terça-feira, 2 de setembro de 2014

COISA DE CRIANÇA

Entre uma caneca e outra de cerveja, decidimos lembrar dos shows que víamos quando crianças; uma conversa nostálgica, regada a risos garimpados como pedras preciosas. Os desenhos, os programas, as canções inocentes, os seriados que marcavam as nossas tardes. Histórias incríveis com as quais crescemos, por anos.

Então, de repente, como uma onda, eu me senti afundado numa lembrança abrupta. Um programa, que passava todas as tardes, sobre uma bruxa que trocava de cabeça. Lembro de como aquilo era aterrorizante. Aquela mulher estranha, sem rosto, os dedos compridos como garras, caminhando por salões do que parecia ser um castelo decrépito, manipulando todo o tipo de cabeças, para então escolher uma e encaixar no seu corpo, como um manequim. 

E então ela gargalhava, satisfeita.

Aquele pensamento aterrorizante gelou a minha espinha de ponta a ponta. A lembrança daquela mulher monstruosa flutuando pelas sombras, como um fantasma. E, sempre ao final, ela olhava para a tela, os olhos negros, fundos, vazios, dizendo numa voz gutural de que ela viria à noite para buscar a nossa cabeça. Senti cada pelo no corpo arrepiar. 

"Vocês lembram deste show?!", eu perguntei, tentando lembrar mais detalhes. "Vocês lembram qual era o nome?", eu insistia.

"Lembro da bruxa, com certeza", alguém comentou. 
"E as cabeças espalhadas pelo corredor", outra pessoa complementou.
"Meu Deus, era tão assustador", outro intercedeu.
"Como os nossos pais deixavam a gente ver aquilo?!", um finalizou a conversa.

Ficamos em silêncio, a alegria desaparecendo junto com os últimos goles. Pedimos a conta e fomos embora. 

Eu me sentia desolado. Aquela lembrança repentina me acompanhando no trajeto de volta para casa. Corri para o computador, assim que abri a porta, em busca de alguma resposta. Após horas de pesquisa, eu me convenci de que não havia nada na rede sobre aquele programa. Nenhum site, nenhuma foto, nenhum verbete, nada, absolutamente nada sobre a bruxa que trocava de cabeças e nos ameaçava todos os dias. 

Não consegui dormir. Aquelas imagens vindo me devorar, de forma sistemática. A sensação desesperadora de que ela estaria ali, de pé, no quarto me olhando dormir. Sentia o coração a galope no peito e testemunhei cada hora da noite passar, até o dia começar a colorir a janela; e um alívio gradual invadir o meu corpo exausto.

Com uma xícara de café na mão decidi ligar para a minha mãe. Ela se lembraria, eu sei que ela se lembraria. Ela ficava em casa, enquanto o meu pai saia para trabalhar. Ela se lembraria, eu sei.

* * *

Minha mãe ficou em silêncio, do outro lado da linha. 

"Mãe? Mãe, você se lembra?", eu insistia, o café esfriando na mão.

Ela suspirou. 

"Lembro, filho, eu lembro".

Sorri.

"Lembro de você sentado, por horas, diante da TV estática", ela continuou. "Falando sozinho, acenando com a cabeça".

Fiquei em silêncio.

"Você era tão pequeno, eu simplesmente achava que era coisa de criança".

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

AMOR PLATÔNICO

Lana Del Rey. Conhecia de nome, já há algum tempo. Sem dar muita bola. De repente uma voz, um rosto, um cabelo escarlate, uma melancolia com cara de coisa antiga, de coisa quebrada. Atropelamento total, completo e absoluto.

PARA VER E OUVIR: LANA DEL REY ("ONCE UPON A DREAM"

O PROBLEMA DE "MALEFICENT"


Não é que a adaptação do clássico da Disney, "A Bela Adormecida", seja ruim. Não é. O filme tem alguns efeitos especiais legais, a fotografia (em especial) me agradou muito e acho inclusive que a Jolie representa bem a famosa vilã "Malévola"; ela faz as caras, os olhares, os movimentos discretos, o jeito de caminhar flutuante, quase imperial, a fala lenta, pausada, aterrorizante. Até aí tudo bem: check!, check! check!. 

Mas o grande problema de "Maleficent" (do filme, não a Jolie) é o que eles fizeram com a personagem. A bruxa é, sem sombra de dúvidas, uma das mais terríveis do plantel da Disney - de longe! Malévola TRANSPIRA maldade e o faz da forma mais cativante e elegante o possível, como boa vilã. Em outras palavras, ela é uma das vilãs mais badass de todos os tempos. É inegável seu poder, fato que a permite controlar um reino sob a mera possibilidade da sua presença. Todos, sem exceção, temem Malévola. E, quando desafiada, ainda por cima se transforma num dragão descomunal para provar que ela não tem tempo a perder. 

Pois bem. A Malévola da Jolie tem a estética - sem dúvidas - e encarna isso bem. Mas jogaram a deliciosa personalidade da verdadeira Malévola no lixo, já que a bruxa do filme é provavelmente a mocinha, a bruxa boazinha, em busca de redenção e de fazer o bem. Não gostei. Destruiram a personagem.

