
Tom Cruise é o conde von Stauffenberg
Tom Cruise é o conde von Stauffenberg
Conta a lenda que São Jorge nasceu na região da Capadócia (sudeste da Turquia). Com a morte do seu pai, mudou-se para a Palestina, onde sua mãe possuia recursos para educá-lo. Ainda jovem, juntou-se ao exército romano e foi logo promovido ao posto de capitão, recebendo depois o título de conde da Capadócia. Já aos 23 anos, ingressou na corte imperial e assumiu o posto de Tribuno Militar. Apesar de ser nobre e rico, Jorge decidiu entregar todas as suas posses e riquezas aos pobres e enfrentou o imperador Diocleciano, contra a perseguição aos cristãos. A partir daquele momento, renegou o paganismo romano e passou a defender a fé em Jesus Cristo. Por sua ousadia, Jorge foi perseguido, envenenado e torturado, sobrevivendo a todo o mal que lhe era causado e sem nunca renegar a sua fé em Cristo. Sem êxito em persuadir São Jorge a desistir de sua fé, o imperador decidiu degolá-lo em 23 de abril de 303 d.C. A partir deste momento, o martírio de São Jorge ganhou notoriedade e muitos romanos foram comovidos e convertidos pelo sofrimento do jovem soldado. Os restos mortais de São Jorge foram sepultados em Lida (Palestina), onde mais tarde, o imperador Constantino ergueu um oratório para que a devoção a São Jorge fosse conhecida no Oriente. Hoje, São Jorge está entre os santos mais amados pelo catolicismo em todo mudo.
Vez ou outra surge um filme assim, incrível, como é "O lutador". Uma união harmônica de elementos que funcionam perfeitamente na tela: boa história, ótimos personagens, um drama humano comovente e atuações primorosas. Mickey Rourke merece todos os elogios possíveis à sua atuação como o decadente lutador "Randy the Ram Robinson", um gladiador refém de glórias passadas, que sobrevive de bicos, apresentações falsas e sofre com a pobreza e a solidão. Na tela, testemunhamos a existência de um homem que se arrasta, como se a gravidade fosse especialmente mais forte sob seus pés. Olhos cansados, braços e pernas que parecem ranger como se enferrujadas, o lutador é um "pedaço acabado de carne" como ele mesmo se define. Mas o que faz esse filme especial também é o fato de misturar realidade e ficção, uma vez que o próprio Mickey Rourke, um ator que viveu o céu e o inferno em sua vida pessoal, é uma versão viva do Randy the Ram. São duas riquíssimas horas, de uma história "simples", mas que contam toda uma vida. Por fim, não há muito mais o que falar sobre este filme que é belamente dirigido por Darren Aronofsky ("Fonte da Vida" e "Réquiem para um sonho"). É muito melhor vê-lo, senti-lo e se deixar contagiar pela luta de Randy "The Ram", que está muito além do sangue e do suor; é uma luta para descobrir quando é tarde demais - ou não - para recomeçar. Um filme que fica.
Duas frases definem o filme "C.R.A.Z.Y", de Jean-Marc Vallée: uma história sobre o amor de um pai por seus filhos e o amor de um garoto pelo seu pai. Uma delicada jornada, que começa nos anos 60, e percorre trilhas que tratam do autodescobrimento, da aceitação e a relação de pessoas com a sua época. Tudo muito bem feito, com excelente direção e trilha sonora, fazendo com que seja este um filme imediatamente arrebatador, impossível de não se apaixonar. É um retrato de um tempo, de uma família, do amadurecimento, repleto de questões e situações com as quais é muito fácil se identificar. Sem dúvidas, um filme que fica.
