
Because one has only learnt to get the better of words
For the thing one no longer has to say, or the way in which
One is no longer disposed to say it. And so each venture
Is a new beginning, a raid on the inarticulate
With shabby equipment always deteriorating
In the general mess of imprecision of feeling,
Undisciplined squads of emotion. And what there is to conquer
By strength and submission, has already been discovered
Once or twice, or several times, by men whom one cannot hope
To emulate—but there is no competition—
There is only the fight to recover what has been lost
And found and lost again and again: and now, under conditions
That seem unpropitious. But perhaps neither gain nor loss.
For us, there is only the trying. The rest is not our business.
Home is where one starts from. As we grow older
The world becomes stranger, the pattern more complicated
Of dead and living. Not the intense moment
Isolated, with no before and after,
But a lifetime burning in every moment
And not the lifetime of one man only
But of old stones that cannot be deciphered.
There is a time for the evening under starlight,
A time for the evening under lamplight
(The evening with the photograph album).
Love is most nearly itself
When here and now cease to matter.
Old men ought to be explorers
Here or there does not matter
We must be still and still moving
Into another intensity
For a further union, a deeper communion
Through the dark cold and the empty desolation,
The wave cry, the wind cry, the vast waters
Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
CONTEMPLADORES DE JANELAS
Uma pesquisa decidiu investigar o que gatos domésticos fazem quando estão sozinhos em casa. Para isso, câmeras escondidas tiraram fotos a cada 15 minutos, registrando o que os gatos faziam de seu tempo enquanto os donos não estavam por perto. Quase 800 fotos foram estudadas e se descobriu que, na maior parte do tempo, os gatos domésticos dedicam seus dias a olhar pelas janelas. O restante, dedicam a dormir, esconder-se e brincar. Contempladores de janelas. Amo-os ainda mais hoje.
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
O TEMPO & EU
Eu e o tempo. O tempo e eu. Relação de amor e ódio que, neste final de ano, comemora três décadas. O tempo passa, realmente, diante dos nossos olhos e de forma praticamente imperceptível. Faço jogos comigo mesmo, sem grande fundamento, que acredito poderem me ajudar a mensurar sua passagem silenciosa e devastadora, ainda que rica e repleta de memórias, lembranças, aprendizado e satisfação. Gosto de me olhar no espelho, ocasionalmente, e tentar enxergar o "eu" de 5 anos atrás. De 10 anos atrás. 15, 20. E é como se eu conseguisse, porque fica a ilusão de que "não mudei tanto assim", que "estou mais ou menos da mesma forma". E aí surgem os clichês, de que alguns fios de cabelo branco e um punhado de rugas discretas não deixam mentir. Mas é como se eu não as enxergasse e acreditasse, de fato, que não mudou muita coisa. Sou o mesmo, quase igual, apenas com anos a mais. E a ilusão até dura, surpreendentemente. Mas é inevitável constatar que tanto muda, que tanto mudou. Muitas vezes para melhor, outras para pior, mas sempre é um conjunto de ideias sobre uma vida que já ficou para trás. E isso é extremamente doloroso. Ainda que nada se perca, já que tudo o que "fica" é convertido em memória. Comos os discos que gravamos em fita, que gravamos em cd, que gravamos em dvd, que gravamos em bluray... Mas o original ficou para trás e tenho certeza que, na conversão contínua de acontecimentos reais em lembranças bluray, muito se perde. Caminhamos para frente, em marcha firme, sem a opção de retroceder. No máximo, olhar para trás. Dezembro é emblemático para mim, por razões óbvias. É o mês do desfecho, do balanço, de começar a contabilizar o ano. 2009, definitivamente, não foi um ano bom. Ele teve "seus momentos". O ano foi uma maratona, com breves e fugazes momentos de descanso. Sinto que andei quase todo o tempo na reserva, sem muita chance para abastecer, para carregar as baterias apropriadamente. Foi um ano em que senti na pele, como corte, a sensação do amadurecimento. Como se tivesse deixado parte de um "eu mais jovem" na estação. Como se eu tivesse dado adeus definitivo a algo de mim que já não poderia mais me acompanhar na jornada; provavelmente porque em breve - ou quem sabe neste exato momento - já esteja em companhia de um novo eu - ou parte dele - com quem seguirei a partir de agora. Catarse, devaneio, filosofia sem muito fundamento. É algo que vem e volta, geralmente nessa época do ano em que carimbamos "mais um". Fazia tempo que não sentava na ilustre companhia de meus botões, na minha solitária contemplação de janelas, enquanto observo o silêncio da rua, os carros que passam, os apartamentos acesos de maneira aleatória como um sorriso largo onde faltam alguns dentes. Talvez porque eu acabe sentindo tanta falta de mim mesmo - ou de algum eu que se foi e não voltará mais - acabo evitando socializar comigo mesmo para não constatar a inevitável passagem do tempo. Porque sinto saudade. São meus jogos sem grande resultado. Não dá para enganá-lo, não tem jeito. E acabo dançando conforme sua música e obedeço, como servo infiel, este meu mestre rigoroso. E, passada a estranheza de todos os finais de ano, continuamos a seguir juntos. O tempo e eu.
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