Isso aqui É a Malévola. Ponto final: 




terça-feira, 26 de agosto de 2014

SOBRE ESTRELAS CADENTES (OU DISCOS VOADORES)



Belíssimo timelapse feito por Milton Tan no aeroporto de Changi (Singapura), um dos mais movimentados do mundo. A edição acelerada transforma os aviões em estrelas cadentes (ou discos voadores). Maravilhoso. Via Chongas.

sábado, 23 de agosto de 2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

UM REINO AO ACASO


O sol morno, na janela, refletia um jogo de sombras quase poético sobre os seus dedos compridos. A mão segurando delicadamente a taça de água; as unhas bem feitas, a pele lisa, os pelos curtos, dourados, quase imperceptíveis. Ela ali, em silêncio, meditando sobre o horizonte, a mão ocasionalmente amparando o queixo. 

Um suspiro. 

Os lábios roçavam gentilmente no vidro umido, revelando um brilho repentino, que contornava a planície vermelha que era a sua boca pequena. O nariz angular, quase beduíno, os olhos expressivos, cheios de curiosidade, os cabelos negros, ondulados, cascateando sobre os ombros descobertos. Um vestido discreto, florido, de verão, emoldurando o corpo nem magro, nem gordo, nem perfeito. Um corpo feminino, delicado, apoiado sobre pernas brancas que terminavam num tênis surrado. Uma fotografia mental, um momento passageiro, já desaparecendo, aquela mulher linda. 

E ele ficou ali, parado, pela duração de um tempo que ele não queria que passasse. A vontade de guardá-la numa caixa mágica, fazê-la eterna. As circunstâncias demandando um beijo roubado, sem explicação. 

Ele sorria. Ela sorria. Dedos brincando de se encostar sobre a mesa. Pés esbarrando de propósito. Pele que arrepia, vento no cabelo, borboletas de barriga. Aquela indecisão sobre o que comer; cardápios escancarados como mapas de tesouro, tudo sempre parecendo tão bom.

A vida era boa, era tudo tão simples. Naquele canto sem donos nem leis, naquele reino fundado ao acaso.

"Você desperta em mim a vontade de viver para sempre".

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

GIFS DA DEPRESSÃO

O(a) chefe ou o cliente revisam algo que eu fiz na minha frente...





domingo, 17 de agosto de 2014

AMOR(ES) PLATÔNICO(S)

American Horror Story me presenteou com não um, não dois, mas TRÊS amores platônicos. Dois deles em uma só temporada (haja coração!) e o terceiro na temporada mais recente, sobre o covil de bruxas. Três paixões arrebatadoras e irrecuperáveis... 


Alexandra Breckenridge, a "empregada" do Dr. Harmon que - por acaso - mantém o seu consultório em casa. Moira só é vista assim pelos homens, já que as mulheres a enxergam como uma velha decrépita. Acho difícil que uma mulher aceitaria os serviços da Moira... linda atriz, coisa de outro mundo.


E o que dizer de Kate Mara? Apesar do seu papel - assustador - como (ex?) amante do Dr. Harmon, é impossível resistir à beleza de Mara. Ela dá muito (muito!) medo como a jovem universitária Hayden, mas tirando esse papel, é impossível não se apaixonar por Mara. 


Por fim, a jovem bruxa Emma Roberts. Há algo... "bruto" a respeito da beleza de Emma. Não sei dizer; algo feroz, felino, incompleto, desarrumado, que eu simplesmente não consigo deixar de reparar. Sobrinha da Julia Roberts, era de esperar. Outra paixão arrebatadora, no papel da sensual (e perdida) bruxa Maddison. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

RESTAM APENAS OS AMANTES



Novo filme do Jim Jarmusch. "Only lovers left alive". Parece bom, bom demais...

GIFS DA DEPRESSÃO

Faço compras em dólar, na empolgação, e depois vejo a conta quando chega a fatura...

terça-feira, 12 de agosto de 2014

"GÊNIO, VOCÊ ESTÁ LIVRE"

Pena ouvir da morte trágica do Robin Williams. Mais uma alma incrível, derrotada pela depressão, álcool, cocaína. Triste; fará falta. Roubando as palavras da Academia, uma frase que diz tudo: "gênio, você está livre".

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

QUEM TEM MEDO DA JESSICA LANGE?

Eu não; me apaixonei por esta mulher incrível e atriz fenomenal. 98% do que me motiva a ver "American Horror Story". A mulher simplesmente domina este seriado.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O DESESPERO DE PERDER A SI MESMO

William Utermohlen, um artista plástico norte-americano (nascido em 1933), foi diagnosticado com o mal de Alzheimer em 1995 e morreu em 2007. Os seus auto-retratos, ao longo destes anos, mostram a gradual perda de si mesmo, num caleidoscópio melancólico, de uma beleza triste. Seu último auto-retrato é de cortar o coração.







PARA VER E OUVIR: MICHAEL BUBLÉ & LAURA PAUSINI ("YOU'LL NEVER FIND ANOTHER LOVE LIKE MINE")

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

ANTUMBRA


O dia ainda despertava preguiçoso, no horizonte. Aqueles tons tímidos, ainda lilases, o vento gelado, os últimos suspiros da noite dando lugar para o começo da manhã.

O homem caminhava, sozinho, no vasto cemitério. Aquele grande labirinto de lápides brancas, como uma grande metrópole de prédios minúsculos em que ele caminhava, sem pressa, feito um gigante. Passo ante passo, cerimonialmente, rumo ao seu destino.

