sábado, 12 de maio de 2012

15 DE ABRIL - DIRECTOR'S CUT

O telefone tinha o peso do mundo em suas mãos. A madrugada sussurrando em seu ouvido, embalada pelo relógio da cozinha, martelando a passagem dos segundos. Ela precisava ligar para ele. Ela sufocava, engasgava. Precisava ouvir a sua voz. Ligava e desligava o aparelho. Não sabia o que dizer. Não saberia. Tantos anos haviam se passado. Tudo estava há tanto tempo para trás. Mas aquilo era mais forte que ela. Como uma onda, uma avalanche, como uma dor sem fim. E ela sabia que a cura era ele. 

Após perder a conta de quantas vezes ligou e desligou o aparelho, decidiu por fim em deixá-lo mudo, quieto, sobre a mesa. E, envolta no silêncio da noite, abandonou aqueles pensamentos rebeldes e voltou para o quarto. Seu marido estava na mesma posição, como se nem um segundo tivesse passado, e ela adormeceu sob o martelo das horas. As pálpebras ficando pesadas, sucumbindo diante dos primeiros raios de luz que se desenhavam na janela. Em breve acordaria para um dia cheio no trabalho. Precisava dormir.

E ele desapareceu, mais uma vez, na passagem dos seus dias.

* * *

Os anos se passaram. Mais até do que ela gostaria de tomar nota. E eles foram bons para ela, trataram-na bem, com uma gentileza que podia ser percebida na leveza dos seus pensamentos e na preservação da sua beleza. Com pouco mais de quarenta anos ela era uma mulher linda. 

Mas havia aquele algo. Aquele algo sem nome, perdido, que, vez ou outra, vinha mordiscar o seu calcanhar. As decisões não tomadas no passado, as escolhas que talvez tivessem mudado tudo; eles, que um dia chegaram tão perto disso. Eles que chegaram a saborear um grão do que viria a ser o seu futuro juntos. Eles que abriram mão, uma outra vez, daquela decisão tão fácil e aparentemente tão impossível. A de permanecerem juntos de uma vez por todas. Como se outras oportunidades viessem na esquina. Aquele jogo perigoso de brincar com o tempo. Por tempo demais.

O destino pareceu ter perdido a paciência. Eles se equilibravam numa frágil linha de incertezas que eventualmente os afastaram. Voltaram aquele frágil estado do "nos vemos qualquer dia desses", até que passaram a não se ver mais. E, quando menos notaram, a vida voltou a entrar em cena, apresentando novos personagens, novos cenários, novas situações.

O fato é que, inevitavelmente, eles perceberam que os 20, os 30 haviam ficado para trás. Aqueles anos derradeiros, ainda amigáveis às irresponsabilidades. Aquela época em que as vidas ainda podem ser mobilizadas pelo poder da prosa, da poesia, da música, dos filmes. Passados os 40, os dois tiveram que vestir a incredulidade, tornaram-se mais amargos, com aquela noção de que a vida nunca será mesmo do jeito que desejamos, por isso devemos simplesmente nos contentar e seguir em frente. 

O que passou, passou. O que vivemos, vivemos. E o nosso melhor se eterniza, de alguma maneira, na importância da caixa de fotografias e daquelas lembranças mais vivas que começam a enfraquecer na mente. 

Os dois até conseguiam se falar, em raras ocasiões dedicadas quase inteiramente à discussão das efemeridades. O clima, o trânsito, o trabalho, o cansaço. "Bom te ver", "precisamos almoçar um dia desses", "claro, vamos combinar". Seus olhos ainda guardavam um pouco daquela chama de antes, claro; aquela saudade domada, escondida; é o tipo de coisa que não desaparece simplesmente. A chama só não era forte o suficiente para fazê-los ignorar o que havia se tornado irremediável.

Ficou aquela marca. Aquele algo sem nome, habitando suas almas, como uma letra escarlate; que pulsava, vermelha, sempre que os dois se encontravam. Como se para lembrá-los de que eles jamais seriam indiferentes um ao outro e que teriam que se conformar com a ideia de que não seriam comuns. Seriam para sempre aquele não vivido. Seriam aquelas duas pessoas separadas pelo peso dos seus equívocos. 

Então os filhos. Novos endereços. Novos aniversários. Os cabelos cada vez mais prateados e as visitas aos médicos cada vez mais frequentes. Então netos. As imagens mentais desbotando, sendo substituídas pela felicidade sincera da realidade possível. Nunca se esqueceram, é verdade. Mas já não habitavam mais o pensamento um do outro. Pelo menos não com tanta frequência. Algo que vem com o tempo, com a maturidade e com o cérebro cada vez mais hábil em pregar peças. 

No ocaso de sua vida, ele revirou as suas coisas em busca de uma foto. Velha, amassada, com as pontas rasgadas. Ele e ela num restaurante em algum país que ele não se recordava mais. Ela estava linda, os cabelos negros sobre os ombros, os olhos pequeninos, o sorriso discreto para a câmera. Ele, do outro lado da mesa, sorridente, tão feliz em estar ali em sua companhia. 

Tocou o rosto dela na foto com a ponta dos dedos. Um sorriso tímido, um suspiro. A foto novamente depositada entre as suas coisas. A mão levemente trêmula sobre o peito. Dizendo adeus.

***

A xícara se desfez em mil pedaços ao cair no chão. A família se virou para ela, com um susto. "O que aconteceu?", os olhos daquelas pessoas ansiavam. "Não é nada, escorregou das minhas mãos, me desculpem", ela sorriu para sua linda família, aqueles genros, netos, filhos; os olhos pequeninos escondidos sob os óculos embaçados. 