"Fatal" (Elegy) é um filme único. Completamente obrigatório. Há muito tempo não via uma história tão silenciosa e tão eloquente. É uma obra de arte, de uma beleza que chega a doer. Comovente, honesto, narra sem pudores as crônicas da fragilidade humana: as inseguranças das relações afetivas, a paixão carnal, o envelhecimento, a perda da beleza, a doença, a morte, a separação. Estrelam o - sempre maravilhoso - Ben Kingsley e Penelope Cruz, que está surpreendente. Na trama, um velho professor universitário (Kingsley) "ainda preso à comédia humana das tentações carnais" se apaixona perdidamente por uma aluna cubana-americana (Cruz). Apesar da idéia comum, esse relacionamento é o tecido no qual se costuram as mais belas reflexões sobre a jornada humana pela vida. Esse filme não merece, nem precisa de resenha. Ele merece, ele precisa, isso sim, ser visto e sentido. Como quem se senta, à beira do mar, um dia inteiro, apenas para contemplar a sinfonia de sons, de luzes e imagens, observando a água que vem forte e volta, deixando espuma sobre a areia.
Você me disse que quase não tem vindo por aqui. Receio de ficar triste, você justifica. Não te julgo; acho que você tem razão. São as crônicas dos últimos dias que, em verdade, foram uma montanha-russa de euforia e melancolia. Mas eu ainda te escrevo aqui minhas mensagens em garrafas, que podem aportar em sua praia, num dia qualquer que você decida me fazer uma visita. Você surgiu como um anjo em minha vida e ainda o é, mesmo com todas as tempestades que enfrentamos no caminho. Você me dá provas disso, quase diariamente, quando me faz enxergar o vento que você sopra em minhas velas, que me levam adiante, para terras de novas conquistas e descobertas. O vento que faz com que eu "não precise de asas comuns, porque o próprio céu me leva até você". O porto de saída e o caminho de volta. A melhor risada, a melhor conversa, a noite mais bem dormida, a bebida mais doce, a comida mais saborosa, o corpo mais quente, a boca mais suave, as aventuras inesquecíveis. A você sou eternamente grato por tudo, por cada nova página do melhor capítulo da minha história. O capítulo mais inspirado, mais emocionante da minha biografia. Você, o anjo de minha vida.
Bem disse Heráclito, certa vez: "tudo flui e nada permanece. Tudo se afasta e nada fica parado. Não consegues banhar-te duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão fluindo. É na mudança que as coisas acham repouso".
Sofia Coppola começa a rodar seu novo filme, agora, em junho. A princípio, o título será "Somewhere". Como em “Lost in Translation” (Encontros e Desencontros), a história também será ambientada num hotel, o Chateu Marmont, em Los Angeles. O lugar é famoso por abrigar celebridades problemáticas, como Britney Spears e Jim Morrison, e também será refúgio do personagem principal do filme, um ator que leva uma vida de excessos, perdido e sem rumo, até que é visitado por sua filha, de 11 anos. Como protagonistas, Stephen Dorff no papel principal (ele fez “Blade”) e Elle Fanning (do "Curioso caso de Benjamin Button"). Segundo a Variety, o filme trará uma história "intimista, numa Los Angeles contemporânea". Como aconteceu à "Lost in Translation", a Focus Features será a produtora. Previsto para 2010. Enfim, um grão de notícia sobre um novo filme de Sofia Coppola. Já era tempo.
Existe um filme ótimo, mas que poucas pessoas conhecem: "Alma de poeta, olhos de Sinatra" (Dreams for an insomniac). É uma história deliciosa, passada em São Francisco, onde conhecemos Frankie (Ione Skye), uma espécie de "Bela Adormecida às avessas". Ao invés de esperar dormindo pelo príncipe encantado, Frankie, que é insone desde os 6 anos de idade, aguarda - de forma irredutível - pelo seu salvador, que precisa ter olhos azuis como os de Frank Sinatra. E ela acredita ter encontrado, nos olhos azuis de David Shrader (Mackenzie Astin), um escritor com bloqueio criativo recém-chegado na cidade. O encontro rende uma missão especial: Frankie ajudará David com seu bloqueio criativo, tornando-se sua musa, levando-o a cantos misteriosos e encantadores da cidade; David, em contrapartida, tentará fazer Frankie dormir. Os dois então se descobrem como almas gêmeas culturais, tendo em comum dezenas de artistas, escritores e citações famosas. Mas, como na vida real, nem tudo é perfeito no conto de fadas de Frankie, a Bela Acordada. E é sobre isso o filme, a jornada da princesa sem sono em busca de ser feliz para sempre. Por fim, uma história de amor original, agradável, confortável, que não se arrisca em nenhum momento mas que cumpre seu papel em entreter. Fotografia bonita, Um desconhecido, porém muito especial, filme que fica.