Parou, então, contemplando por alguns minutos a lápide recente diante dos seus olhos. O nome, ali encravado, deixando poucas dúvidas sobre quem habitava aquela morada, sob sete palmos de terra ainda fofa.

Abriu então uma sacola plástica, de supermercado, e retirou um saco de um quilo de sal. Com um pequeno canivete, rasgou o plástico, tendo a ajuda do vento para salgar aquela cova fresca.

Fechou os olhos, um sorriso, um suspiro longo, a brisa desgrenhando seus cabelos, causando arrepio.

"Eu sobrevivi".

PENUMBRA


Meu pai era um homem esquisito. Mas no melhor sentido. Acho. Sei lá. Nós nunca duvidamos que ele nos amava, nem a nossa mãe; ou o seu interesse pela nossa vida, as nossas coisas.

Ele estava lá, sempre estava. Mas a verdade é que hoje eu consigo enxergar claramente o que, naqueles anos passados, eu via de forma embaçada. O nosso pai vivia num mundo dentro dele; e que mundo incrível devia ser, porque nós nunca pudemos entrar.

Ele era um poeta, um filósofo, um homem triste - mas não infeliz. A companhia mais engraçada e interessante que eu e meus irmãos tivemos. Nunca, nunca conheceremos outro homem como ele. Suas histórias, seu jeito, seu humor - e mau humor - nosso pai foi o epicentro da nossa juventude; não por acaso ainda o sentimos tão presente entre nós, tão vivo, após tantos anos. Suas histórias rasgando nossos rostos com risos quase geográficos.

"Ah, aquele homem...", mamãe se limitava em comentar; um suspiro, uma saudade que não passava.

Entre todas as suas manias - e não eram poucas - meu pai tinha o hábito quase religioso de folhear o jornal assim que acordava.

"Já chegou?", ele perguntava, ansioso, ainda vestindo seu pijama puído e predileto.

O que pode haver de estranho nisso?, você me perguntaria. Um homem ansioso pelo seu jornal da manhã.

Mas não é que meu pai estivesse querendo ler as notícias, os resultados esportivos ou a corrupção do governo. Não era nada disso. Meu pai pegava o jornal e se desfazia de todas as páginas, apenas para olhar nos obituários. Apenas isso; podíamos jogar fora o resto. E com a sua fiel xícara de café na mão, lia ávido os nomes ali, diante de uma platéia curiosa. Eu, meus irmãos, nossa mãe. Esperando que um dia aquele mistério fosse explicado.

Nunca foi.

"O que você tanto procura nesses obiturários, papai?", perguntávamos, eternamente intrigados com aquele hábito mórbido e curioso.

Ele ficava em silêncio e apenas sorria; jogava então a folha fora, e todos começávamos os nossos dias.

* * *

Um belo dia, numa manhã qualquer, eu despertei com um grito. Meu pai, na sala, quase saltitando, segurando o seu jornal nas mãos, como se tivesse acertado na loteria. Ele me abraçou, beijando o meu rosto.

"Avise a sua mãe que eu precisei sair", falou, lacônico.

Nunca soube o que meu pai fez daquele dia. E que diabos ele enfim achou naquele jornal.

Naquela noite, daquele dia incrível pelo qual todos esperávamos ansiosamente, o meu pai morreu.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

UMBRA


"Aceita café?", a mulher perguntou, interrompendo os seus pensamentos deslocados. Aquela mulher esquisita, os cabelos ressecados por luzes, os dentes sujos de batom, a roupa apertada demais para o seu corpo. Ela transpirava clichês. Como aquele lugar inteiro. Puro clichê.

O investigador particular saiu do banheiro, enxugando as mãos na calça, sentando-se com um suspiro curto. O cabelo ralo, os dentes amarelados por causa de cigarros em excesso, o terno barato e puído, a gravata de tom duvidoso.

"Meu Deus, que diabo eu estou fazendo aqui?".

O homem retirou um envelope pardo, de dentro da gaveta, e depositou-o quase cerimonialmente sobre a mesa. Alisava o papel com as duas mãos, como quem prepara uma massa fina numa pastelaria. Os olhos fixos no seu cliente, aquele silêncio longo demais, já constrangedor.

"Você não vai gostar de ver o que está aqui, rapaz", disse, por fim.

O sol lambia gentilmente a janela mofada daquele trágico escritório encravado no centro da cidade. Aquele cheiro de papel velho, poeira, jornal, nicotina, perfume barato. O som do ventilador velho ralhando, as flores de plástico, a pequena televisão ligada num programa popular de TV. O dia começava a dizer adeus enquanto ele estava ali, diante do investigador, e do envelope que já nem sabia se queria abrir.

Com um gesto curto, alcançou o envelope e folheou a série de fotos que havia dentro dele. Datas diferentes, dias diferentes, roupas que ele mesmo lembrava de tê-la visto usando. Sua mulher, e uma coletânea que escancarava a sua infidelidade. Chegava a ser patético. Ele. Ela. Ambos. Patéticos. 

"Um rapaz bonito que nem você", a secretária gralhou ao fundo, "ficar com uma vagabunda como essa"

Ele sorriu, amargo, em direção à mulher.

"Essa aí não vale um centavo, amigo", o investigador intercedeu. "Mais de vinte anos que trabalho nisso e nunca sei o que dizer nessas horas", suspirou. "Mas essa aí não vale nada, isso eu te garanto".