Esperou até que todos voltassem às suas ocupações. Num soluço contido, ela continuou a ler a notícia que a atravessou como um relâmpago, como uma onda. Aquele nome, ali, em destaque nos obituários, como uma piada sem graça. 

Então veio aquele pensamento desconexo. Aquela imagem. Ela lembrou dele, sorrindo, para ela; aquele riso, aquele olhar que durante aquele tempo eterno e breve foi dela e que o destino levou embora. 

Sorriu, os olhos úmidos, um suspiro, um nó na garganta, como quem termina um livro. Só então ela se deu conta que havia chegado ao fim aquela história de desencontros. Procurou uma janela para dizer ao vento: "eu ainda sinto a sua falta", como se ele pudesse ouví-la de algum lugar. 

Depositou os óculos sobre a mesa, guardando, pela última vez, aquele seu segredo. Então uma brisa repentina, impertinente, prenúncio de chuva, que a fez buscar agasalho no calor da sala.

"Eu também, meu amor, eu também".

sexta-feira, 11 de maio de 2012

quinta-feira, 10 de maio de 2012

CAROLINA E O ANJO

Carolina chegou a Buenos Aires como uma clandestina. Uma estranha, perdida, sem posses, vivendo de sonhos e da ideia que moraria com um artista em San Telmo. Seu namorado argentino, um artista de rua de feições bonitas e olhos dissimulados, ganhava algum dinheiro fazendo bicos. Mas rapidamente Carolina percebeu que estava só, realmente só. E que precisava fazer algo a respeito. Inventar-se ali.

Caminhava, sem muito destino, pelas ruas movimentadas. Navegava os becos e avenidas, de ônibus e metrô, desbravando aquele universo tão novo para ela. Sentia-se dona de si, dona do mundo, contemplando aqueles monumentos, aquela cidade velha e, naqueles instantes, sentia uma felicidade inebriante, maior do que o seu corpo.

A euforia durou a extensão de uma semana. Os monumentos já se repetiam diante dos seus olhos, as ruas tornavam-se lugares comuns, as lojas tão inacessíveis, o tango que ela já não via tanta graça, o sotaque que já não lhe parecia tão charmoso. Sentia-se perdida. Tentou alguns trabalhos, sem muito sucesso; tentou acompanhar seu namorado na rua, também sem sucesso.

E foi em San Telmo, pela primeira vez na sua vida, que Carolina passou fome. E, também pela primeira vez, que decidiu compensar os vazios que corroiam seu corpo com drogas. Anestesiou-se, enfim. Sentada, no chão, as costas magras contra a parede, o sol de tarde pintando seu rosto com tons púrpuras e avermelhados. E, naqueles momentos breves, a vida era menos assustadora.

Não sabia, ao certo, o que fazia ali. O relacionamento provou-se incipiente e sem sentido. Um dia, por diversão, adrenalina, ou pura desistência, Carolina decidiu roubar uma máquina fotográfica. E o fez, com habilidade e sangue frio, sem perceber as câmeras de segurança testemunhando todos os seus movimentos. E os seguranças que a esperavam na porta. Naquele dia, o mais solitário de todos, Carolina apanhou, num quarto nos fundos da loja, pelo seu crime. E não sabia o que mais a incomodava; se a dor no seu rosto, que latejava, ou simplesmente por não se importar.

Eventualmente, os seguranças decidiram deixá-la ir. Não prestaram queixa. Carolina caminhou pelas ruas, sentindo o rosto queimar. Chorava, envergonhada, escondia-se nas sombras. Olhava-se nas vitrines das lojas de grife e não reconhecia o que via: uma garota magra, maltrapilha, cabelos descuidados, suja, doente. E não entendia com clareza a cadeia de eventos que a haviam levado até ali.

Ela era uma menina só. Salvo pelos avós, Carolina não tinha ninguém no mundo. Nenhuma família, nada de irmãos, primos ou tios. Sua mãe havia morrido quando ela era criança e seu pai era um desaparecido cuja existência só era documentada por uma foto, um telefone, um endereço.

Apesar de todo o sofrimento a que se submetia, sua aventura em Buenos Aires acabou se extendendo por mais tempo do que ela podia imaginar. E, eventualmente, ela conseguiu achar algum eixo na passagem dos dias. Arrumou um trabalho como andadora de cães, que dava a ela alguma renda. Cada vez mais dependente de drogas e bebidas, porém, o dinheiro desaparecia de suas mãos. Alimentava-se mal, dormia pouco, não sorria, não aprendia nada. Um grande vazio, um grande hiato que gradualmente começou a fazer eco em sua alma. Carolina decidiu que precisava voltar. Só não sabia como.

Um dia, uma manhã qualquer de terça-feira, Carolina desmaiou no meio da rua. É a sua última lembrança de Buenos Aires. O céu sem nuvens, o dia ensolarado, as árvores e postes rodopiando ao seu redor, o chão sujo e frio sob a sua bochecha. Uma lágrima escorrendo pelo seu rosto, formando um pequeno rabisco no concreto.

Percebeu que algo, alguém, um homem a ajudava. Respondia as suas perguntas mas percebia que ele não compreendia o que ela falava. Mostrou seus documentos, aquele emaranhado de papeis jogados na sua bolsa puída. Disse que não tinha dinheiro, que não fazia uma refeição digna havia dias e que nem se lembrava ao certo onde morava. "San Telmo", ela dizia. "San Telmo".

Sentiu aquela mão firme puxando-a. Aquela voz calma, de orientação. Aquele vulto nublado, sem rosto, que ela não conseguia enxergar com clareza por detrás dos seus olhos confusos. Seus olhos famintos, seus olhos químicos. O homem falava, pausadamente, ao que ela apenas concordava sem entender uma palavra. Ele conversava ao celular, olhava para ela, tocava a sua mão com carinho. Ele sorria. Ela sabia que ele sorria.

