sábado, 31 de maio de 2008

A PEQUENA GUARDA


Vale a pena conferir os quadrinhos do David Petersen: THE MOUSE GUARD, que acaba de chegar ao Brasil pela Conrad, com título "Pequenos Guardiões". Num primeiro olhar, nada além de ratinhos engraçadinhos, ainda que armados, e de forte apelo infantil. Naturalmente. Mas não se trata de uma história para as crianças (apenas). Jovens e adultos irão ser cativados pela pequenina guarda de ratos que têm as histórias, peripécias, tramas e intrigas contadas numa interessante coleção de quadrinhos cheia de suspense mistério. Numa época com ares medievais, esses "Pequenos Guardiões" são os defensores de um mundo quase imperceptível dos ratos, que habitam vales, cidades e costas, travando suas batalhas, jogos políticos e, simplesmente, sobrevivendo. Sob os nossos olhos.

A DOR DE EXISTIR


Nunca paro de pensar a respeito da dor de existir. Até disfarço, finjo não me importar tanto, ensaio comportamentos banais do tipo, "viver o dia de hoje como se fosse o último e está tudo bem". O fato é que é um pensamento diário, quase-contínuo, reflexão de rotina, ora deixada de lado em função de alegrias momentâneas ou preocupações esporádicas. Na verdade, acho que "vestimos" a melancolia, às vezes como luva, chapéu, cachecol. Às vezes como traje completo. É coisa do dia, como tempo nublado, dia ensolarado, chuva passageira. Mudamos com o tempo e a melancolia nos veste de acordo. Nem todos pensam sobre isso com o mesmo grau de atenção e por isso a felicidade é tão relativa e superficial. É tudo uma questão de “se importar”; ou melhor, o “quanto” se importar. Aqueles que mergulham no entendimento e percepção das coisas certamente seguem o trajeto mais difícil, enquanto aqueles que sobrevoam essa “dor de existir” vivem como se não houvesse o silêncio, a solidão, a angústia, a falta de compreensão, a sensação de não pertencer, a indignação diante da inércia que às vezes somos acometidos, o terror de ver o tempo passar, como contagem regressiva, na certeza inquestionável que muito será deixado para trás e que haverá lágrimas e despedidas inevitáveis. É uma dor de indignação, que sentimos quando ninguém nos compreende, que não podemos ser deixados em paz, "existindo". É uma dor que faz a gente sonhar com ilhas e planetas distantes, onde há um refúgio de tudo, de todo o medo e insegurança, onde não precisamos nos encaixar, nos adaptar. Mas não encaro essa dor como algo de todo ruim. Longe disso, na verdade. Acho que é uma maldição e uma bênção, cunhadas como uma moeda que tem dois lados. E que carregamos no bolso, todos os dias. E que brincamos, como se tentando a sorte: cara ou coroa. Por que desta maneira enxergamos o mundo com lentes mais apuradas e a alma, eternamente cicatrizada/cicatrizando, vai aprendendo a sentir o que ninguém sente, ler o que ninguém ler e, assim, viver o que ninguém vive. É o que nos ensina a dor de existir: o benefício de contemplar o universo onde há o nada. E aproveitar o caos e não temer o escuro. É que passamos muito pouco tempo neste mundo sem nenhuma certeza se há um “lado de lá”, se vamos para algum outro lugar depois que tudo estiver acabado. Então corremos. Corremos para aproveitar ao máximo a jornada. E talvez por isso soframos tanto. Mas, afinal, quem não sofre?

MANTENDO ACESA A CHAMA


Cinema e música, na minha opinião, fazem o casamento perfeito: sintonia e cumplicidade totais, para emocionar, comover, tocar o coração. Cinema e música se completam, formando um festival de emoções. Imagem e som numa equação quase sempre precisa para nos fazer sentir alguma coisa. Por isso adoro o filme “Ainda muito loucos” (Still Crazy), que completa dez anos e continua sendo o máximo. Por alguma razão nos apaixonamos por esta banda dos anos 70, a Strange Fruit, que certamente nossos pais teriam gostado, mas que hoje é um grupo de cinqüentões, com muita nostalgia, doce decadência e tremendo apego ao tempo que passou. Adoramos as suas canções que, como toda boa música, ficam, são para sempre, atravessam as gerações. Cantarolamos os refrões e ficamos com aquela sensação de “gostaria muito de ter ido neste show”, ou coisa assim. Por alguns instantes nós temos a certeza de que aqueles caras, “ex-doidões”, realmente formam esta banda maravilhosamente fictícia, em tour pelos bares mais suspeitos da Holanda. “Ainda muito loucos” é, naturalmente, uma comédia sobre músicos que um dia foram famosos e que tentam sair da sombra que a vida os colocou na busca de uma nova chance, vinte anos depois. Isso é óbvio e, neste sentido, encontramos risadas óbvias no caminho. Mera superfície. Este é, na verdade, um filme humano, poético, imensamente comovente, sobre o nosso apego ao que marca as gerações (mesmo aquelas que sequer vivemos). É uma história sobre a misteriosa ligação espiritual que homens podem formar, seja na guerra ou numa banda de rock. Homens que se amam e se odeiam, mas que, por alguma razão, não deixam de seguir juntos, adiante. É um filme sobre esta mágica relação que temos com a música, sejamos músicos ou não, famosos ou não, por que ela narra nossa vida, acompanha nossa existência, expressa um pouco do que há dentro das nossas almas. Uma verdadeira (e despretensiosa) ode a esse amor, a esse amor múltiplo, que temos por quem modifica as nossas vidas, pela trilha sonora que nos acompanha, pelos momentos inesquecíveis que vivemos e que desejamos ter de volta. É um daqueles filmes que assistimos com um sorriso no rosto que se recusa a desaparecer. E quando menos esperamos, lá na frente, notamos que o sorriso é acompanhado por um nó na garganta que nos umedece os olhos sem esforço. E nem por isso comédia vira drama. Não precisa. É emoção genuína, mesmo, de quem assiste o melhor show da melhor banda do mundo (as nossas bandas são sempre as melhores do mundo, afinal). Aquela banda que sonhávamos um dia se reunir novamente. E nos créditos finais, ficamos com uma vontade acanhada de nos abraçar uns aos outros, enquanto procuramos um isqueiro para acender e acenar, em justa homenagem. Agradecendo pela chama, “que continua acesa”.


sábado, 17 de maio de 2008

POR QUE ´CRASH´ É SIMPLESMENTE TÃO BOM


Por mero (e ignorante) preconceito eu deixei de assistir a "Crash", no tempo ideal. Nem os prêmios do Oscar (como melhor filme e roteiro) me convenceram. É um daqueles (tantos) casos em que antipatizamos gratuitamente com filme por nada, bobagem. Não sei. Não fui com a cara do pôster, acho (a gente não tem disso?), não simpatizei muito com o elenco e fiquei com a impressão de que era mais um daqueles filmes meio lentos, meio chatos, meio politizados demais (nada contra, alás - adoro filmes lentos, politizados e meio chatos). Coisa astral, quem sabe, de momento. A questão é que eu não quis saber muito de "Crash". Até ontem. Assisti esse filme com arrependimento, mágoa e até raiva de mim mesmo por não tê-lo visto antes. É precioso, primoroso, humano, visceral, comovente. Fiquei arrasado, tocado, impressionado por este filme que não apresenta absolutamente nada demais, nenhuma novidade. Na verdade, "Crash" fala do óbvio: de como estamos nos afastando uns dos outros, de como nos tornamos violentos, antipáticos, intolerantes, preconceituosos; de como sentimos raiva de graça, de como nos tornamos frios, de como simplesmente deixamos de nos importar. Através de uma rede belamente construída de histórias paralelas, de personagens que se cruzam e misturam suas vidas anônimas na passagem de apenas um dia. Não há muito a dizer, na verdade, sobre "Crash". É um filme belo, maravilhoso, obrigatório, que merece todos os elogios pela sua capacidade singular de nos expor no espelho, nus, e nos socar o estômago ao nos apresentar exatamente o que nos tornamos na cadência egoísta, ambiciosa e individualista das nossas existências. Mas é um filme também sobre amor, esperança e coragem. Por que no fim, como tudo na vida, as coisas podem dar errado, mas também podem dar certo. Como saber.