"Piranha ordinária, prostituta!", a mulher ainda gritava, inconformada.

Ele permaneceu ali, as fotos empilhadas sobre o seu colo, no que pareceu uma eternidade. Sentiu uma melancolia profunda, sentiu-se decadente, frágil. Não era o adultério em si, a sujeira, a mentira. Não era isso, necessariamente. Era o somatório das coisas, o caleidoscópio de lembranças, os arrependimentos que vinham sufocá-lo como uma onda gigante no mar. 

Olhou para o escritório, as paredes decoradas com quadros comprados em supermercado, o investigador em silêncio, com as mãos cruzadas sobre a mesa, a secretária ainda mexendo a cabeça em negativa, o som de uma discussão entre pessoas no programa de auditório. 

"A gente vê tristeza demais aqui", a mulher ainda falava, "chega uma hora que cansa!".

Ele continuou em silêncio. A verdade é que nada daquilo o surpreendia, afinal; e essa era a sua maior surpresa. Tavez fosse preciso apenas a concretude das coisas; a visão do óbvio, a imagem do que ele sempre havia suspeitado. Abriu a carteira, sacou algumas notas e pagou o que devia. O investigador pegou as notas e, sem contar, guardou na gaveta.

"Você sabe o que vai fazer com isso, rapaz?", o investigador perguntou, quase paternal.

"Por hora, nada", ele respondeu.

Apertou a mão do investigador, acenou para a secretária e, com o envelope sob o braço, caminhou em direção a porta daquele canto esquecido do mundo. Levou as fotos até uma lata de lixo, um lugar mais do que adequado, e num gesto discreto, ateou fogo na imundície.

"Por hora, nada".

quinta-feira, 31 de julho de 2014

PARA VER E OUVIR: SARAH MCLACHLAN ("I LOVE YOU")



Não tem jeito, basta ouvir a Sarah Mclachlan para eu lembra o quanto - ainda hoje - eu amo esta mulher.

TRAILER DE INTERSTELLAR



Novo do Christopher Nolan. Naturalmente que já está na lista.

TRAILER DE "O HOBBIT - A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS"



"Um dia eu lembrarei de tudo...". Você vai, Bilbo. Ah, e como vai.

terça-feira, 29 de julho de 2014

AMERICAN HORROR STORY


Pérola do NETFLIX. Recomendo - demais. Histórias excelentes, personagens ricos, atmosfera, música, sem contar a Jessica Lange que simplesmente destrói, domina. Série que descobri ao acaso e não consegui mais parar de ver. E que só vai ficando melhor.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

GIFS DA DEPRESSÃO

O que eu tenho vontade de fazer no restaurante quando o prato demora uma vida para chegar e ainda vem errado...

segunda-feira, 21 de julho de 2014

sábado, 19 de julho de 2014

'GREETINGS FROM INDIA'


"Trouxe a máquina fotográfica?", você perguntou, os olhos fixos na janela do taxi, aquela atmosfera amarga e esquisita entre nós. 

"Esqueci", menti; eu deixei a máquina no hotel, apenas para te irritar. 

* * *

Nós subimos juntos a escadaria daquele templo. Os degraus imundos, o ar lilás circulando ao nosso redor, você sem me deixar segurar a sua mão. Você queria ir a Índia; lá estávamos nós, riscando o item da lista. Subindo juntos a escadaria do templo.

A verdade é que eu nem sei como explicar a cronologia da nossa história; é como se ela fosse lenda, sem fatos comprovados, sem a cadência correta de eventos. Apenas um emaranhado de lembranças que se sobrepõem até formar uma mistura sem cor nem graça. Como quando misturamos todas as massas de modelar, para criar aquela bola horrorosa, marrom, que acabamos jogando fora.

Esta bola marrom, este caleidoscópio às avessas. Isso somos nós.

Nós. Era tudo o que restava, o que nos mantinha juntos, mesmo ali, cercados por aquelas pedras seculares, aquele pôr-do-sol violeta, aquele lugar mais velho que o tempo. Apenas os nós. As pendências, as soluções práticas. A divisão dos valores. O aperto de mão final. 

Você caminhava mais rapidamente, intencionalmente, escolhendo outros focos de atenção. Eu caminhava lentamente, propositadamente evitando te alcançar. Nada mais naquilo havia sentido, nossa lua de mel ao contrário; nós dois, quase em resistência magnética, empurrando um ao outro o mais longe possível. 

Os sorrisos contrastavam com a nossa presença. Como se nós não servíssemos ali, como se incomodássemos. Dois fantasmas, assombrando aquele templo. É a coisa mais curiosa - e misteriosa - essa alquimia do desfazimento do amor. É impossível traçar os passos, entre a paixão e o desprezo. A gente sente, acho, sei lá. Suspeita, sem enxergar. E então, um belo dia, numa manhã qualquer, olhamos nos olhos um do outro e nada mais faz sentido.

"Eu não amo mais você". 

Aquelas passagens compradas há tanto tempo, triste ironia. Viajamos como inimigos, desde o momento em que sentamos no avião. Aqueles silêncios constrangedores, as palavras inevitáveis, a cama pequena demais para dois corpos que, num passado recente, não se desencaixavam. 