Carolina se lembrava dos barulhos. Portas abrindo e fechando. Motor de carro, buzinas. A chegada a um aeroporto, aquele barulho inconfundível da navegação aérea. Um portão de embarque, sorrisos educados, mãos carinhosas sobre seus ombros, levando-a para frente, para corredores, para cadeiras. E então absolutamente nada. Um vazio, uma noite sem fim.

E então Carolina acordou. Em casa. Na casa dos seus avós. Estava de volta. Não sabia como, mas estava de volta. Observou-se ali, no quarto da sua infância. Aquelas bonecas cheias de nomes, aqueles animais de pelúcia, as fotografias sorridentes. Havia tomado banho, seu cabelo estava penteado, vestia uma roupa limpa e deitava seu corpo exausto sobre lençóis que cheiravam a amaciante. Soluçou baixinho, sozinha, completamente tomada pela delícia absurda daquelas coisas simples. Sorria, com as mãos sobre os seus olhos úmidos. Olhou pela janela, o sol se pondo. Adormeceu por horas. Dias, talvez.

A manhã seguinte veio como uma revelação. Carolina queria um eixo. Queria buscar o tempo perdido, queria acertar as contas com o destino. Ela buscaria o seu pai.

ESPERANDO POR SARA

Sara Bareilles divulgou o lançamento de um novo EP para 22 de maio: "Once Upon Another Time", com as canções “Stay”, “Once Upon Another Time”, “Sweet Whole”, “Lie To Me” e “Bright Lights and Cityscapes” já em pré-venda no iTunes.

E assim, cá estou eu, esperando por Sara.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

ILUSTRANDO

Velasquez - "As Meninas"

O FAROL

"[...]por mais que tenhamos sempre a opção de não mais deixar que nos assustem, você foi um anjo que invadiu meu espaço aéreo. Engraçado como conseguimos o que desejamos quando temos força para pedir isso intensamente e eu devo ter pedido por você, contudo inglória é a forma de conceber este encontro em meio a coisas que não podem ser ditas ou sentidas. Mas temos sempre várias opções em cada fato que nos acontece e eu escolho ter meu espaço aéreo invadido por você, que irá descobrir, um dia, quem sabe, que tudo pode ter dado errado no passado, mas também que tudo pode dar certo comigo".

***

Ele contemplou por horas aquelas palavras escritas a mão, com pressa, por ela. Aquela caligrafia sem ensaio, reflexo do que ela tinha a dizer, sem premeditação. Segurava o papel em suas mãos, como um mapa do tesouro e se ele fechasse os olhos, por alguns instantes mágicos, conseguia sentir o cheiro dela, o seu toque, o sabor do seu corpo. Mas então tudo desaparecia com o vento gelado que invadia o seu corpo e o obrigava a abrir os olhos para aquela paisagem árida, vazia que ele atravessava.

Aquela despedida estranha. Aquela despedida sem sentido. Ele havia partido, com a cabeça inebriada por pensamentos de mudança quando cada osso, cada célula de seu corpo suplicava que ele permanecesse ali. Exatamente ali. Invadindo aquele espaço aéreo, descobrindo que tudo poderia dar certo com ela. Sem ir a lugar algum. Mas inglória era a forma de conceber aquele encontro. Ela estava certa. Sempre esteve.

Ele estava longe, quando aquelas palavras voltaram feito onda. Sentiu-se afogando naquele oceano de reflexões confusas, naquelas águas negras dos equívocos que marcavam a sua vida adulta. Ele naufragava. 

Agarrou-se àquelas palavras na sua noite mais escura. Seu corpo tremendo de medo, de frio. Sentia-se abandonado pelo destino. Sozinho. Bestializando-se. Desistindo. Até que viu um raio de luz no horizonte. Aquele sinal, aquele código secreto, inesperado, aquela orientação, aquela manifestação com um quê de miragem.

Percebeu, então, que ela sempre esteve ali. Distante, brilhando em algum ponto do seu horizonte envolvido em sombras. Ela estava ali, de alguma forma, emanando luz. Não deixando-o se perder muito do caminho, impedindo-o de esquecer a estrada da volta. Aquele barco sem bússola.

E, acompanhando aquela luz distante, como quem contempla uma estrela, ele pulou na água feito um cão sem dona. Ansioso, desesperado, para voltar. E ali, parado, flutuante, decidiu nadar maré acima. Em busca daquela luz.

Era hora de retornar. Para o seu Farol.

terça-feira, 8 de maio de 2012

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("STAY")



Lindo, novo single. Perfeito para quem tem alguém para se dizer: "Fique. Fique esta noite".

PARA VER E OUVIR: ZIZI POSSI ("ASA MORENA")

domingo, 6 de maio de 2012

A CIÊNCIA DOS PRIMEIROS ENCONTROS

Os dois decidiram se encontrar no restaurante e evitar aqueles jogos de adultos de "quem busca quem" e, assim, neutralizar quaisquer situações constrangedoras pós-date. Se tudo desse errado, cada um teria sua rota de fuga. "Um beijo, até um dia" e todos estariam salvos.

A escolha do restaurante também era importante. Algo de casual, para que todos os assuntos fossem bem vindos, e de romântico, afinal seria um encontro. Nada muito romântico, porém, para que o cenário em si não fosse um incentivador de nada. Ele deveria ser um facilitador se as oportunidades assim se apresentassem.

Todo esse pragmatismo não inibe as expectativas, porém. Toda a carência é carência. Toda a curiosidade é curiosidade. Toda a solidão é solidão. Duas pessoas num primeiro encontro trazem consigo aquelas pesadas bagagens de frustrações e desejos. É inegável. Banho, perfume, camisa, calça. "Esse perfume é muito forte", "essa roupa não combina","ela me verá sem calças hoje?".