sábado, 10 de maio de 2008

SOB A SOMBRA DE UM COLOSSO


O filme "Reine sobre mim" está longe, muito longe, de ser um bom filme. Mas algo nele é absolutamente original. Pela primeira vez (segundo me lembre) um filme trata dos videogames como arte, pelo menos como forma de dar vida a um personagem. Nos filmes, geralmente, vemos os personagens capturados por livros, poemas, obras de arte, músicas ou mesmo outros filmes. Neste, o personagem vivido por Adam Sandler é fascinado, justamente, por um jogo: SHADOW OF THE COLOSSUS (PS2), um dos mais originais jogos já criados nos últimos tempos. Nele, vivemos o drama de um jovem guerreiro, de alguma terra mágica. Determinado a salvar a vida de uma moça misteriosa, ele aceita enfrentar uma perigosa - e quase impossível - jornada de exterminar 16 gigantes (colossus) espalhados pelo reino. Sob formas, aparêcias, características e desafios diferentes, os monstros são como prédios a serem escalados, com pontos frágeis que, quando atingidos, os fazem sucumbir ao chão como torres desmoronadas. O jogo é original por que é EXATAMENTE e APENAS isso. Não há inimigos menores ou outra coisa a se fazer que não caçar os gigantes em todos os cantos do reino. Um após um, fazendo-os ruir, para conquistar o direito de trazer de volta a vida uma pessoa que se foi. Um jogo silencioso, mágico, de luzes, sombras e névoa, que nos coloca, sem esforço, dentro de uma atmosfera que temos certeza existir em algum lugar. E que nos obriga ao compadecimento, porque partilhamos daquela solidão vivida pelo jovem guerreiro e seu fiel cavalo Agro, enquanto cavalgam planícies e bosques, em busca do próximo confronto. E sob a sombra de um colosso desvendamos um mundo de escuridão como quem caminha por corredores escuros com a orientação da chama acanhada de uma vela. Força e fragilidade, equilibradas na pele machucada de um herói menino que não desiste nunca. Obrigatório.

MELANCOLIA, DEVANEIOS E CARTÕES POSTAIS


"Beijo roubado" (My Blueberry Nights) é um filme doce e melancólico, quase azedo e recheado de nuances, como uma boa fatia de torta de mirtilo. Esta, definitivamente, não é a torta mais popular de todas, por que não é deliciosamente óbvia como o cheesecake ou outra qualquer. E essa metáfora serve para este filme precioso do diretor Wong Kar-wai. Como um videoclipe, o filme não faz questão de ser linear, tampouco inflexível nos planos, distorções e enquadramentos, o que nos dá uma curiosa e original narração. No fim das contas, uma história de amor como todas as outras, marcada pelas idas e vindas da vida, em que tudo é circular, e que acabamos sempre voltando para onde partimos, como uma catarse de encerramento. Assim, acompanhamos a história de Elizabeth (bem interpretada pela estreante Norah Jones) que sai de Nova York, desiludida por um coração partido, e após se lançar na estrada e conhecer cidades americanas, trabalhando como garçonete em bares e restaurantes, cronicando seus passos com cartões postais sem endereço, volta para seu ponto de partida: um café sem pretensão, de um inglês (Jude Law) que, também ele, tem sua história de idas e vindas e corações partidos. A discussão dos dois sobre a jarra de chaves perdidas, esquecidas ou simplesmente abandonadas, é pura filosofia e devaneio. Ao longo das quase duas horas, temperos, sabores e sensações diversas vão fazendo deste filme uma receita (difícil, é verdade) mas diferente, de observação da vida como ela é, como uma construção de momentos variados, que se sobrepõem enquanto o tempo passa, marcando-nos com doce melancolia, decepções, alegrias fugazes e o desejo indomável de irmos a algum lugar, encontrar um destino. Nem que esse destino seja, justamente, onde já estamos.

domingo, 20 de abril de 2008

DOCE MANIFESTO DA TOLERÂNCIA


Descobri um universo, profundo, sensível e delicado, por detrás da cortina colorida que cobre o - aparentemente inofensivo - filme "A pequena Miss Sunshine" (Little Miss Sunshine), cultuado filme indie que, recentemente, deu seu lugar ao sol ao também maravilhoso "Juno". Enfim. Há nesta pequena grande história um filme para cada um de nós. Para aqueles que buscam duas horas de entretenimento fácil e acesível, de um punhado de risadas óbvias e momentos especiais, o filme os tem em sobra. Para aqueles que desejarem colocar a história sob um microscópio irão se surpreender com a quantidade de temas ali discutidos com graça, leveza e absoluta sutileza. Trata-se de uma jornada em busca de ilusões, onde uma pequena brigada de Don Quixotes numa kombi branca e amarela partem, na caçada aos moinhos de vento. Um pai mal sucedido persegue o sucesso de um programa de motivação, um adolescente problemático e sua determinação nietzschiana em entrar na academia da aeronáutica (para isso se valendo de um voto de silêncio), um avô que se agarra aos últimos sopros de vida, uma mulher tentando achar "normalidade" (e o que é isso mesmo?!) para sua família em frangalhos, um tio homossexual com coração partido na sua tentativa sem sucesso de ser o tradutor da alma de Proust para o ocidente e, por fim, a pequena garotinha que deseja ser miss, mesmo estando fora dos "padrões" (novamente, o que é isso mesmo?). Por trás da deliciosa jornada familiar, na kombi caindo aos pedaços, há uma discussão da pura e sofrida humanidade: gordura, magreza, sucesso, riqueza, fracasso, velhice, adolescência, homossexualidade, beleza. E o que o filme nos mostra é um caminho de contorno a essa via que parecemos trafegar por obrigatoriedade. PARA O INFERNO COM AS CONVENCIONALIDADES! É o que nos diz o PODEROSO "Pequena Miss Sunshine". Por que não precisamos ser, ter, fazer, parecer NADA. Precisamos ser e viver como assim desejarmos, sem dever nada a ninguém, nenhuma satisfação que não seja a nossa própria felicidade. "Pequena Miss Sunshine" é simplesmente um doce manifesto em nome da tolerância e mais do que bem vindo num mundo (e numa indústria) de culto à superficialidade, à beleza fabricada, à ausência dos valores. É um filme sobre o amor da família, a cumplicidade inquestionável que nos torna quem somos. O amor de pessoas que estarão ao nosso lado até o fim, nem que isso signifique nos ajudar a perseguir nossos sonhos mais tolos. E que importa se nossos sonhos são tolos? Eles são NOSSOS e ninguém tem o direito de tirá-los de nós. Eis o que nos apresenta este filme tão especial: uma opção. Uma nova possibilidade, uma esperança que a felicidade é possível. E que está ao nosso alcance. E que tudo, tudo, estará bem.