Você me deixou segurar a sua mão no caminho de volta. Talvez por cansaço, talvez por carência. Nem eu sei porque fiz isso, também, para te ser sincero. Talvez pelas mesmas razões que você. Que importa? A verdade é que, ainda hoje, sinto o cheiro do seu cabelo molhado, quando você me abraçou ao sair do banho, do toque da sua pele em volta do meu pescoço, os seus olhos úmidos no meu peito. Aquela última noite.

Estávamos dizendo adeus.



Porque você foi um sonho doce, uma doce ilusão. Uma ideia que se desfez no vento, que perdeu o sentido, que virou decepção. E aqui estou eu, tanto tempo depois, ainda costurando os pedaços embaçados destas memórias agridoces, e sem nenhuma foto daquele templo para recordar.

E quem devo culpar?

sexta-feira, 18 de julho de 2014

QUANDO UM FILME MARCA A PELE

Alguns filmes marcam a pele, feito tatuagem (ou cicatriz). Embora hoje em dia muitos dos meus filmes queridos - para a minha supresa - tenham morrido (decoberta melancólica ao tentar revê-los), outros surgem para conquistar o lugar vago. "August Osage: County" é um deles. Eu simplesmente sou apaixonado por esse filme, que já vi três vezes, e a vontade que tenho, sempre que começam a subir os letreiros, é voltar para o começo e ver tudo de novo. Não sei dimensionar, claramente, a razão. Se o texto de Tracy Letts, se a música, se os personagens, se a possibilidade de ver tanta coisa ali com a qual me identifico. Não sei. Amo esse filme, perdidamente, e sinto-o vibrante na pele. 

terça-feira, 15 de julho de 2014

SEM PALAVRAS


Sem Palavras
Florbela Espanca

Brancas, suaves mãos de irmã
Que são mais doces que as das rainhas,
Hão de pousar em tuas mãos, as minhas
Numa carícia transcendente e vã.

E a tua boca a divinal manhã
Que diz as frases com que me acarinhas,
Há de pousar nas dolorosas linhas
Da minha boca purpurina e sã.

Meus olhos hão de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d’alvorada!

E nunca se amará ninguém melhor;
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada!...

PARA VER E OUVIR: JOHN MAYER ("BACK TO YOU")

15 DE JULHO - DIA DE SÃO SWITHIN


Saint Swithin's day if thou does rain
For forty days it will remain
Saint Swithin's day if thou be fair
For forty days it will rain no more


Será que chove?

domingo, 13 de julho de 2014

CASA DE AREIA


- "Eu não queria te acordar, eu sei que é cedo, mas é que eu não tinha ninguém mais para ligar..."

* * *

O assoalho da casa ainda fervia sob os seus pés descalços; o suficiente para machucar, mas ele caminhava, alheio à dor, sobre os escombros da velha casa de praia que havia pertencido aos seus avós. O resto dos móveis, ainda fumegando, madeiras e tijolos expostos, negros, pedaços de cortinas dançando no vento como bandeiras arrasadas num campo de batalha, tendo o mar emoldurando aquela cena de caos. Infinito, assustador, gigantesco e indiferente. 

As ondas quebrando na areia, para frente e para trás, para frente e para trás.

Era possível ver pedaços de coisas, aqui e ali, mas não havia restado nada inteiro, que pudesse contar alguma história. Retratos queimados, roupas, objetos de valor e sem valor algum, objetos de arte completamente modificados, um aglomerado de coisas sem forma, como um buraco no tempo e espaço, de destruição compacta. 

Seus pés doíam, os dedos lascados por pedaços de vidro e madeira, a barra da calça de pijama já levemente chamuscada, o rosto marcado por fuligem e sombra, como um guerrilheiro camuflado, os olhos petrificados, as mãos penduradas como cordões mortos, o ar salino, curto, suficiente para mantê-lo de pé, o seu corpo guiado pela incredulidade.

E então lá estava ela, sua mulher, o que havia restado dela, sobre os escombros, os restos de pele, osso e pano unidos com o caos, numa amálgama que desenhava o fim, o terrível fim, o seu fim. Ele ficou ali, de pé, observando os restos mortais da mulher que, horas antes, estava sentada na areia, os olhos fixos no mar, questionando-se sobre o sexo dos peixes. Aquela mulher infeliz, que viera habitar o mundo dos vivos por uma triste casualidade, e que há tanto tempo se esforçava em ir embora.

E levar tudo consigo, como uma bomba.

Ele acocorou-se e sentiu o cheiro forte de coisa queimada sufocando o seu rosto. Não havia mais nada ali, não havia mais forma, apenas restos, misturados; o que era casa, o que era areia, o que era mulher? Não sabia dizer. Encostou a ponta dos dedos, sentindo a superfície ainda quente, as unhas enegrecendo com a sujeira. 

Adeus.

Quando os bombeiros, a polícia, e todo o circo de vizinhos e autoridades se formou em torno da casa destruída, encontraram o homem sentado, sereno, sobre uma cadeira sobrevivente, no que um dia fora uma varanda. 

Sentiu mãos em torno do seu corpo, rosto, paramédicos agasalhando-o com um lençol térmico, máscara de oxigênio, luzes e sirenes. Perguntas, tantas perguntas.

Caminhou com os bombeiros para uma ambulância estacionada na grama e sentou-se numa maca. Luzes nos seus olhos, dedos em suas pálpebras, pulso, pescoço. Toques, olhares, perguntas, perguntas, tantas perguntas.

"O que você está sentindo?", o paramédico perguntou, ainda examinando o seu corpo. 
"Alívio".