Entre tantos filmes injustamente subestimados, acho que "Simplesmente Amor" (Love actually) se destaca. Por alguma razão esse filme - tão especial - não recebe o devido respeito e carinho das pessoas. Não consigo entender o motivo. Apesar de furos (mínimos) aqui e ali ou um punhado de segundos desnecessários, "Simplesmente Amor" é uma jornada honesta, humana, pela vida de uma série de personagens convicentes, com os quais é absolutamente possível se identificar: o garotinho apaixonado, os amigos, o casamento em problemas, a paixão platônica, o amor que vence barreiras sociais, raciais, culturais e de idioma. Esse é, essencialmente, um filme sobre o amor, sem rodeios, sem exageiros e com os melhores clichês do mundo. É um filme que faz bem, que conforta e que aquece, quando pensamos que a vida está ficando cinza demais. As múltiplas histórias contadas se entrecruzam sem dificuldade, sem nada ser atropelado ou esquecido. Descobrimos pessoas comuns, que se apaixonam e se decepcionam, porque esse é o tecido do qual se costura a vida. As cenas finais, com os encontros no Aeroporto de Heatrow ao som de "God only knows" dos Beach Boys são de uma simplicidade sublime, mas que me emocionam quantas vezes eu assistir.
Sentirei falta das nossas jornadas espontâneas. Das aventuras consumistas, presentes esquisitos, almoço caseiro e adoções não planejadas. A idéia de começarmos e atravessarmos um dia inteirinho, sem ter a menor noção de como ele vai terminar; rindo de bobagens, fazendo graça de histórias sem nexo e brincando de pegar na mão.
...because it would never be as much fun". Eu me espanto sobre o tempo que demorei para escrever a respeito de "Lost in Translation" (Encontros e Desencontros) que é, simplesmente, o filme mais importante e decisivo da minha vida. O filme que me apontou quem eu sou e essencialmente me fez entender que eu não estava tão só quanto eu sempre havia julgado estar.I´m stuck. Does it get any easier?
Are you awake?
Charlotte está “estagnada”, Bob “incrédulo”. E os dois se contaminam do que mais precisavam naquele momento de suas vidas: ela, de que “tudo eventualmente vai dar certo” e ele, de que “ainda há tempo para se fazer algo de construtivo em sua vida”. O Japão, o idioma impronunciável, incompreensível, é nada mais que uma elegante moldura. Suave, discretíssima, leve, quase agridoce. Bob e Charlotte poderiam ter se conhecido em um campo de batalha e tudo teria sido igual. Afinal, essa história é apenas sobre eles.
Esse filme me atinge como um raio, porque sou um contemplador de janelas e filósofo não graduado pelo silêncio da vida. Melancolicamente feliz, sempre, a cada novo dia. Amante, apaixonado das pequenas coisas, ainda que eu busque sofisticar meu olhar diariamente. Sarcástico, irônico e quase venenoso em alguns pensamentos e palavras, ainda que carregue uma enorme carga de bondade na alma. Sou assíduo e devoto freqüentador das reuniões que faço comigo mesmo. Como Charlotte, descobri na marra, a capacidade de entreter a mim mesmo, olhando as luzes da cidade, sentado na janela sem sono do meu quarto, buscando novas companhias, encontrando em cada viagem - mesmo imaginária - uma fenda no tempo, mágica nem que para mim, apenas. Sou crente na capacidade mítica e de eternização das fotografias, que guardo e coleciono como tesouros secretos.