A vontade de conquistar, pura e simplesmente. E, então, observar o fruto da conquista. Aquele tiro na madrugada e o barulho de algo despencando no horizonte. Um alvo. O quê? Não se sabe. Um alvo.

Ele, que sempre foi dado ao cavalheirismo, decidiu chegar mais cedo para não fazê-la esperar. Ela chegou cinco minutos depois. Ele se levantou, cumprimentaram-se com aquela mistura de excitação e educação. Aquela combinação curiosa em que tentamos demonstrar interesse, sem revelar muito; como se aquele fosse o momento mais casual do mundo.

Aqueles segundos iniciais constrangedores. O menu que parece estar em alemão, aquela falta de intimidades. Aquele silêncio que é gradualmente rompido pelos cruzamentos, pelas interseções, pelos gostos comuns. Filmes, livros, músicas. As mãos, desajeitadas, que se ocupam em ajeitar os talheres e brincar de xadrez com o sal e a pimenta.

Mas, como mágica, as coisas começam a fazer algum sentido. Um sentido caótico, mas algum sentido. As mãos já se mostram mais confiantes e apontam os detalhes, como mãos de perito. As pernas se esbarram, ocasionalmente, como instrumentos de apoio, para darem mais drama à cena, para elevarem os nervos, aumentarem a tensão entre os dois. Ação e reação. Ataque e defesa.

Então os nomes dos irmãos. Dos pais. Das cidades visitadas. Os países. Os estudos, os trabalhos que cansam mais do que satisfazem. As contas que pelo menos são pagas. Os idiomas, as curiosidades. As experiências inesquecíveis. Os constrangimentos engraçados - e que podem ser compartilhados - não aqueles que vão com a gente para o túmulo. Ela flerta, ocasionalmente, tocando a mão dele. Comenta a cor dos olhos dele, não sabe se "são cinzas ou azuis". Ele flerta de volta, ensaiando um olhar fotográfico, como se fosse o homem mais profundo da terra e ela a única mulher do planeta.

Mas, então, no meio daquele teatro de perfeições, os dois se olham e, na troca inesgotável de palavras até conseguem perceber honestidades sem segundas intenções. Como duas pessoas boas, observando-se nuas, diante do espelho.

Ela quer uma carreira. Uma vida de adulta. Filhos, cães. Ela quer um apartamento pequeno, que possa decorar de forma encantadora. Ele só sabe o que não quer. Sabe o que quis e nunca teve. Sabe o que não quer mais. Sabe do que se perdeu no caminho. Não que ele tenha se tornado incrédulo. Não, isso nunca. Ele apenas prefere não caminhar por essa vereda. É um caminho perigoso demais. Diz a ela, lacônico, que "quer ser feliz".

E, assim, mão sob o queixo, resolve escutá-la por longos minutos, aquela narrativa até interessante sobre medicina veterinária, filmes franceses e móveis de vime. Piadas ocasionais para temperar o diálogo. Ela ri, e ele observa que seus olhos se fecham de forma charmosa. Ele sorri, em resposta. Ela o elogia, de forma discreta. Ele parece ter acertado na escolha da camisa.

Ele olha o pão sobre a mesa, as taças de vinho pela metade. Os arredores, aquele barulho caótico, gostoso, de cinquenta pessoas falando ao mesmo tempo. Gosta de estar ali, melhor, gosta de estar com ela, e, quando volta a realidade, sente-se compelido a tocá-la, com delicadeza. Casualmente, deposita sua mão sobre a dela e percebe que não há resistência. Os dois sorriem. Aqueles dois completos estranhos.

Mas ele também pensa em outras companhias. Passados e pretéritos. E, observando o oceano revolto das linhas na toalha sobre a mesa, percebe que sente saudades. De quê, não sabe definir. Falta de um outro lugar, talvez. Uma outra vida. Aquele hábito. Aquele algo mais forte que ele. Aquela sua vontade de olhar pela janela no trem. De caçar os perdidos. De chorar por eles. Ela o faz despertar do transe, com um comentário engraçado.


Até que as coisas estão indo bem, afinal.

Ele pensa na ciência dos primeiros encontros. Quer escrever sobre isso assim que chegar em casa e pragueja em pensamento não ter uma caneta para rabiscar algumas ideias no guardanapo. De qualquer forma, era um guardanapo de pano. Paciência, aposta na memória.

Decide observá-la em detalhes. O cabelo liso, castanho, cortado de forma irregular. O rosto fino, entre o branco e o dourado, a boca carnuda de uma forma não necessariamente sensual. O nariz proeminente, étnico, que muito o agrada. Algo de marroquina que ele acha irresistível. Os olhos gigantes, eloquentes, bem desenhados. Percebe que ela sorri com os olhos. Isso é bom. O pescoço comprido, algumas sardas espalhadas como estrelas. Uma tatuagem discreta, quase imperceptível, sob a orelha esquerda. "Seria um símbolo do zodíaco?". O vestido elegante, respeitoso e sensual, destas mulheres resolvidas que sabem que não é preciso revelar nada para seduzir muito. As mãos de dedos compridos, um anel discreto, que era de sua vó.


"Ela é uma mulher atraente", pensa. "Definitivamente". E fica se perguntando o que ela está achando dele. Os olhos sorriem, é verdade, e ela parece entretida. Ela o elogia, de forma natural. Toca-o com motivo, esbarram as pernas de forma não premeditada. Parecem gostar da companhia um do outro.

A comida é boa. Ela come com muitas pausas, de um jeito quase entediante, mas que ele acha charmoso. Ela se autoriza a provar do seu prato, sem pedir permissão. E isso o agrada também; há algo de encantador nas pessoas que não fazem muitas cerimônias. Trocam garfadas, numa dança de beijos não dados. Elogios suspirantes à comida. Elogios com propriedade, de quem gosta de comer, de quem saboreia.