UM PEQUENO GRANDE LIVRO

Comecei a ler, recentemente, um destes "pequenos grandes livros" que, vez ou outra, parece "cair das nuvens" (trocadilho absolutamente intencional). Trata-se do "Guia do Observador das Nuvens", de Gavin Pretor-Pinney. O autor, defensor do ócio criativo e fundador da Sociedade de Observadores de Nuvens (The Cloud Appreciation Society), apresenta-nos um guia sobre as nuvens (e sua surpreendente quantidade de classificações), num texto deliciosamente escrito, recheado de referências históricas, culturais e religiosas sobre estas que há séculos encantam os céus e povoam o nosso imaginário: as nuvens. É basicamente isso, um livro sobre diminuirmos um pouco o ritimo frenético da vida e olhar para o céu, brincando de imaginar, como tão bem fazíamos quando crianças. É um livro para entendermos a magia da vida, da natureza, sem nenhuma destas chatices de livro de auto-ajuda (aliás este livro passa a quilômetros de distância de ser mais um destes). É um encanto descobrir (e aprender) não apenas sobre o sistema que leva as nuvens ao céu, mas a maneira como elas se relacionam, evoluem, produzem chuva e tempestades, e depois se vão. É um pequenino livro, despretensioso ao extremo, poético e que transborda personalidade. Com a leitura do "Guia do Observador das Nuvens", olhar para o alto nunca mais será um ato banal. Será uma contemplação curiosa, sobre a festa misteriosa que se dá, todos os dias, sobre nós. Com o tempo, acho que vale dizer também: "não saia de casa sem ele". Afinal, como saberemos interpretar o idioma das nuvens nas suas conversas diárias e silenciosas (às vezes nem tanto) sobre nossas cabeças? Pois. Este é um DICIONÁRIO para a linguagem misteriosa das nuvens. E portanto, um livro especial que merece ser. . . apreciado.

LINDA, MÁGICA, TRISTE BAHIA


A Bahia continua linda, misteriosa, quando olhada do alto, por cima das nuvens, com suas águas de azul multicolorido, derramadas sobre a Bahia de Todos os Santos. O porto cheio de história, magia, misticismo, aromas, sabores, odores. Cheiro de mar, de peixe, de madeira de barco, de ruas e paredes velhas, de uma cidade de São Salvador tão antiga quanto o próprio país: negra, portuguesa, quase medieval, com suas ruelas escondidas, catacumbas escuras e tesouros enterrados. Eis a Bahia linda, encantada, sedutora, como uma sereia que quer se deixar seduzir enquanto nos afoga sem piedade. Eis a Bahia da saudade, do calor humano, um Estado de Espírito que, amando ou odiando, é impossível ficar indiferente. A Bahia das baianas, com suas saias rodadas e contas coloridas, do candomblé, das igrejas, da comida exótica, dos capoeiristas e da paixão, da música de Dorival Caymi e as palavras de Jorge Amado. Não dá para dizer que a Bahia é um Estado como qualquer outro por que alguma coisa ali, não sei o quê ao certo, grita que a Bahia é única, com seus defeitos e seus encantos, ela é única. Por que a Bahia é linda e nos chama de volta, mesmo seus filhos mais ingratos. Mas também é triste, com a decadência de suas ruas e a malícia que impreguina sua geografia costeira. É uma pena. Linda Bahia, mágica Bahia. Merecia tanto mais.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

ALGO QUE PASSA, ALGO QUE FICA


na vida, na convivência, no relacionamento com lugares, coisas e pessoas, um clichê inevitável. Concordando com Saint-Exupéry, reflito que cada pessoa que passa por nossas vidas e vai embora leva um pouco de nós enquanto deixa algo de si. Afinal, uma verdade também inevitável. As mudanças, transformações, revelações e revoluções na minha vida são uma prova disso. As surpresas satisfatórias que tive num caminho de incertezas e descobertas. Repetições incessantes para eu (tentar) aceitar que não estamos parados, que caminhamos para frente. Viver, aprender, crescer. E nessa aventura diária a vida muda, como o tempo, como a água. E continua mudando. Avançar é nos despedir, enquanto damos boas vindas (meio amedrontadas) ao novo. Por que são inúmeros os caminhos, passos e cruzamentos para que deixemos algo para trás e na coleção de novos quilômetros possamos nos descobrir em novos momentos, com novas pessoas, em novos lugares. É a caminhada sem fim. Marco Aurélio, um dos mais justos imperadores de Roma, costumava dizer:

"Mantenha-se simples, bom, puro, sério, livre de afetação, amigo da justiça, temente aos deuses, gentil, apaixonado e vigoroso em todas as suas atitudes. Lute para viver como a filosofia gostaria que vivesse. Reverencie os deuses e ajude os homens. A vida é curta".
Isso de alguma forma resume tudo o que eu sempre busquei na minha vida e que continua a iluminar por ande ando, levando muito de cada um que encontro e deixando parte de mim, também, ao longo do caminho. Mudança é evolução, despedida e saudade. Mas assim são as coisas, no doce e imbatível fatalismo que nos obriga a andar para frente, no vento da maré, da novidade, que nos leva adiante, sem parar. E a estrada é longa, as paradas são muitas. Mas valerá a pena, sempre.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

"O MUNDO DE SOFIA"

Sofia Coppola, a musa multitalentosa da comunidade "perdida na tradução" (eu, incluso, certamente), estrela nova campanha de roupas e perfumes da grife Marc Jacobs. O ensaio é, naturalmente, discreto, silencioso, ao melhor estilo "lost in translation". Segundo o próprio Marc Jacobs, "Sofia é perfeita para a campanha, apesar de não ser a garota típica dos anúncios de moda". Ao mesmo tempo, ela representa tudo que se pode achar no "espírito Marc Jacobs" (nas suas próprias palavras): o amor pelo rock, o bom gosto, a alma artista, e a determinação em ditar ela mesma o que quer fazer. Jacobs não se contém ao elogiar sua musa (e amiga): "ela é jovem, doce e linda". São belas e únicas fotos, que retratam com delicadeza o "Mundo de Sofia", aquele que todos nós nos esforçamos em fazer parte, na tentativa de criar, retratar e defender o nosso próprio. Um agridoce mundo de devaneios urbanos.



"Free to go, I know . . . city girl, you´re beautiful. . ."

quinta-feira, 10 de abril de 2008

BENDER E A SALVAÇÃO (?) DO UNIVERSO


O primeiro longa metragem da animação cult (e cultuada) FUTURAMA, "O Grande Golpe de Bender" (Bender´s Big Score) é um primor. Após ingratos anos de pós-cancelamento prematuro, Matt Groening (o criador de "Os Simpsons") devolve no seu filme tudo o que mais apreciamos(ávamos) no seriado animado futurista e se mantém afiado como nunca: as excentricidades do ano 3000, o professor Farnsworth cada vez mais senil, a equipe tresloucada da Planet Express, os destinos insólitos, as histórias absurdas, enfim, um banquete de maluquices comandado por um dos personagens mais icônicos (e inesquecíveis) dos desenhos nos últimos anos: ninguém menos, naturalmente, que o robô alcóolatra e batedor de carteiras, Bender B. Rodriguez. Neste filme, que conta a história de alienígenas nudistas que querem comprar a terra (e o conseguem através de uso de e-mails com spam - sim, é EXATAMENTE isso), Bender vai cruzar a história da humanidade, navegando através de uma fenda no tempo, e literalmente saqueando todos os tesouros dos séculos. Com muito pouco esforço. O filme é uma seqüência ininterrupta de risos e diálogos maravilhosos no melhor estilo FUTURAMA. TUDO o que os fãs mais adoravam foi trazido de presente no primeiro (de quatro) filmes como recompensa a espera incansável dos fãs. Trata-se de um projeto dos seus idealizadores, que viram o encerramento precoce do seriado politicamente incorreto com grande frustração. Com idéias fervilhantes e muita coisa ainda para contar, criaram uma história dividida em 4 filmes que, posteriormente, será transformada em 16 eposódios de TV. Um encerramento definitivo (?), merecido e à altura deste que é um dos melhores produtos da cultura pop dos últimos tempos. Bom, quem assistiu (ou comprou ansiosamente o primeiro filme - sim, eu sou um destes) descobriu que o final de "O Grande Golpe de Bender" traz uma pergunta misteriosa (e metafísica) que apenas iremos descobrir nos próximos filmes. Será que há um limite para a falcatrua do Bender? Será que, desta vez, ele foi longe demais? Que implicações surgirão de sua manipulação desregrada (obviamente) do espaço-tempo? Algumas respostas para essas perguntas já possuem data marcada: em 25 de junho deste ano estréia (diretamente em DVD) o segundo longa metragem de FUTURAMA: "The Beast with a Billion Backs", que narra a história a partir do final do primeiro filme. Esperar para ver. E, pelo visto, fãs de FUTURAMA já descobriram que esperar vale, e muito, a pena. . .