Assim, escolho definir a mim mesmo como alguém simplesmente (ou complicadamente?) “perdido na tradução”. Falo isso como cronista e crítico de minhas andanças, de meus encontros e desencontros, das minhas espiadas pela janela do meu quarto, das minhas pequenas paixões e grandes frustrações, dos meus sonhos e devaneios distantes, da minha humilde percepção da vida, do amor, da melancolia e da saudade.
I just don’t know what I’m supposed to be.
Como em Bob e Charlotte, há algo de insone em mim. Por isso acordo cedo, para ver as primeiras luzes do dia, sentir cheiro de café e encontrar-me comigo mesmo. Logo no começo dos dias, minha cabeça ferve de pensamentos. Lembro de Tchaikovsky, que andava com uma mão sob a cabeça, “para que ela não caísse”, tamanha era a quantidade de pensamentos que tinha.
São nesses momentos especiais que vou me convencendo de que me preocupo em demasia e que a vida não é tão complicada assim. E esqueço dos medos e dos dogmas. E de que existe algo que se chama de “sucesso” e algo que se chama de “fracasso”. Aceito que existir pode ser “como mel” e vou me dando conta de que “sim, eu estou bem”.
Já não sinto tanto medo de me prender, e até tento não planejar tanto. Sei que pode ser difícil, mas me esforço em ser e deixar ser, amar e viver com aceitação; permitir-me os sonhos e alegrias possíveis; viver o dia, um após o outro, com construção diária de idéias. É o que faz a vida ter algum significado. Esse, para mim, é o caminho da felicidade. E sinto que ando mais próximo dele.
You’ll figure that out. The more you know who you are, and what you want, the less you let things upset you.
É isso que quero dizer; o porquê deste filme, desta história, ser tão importante para mim. Ela me traz de volta a mim mesmo, quando percebo que estou me distanciando do que já conquistei e começando a sucumbir aos medos mais tradicionais da nossa solitária (mas nem tanto) existência. Sou e acho que sempre serei “perdido na tradução”, mas sou feliz assim. Porque me descobri assim e percebi que posso encontrar minha felicidade assim.
No meu “táxi para o aeroporto” me proponho exatamente essa reflexão: que quero ser feliz, apenas, e que isso é possível, está ao alcance dos dedos, como meus biscoitos de infância. Olho pela janela do carro e compreendo que a alegria da vida está em nós, dentro de nós, e nos encontros (e desencontros) que acabamos por experimentar e que são todos eles imensamente importantes. Sempre fui um amante de encontros improváveis e as belas histórias que nascem deles. Isso é recorrente em mim e talvez por isso me enxergue tanto em Bob, quanto em Charlotte.
Não, eu não tenho medo de abraçar um estranho. Há algo em mim, extremamente proustiano, de quem não sabe dizer adeus a nada nem a ninguém. E é nesse aspecto que me comovo tanto com o “abraço final”, o abraço do “não se preocupe tanto com o amanhã” do fim do filme. Porque sei, aprendi no choro, que algumas coisas na vida, eventos, pessoas, momentos, passam mesmo e não voltam nunca mais. Apreciar cada segundo de tudo, portanto, é o segredo não para evitar a melancolia (ela é inevitável), mas para cultivá-la como algo importante à alma. A necessária solidão. A necessária tristeza.
É o que me dá coragem, apenas posso dizer. Não sou soldado - longe disso - e nem sei se gostaria de ser. Somente me faço crer que cada novo dia será diferente e melhor, por mais nublado e esquisito que esteja. Não sou um otimista cego, e procuro não ser um pessimista profissional. Tenho fé nas coisas e nas pessoas.