O vinho é bom. Nada de especial. Bom. Inebria, anestesia, relaxa. E os dois vão, pouco a pouco, se aproximando. "Porque você não senta ao meu lado?", ela diz com doçura enquanto os olhos falantes dão uma ordem. Ele gosta disso, não revela que gosta, claro, mas gosta. Sentam-se juntos. O perfume dela é suave, dando a impressão de que talvez ela nem esteja usando perfume. Um creme hidratante, talvez. O cabelo tem um cheiro especial, que o faz fechar os olhos instintivamente. Algo de coco, de manga, algo de nostalgia.

Ele observa seu decote, com discrição, sem ela notar. Ela é uma mulher bonita, educada, inteligente, engraçada. E ele começa a ficar ávido em descobrir os seus defeitos. Os escondidos, os poréns, as linhas ilegíveis do contrato. Para descobrir que são todos perdoáveis ou para que a mágica se acabe ali. Mas ela não dá chances para isso. Ela sorri, parece ler seus pensamentos.

Ela tem um sinal no canto da boca, como um satélite. Ela comenta os sinais que ele tem no rosto, nas mãos. Olham-se, por alguns instantes mudos. Um momento esquisito, de silêncios, aquela sensação de que o tempo parou e que as duas bocas vão se encontrar. Ele observa os lábios dela, agora muito mais sensuais, e não tem certeza se eles são habitualmente úmidos e vermelhos ou se é o efeito do vinho em sua boca e nos pensamentos dele.

Mas não se beijam. Um barulho na rua, um vidro se quebrando, o momento se desfaz. Ajeitam-se na cadeira. Falam em sobremesas. A ela agradam mais as frutas. A ele o chocolate. Escolhem algo no meio do caminho. Dividir uma sobremesa parecia mais do que adequado. Gemidos, olhos semi-cerrados, o deleite com os sabores doces, levemente amargos, gelados, algo de pêra, algo de creme, algo de mousse de chocolate. A sobremesa ideal.

Percebem que são as últimas pessoas ali. Percebem as horas que voaram. Então a conta, a realidade. Ela quer pagar, claro. Ele não deixa. Combinam que "ela pagará a próxima". Haveria uma próxima, então. Ele pensa em tomar um café, ela não quer. Desiste. Aquela brisa mais fria, surpreendente, de uma cidade que castigou seus habitantes com 32 graus o dia inteiro. Ele sente vontade de abraçá-la. Mas hesita. Oferece sua jaqueta, ela nega.

Levantam-se. Olham-se por alguns instantes breves enquanto ela ajeita o cabelo, a bolsa, e ele guarda chaves, carteira, os objetos utilitários do mundo masculino que, por regra, devem ser carregados separadamente. Ela quer ir ao banheiro. Ele espera. Ela volta, sorrindo, e ele nota que ela é muito mais alta do que imaginava. Ela segura os sapatos nas mãos, os sapatos novos, "de primeiro encontro", que machuvavam seus pés. E ele acha isso a coisa mais encantadora do mundo.

Despedem-se dos garçons, agradecem. Rumo ao estacionamento. Os dois carros parados em lados quase opostos. Ela senta à direção e ele ri com a bagunça do carro. Uma piada sem graça, como se fosse a casa de um caramujo. Os dois riem. Parecem não querer se despedir. Mas ela é direta, sem cerimônias. "Gostou dele, mais até do que deveria admitir, mas não trairia a sua regra de não beijar no primeiro encontro. Há que manter o mistério". Ele sorri, concorda, as bochechas denunciando timidez. Virando menino.

Desejam-se bons retornos. "Avise-me quando chegar", dizem um ao outro. Aquela desculpa para se falarem um pouco mais. Para conversarem durante a madrugada aquelas conversas interessantes até quem sabe o sol começar a se desenhar na janela. Aquela deixa para transformar o primeiro encontro num segundo. E um segundo num terceiro.

Ela liga o carro, aquela casa caótica sobre rodas, com roupas, pastas de trabalho, e brinquedos de cachorro espalhados. Ele gosta da música que começa a tocar. Há algo muito sexy em garotas que ouvem The Strokes. Ele comenta sobre isso, naturalmente. Sorriem. Ele fecha a sua porta, um beijo no rosto. Ela o segura pela nuca, um carinho discreto.

Combinam tudo sem combinar nada. E ele volta para o seu carro. Desabotoa mais um botão de sua camisa, mãos nos bolsos da calça, como se fosse um rapaz italiano. Sente-se charmoso naquela noite.

A verdade é que não há ciências sobre os primeiros encontros. E ele se dá conta disso diante do volante do seu carro, sorrindo; e lamentando, mais que tudo no mundo, não poder levá-la em casa naquela noite.

sábado, 5 de maio de 2012

ILUSTRANDO

Gustav Klimt - "O Beijo"

O HÓSPEDE

A porta do quarto se abriu, com um chiado lento e fantasmagórico, extremamente apropriado, como numa mansão, num filme de fantasma. Ela, que sempre teve um sono leve, um sono angustiado, de quem não consegue depositar a cabeça sobre o travesseiro com a devida paz dos justos, abriu os olhos em mórbida curiosidade. A porta, entreaberta, denunciava um movimento estranho no fiapo de luz que se projetava entre o quarto e o corredor.

Estava sozinha. Sentiu medo.

O silêncio havia sido imediatamente substituído pelos batimentos acelerados do seu coração, que cavalgava dentro do seu peito, fazendo sua cabeça, seu corpo inteiro reverberarem. Seu corpo pulsava no compasso daquele batimento amedrontado.