quarta-feira, 9 de abril de 2008

MUDANÇA E MEDO


Toda a mudança intimida. Fato. Mesmo que ela implique em ganho, melhoria, ela causa medo, apreensão, dúvida, angústia. Por que por mais que sejamos "móveis" a nossa tendência à imobilidade é mais do que natural. É que nos acostumamos com o lugar onde estamos. Por que é do homem criar a raiz, o sistema, a rotina, a tribo. E não como algo cômodo, previsível (isso ninguém gosta), mas por que precisamos da sensação de controle e ordem sobre o caos das nossas vidas. E assim fazemos o malabarismo dos afazeres com a certeza confortável de que o dia de amanhã será uma cópia requentada do dia de hoje, com algumas alterações insignificantes. E assim vamos vivendo, dia após dia, transformando pequenos feitos em conquistas maiores e, com o tempo, descobrimo-nos em constante construção. Olhamos para trás e notamos: "puxa, olha quanto já foi feito". Nunca é fácil enxergar isso no processo. Acredito ser a catarse da conclusão. Mas ninguém nunca nos disse que o trajeto seria fácil. E não é. Por que nele há uma considerável dose de MUDANÇA. Por que para evoluir, crescer, precisamos revolucionar a nós mesmos. E somente mudando é que nos fortalecemos, amadurecemos e assim chegamos a algum lugar. Gosto de pensar nas escadas. A escola, faculdade, trabalho, namoro, noivado, casamento, cidade, país, continente, mesada, salário, nascer, crescer, adolescer, envelhecer, morrer, ser filho, ser pai, mudar de parceiro ou parceira, de apartamento, de trabalho, de carro, mudar, mudar, mudar. É o que mais fazemos. E nunca é algo simples. É um laboratório de sensações, onde apalpamos nossa insegurança, medos infantis, receios e a ingrata vontade de enxergar no escuro. Por que realmente só poderemos saber o que viveremos quando já tivermos vivido. A experiência é um aprendizado do que passou, e uma preparação do que está por vir. Seguir em frente é mudar. E, sim, a mudança também me enche de medo. Mas mudar é preciso.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

MILIONÁRIO ENTEDIADO



O Mini Cooper, praticamente uma celebridade de cinema

Se eu fosse um destes milionários entediados, dedicaria atenção especial ao que eu chamaria carinhosamente de "garagem dos sonhos". E nada de Ferraris, BMWs e afins. Longe disso. Ok, não tão longe, mas definitivamente eu teria uma garagem mais criativa. Escolheria 6 carros para compor minha garagem. A minha primeira compra seria o eterno sonho de consumo mundial, o Mini Cooper (foto acima). Escolheria, em seguida, para riso de alguns vizinhos e inveja desesperada de outros, todos milionários infelizes e entediados como eu, com suas fortunas inacabáveis e desejos cada vez mais escassos:

Fiat 500, o "Cinquecento" (até a cor está ótima!)


O Smart for Two, pequeno notável (sem contar ecológico!)

O New Beetle, edição limitada (conversível), preto com bancos de couro vermelhos

Um tradicional JEEP americano da II Guerra Mundial (don´t ask)


Por último (mas NÃO menos importante), o emblemático Batmóvel dos anos 60. Apesar de não ser um fã de sedans, ora, eu sou milionário e entediado. Não há limites para financiar a minha excentricidade.
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Bom, devaneios à parte, enquanto a garagem e os milhões não vêm, preciso encerrar o post e correr, senão perco o ônibus.

sexta-feira, 28 de março de 2008

MEUS 20 FILMES ESSENCIAIS


Se eu tivesse que escolher entre a centena de filmes que compõem o quebra-cabeças que forma (formou) a pessoa que sou hoje, eu não conseguiria escolher menos do que 20 que, definitivamente, marcaram a minha história, tocaram a minha alma e assim me trasnformaram de alguma forma. Filmes que vi em momentos diferentes da minha vida, moldaram meus gostos e opiniões, e que hoje me ensinam não apenas a entender o mundo que quero, como as próprias pessoas com as quais convivo. "O que acha do filme ´Encontros e Densencontros´?", gosto de perguntar, como uma espécie de exercício exupériano-antropológico para o conhecimento mais aprofundado de alguma pessoa. A resposta, geralmente, me diz o que preciso saber para ir adiante ou mudar o trajeto. Por que não tenho dúvidas de que os filmes são parte da vida, e se infiltram e se mesclam nas memórias, narrando eles mesmos episódios que vivemos. Imagens, personagens, diálogos, trilhas, tudo que nos emociona de alguma forma e que guardamos com carinho como se "aquele filme" fosse parte da nossa biografia, porque nos vemos ali, sentimos cumplicidade e muitas vezes confortados pela descoberta de que não estamos sós em muitos dos nossos pensamentos. Os "nossos filmes" são um reflexo no espelho, radiografia de quem somos, tenho cada vez mais certeza disso. Os meus filmes marcaram de alguma forma o meu entendimento do mundo, por terem sido influências infantis, inspirações românticas, por que me educaram de alguma forma ou me impressionaram profundamente. Uma lista de filmes, portanto, é um ótimo meio de navegar pelas almas das pessoas. Um mapa. Eis o meu, de 18 filmes que ficam e ficarão para sempre no meu imaginário, alma e coração:
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Encontros e Desencontros, As virgens suicidas, Maria Antonieta, Alta Fidelidade, Serendipity, A casa do lago, Amadeus, Filhos do Paraíso, Em busca da Terra do Nunca, Para o resto de nossas vidas, Desconstruindo Harry, Antes do amanhecer, Antes do pôr do sol, Elizabethtown, Brilho eterno de uma mente sem lembranças, Os Goonies, Henrique V e Clube dos Cinco.

quinta-feira, 27 de março de 2008

AS CINZAS DE CALLAS


Maria Callas não foi apenas uma estrela na história da música. Ela foi um evento, uma aparição. E neste sentido emocionante, breve, efêmera. Uma frágil luz sobre o canto lírico, uma ópera em vida, de amor, paixão e tragédia. Nasceu em Nova York, no dia 2 de dezembro de 1923 e surgiu aos olhos do mundo em 1947, na interpretação de La Gioconda, na Arena de Verona. E se consagrou como diva, exigente e temperamental na obtenção dos seus caprichos. Ganhou notoriedade pelo talento e a polêmica em torno de sua imagem. A voz, de um veludo trêmulo, é inconfundível e comove, fazendo os olhos corroerem em lágrimas. É inevitável não sucumbir ao poder da voz de Maria Callas, que parece tocar a alma numa canção de ninar, como se estivéssemos sonhando acordados. Ao final da década de 50 a voz começa a definhar e a diva gradualmente deixa os palcos, fazendo demandas impossíveis de serem atendidas como uma forma de dizer "não" aos inúmeros convites. Passa a se dedicar a outros projetos profissionais, como escolas e coros, que não a satisfazem. Casa-se com Aristóteles Onassis, o milionário, com quem diz ter "enfim começado a vida". E o fim do casamento (ele se casa com Jackie Kennedy) e sua morte são golpes decisivos para o caminho sem volta à reclusão. As apresentações passam a ser cada vez mais escassas até a famosa interpretação de Norma, em Paris (1965). Com a saúde e a voz debilitadas, ela não consege se manter pé até o final, desmaiando ao cair das cortinas no final do terceiro ato. A definitiva apresentação final foi no Japão, em 1974. Entregou-se por fim à solidão, vindo a falecer em 16 de setembro de 1977, no seu apartamento da avenida Georges Mandel, em Paris, vítima de um ataque cardíaco. Um coração partido, sem metáforas. E como era a sua vontade, teve as cinzas derramadas sobre o Mar Egeu.