Com algum esforço, consigo voltar a enxergar o mundo com meus “olhos de 6 anos de idade”, quando me vestia de Super-Homem, sob o imperdoável sol de 36 graus da minha cidade. É porque, no fim, ainda que viva momentos de melancolia, também sou bobo, apaixonado e entusiasta das pequenas coisas, como criança. E caço em todos os olhos e todos os abraços, o meu novo encontro-e-desencontro, que simplesmente me permita acreditar que tudo vai dar certo.
Os homens Sikh são um povo honrado e orgulhoso. Podem ser facilmente identificados pelos turbantes coloridos, perfeitamente enrolados e pelo físico, já que eles são bem maiores do que os indianos comuns. Os Sikhs, pode-se dizer, são uma irmandade, fundada há centenas de anos. Para que pudessem se reconhecer nos tempos de guerras, definiram 5 aspectos que são seguidos com muito cuidado: não cortar o cabelo (enrolado e escondido pelo turbante); o uso de um pente de madeira ou marfim; calças folgadas; um bracelete de metal e uma espada. Eles acreditam em um Deus e não veneram ídolos, apenas seus gurus. Apesar de serem radicais, praticam a tolerância e o amor ao próximo. Diz um famoso provérbio Sikh:
Tenho uma relação de amor com o filme "Elizabethtown". É isso. Sou apaixonado, perdidamente apaixonado por esse filme. Não apenas por ser um dos filmes mais importantes da minha vida, por razões biográficas; ou pela trilha e direção inspirada de Cameron Crowe; tampouco pelas ótimas atuações de Orlando Bloom, Kirsten Dunst e Susan Sarandon ou pelos personagens inesquecíveis e situações deliciosas... O que dizer de "Elizabethtown"? Acho, em verdade, que me faltam as palavras; pelo menos as melhores, as mais inspiradas. Mas isso é culpa minha, apenas minha, que ando patologicamente pouco eloquente. Posso dizer sem medo que esse é um filme importante para mim, simples assim. Inesquecível, que me comove e me toca, profundamente, do primeiro ao último minuto. "Elizabethtown" é um filme sobre caminhos e a possibilidade de perdê-los ou de segui-los. Ficar parado, diante da encruzilhada, jamais é opção. É um convite à vida e a não temer o desconhecido, porque "aqueles que arriscam triunfam". É uma história linda, mágica, que reforça a minha crença na luta contra "eles" e me ajuda a sonhar com a felicidade possível, realmente ao alcance dos dedos, que independe de dinheiro ou de qualquer forma de "realização". E que, apesar de muitas vezes sermos "pessoas substitutas", às vezes tudo o que precisamos é de "um encontro no meio do caminho" para ver o sol nascer. Há ali, nas imperceptíveis duas horas de filme, reflexões sobre a morte, a saudade, o sucesso, o fracasso, as escolhas, o amor, o destino, a família, as decepções, o amadurecimento. São tantas coisas especiais em tão pouco tempo. E nada é negligenciado ou tratado de forma superficial. O que eu sei é que posso ver este filme mil vezes e mil vezes vou chorar com Drew, quando ele se dá conta - tardiamente - da morte do seu pai; mil vezes vou querer abraçar Susan Sarandon após o sapateado e mil vezes vou me apaixonar por Claire. "Elizabethtown" é meu farol pessoal, guardado dentro de uma caixa de vidro, pronta para ser arrebentada em caso de emergência. Para eu não perder, por mais fácil que seja, a 60B.