E então ela viu algo. Um par de olhos, amarelos, imóveis, observando-a da pequena abertura, como dois faróis gastos. Dois olhos cor de mostarda, dois olhos absurdos, que a fitavam do escuro, sem piscar.

Num movimento quase automático, cobriu seu corpo com o lençol. Como se houvesse algo de mágico naquele tecido, como se ele pudesse protegê-la de alguma maneira. Como se ela estivesse invisível. E tentou se convencer que aquilo era apenas uma alucinação. Uma imagem fabricada pela distorção dos seus pensamentos. Seus pesadelos químicos.

Não era.

Uma mão projetou-se das sombras, arrastando a porta sem pressa. Uma mão branca, azulada, uma mão de dedos compridos e finos, feito velas, que começavam a tatear o contorno da porta, da parede, como uma aranha albina.

Aquelas unhas compridas, em tons marmóreos, como a mão de um morto. E ela percebeu que estava diante de algo terrível. Como se a maldade estivesse ali, encarnada, diante dos seus olhos úmidos.

A mão então abriu espaço para um vulto. Um vulto sem forma, uma sombra que se movia, flutuante, projetando-se pelo quarto inteiro como se tivesse tentáculos.

Ela cobriu seu corpo inteiro, buscando orações no fundo da sua mente; como se essas meditações, tão negligenciadas no passado, pudessem salvá-la de alguma forma naquele momento de aflição. Buscava aquelas frases de poder, aquelas afirmações, costurando as expressões de que se lembrava numa oração desconexa, incoerente, que definitivamente não a aproximava de Deus.

Era em vão.

Lamentava, em silêncio, todos os seus erros, todos os seus pecados, toda a maldade que havia trazido ao mundo. Estava sendo punida, sabia, e arrependia-se como uma criança que lamenta, anos depois, as inocentes torturas da infância. 

Sentiu os dedos gelados percorrendo o pano sobre o seu corpo; ásperos, como se tivessem espinhos. As unhas arranhando superficialmente suas pernas, cintura, braços. Sentiu os dedos ao redor do seu pescoço, em leve conscrição. E então aquele rosto se projetou diante dos seus olhos. Aquele rosto terrível, aquele olhar, aquela expressão para a qual ela não conseguia encontrar descrições. Aquele horror sem nome, nem identidade.

Gritou para que aquela criatura desaparecesse, sumisse. Ao que ele respondeu, saboreando cada palavra, estalando a língua entre os dentes ainda mais amarelos que os seus olhos.

"Eu não irei embora nunca mais".

A DOR E A NOBREZA DA VIDA QUE IMITA A ARTE

Roberto de Cesare, interpretado pelo sempre indefectível Ricardo Darín, é um homem de meia idade, solitário e rabugento. Ele vive num pequeno apartamento anexo à sua loja de ferramentas, em Buenos Aires. Ele é um homem de hábitos simples, repetitivos, que narram os dias iguais de sua vida amena, sem emoções nem grandes acontecimentos. Ele vive à sombra da saudade de sua mãe, que nunca conheceu, e de seu pai, que morreu quando ele tinha 19 anos. Os seus dias se resumem em abrir sua loja, contar os pregos que sempre vem em menos número do que o prometido, comer comida gordurosa, tomar uma cerveja e dormir às 23h. Sem exceção. Esta é a história de "Um conto chinês" (Un cuento chino), pequeno filme de Sebastián Borensztein e mais uma estrela nessa constelação de tesouros que é o cinema argentino.

Ricardo Darín dá vida a Roberto, o homem mais solitário do mundo

Mas Roberto tem um hábito curioso. Ele coleciona histórias absurdas, como a notícia que narra a guerra entre a Argentina e a Inglaterra; um casal de amantes que despenca de um precipício num carro, por conta de um freio de mão solto; ou a de um barbeiro que assassina seu cliente, com um susto, em função de um acidente de trânsito.

Roberto só não sabia que a história mais absurda de todas ainda estava por vir e que seria vivida por ele mesmo. Um belo dia, a solidão da sua vida é invadida por um imigrante chinês, Jun, que chega a Buenos Aires sem nenhum tostão e sem falar uma palavra de castelhano. Roberto e Jun se encontram, por acaso, e o argentino não consegue deixar o chinês à própria sorte. Decide ajudá-lo, por mais que isso signifique jogar sua rotina precisa pela janela.

"Há algo de nobreza e de dor em você", diz Mari, uma linda mulher que flerta despudoradamente com Roberto, que tenta ignorá-la. E o encontro entre Roberto e Jun é prova das sábias palavras da apaixonada vizinha. Mas parece que não há mais espaço para o amor na vida de Roberto. Isso é algo que se perdeu em algum lugar do passado e que ele parece não ter mais habilidade em recuperar.

Jun surge como um acaso na vida de Roberto. E a transforma para sempre

Após uma série de tentativas frustradas de dar um rumo à vida de Jun que estava em busca de seu tio, Roberto se dá por vencido e aceita - com grande sacrifício - a convivência que parece fazê-lo enlouquecer. Mas, rapidamente, Jun se mostra um companheiro útil e interessante, que, de uma forma ou de outra, facilita a vida de Roberto. Até os dois, enfim, entenderem os caminhos a serem seguidos.

Esta é uma linda história. Uma história absurda, improvável, impossível. Sobre um homem só, completamente só, que precisa ser encontrado por outro homem, que vem do outro lado do mundo, para dar um rumo à sua própria vida. Um conto chinês, sim, onde a vida decide imitar a arte e não o contrário. 

Absolutamente imperdível.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O AMIGO EM PERIGO


O amigo em perigo
(uma variação)

Esta é a curtíssima história
de um amigo em perigo.