segunda-feira, 24 de março de 2008

NUNCA É TARDE DEMAIS


Vez ou outra aparece diante de nós um daqueles filmes simples, mas de uma delicadeza comovente. "Antes de partir" (The Bucket list), de Rob Reiner, é um destes filmes. A história narra o encontro de dois homens doentes terminais (Jack Nicholson e Morgan Freeman), que se conhecem na UTI. Um é um mega bilionário (Nicholson) o outro é um mecânico aposentado (Freeman). Ao descobrirem que possuem alguns meses de vida, decidem fugir e viverem verdadeiramente os momentos finais e, para isso, organizam uma lista de coisas a serem feitas. Viajam pelo mundo, visitando as pirâmides e o Taj Mahal, fazem um safári na África, andam de bicicleta pela muralha da China, pulam de pára-quedas, fazem tatuagens, tudo aquilo que gostariam de ter feito e que, como um salto filosófico, "encaram de olhos fechados e coração aberto", como bem diz a linda canção "Say", de John Mayer, que compõe a trilha sonora. O diálogo sobre cremação e lata de biscoito é bonito e a alusão a este momento no final do filme é emocionante. "Antes de partir" é um filme inesquecível, um clássico instantâneo, de cenas e dilálogos maravilhosos. Jack Nicholson está louco como sempre, Morgan Freeman ilumina a tela e tudo caminha para um final original, sensível e comovente (para não dizer de soluçar). Poderia ser óbvio, mas passa longe, longe disso. É um daqueles filmes que são fiéis à essência do cinema: contar uma história, mexer com o nosso espírito, tocar nossas vidas e nos transformar de alguma maneira. E nos mostrar que, por mais que pensemos o contrário, nunca é tarde demais para nada.

A SECRETA SOCIEDADE DOS SIMPSONS


"The Simpsons Movie" é um filme competente na tarefa de levar aos cinemas o mundialmente consagrado seriado animado americano, mesmo com o atraso de uma década. O grande desafio do filme é parecer "fresco" e, neste aspecto, é infalível em alguns momentos e incompetente em muitos outros. Como um episódio inédito de uma hora e vinte minutos, o filme possui toda a essência cômica e irônica do desenho, mas abusa de piadas internas que, mesmo quem é um fã de longa data irá ter dificuldade em acompanhar. Afinal, são dez anos de desenho e um filme que distribui referências sobre seus episódios como uma metralhadora corre o risco de oferecer momentos enfadonhos. Infelizmente, é o que acontece. A história é interessante e divertida, misturando consciência ecológica com ebulição social, Homer está impagável como sempre, Lisa, Bart, Marge, Meggie, Flanders, Moe, Burns, enfim, todas as centenas de personagens estão ali, garantindo a funcionalidade da ópera amarela dos Simpsons, que passam mais uma vez a sociedade americana em revista. Mas os Simpsons se tornaram uma sociedade secreta, fecharam-se em torno de si mesmos ao longo destes anos e somente os verdadeiros fãs se mantiveram fiéis, acompanhando o desenrolar da pacata (mas nem tanto) vida em Springfield (coisa que não acontece com FUTURAMA, também do Matt Groening, que é infinitamente mais acessível mesmo para telespectadores de primeira viagem). Assim, o filme dos Simpsons é inegavelmente feito para eles, membros desta sociedade, que certamente se deliciaram num farto banquete de piadas escondidas nas entrelinhas de uma comédia inteligente que para nós, meros mortais, passou despercebido. Vale à pena e diverte, certamente, mas uma enciclopédia de referência faz muita falta.

terça-feira, 18 de março de 2008

FAMÍLIA


"Lar é onde está o coração", dizem. Concordo. E nem sempre é onde a família está. Lar e família em lugares diferentes. Quase sempre é assim. Aliás, é melhor e saudável, até, que seja assim, já que deixamos a família para seguir um caminho próprio, achar companhia, e assim fundar uma nova família. Isso confirma a idéia de que "lar é onde está o coração". A família fica para trás, como um evento natural de amadurecimento. Mas permanece, intocada, num lugar do qual não pode ser removida: berço original, fábrica da nossa personalidade, pátria de onde nascemos para ganhar o mundo. Um lugar onde não ficamos sozinhos, de pessoas com quem podemos contar a grande parte do tempo. Laços de sangue e destino que acompanham a nossa jornada solitária na terra e amenizam a sufocante solidão do caminho. Família é a certeza na pedra de que não estamos tão sós quanto imaginamos. Assim, se "lar é onde está o coração", família é a terra natal, lugar indiscutível das nossas origens, de onde tivemos cunhados o caráter e a moral, nossa educação e preparação para a vida. Família é uma instituição falha e problemática, não há a menor dúvida. Mas por mais complexos que sejam a sua constituição, sistema e política ela é NOSSA, como bandeira, cultura e idioma do país de que viemos. Família pode ser dor de cabeça, pode ter intrigas, mágoas, mas é onde encontramos lembrança, memória, referência, espelho do que somos, do que nos tornamos. Família é quem nos ama apesar dos nossos defeitos e enxerga a melhor essência das nossas qualidades. É onde somos verdadeiramente queridos por aquilo que somos. Família, a nossa família, será eternamente uma ilha perdida-achada, o porto-seguro das nossas inseguranças, onde seremos eternamente "o número 1". Então refaço o meu pensamento original. Se "lar é onde está o coração", família é onde ocupamos o primeiro lugar.

sexta-feira, 14 de março de 2008

SOBRE OS CÉUS DA ARCADIA

Se eu tivesse que escolher apenas 1 entre todos os RPGs que tive a oportunidade de jogar até hoje, não pensaria duas vezes em ficar com "Skies of Arcadia Legends" (GC), que é o mesmo jogo lançado originalmente para o Dreamcast só que mais completo, com bônus e extras que ficaram fora do original. É uma fórmula completa: heróis carismáticos, jogabilidade fácil e estratégica, gráficos razoáveis (para a época), trilha sonora impecável, recrutamento, construção de base, aperfeiçoamento de navio de combate, um vasto território repleto de ilhas e descobertas, história envolvente e para coroar tudo isso, batalhas memoráveis entre "navios" que cruzam os céus com o poder das seis luas. São pelo menos 45 horas de entretenimento épico, com aventuras sem fim dos piratas do céu, "Blue Rogues", na busca de impedir que o mal assole mais uma vez o planeta. Há elementos de todos os jogos consagrados, de Zelda a Final Fantasy, com toques de Suikoden. No fim das contas não há nada de inovador por assim dizer, o que não impede este de ser um daqueles jogos especiais e inesquecíveis, que são inegavelmente um produto de amor e dedicação. Merecia uma continuação - e há rumores a respeito. Quem sabe a nova geração - de consoles e jogadores - não têm a sorte de descobrir o que há de tão especial sobre os céus da Arcadia?