Ficou em silêncio.

Então viu o carro, cortando o horizonte em velocidade, a mulher deixando o veículo as pressas, a porta aberta, o motor ligado. Ela correu para a ambulância, onde o encontrou deitado, levemente entorpecido. Abraçaram-se.

Um pranto silencioso, um beijo delicado.

"Obrigado por ter vindo", ele conseguiu sussurrar. "Obrigado".

Era hora de construir sobre os escombros da casa de areia.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

GIFS DA DEPRESSÃO

Todo mundo no trabalho não pára de falar na derrota do Brasil para a Alemanha...

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O MUNDO PRECISA SER GRATO POR KRISTEN WIIG


Kristen Wiig é, na minha opinião, uma das melhores coisas que aconteceram ao cinema (e à comédia) nos últimos tempos. E eu nem me refiro às insanidades que ela faz no SNL. Eu já havia rachado de rir com ela no (surpreendente) "Bridesmaids", mas esse "Girl most likely" é simplesmente demais para mim. Não aguento as caras, as situações, os diálogos. É bom demais para ser verdade. Ri do começo ao fim. Simplesmente hi-lá-ri-o.

PARA VER E OUVIR: AZURE RAY ("SLEEP")

sábado, 5 de julho de 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

CAMISAS DOS AMANTES


"Lovers Shirts" é um interessante ensaio/projeto fotográfico da Carla Richmond Coffing e Hanne Steen sobre a "triste beleza das separações". Quando o amor se vai e tudo se acaba mas, por alguma razão, resta algo como uma camiseta velha e surrada. E a razão pela qual essa camisa simplesmente, 'fica'.

terça-feira, 1 de julho de 2014

"TODAS AS NOITES EU ARRANQUEI O MEU CORAÇÃO...

"...para perceber que ele voltou a crescer na manhã seguinte". Eu sempre defendi que os bons filmes (pelo menos alguns) são como vinhos. Rever "O Paciente Inglês", recentemente, me deu mais uma prova para esta teoria. Está aí um filme que beira - sem esforço - a perfeição. É  beleza demais, poesia demais, em torno da dor e do sofrimento de um homem que, nem nos últimos suspiros de vida, consegue esquecer a mulher da sua vida. Ralph Fiennes dá um show como o misterioso conde Almássy e é cercado por um elenco estelar, com destaque para Kristin Scott Thomas e Juliette Binoche. Sem contar a direção brilhante de Anthony Minghella, a fotografia belíssima, a trilha sonora, diálogos comoventes que só quem amou intensamente poderá entender, o figurino que parece retirado de um catálogo da Richard's. Lembro de ter me apaixonado perdidamente por esse filme, milhões de anos atrás; me espanta como a paixão é igualmente arrebatadora hoje em dia. Belo além da beleza, perfeito além da perfeição. 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

DIVA

Dia 22 de Junho é aniversário da grande dama que representa o significado da palavra "diva". Meryl Streep. Incomparável, insuperável, insubstituível.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

GIFS DA DEPRESSÃO

Tento interagir com as pessoas ao meu redor que estão falando da Copa o dia inteiro...

segunda-feira, 16 de junho de 2014

ADEUS A WESTEROS

Ontem foi dia de dizer adeus a Westeros, com o final da quarta temporada de 'Game of Thrones'. Achei que os produtores tinham uma carta na manga que ía deixar os fãs - que não leram os livros - de queixo caído; não aconteceu, fica para a quinta temporada. Mesmo assim, o seriado chegou ao fim ontem e eu só tenho uma palavra para resumir o último episódio: ÉPICO. Agora é esperar por 2015.


Acabou a quarta temporada de 'Game of Thrones' e eu lembro que só verei novos episódios em abril de 2015...


domingo, 15 de junho de 2014

GIFS DA DEPRESSÃO

Ligo a televisão no domingo e vejo que está passando Domingão do Faustão...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

UM CAFÉ E A CONTA

amor que dura,
há amor que mole.
E, mole, morre.
de morte morrida,
ou de morte matada.
Simples, sem mistério.
Tem gente que faz a gente
deixar de gostar de gente.
E da gente.

"Eu me tornei um homem amargo", 
alguém poderia dizer.

Mas também o é o café.
E eu fico feliz em ser café.

GIFS DA DEPRESSÃO

Tento interagir com as pessoas empolgadas por ser Dia dos Namorados E início da Copa do Mundo (COM jogo do Brasil NO Brasil)...


Não dá... é mais forte que eu.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

GIFS DA DEPRESSÃO

Minha reação (e empolgação) ao chegar no trabalho e ver que 11 de 10 pessoas estão vestindo camisa do Brasil...

terça-feira, 10 de junho de 2014

PARA VER E OUVIR: LORDE ("EVERYBODY WANTS TO RULE THE WORLD")



Eu não tenho arrepios suficientes dentro de mim para esta versão da Lorde para uma das minhas músicas preferidas...

VIVA A REVOLUÇÃO



Absurdo, incrível esse trailer do novo "Assassin's Creed" em plena Revolução Francesa. E O QUE É esta versão de "Everybody wants to rule the world"?!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

PARA VER E OUVIR: DUSTIN O'HALLORAN ("OPUS 37")

O CORPO


Os seus olhos abriram abruptamente, como se ele tivesse levado um choque elétrico. De repente se viu parado, de pé, numa rua anônima. O ar ao seu redor era espesso, o ceú com contornos lilases, pessoas vagando por todas as direções, como seres num microscópio. Após um olhar mais aguçado ele percebeu que nenhuma delas tinham olhos, apenas esferas vazias. 