Não há neste mundo vínculo mais poderoso e verdadeiro do que o laço de amizade entre os homens. É algo de camaradagem, de irmandade. Algo cunhado nos anos, nas guerras, na necessidade de encontrar um elo de força para enfrentar as dificuldades. É uma aliança gratuita, sem interesses, despida de qualquer hipocrisia. É a união dos semelhantes, de duplas, de grupos ou de bandos que escolhem ficar juntos por partilharem gostos, idéias, sonhos, visões de mundo. Eis o poder da amizade entre os homens. O filme "Eu te amo, cara" (I love you, man) é um exemplo perfeito disso. Sem muitos rodeios, é um filme absolutamente fenomenal. Para mim, clássico instantâneo e inesquecível. E não apenas pelo roteiro inteligente e por uma das melhores e mais honestas atuações de Paul Rudd em anos. O filme é fiel à idéia de como são importantes (e necessários) os laços afetivos entre dois amigos. A história é muito simples: um corretor de imóveis em ascensão (Rudd) pede sua namorada em casamento. Por ter sido sempre um daqueles caras que se dedicam demais aos relacionamentos e abandonam os amigos, descobre subitamente que não tem ninguém para convidar para ser seu padrinho. Para contornar essa crise, todos arrumam "man-dates" para que ele conheça um amigo - o que rende situações hilárias. Por fim, como destino, eis que ele acha um amigo ao acaso e descobre o parceiro que deveria ter cultivado anos antes. Esse é um daqueles filmes simples sem nenhuma pretensão, feito com o único propósito de entreter, divertir. Mas, para quem estiver interessado, basta cavar um pouco para - sem esforço algum - encontrar uma série de reflexões importantes. Filosofia urbana. "Eu te amo, cara" me rendeu ótimas risadas. E pensamentos valiosos, só meus, intimamente meus, que guardei carinhosamente.
Ella Fitzgerald canta "Summertime" (Gershwin) em Berlim. Lindo demais.
O ESCAFANDRO E A BORBOLETA (Le Scaphandre et le Papillon), de Julian Schnabel, é um poema, uma obra de arte, de delicadeza, simplicidade e humanidade. Silencioso e sonoro, tocante, do primeiro ao último minuto. Comovente, forte, instigante, real. O filme narra a história verídica de Jean-Dominique Bauby, ex-editor da Elle francesa: um homem bonito, europeu, bon vivant, charmoso, cercado pelo glamour. Em 1995, Bauby sofre um AVC fulminante, que o deixa inteiramente paralizado e acometido de uma rara síndrome chamada "Locked in". Seus pensamentos estão perfeitos, mas não consegue mover um músculo, nem falar, nem mexer a cabeça, de modo que ele tem a impressão de estar aprisionado dentro do corpo. E o filme comunica essa angustiosa sensação de prisão muito bem, com enquadramentos e focos ora destorcidos, deslocados, como se estivéssemos de fato vendo o mundo pelo olho de Bauby. Eis a metáfora com o escafandro. Ao mesmo tempo, a mente imaginativa e os pensamentos o permitem devanear sobre a vida e voar longe, como uma borboleta. E assim o filme segue, narrando a difícil vida em tratamento, num hospital costeiro em Calais. Bauby conhece pessoas generosas, humanas, que se esforçam em desenvolver um sistema para que ele se comunique com o olho esquerdo. E com essa comunicação tão difícil ele escreve o livro "O escafandro e a borboleta", que narra essa etapa da sua vida. É um drama, claro, mas em nenhum momento exagerado, piegas nem propenso à rasgação deslavada da tragédia. É muito mais um filme belo, verdadeiro, honesto, sobre como ainda pode existir bondade e humanidade, num tempo que começamos a suspeitar que essas coisas não existem mais. Como definem muitas críticas especializadas, "obrigatório".
Tenho aguardado a estréia do filme "O Casamento de Rachel" (Rachel getting married) que, por alguma razão que desconheço a respeito da ilógica logística da distribuição de filmes no Brasil, ainda não estreou onde moro. Trailers, críticas e depoimentos variados, porém, me convenceram de que este é um filme que merece ser visto. Supostamente, a melhor atuação da estrela ascendente Anne Hathaway. Até onde sei, o filme retrata o casamento de Rachel, irmã de Kim (Anne Hathaway). Família, amigos, todos reunidos em Connecticut, para um evento de amor, celebração e festividade. Mas eis que chega Kim, após um longo período de reabilitação. Todos ficam apreensivos, porque ela costuma ser um acidente de trem ambulante, famosa por provocar grandes crises na família. E ela aparece, com humor ácido e pouca vontade de fazer a média, cutucando feridas antigas e transformando o casamento de sua irmã num palco de tensões à flor da pele...