Que só pedia abrigo,
Que se salvou de um castigo,
Que flerta com ser antigo,
Que não faz inimigo,
Que é príncipe e mendigo,
Que enamora o umbigo,
Que fala consigo,
Que se entrega como artigo,
Que é grão e é trigo,

E que tem na saudade à janela,
um jazigo.

É o amigo em perigo,
Que espera, lá fora, 
soldado ao postigo, por um dia contigo.

PARA VER E OUVIR: THE STROKES ("YOU ONLY LIVE ONCE")

quinta-feira, 3 de maio de 2012

ILUSTRANDO

Edward Hopper - "Office in a small city, 1953"

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A SENHORA SEM HORA

A senhora sem hora
(uma variação)

Esta é a curtíssima história
de uma senhora sem hora.

Que feito água evapora,
Que feito esfinge devora,
Que feito tempo demora,
Que é fauna e que é flora,
Que é noite e aurora,
Que é silêncio e é sonora,
Que é forte e que chora,
Que a presença decora,
Que a boca é de amora,

E que marca a minha pele,
como catapora.

É a senhora sem hora,
Que eu espero, lá fora,
para que comigo ela venha embora.

PARA VER E OUVIR: JOHN MAYER ("BACK TO YOU")



Back to you. It always comes around. Back to you. 
I tried to forget you, I tried to stay away, but it's too late.

terça-feira, 1 de maio de 2012

PARA VER E OUVIR: SANDY ("PÉS CANSADOS")


Talvez isso "me deixe menos cult". Mas eu não me importo que isso me deixe menos cult.

"Depois de tanto caminhar
Depois de quase desistir
Os mesmos pés cansados
Voltam pra você".

EL AMENAZADO


EL AMENAZADO
Jorge Luis Borges

Es el amor. Tendré que ocultarme o que huir.
Crecen los muros de su cárcel, como en un sueño atroz.
La hermosa máscara ha cambiado, pero como siempre es la única.
¿De qué me servirán mis talismanes: el ejercicio de las letras, la vaga erudición, el aprendizaje de las palabras que usó el áspero Norte para cantar sus mares y sus espadas, la serena amistad, las galerías de la biblioteca, las cosas comunes, los hábitos, el joven amor de mi madre, la sombra militar de mis muertos, la noche intemporal, el sabor del sueño?

Estar contigo o no estar contigo es la medida de mi tiempo.
Ya el cántaro se quiebra sobre la fuente, ya el hombre se levanta a la voz del ave, ya se han oscurecido los que miran por las ventanas, pero la sombra no ha traído la paz.
Es, ya lo sé, el amor: la ansiedad y el alivio de oír tu voz, la espera y la memoria, el horror de vivir en lo sucesivo.
Es el amor con sus mitologías, con sus pequeñas magias inútiles.

Hay una esquina por la que no me atrevo a pasar.
Ya los ejércitos me cercan, las hordas.
(Esta habitación es irreal; ella no la ha visto.)
El nombre de una mujer me delata.
Me duele una mujer en todo el cuerpo.

PARA VER E OUVIR: JOHN MAYER ("SHADOW DAYS")



"I'm a good man, with a good heart
Had a tough time, got a rough start
But I finally learned to let it go
Now I'm right here, and I'm right now
And I'm hoping, knowing somehow
That my shadow days are over
My shadow days are over now"

Nunca antes uma canção do Sr. Mayer me transpareceu tanto.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

MOÇA DE VESTIDO VERDE

Acordei com vontade de escrever na primeira pessoa, dosando eufemismos como alquimia, medindo com cuidado o peso das minhas letras. Desenhando cada uma sob medida para você, feito alfaiate. Acordei meio poeta. Cheio de palavras para você que me pede palavras, como quem pede frutas, como se eu pudesse fabricá-las. Eu, um ourives de inspirações.

Porque esta noite você veio me visitar em meus sonhos.

Você me pedia, sem cerimônia, o mundo. Meu mundo. Eu sorria da sua exigência. Como assim, te entregar meu mundo? Inocente, você parece esquecer que há tanto tempo ele é seu. Você tocava o meu rosto e sussurrava algo em meu ouvido. Algo que ainda agora tento lembrar. As palavras se diluiram no ar. Ficou o arrepio, ficou o cheiro, ficaram os seus lábios roçando o meu pescoço.

Decidíamos sentar sob o sol, juntos, feito namorados. Você com seu vestido de verão, seu vestido verde, e eu desejando ser artista naquele momento e de alguma forma te eternizar além apenas da minha retina. Mas não havia nada em minhas mãos, salvo meus dedos, para te transformar em arte.

Faltaram palavras, sobraram suspiros. Cego, cada pedaço do meu corpo gritava para que eu te descobrisse pelo tato. Tocar seu rosto, seu corpo, sua boca; me envolver nos seus cabelos, no sabor da sua pele, transformar seu vestido na bandeira do nosso país. Ali, orgulhosa, dançando no vento.

Um rio passava não longe de nós. Aquelas árvores, aquelas flores, nós eramos aquarela. Pela brevidade daqueles instantes nós éramos aquarela. Passageiros, flutuantes, feito a água que rugia ali perto. Caminhamos, as mãos desejosas de se encontrarem, esbarrando-se de forma premeditada.

Nós, querendo apenas nos pertencer. Cometendo o crime de nos pertencer.

Livrei os seus pés das sandálias azuis que os envolviam. Você me libertou das minhas roupas de serviço, algo de casaca, algo de soldado. Libertamos os pés, mergulhando-os na água corrente, fria, rindo feito duas crianças. Sentados, um ao lado do outro, decidimos apreciar o silêncio. O silêncio do vento, o silêncio da sombra. Eu arriscava uma palavra, você me calava, dois dedos delicadamente posicionados sobre a minha boca. Eu te beijava as pontas dos dedos, você recuava, fazendo pirraça.