Sentiu medo.

Olhou para o corpo estirado no chão, aos seus pés. Aquele homem mergulhado numa poça de sangue e lama. Aproximou-se, já se preparando para ser tomado por um cheiro sufocante, e se surpreendeu por não sentir cheiro algum. 

Tocou no braço do homem afundado naquele charco de humanidade e saltou para trás, assustado, quando se deu conta de que aquele homem era ninguém menos que ele mesmo. Então ficou ali, paralisado, o seu corpo apoiado nos cotovelos, incapaz de concatenar qualquer pensamento.

"Meu Deus, eu estou morto".

Não tinha recordação, registro, de nada anterior aquele instante. Apenas sabia que aquele, aquele corpo abandonado no chão era seu. E se deu conta que aquele mundo ali, ao seu redor, era o mundo dos fantasmas. Não havia céu, nem inferno, nem anjos, nem nuvens; nem jardins, nem crianças, nem luzes. Apenas um caldeirão de seres sem rosto, errantes, povoando uma cidade fantasmagórica, submersa em meia-luz; nem dia nem noite. Uma existência em sépia e sombra.

Sentiu vontade de chorar; não conseguia. Queria tocar o coração em seu peito, mas não havia mais nada lá. Olhava para o seu corpo, tentava tocar o seu rosto, mas era como se ele inteiro fosse um borrão; como se fosse fumaça, como se fosse nada. 

Abandonou o corpo, estirado no chão, e caminhou, sem rumo, como os outros ao seu redor. Tentava interagir com os outros errantes, com os objetos, mas era tudo em vão. Gritava a plenos pulmões mas percebia que não havia voz saindo da sua boca. Conformado, fechou os seus olhos inexistentes, num pranto inexistente, entrecortado por suspiros inexistentes.

"Hora de assombrar algumas pessoas".

GIFS DA DEPRESSÃO

Estou de dieta e vejo massa no buffet...


sexta-feira, 6 de junho de 2014

"O ERRO NAS NOSSAS ESTRELAS"



Estreia hoje "A culpa é das estrelas" ('The fault in our stars'), baseado no livro homônimo do John Green. O livro é delicado, comovente e agridoce - e uma leitura gostosa, que recomendo a todos. Tenho a sensação de que o filme não será ruim e levará multidões às lágrimas. Há alguns anos, uma história assim me deixaria de cama - livro e filme, não importa. Hoje, não mais; a pele grossa feito uma parede de couro, até sinto aquela pontada no estômago e na garganta - que insiste em me fazer acreditar que ainda bate um coração neste peito de lata - mas não mais que isso, infelizmente. Mas é uma história linda, para quem ainda acredita na pureza do amor que pode nascer entre duas almas gêmeas, cujas estrelas parecem fora de órbita.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

"SOMEDAY I'LL FLY"



Maravilhoso documentarário de Eastwood Allen sobre o John Mayer. Imperdível para quem é fã.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

PARA VER E OUVIR: "CHRONO TRIGGER, LIVE AT SYMPHONY HALL"



"Nerdgasmos" múltiplos, consecutivos, ininterruptos.

PARA VER E OUVIR: JOHN MAYER ("XO")



Difícil crer que essa canção é uma versão do John Mayer de uma música da Beyoncé... 

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("I CHOOSE YOU")

POESIA DO ADEUS

Animação linda que chega a doer.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

O GATINHO QUE PEDE UM ABRAÇO



Sem mais. Melhor, mais uma (de um milhão de razões) que fazem desses os seres mais especiais e incríveis do planeta.

terça-feira, 13 de maio de 2014

"TUDO QUE VAI VOLTA"



Curta de arrepiar.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O "TRAILER" DE "A PEQUENA SEREIA" DE SOFIA COPPOLA (#SQN)

Zoaram a minha musa sem piedade. Mas eu amei mesmo assim. Mesmo brincando, eles captaram a essência da coisa.

terça-feira, 6 de maio de 2014

PEQUENA SEREIA

Aparentemente, Sofia Coppola vai dirigir uma nova versão de "A Pequena Sereia"; seria esse o começo de uma nova fase, agora que ela é mãe? Ou devemos esperar uma Ariel coppolesca, errante, no fundo do mar, perdida em seus pensamentos e cercada por uma trilha sonora incrível? Imagino um filme doce, lindo e melancólico; e provavelmente fiel ao final original...

10 ANOS (DESDE O FIM) DE FRIENDS


Hoje faz 10 anos desde o fim de FRIENDS. E 20 desde a sua estréia. E a certeza de que estamos (cada vez mais) velhos.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

PARA VER E OUVIR: SIGUR RÓS ("THE RAINS OF CASTAMERE")



Um dia, a Casa Reyne (o "leão vermelho") decidiu se opor aos Lannister (o "leão dourado"). A resposta de Casterly Rock foi imediata e eficaz, quando Tywin Lannister marchou sobre Castamere, passando o castelo pela torcha e executando todos os membros da família Reyne restando, após "a guerra dos leões", somente o orgulhoso leão dourado. E assim surgiu a emblemática "Chuvas de Castamere", o "hino" dos Lannister:

"E quem é você, o senhor orgulhoso perguntou,
Para quem eu tenho que me curvar?
Somente um gato de pelo diferente,
Essa é toda a verdade de que eu sei.
Seja o pelo dourado ou vermelho,
Um leão ainda tem suas garras,
E as minhas são longas e afiadas, meu senhor,
Foi o que ele disse, e então disse novamente,
Aquele senhor de Castamere, 
Mas agora caem as chuvas sobre os seus salões,
Sem ninguém lá para ouvir.
Sim, chove sobre os seus salões,
Sem uma única alma para ouvir".