Eros e Psique
Uma pessoa "lacônica" é aquela de poucas palavras. A expressão tem origem na Grécia Antiga, onde a região da Lacônia era habitada por destemidos guerreiros espartanos (ou "lacões"). Eles eram homens simples, de modos simples, orientados à guerra e não à retórica ou à filosofia. Conta-se que, certa vez, Felipe II, da Macedônia, - por acaso pai de Alexandre, o Grande - enfrentou os lacões, durante sua guerra para unir os povos helênicos. Enquanto cercava a Lacônia, Felipe enviou ao espartanos uma mensagem de intimidação:
IF
Durante a "Guerra dos Cem Anos", um embate entre tantos marca definitivamente a história da Inglaterra: a batalha de Agincourt, travada em 25 de outubro de 1415, no dia de São Crispim. Os ingleses, liderados pelo jovem rei Henrique V e absolutamente em desvantagem, contavam com 15 mil soldados famintos e doentes contra 50 mil homens franceses, em casa e completamente descansados. A França dava como certa uma carnificina, com "estradas calçadas com rostos ingleses". Mas o impossível aconteceu. Os arqueiros ingleses arrasaram os franceses de forma assombrosa. Shakespeare eternizou esse momento em sua celebrada peça "Henrique V", com um discurso de beleza incomparável, capaz de fazer até mesmo um pacifista se lançar às armas. Um discurso para fazer nascer energia e coragem, onde já não se julgava possível existir:"Se estamos destinados a morrer, nosso país não tem necessidade de perder mais homens do que nós temos aqui. E se devemos viver, quanto menor é o nosso número, maior será para cada um de nós a parte da honra. Pela vontade de Deus! Não desejes nenhum um homem a mais, te rogo! (...) se ambicionar a honra é pecado, sou a alma mais pecadora que existe. Não, por fé, não desejeis nenhum homem mais da Inglaterra (...) Oh! Não ansieis por nenhum homem a mais! Proclama antes, através do meu exército, Westmoreland, que aquele que não for com coração à luta poderá se retirar: lhe daremos um passaporte e poremos na sua mochila uns escudos para a viagem. Não queremos morrer na companhia de um homem que teme morrer como companheiro nosso (...) Este dia é o da festa de São Crispim. Aquele que sobreviver esse dia voltará são e salvo ao seu lar e se colocará na ponta dos pés quando se mencionar esta data (...) Aquele que sobrevier esse dia e chegar a velhice, a cada ano, na véspera desta festa, convidará os amigos e lhes dirá: "Amanhã é São Crispim". E então, arregaçando as mangas, ao mostrar-lhes as cicatrizes, dirá: "Recebi estas feridas no dia de São Crispim." Os velhos esquecem, mas aqueles que não esquecem de tudo se lembrarão todavia com satisfação das proezas que levaram a cabo naquele dia. E então nossos nomes serão tão familiares nas suas bocas com os nomes dos seus parentes (...) O bom homem ensinará esta história ao seu filho e desde este dia até o fim do mundo a festa de São Crispim nunca chegará sem que venha associada a nossa recordação, à lembrança do nosso pequeno exército, do nosso bando de irmãos, porque aquele que verter hoje seu sangue comigo, por muito vil que seja, será meu irmão, esta jornada enobrecerá sua condição e os cavaleiros que permanecem agora no leito da Inglaterra irão se considerar como malditos por não estarem aqui, e sentirão sua nobreza diminuída quando escutarem falar daqueles que combateram conosco no dia de São Crispim".

Suspeito que Spike Jonze será responsável pelo "História sem fim" desses novos tempos.