terça-feira, 11 de março de 2008

UM FILME QUE FICA


Dizem que as maiorias e unanimidades são burras. Não tenho certeza disso. Mas se de fato são, então sou um burro feliz, por que eu também irei dizer que "Juno" é uma preciosidade, um sopro de frescor e renovação para o desgastado cinema da atualidade, que parece ter se engessado na "arte" das explosões e invasão de seres de outros planetas. O celebrado filme indepentente de Jason Reitman, com roteiro original de Diablo Cody (a propósito ex-stripper e blogueira), é uma equação funcional e perfeita do universo indie: temática adolescente, diálogos rápidos e inteligentes (quick-witted aos extremos), personagens carismáticos, dilema de pais e filhos, conflitos pessoais e uma trilha sonora absolutamente adequada para encerrar todo o contexto cult. É uma pequena jóia, uma pedra a ser lapidada. Aliás, como a sua protagonista, Juno Mcguff, interpretada brilhantemente por Ellen Page. A heroína-grávida, de 16 anos, é um amaranhado de emoções e reações, que fazem dela a mais frágil e indefesa menina e uma garota metida a mulher que acha ter todas as respostas para tudo (como todo bom adolescente, aliás). No fim das contas, sentimos o desejo inevitável de entrar na tela e tomar conta de seus problemas, auxiliá-la, cuidar dela por que, do contrário ao que pensa, ela não sabe tanto assim das coisas, da vida. Naturalmente. Ela só tem 16 anos. O filme é recheado de momentos maravilhosos, diálogos memoráveis e atuações singulares (todos os coadjuvantes estão perfeitos e funcionais, em especial atenção ao amigo/amor de Juno, Paulie Bleeker, interpretado com doçura pelo talentoso Michael Cera). Não existe em "Juno" nenhum desejo de crítica, não é um filme politizado, tampouco quer promover reações em nós. É uma história, simples, doce, delicada, sobre pessoas que parecem reais, como o cinema deveria ser. Uma história a ser contada, apenas isso. É um lindo filme, com o qual podemos nos identificar e nos enxergar ali, nas situações e conflitos atravessados por esta pequena-grande mulher que, não por acaso, recebeu o nome da mulher de Zeus, da mitologia. Uma heroína incomum, não convencional e solitária na certeza (equivocada) de sua independência e capacidade de resolução. Um diálogo inesquecível resume tudo, quando Juno responde ao seu pai que a questiona por onde ela andava: "estava por aí, resolvendo assuntos que estão além da minha maturidade". "Juno" é, inevitavelmente, um filme que fica.

segunda-feira, 10 de março de 2008

(DES)CONSTRUÇÃO DA PENA


A Queda! ("Der Untergang"), do diretor Oliver Hirschbiegel é um brilhante e perigoso filme. Sob inúmeras perspectivas. Há ali uma narração enxuta e objetiva das horas derradeiras do III Reich, no fim da II Guerra Mundial, que culmina com o suicídio de Adolf Hitler - e sua esposa Eva Braun - nos porões do bunker da Chancelaria. Sob o ponto de vista de uma secretária, Traudl Junge, tomamos conhecimento do dia-a-dia de um Führer em frangalhos, comandando divisões inexistentes, meio senil, meio demente, mas ainda gritando a plenos pulmões sobre um Estado em pedaços que parece escapar de suas mãos trêmulas. Vemos ali, intimamente, o senhor da morte e da guerra, responsável pela dizimação de milhões de pessoas, direta e indiretamente. Mas vemos também um homem velho, acabado, arrastando-se pelos cômodos e corredores de um abrigo úmido e abafado. E aí está o perigo. Um perigo ideológico para observadores menos esclarecidos. A atuação de Bruno Ganz (que interpreta Hitler) é um fenômeno, um primor, uma incorporação. Quando ele está na tela vemos diante de nós uma aparição, um fantasma do passado em cores vivas. Ele É Adolf Hitler em todos os aspectos. A fala ora mansa ora insandecida, os gestos, o comportamento de um gentil homem da Alta Áustria, está tudo ali, para que nos familiarizemos com o temido e idolatrado chefe e guia da Alemanha. E, quando menos percebemos, somos pegos desprevenidos por um inexplicável sentimento de simpatia e pena daquele homem velho, decadente, trêmulo e doente. Por que, por alguma razão, o filme nos faz conviver pacificamente com a idéia de construção e desconstrução do mito. Vemos Hitler, mas não o enxergamos. E por alguns instantes nos afastamos da sua representação e papel na História. Por fim, uma história de guerra, verídica, absurdamente e abissalmente verdadeira, sobre o caos, a destruição, o fanatismo ideológico, a devastação de um continente, uma cicatriz irreparável na civilização. Uma queda, sem dúvidas, para a qual todos somos e fomos levados. E da qual provavelmente nunca conseguiremos levantar.

quinta-feira, 6 de março de 2008

"MAKE ME A RED CAPE..."


Eu sinto saudades. Não importa o que vem depois desta frase. Eu sinto saudades. Nada contra o estágio atual em que a minha vida se encontra, longe disso, gosto de como os fatos se encaminharam para que eu esteja onde estou hoje, sob todos os pontos de vista. Por que não tenho dúvidas de que estou onde gostaria de estar. Mas naturalmente isso não exclui a minha intrínseca nostalgia de tempos passados em que a minha noção de mundo era mais limitada, mais inocente e, portanto, mais simplificada. Não é o medo de "crescer, procriar e morrer". Bom, talvez até seja, mas está além disso. É uma saudade "do que passou", como um sabor, cheiro, sensação que fica apenas na memória, apenas como lembrança de algo que não se pode ter, uma vez que é um tempo ao qual não se pode retornar. Sinto uma mistura de melancolia com a dificuldade em dizer adeus, desapegar de pedaços do caminho que certamente me fizeram ser quem sou mas que lamento estarem tão longe hoje em dia. Não se trata (totalmente) de uma "crise de 1/4 de vida", mas é que as prioridades, as obrigações e as dificuldades da vida adulta tomam conta da existência como conseqüência do amadurecimento e os prazeres também são outros, bem como os jogos e toda a política de "ser adulto". Nada contra isso também. Afinal, há um sem número de ganhos interessantes também - dormir com alguém, dividir a vida, ter a companhia de alguém é um exemplo. Mas faz falta, lamentavelmente, aquele tempo em que as complicações da vida se resumiam em férias, lanches, tarefas de escola e corações partidos. Não havia contas a pagar nem o trabalho, os compromissos, ter que fazer a média, os sapos a serem engolidos crus. Lembro com saudade carinhosa, inevitavelmente, dos meus anos de capa vermelha - literalmente - em que ter 6 anos de idade era basicamente a minha única obrigação. E sinto saudade, às vezes, deste tempo, desejando que a vida adulta fosse um pouco mais como 1985.

HÁ UMA GUERRA LÁ FORA


Fico com essa impressão, vez ou outra, num dia qualquer. Uma mistura de reflexão-reação imediata ao mundo conforme a construção do meu dia. Tudo termina bem quando começa bem, dizem. E o mesmo vale para o contrário? Possivelmente. E tenho quase certeza que é justamente nestes casos em que as lentes para a percepção das coisas me dá os meios para enxergá-las como são. E aí me vem a certeza: há uma guerra lá fora. As músicas no tocador de MP3 não são as que quero ouvir naquele determinado momento e a passagem ininterrupta das faixas geralmente me leva ao quase atropelamento. Bom, infeliz casualidade. As poças ficam mais fundas e a sujeira da caminhada na rua parece ficar mais barrenta. Ok, vejo um dálmata velhinho e isso me conforta, produzindo um riso de canto de olho. Sinto alguma fome, alguma sede e a cota de café parece não ter atingido o ponto mínimo. Meio como andar na reserva. Mais ou menos isso. Então percebo que o calor do sol está mais intenso e o suor resultante mais insuportável. E com isso a paciência vai desaparecendo como mágica, e pelo ralo, com ela, a tolerância às pessoas diversas que, como eu, também estão tentando atravessar a guerra. Vejo, então, como ninguém está nem aí para ninguém. Pessoas idosas sem auxílio, pastas caídas que espalham documentos no chão sem que ninguém se manifeste em ajudar, cortadas irresponsáveis no trânsito e uma onda constante de mau-humor que vai coagulando no tal inconsciente-consciente-onisciente coletivo, como uma amálgama de má vontade e irritação. E eu faço parte dela. Ora, há uma guerra lá fora e faço parte dela. A conseqüência direta disso é que às vezes sinto como se eu, também, não me importasse. Pelo menos, não o suficiente. E protejo os meus ombros, e daí o que acontece aos lados? Mas luto contra isso, verdadeiramente. Por que há a guerra dentro da guerra, em que sou espião e contra-espião de mim mesmo, de meu próprio espírito dividido esquizofrenicamente entre o pacífico e o bélico. E cedo lugares, e dou passagem, e me ofereço, prontifico, ajudo a carregar. Dou "bom dias" gratuitos e sorrisos sem pretensão. E abandono a ironia e a observação cáustica e venenosa das coisas. É a contra-guerra. Contra-regra. E oscilo entre o bem e o mal, entre as duas metades que tenho em mim, que se completam como dia e noite, numa luta desequilibrada de pesos na balança das minhas reações. Mas sou bom a maior parte do tempo. Sei disso. Mas é inevitável e impossível não ceder aos extremos. Por que assim é na guerra. Vamos aos extremos da nossa humanidade e animalidade conflitantes; a guerra em nós. E isso é apenas um dia entre 365. Am I getting sour with age?