E para quem não tem ideia do que eu estou falando, esta é apenas uma breve passagem na turbulenta história de Westeros, continente onde se passa a saga da Canção de Gelo e Fogo (mais conhecida como 'A Guerra dos Tronos'). E esse, aqui, é o PRÓPRIO Tywin Lannister, que ganhou vida pela atuação brilhante de Charles Dance. O personagem, em si, já é um dos mais badass da trama e Dance conseguiu deixá-lo ainda mais badass.

AMARELO


A cortina dançava preguiçosamente contra a janela, enquanto a luz do começo do dia cobria o quarto bagunçado numa atmosfera de entorpecimento. E os dois estavam ali, nus, sobre o emaranhado de lençóis. Ele, inquieto, custava a manter os olhos fechados. Ela era o oposto, ali, mergulhada num sono profundo e respiração leve. O cabelo dela, amarelo, espalhado pelo travesseiro. Amarelo como gema de ovo. Aquele cabelo estranho.

Apoiou a cabeça sobre o cotovelo e ficou desenhando o seu corpo com os olhos. A luz refletida nos pelos curtos e transparentes ao redor do seu umbigo. As pernas compridas e firmes, sobrepostas como as de uma leoa, os braços finos entrelaçados sob o seu rosto. Os sinais, as marcas, o pêlo, a pele. 

Pensou em correr os dedos levemente sobre as suas costas. Hesitou. Não queria acordá-la.

Caminhou pelo quarto, buscando pedaços de roupa espalhados pelo chão. A janela do seu quarto de hotel comunicava uma solidão esquisita. Tocou o vidro, com delicadeza, apoiando a sua testa no cartão postal escancarado diante dos seus olhos e decidiu que caminharia, sem mapa, sem roteiro. Olhou para a mulher, na cama, por alguns instantes antes de fechar a porta.

Ela continuava ali, adormecida, o longo cabelo amarelo espalhado sobre o travesseiro.

Curioso como algumas cidades provocam marcas, cicatrizes mentais, chame do que quiser, frutos dos eventos vividos em suas ruas, becos e avenidas.

Esse pensamento vinha martelar a sua cabeça, como um mantra, enquanto ele bebia o seu café sem pressa; o vapor inebriante invadindo as suas narinas, as pessoas e carros passando por perto, cheios de barulhos e de caos, e ele sentia vontade de fechar os olhos por alguns instantes enquanto sentia o líquido quente e saboroso escorrer por dentro do seu corpo.

No fim das contas, claro, tudo se resumia a ela. Voltar naquela cidade, depois de todo aquele tempo, trazia consigo uma sensação esquizofrênica de que ele a veria ali, como se ele pudesse contemplar, feito viajante do tempo, as imagens trancadas dentro da sua mente. Como se ele pudesse ver a si mesmo, melhor, ver os dois juntos, caminhando por ali; testemunha de algo vivido e tão mal esquecido.

Mas eles não estavam ali. E o pensamento voava com o vento que levava as folhas órfãs de jornal.

Sorria. Havia algo amargo naquele sorriso, ele sabia, mas de que importava?

Feito um detetive, decidiu traçar os passos, como os lembrava, visitando os mesmos lugares, redesenhando os eventos conforme eles estavam estampados em sua memória. E sentia-se visitado por uma miríade de sensações que o transportavam para aquela cidade, como se ele não estivesse ali. Sentia-se flutuante, cercado por cheiros e sabores que emulavam os acontecimentos de forma artificial e eficaz.

Tocava as paredes, feito peregrino.
O céu azul, emoldurando as imagens mentais.
Aquela cidade era tão competente. 

"Você nunca me deixará esquecer", ele sentia vontade de gritar aos monumentos.

Respirou fundo, de repente inseguro sobre aquela errância. Lembrou da mulher, adormecida, no seu quarto de hotel e sentiu falta dela; de estar com ela. Por alguma razão, repentinamente, sentiu falta dela; daquele cabelo amarelo e de tudo o que ela fazia de diferente - e errado - "que se dane!". Decidiu retornar; comprou flores, pães, café e chocolates para acordá-la. Caminhando, a passos largos, o hotel demorava a se desenhar no horizonte.

Encontou-a sentada na cama, o corpo envolvido no lençol como um vestido costurado preguiçosamente. Ela tinha os olhos vermelhos, como se tivesse chorado.

"Eu posso deixar o meu cabelo escuro, se você quiser... como o dela", disse quase engasgando.

Aquela frase atravessou o seu peito como uma lança; abraçou o seu corpo delicado e beijou a sua boca como se fosse a primeir a vez. E percebeu, ali, naquele quarto sem nome, o quanto ele amava aquela mulher frágil, estranha e linda. 

E o seu cabelo. 
Amarelo.