Sem a menor dúvida, vale uma visita ao site MISPRINTEDTYPE4, do talentoso designer Eduardo Recife. Combinando o velho e o novo num círculo harmônico (e poético) de passado e futuro, o blog é um pedaço de arte viva no oceano de coisas óbvias e previsíveis que tem se tornado a internet.
A estréia literária da americana Audrey Niffenegger é um tesouro imediato e precioso para a cultura. "A mulher do viajante do tempo" (The time traveler´s wife) narra a história de Henry e Claire, que se conhecem em seus vinte e poucos anos e se apaixonam. Ele é bibliotecário, ela, estudante de arte. Os dois se casam e seguem juntos a vida. Tudo isso seria absolutamente comum se Henry não sofresse de um raro distúrbio genético: ocasionalmente, seu organismo se projeta para o futuro ou o passado, de maneira que ele viaja no tempo - literalmente e contra a sua vontade - fazendo com que (re)visite momentos emocionalmente importantes de sua vida, inclusive "conhecer" sua futura mulher aos 6 anos de idade. Os deslocamentos são imprevisíveis e fazem com que Claire precise se acostumar com o fato de que seu marido desaparece, de tempos em tempos. Essa é uma história de beleza arrebatadora, comovente em cada página. Uma história sobre o amor e a saudade. Nas palavras do Publishers Weekly, "uma sublime história de amor... Deixa no leitor a sensação da riqueza e da estranheza da vida".
Não sei ao certo o quanto busco - ou se já me cansei - do conto de fadas. A primeira pergunta que me faço é: existe? é viável? A verdade é que não há (mais) contos de fadas, na medida em que não há príncipes nem princesas, castelos ou dragões. Os contos permanecem nos livros, desenhos, filmes e histórias de ninar, onde são intocados, onde toda a mágica é possível, onde não há a carga absurda de expectativas (e decepções), inseguranças, trabalho frustrante e contas a pagar. Reis pagam aluguel? Princesas lavam roupa? Príncipes chegam exaustos do trabalho? Castelos se limpam sozinhos? Carruagens andam sem gasolina? É por essa e tantas razões que estou cada vez mais certo de que ninguém deve correr em busca dos contos de fadas, porque eles não estão em canto algum para serem achados. Eles existem, apenas, nos corredores dourados do nosso imaginário, seduzindo maliciosamente os nossos desejos mais sinceros sobre a vida real. Não é que me tornei um pessimista - acho nem ser capaz de sê-lo - mas aqui, no mundo de asfalto tão longe dos bosques, tudo funciona de forma diferente. Como outra dimensão. Uma realidade meio crua e insossa, onde a Branca de Neve seria considerada promíscua; a Bela Adormecida, preguiçosa; Cinderela seria uma oportunista e Alice, uma viciada em alucinógenos. A Bela não iria se apaixonar pela Fera, da lâmpada só iria sair azeite e Chapeuzinho Vermelho estaria ocupada demais para visitar sua avó. João veria crescer uma tímida muda de feijão e Peter Pan, por fim, estaria perdendo noites de sono sem saber como fechar o mês fora do vermelho. Longe de tantas páginas coloridas e imagens encantadoras, a coisa mais sensata a se fazer é viver com o desprendimento de espírito e a serenidade de tentar a "vida possível", como ela realmente é: com toda a beleza e toda feiúra, com alegrias fugazes e rotina massante. Com todas as falhas perdoáveis entre raras qualidades. Com a consciência de que somos sós e, portanto, a solidão deve ser abraçada e não combatida. Com a certeza de que os dias serão parecidos mesmo e que caberá a cada um de nós sobreviver a costura entre eles, que podemos procurar fazer de forma um pouco mais colorida. Sem tanto "era uma vez", mas, sim, "tente outra vez".
"odeio quem me rouba a solidão, sem me oferecer verdadeira companhia"(F. Nietzsche)