segunda-feira, 3 de março de 2008

NO FIM, O SILÊNCIO


Eis o que nos dá Norman Mailer ao final de sua última obra, "O Castelo na Floresta". Narrado pelo demônio de segundo escalão, "Dieter", o romance nos apresenta a infância e adolescência de Adolf Hitler e tempos anteriores até o seu nascimento. No caminho, discussão sobre a perversão, o incesto, desvios morais e de caráter e a pura e simples maldade em sua essência. O diabo, "o Maestro", possuia um interesse no jovem Hitler e o que ele faria nos anos por vir para auxiliar os planos do Mal na terra. A narrativa envolvente de Mailer é uma montanha-russa de sensações que vão da euforia ao asco em uma mesma página. E quando menos esperamos, talvez até ingenuamente aguardando respostas, ele encerra sua história como se batendo uma porta contra a nossa cara. E para nós, leitores, que recebemos os educados agradecimentos do melancólico demônio Dieter pela leitura, a reflexão que nos parece mais adequada, quando tentamos parar para entender o que foi Adolf Hitler:

“O que permite a sobrevivência dos demônios é que eles são suficientemente sábios para compreender que não há respostas, apenas perguntas”.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

À JANELA

Corri bem cedo para a janela para te esperar chegar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

VERMELHO

A primeira vez que te "vi", por que vi sem ver, fui roubado - naquele instante - pelo vermelho dos seus cabelos. E ainda hoje te sinto e te vejo ruiva, pouco importando que cor você decidiu tingir o cabelo mais cheiroso do mundo, que é esse que adorna a sua cabeça como uma coroa. Por que você ainda é a minha ruiva. E sempre será. Minha. E te amarei vermelha, escolha você ser Marilyn ou Callas, ou Frida, pouco importa, haverá sempre algo de vermelho emanando dos seus poros, não importa que tom decida colorir sua caixa de pensamentos. Por que você é vermelha, fato inquestionável, em todos os aspectos da vida, sua, nossa, minha, você é vermelha. E foi por essa cor que me apaixonei e que lhe é inerente, sua de direito. Você merece esta cor, ela a pertence e você a ela. E nunca senti tanta falta deste vermelho em minha vida, como nestes últimos tempos em que você se avermelhou tão longe de mim, nas suas aventuras perdidas-na-tradução deste mês que demorou oito anos para passar. 8, exatamente, que lembra o eterno, e que é um dos nossos números. 5,6,7 e 8. Engraçado, isso. Uma seqüência lógica e racional que corre para o infinito, como o rio para o mar. E o mar é vermelho. E parece se abrir, para que passemos por ele, na nossa caminhada juntos que, como sempre gosto de brincar, é marcada por uma louca habilidade que temos - juntos - de conquistar as coisas, concretas ou subjetivas. Nós empreendemos juntos. E na união das nossas "forças sagitáries" conhecemos campo de batalha e de girassóis. Num mesmo dia. E, por sua causa, até eu me torno vermelho também. Vermelho de amor, de fogo, de briga, de guerra, paixão. Vermelho de Marte, morango e violino. Vermelho de Rosa, que me faz principezinho, para te cuidar e proteger do sol e dos tigres. Então, nestes dias que passaram, em que estive azul como nunca, ou roxo, prefiro dizer, percebi que já não vivo mais sem o vermelho, que é esta cor de movimento e realização, que você sopra em minha vida, como um vento de renovação e descoberta. O vento escarlate que transforma meu barco de papel na caravela de Colombo, assim é você em minha vida. E ando contando os segundos, como criança espera o Natal, para que você se traga de volta, meu sonhado presente, embalada como laço de fita e papel. Vermelhos.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

WE COULD BE HEROES

"and we kissed as though nothing could fall"
*
Estes últimos dias de solidão involuntária têm sido decisivos para a tal percepção da realidade como ela é de fato ou como desejaria que ela fosse. Manhãs, tardes e noites se arrastam na passagem das horas enquanto me transporto do ponto A para o ponto B na minha expectativa infantil de ser capaz de mobilizar o tempo para tê-la mais perto, como se tentando apagar com uma borracha metafísica os dias que ainda precisam passar para que se encerre a contagem no meu calendário melancólico sobre a mesa onde guardamos os nossos livros. Cada canto da nossa casa, cada espaço, eu a vejo ali, caminhando entre os cômodos, tocando detalhes que te interessam. E vou lembrando do seu cheiro doce e sua pele delicada, quando a abraço na cozinha enquanto fazemos café para o começo de mais um dia ou cozinhamos para aplacar a fome noturna que às vezes bate durante as nossas sessões caseiras de filme. Enquanto te guardo nos braços, seu cabelo costuma passear desordenadamente sobre as minhas bochechas ao passo que minhas mãos procuram sua cintura. E suspiramos juntos, abraçados em silêncio, com a certeza sublime que nos amamos, que não precisamos de mais nada naquele momento e que, por aqueles instantes, somos eternos. Somos heróis. É uma solidão diferente, a destes últimos dias, por que trata de uma incompletude que eu sequer sabia existir. Somos incompletos, fato, "live together, die alone", mas descobri o prazer de ser pleno e nela ter a parte que me falta - a minha melhor parte. E perder, momentaneamente, meu melhor pedaço, me deixa perdido, desorientado, como uma nau à deriva, sem sua luz de farol. São dias vazios, dias em branco, estes que passo sem minha amiga, senhora, mulher e amante. Dias de auto-conhecimento, reflexão, devaneios poéticos e filosofia de chuveiro, na minha anotação silenciosa das horas, para que mais um dia se encerre e o seguinte aponte logo à janela, até o fim da contagem, até que ela chegue. Por que não vejo a hora de voltarmos a dormir juntos, por que começa a doer a sua ausência. Por que a quero de volta, a sua voz reclamando dos meus erros e seus afagos quando a pego no colo para sentarmos preguiçosamente na poltrona da sala. Quero vê-la se arrumar diante do espelho do quarto, enquanto desenho a cartografia do seu corpo perfeito com os meus olhos curiosos, sem que ela perceba. É que quero nossas mãos enlaçadas novamente, enquanto nos aventuramos na esquina. Quero o sabor dos seus beijos e o calor do seu corpo. Te quero de volta.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

ANJOS ENTRE NÓS


Os anjos estão por toda parte, entre nós, em sua tarefa diária e dedicada de nos proteger dos perigos, afastar-nos das tragédias, acalentar nossos corações nos momentos de desespero e cuidar de nossos pensamentos para que eles não se tornem sombrios. Eles estão por toda parte, entre nós, e não fazem questão de serem vistos, por que isso não importa. É preciso acreditar na bênção, numa força maior, de fé, esperança e bondade, que está sobre todos nós que é infalível durante grande parte do tempo. Os anjos estão por toda parte, entre nós, e tudo estará bem. Acreditar é possível. Acreditar é preciso.

HITLER EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA (?)

Saiu na imprensa internacional (Reuters) uma notícia de que desenhos de Adolf Hitler retratando personagens da Disney (Anões da Branca de Neve e o Pinóquio) foram encontrados e comprados pelo diretor do museu de guerra da Noruega, William Hakvaag. As imagens são supostamente assinadas pelo "führer", com "A.H." e "A. Hitler" e teriam sido feitos durante a II Guerra Mundial (em 1940, provavelmente). É sabido que Hitler possuia uma cópia da "Branca de Neve", que considerava um dos melhores filmes da história. Bom, os desenhos foram comprados em leilão por trezentos dólares, um preço relativamente pequeno para esse suposto tesouro histórico e genuína peça de interesse psicanalítico. Afinal, o que levaria Adolf Hitler, senhor da Europa, chefe máximo do III império alemão e um dos homens mais poderosos do mundo, responsável pela morte de milhões de pessoas, desenhar personagens da Disney em seu tempo livre? O que isso poderia nos dizer sobre a personalidade desta que é uma das mais estudadas e ainda assim mais obscuras personalidades da história? Fica mais essa lacuna no quase infinito labirinto de perguntas sem resposta que é a figura de Adolf Hitler.

ALICE MATA O COELHO


Ok, "The Brown Bunny", filme de Vincent Gallo. Por onde começar? Não vou simplificar dizendo se é um filme bom ou ruim, se gostei ou não gostei. Por que acho que está além disso. É um filme brutalmente silencioso, lento e melancólico. Tudo se arrasta na tela, como se fosse um filme inteiramente rodado em câmera lenta e mudo. E, nesse aspecto, o personagem principal (o motoqueiro Bud Clay, vivido pelo próprio Vincent Gallo) se mistura com a história e o próprio filme, de maneira que o que vemos na tela é uma grande massa uniforme de tristeza e resvalamento quase viscerais. Como obra de cinema, o filme não possui grandes genialismos, apesar de ter algumas belas cenas e trilha sonora razoável. O enquadramento é intencionalmente amador em muitos momentos, reforçando a idéia que não há ninguém ali, além de Bud Clay (e nós, que o observamos dormir, comer, tomar banho, e dirigir em silêncio). Por este ponto de vista, "The Brown Bunny" é infalível: temos a quase desconcertante impressão de estarmos acompanhando Bud em sua jornada solitária pelas estradas dos Estados Unidos até a Califórnia, como se dividíssemos a sua van ou o quarto de hotel. E passamos a nos interessar pelo que Bud tem em mente, a obsessão com sua ex-namorada Daisy Lemon, reflexo de que ele não se refez da devastação que ela parece ter promovido em sua vida. No caminho, Bud conhece três mulheres completamente perdidas, também elas com nomes de flores (Violet, Lilly e Rose) e as deixa no caminho. Uma jovem vendedora, uma mulher solitária num parque e uma prostituta. Descobrimos que ele busca desesperadamente por companhia, por alguma companhia. É como se ele estivesse tentando se soltar de algo que é mais forte que sua vontade (o pensamento em Daisy) que o mantém no caminho, deixando tudo para trás, até ele mesmo, sua alma e essência. O filme ganhou notoriedade e gerou uma grande polêmica devido à explicidade de uma seqüência de sexo oral e, francamente, não tenho uma opinião definida sobre a gratuidade (ou não) desta cena, tampouco acho que seja grande coisa ou, pelo menos, algo que merecesse tanto estardalhaço. Acho que Gallo tinha algo em mente com esta cena de sexo escancarado e acredito que está relacionado ao nosso papel de expectador-extremo da vida (ou falta dela) ali retratada. De expectadores passamos a fantasmas que acompanham um homem que vaga quase sem rumo, ele mesmo como um fantasma. Então talvez, neste sentido, a cena de sexo do final tenha sentido. Por que não há nada ali, naquele filme, para amenizar o nosso desconforto. "The Brown Bunny" não é um filme que deseja nos poupar em nada, pelo contrário. Bud Clay é um homem perdido, transtornado, consumido por um remorso inexplicável e que, apesar da tranqüilidade que emana dos seus olhos azuis, de uma carência quase infantil, ele parece gritar por dentro. Uma reinvenção perdida de Alice, uma "Alice em transe", numa jornada melancólica através de um país transtornado, sem nenhuma maravilha, apenas sombra, solidão e silêncio. Por que Alice matou o coelho.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

MINHA GAROTA URBANA



O sol brilha com timidez, quando levanto todas as manhãs para uma rotina solitária, silenciosa, com o compasso de um relógio enguiçado. Uma coreografia simples, relativamente mal ensaiada, de gestos, passos e ações repetidas. Uma sinfonia pouco criativa de sons, sabores e aromas, que mistura o cheiro do café ao barulho do relógio que bate na parede da cozinha, ao perfume, às bolachas não muito frescas, à água do banho, ao toque da roupa no corpo, ao barulho da porta que se tranca atrás de mim. Se escolhesse uma trilha sonora para estes dias-perdidos-na-tradução ela certamente sairia das mãos da Sofia Coppola ou comodamente plagiaria a compilação mágica e melancólica da sua obra prima, "Lost in Translation". É como se a manhã começasse preguiçosa - como todas - ao som de "Girls", do Death in Vegas e terminasse com "City Girl", do Kevin Shields. Ao longo do caminho, na seqüência das horas, algumas passagens mais animadas, outras mais suaves, até o momento de o sol se pôr no horizonte, numa esplanada azul, vermelha e roxa, onde o solo fofo sob os meus pés parece me conduzir no automático, como se houvesse um fio, como se eu fosse um bonde de um só passageiro, na viagem dos meus devaneios perdidos, para o encerramento de mais uma página do livro que me esforço em contar. Nestes momentos de passagem, fico imaginando onde ela está, se está vendo o mesmo pôr-do-sol ou as mesmas estrelas, sentindo a água da chuva ou que roupa escolheu vestir. Minha garota urbana, perdida-na-tradução ela mesma, na sua Tóquio verde e amarela. Algo está faltando. Algo que motiva a travessia do dia, a vontade de voltar para casa, para o brilho de seus olhos e o calor de suas pernas, que descobri (ou simplesmente constatei) que não consigo mais viver sem. É que sinto falta de cada centímetro do seu corpo e não consigo aceitar - mais - a distância. Fato. Por que fiquei farto dos dias e dos quilômetros e hoje tolero apenas metros e minutos. É que os dias sem minha garota urbana são vazios, sem cor, em vão. Por que ela é linda, por que eu a amo, e por que a espero, todas as noites, para que ela me visite novamente nos meus sonhos.

TODOS POR OBAMA


Esperança, Ação, Mudança. São os lemas da campanha de Barrack Obama, pré-canditato democrata à presidência do país mais poderoso do mundo. Jovem, negro, veterano de guerra, de sobrenomes muçulmanos, filho de pai queniano, em outras palavras, uma onda de frescor contra à antiquada locomotiva americana, engessada nos trilhos do tradicionalismo de raízes anglo-americanas dos "pais fundadores", nortistas, brancos, puritanos, conservadores. A campanha do carismático Obama começou de maneira silenciosa e foi ganhando músculo na internet, sobretudo com o apoio do eleitorado jovem norte-americano, sedento, em espera angustiosa por ALGUMA mudança. Orador eloqüente, que silencia as massas com suas palavras de impacto, nasceu no Havaí, em 1961, filho de uma americana com um queniano (ambos os pais já falecidos), advogado renomado por Harvard, escreveu um livro chamado "Os sonhos de meu pai". Que a esperança, a ação e a mudança se mantenham e fortaleçam, e que os "sonhos de Obama" sejam de renovação e anúncio de um novo tempo no império norte-americano, que já sofre com suas estruturas enfraquecidas. Alguns arriscam a chamá-lo de um "novo Kennedy". É cedo para especular, certamente. Mas toda a euforia é um reflexo imediato da necessidade de mudança na empoeirada política norte-americana. O momento é esse. Uma chance que não se pode deixar escapar. Alguns parecem não se importar, afinal, "de que nos interessa quem ganha ou quem perde nos EUA?". A verdade é que devemos nos importar por que nos interessa e muito qualquer transformação no país-império que fiscaliza e dá as regras do jogo no mundo.


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"I´m asking you to believe. Not just in my ability to bring about real change in Washington. I´m asking you to believe in yours".
(Barrack Hussein Obama)
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