Eu olhava sua silhueta, recortada no sol que se deitava no horizonte. Percebia contornos, curvas, imaginava suas ruas, avenidas, morros e montanhas, ávido por uma meticulosa exploração. O seu cabelo dançando, sem muita ordem, o seu pescoço nu, revelado. Você olhando para longe, investigando.

E então você olhou para mim. Seu olhar penetrante, cortante, pequenino, profundo, que me desnuda por completo; que me tira a patente, que me desarma. Feito musa, feito ninfa, fico ali petrificado, maquinando o que te dizer e sem conseguir dizer nada, apenas o silêncio da minha boca entreaberta que não deseja outra coisa além de encostar na sua. Aquelas duas bocas, ávidas, distantes, atraindo-se de maneira incontrolável.

Você me conta segredos. Eu te conto segredos. E naquele parlamento de intimidades nos aproximamos, não os corpos, que já são como um, ali, pés enfiados no rio. Mas as almas, que parecem se misturar, cunhando-se feito moeda.

Há algo de sonho dentro do sonho. Eu te olho sem ter certeza que é você ali. Você segura a minha mão, com força, me fazendo acreditar. Você sabe que eu quero te segurar pelo pulso e te erguer, te puxar contra meu corpo, te cingir com meus braços, te fazer satélite definitivo. Você, gravitando ao meu redor, tão atraente. Meu satélite que quero atirar ao chão, jogando meu corpo órfão sobre você, cheio de sofreguidão; tudo é calor e choque e nenhuma palavra. Um estranhíssimo balé, provavelmente surdo, cego e cheio de exclamações, gemidos, suspiros, aspirações, desejos.

Você me olha, senhora de mim. Neste sonho sou seu brinquedo, moça de vestido verde. Seu brinquedo, seu patrimônio sem valor, seu refém.

Você me segura pela nuca, eu posiciono minhas mãos ao redor da sua cintura. Há algo ali, aquele "nós cheio de nós" que parece parar o tempo. Somos explosão, colisão, combustão. Somos o chão ao nosso redor, a grama que suja nossa roupa, somos o barulho da nossa respiração ofegante, somos o cheiro, os sabores dos nossos corpos que se descobrem, curiosos. Somos um algo sem nome, sem batismo. Somos uma guerra, um movimento, somos meio música, meio eternos, meio heróis, meio bandidos.

E então somos o suor que pende pesado na pele. Somos o cansaço.

Somos saudade.

Somos o meu sonho desperto, imaginando a noite em que você me visitará novamente.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("BASKET CASE")


Chamem-me de superficial, mas eu casaria com a mulher que me serenasse essa música.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O ASTRONAUTA - DIRECTOR'S CUT

Até que, para sua avassaladora surpresa, ele sentiu um toque delicado nos seus ombros. Algo familiar. Acordou com um susto, o coração disparado, a garganta seca. Olhou ao redor. Ele ainda estava lá. Queria voltar a sonhar.

Queria saber a quem pertencia aquele toque. Decidiu correr as areias do planeta, investigador de araque. Procurando pegadas, procurando rastros, quem sabe cheiros. Pistas. Sabia que aquele era um toque feminino. Só não lembrava em absoluto de sua dona.

Correu os morros, os cânions, aquele sol mostarda coroando seus pensamentos desconexos. Aquela busca.

Então decidiu sentar-se sob uma sombra. Olhava seus pés. Eles pareciam distantes, como se narrassem uma caminhada que ele mesmo já não reconhecia. "Que pés são esses? Que histórias eles contam?". Olhava sua roupa, suas mãos, tocava-se para verificar que ainda estava lá. Sentado, sob o peso da gravidade.

"Sim, ainda estou aqui", apalpava o seu peito, um quase carinho. "Sim, ainda sou eu".

Olhava para o céu. Sorria. Perguntava-se, curioso, o que ainda haveria por lá. Que segredos escondia aquele céu negro, que mistérios? Melhor, que surpresas? Esticava o braço, feito uma criança, como se tentasse trocar uma lâmpada sem sucesso. Queria tocar o sol com os dedos. Aquela catedral de estrelas, astros e luzes ao seu redor. Aquele teatro do infinito que ainda o comovia imensamente.

Corria, sem rumo, os braços voando em todas as direções.
Aquele pássaro desajeitado.
Aquele pássaro desastrado.

Deitou-se. O chão árido, abraçando seu corpo com carinho. Morno. Sentia cada parte do seu corpo marinando sob aquela atmosfera que durante tanto tempo foi o seu lar. Aquele cheiro agridoce no ar. Ouvia sua respiração coordenando o sobe e desce no seu peito. Suspirava. Enfiava mãos e pés sob a areia, como que lembrando de suas brincadeiras de praia. E, por alguns instantes mágicos, parecia sentir o cheiro do mar. Aquele barulho de sonho, aquela espuma salgada, inebriante. E era como se conseguisse ver o seu avô pescando, distante, o corpo enfiado até a metade na água. Sorrindo, acenando para ele. Ouvia sua vó, chamando ao longe. Aquele tempo de sungas e sorvetes. Via sua mãe, sorrindo, aquele sorriso doce que só as mães sabem ostentar com devida propriedade.

E foi como se tudo tivesse ficado claro. Absurdamente claro. Como se as nuvens no céu tivessem se desfeito, espalhando-se num balé de desaparecimentos apenas com o propósito de iluminar as suas ideias. De olhos fechados, sentia a luz do sol pintando o seu rosto com linhas amarelas, vermelhas, alaranjadas. E, na paz daquele momento, lembrou que havia sido a sua mãe quem momentos antes tinha lhe tocado o ombro. Aquele era o toque da sua mãe.

Levantou-se, com um salto. E, ali, diante dos seus olhos, estava ela. Sua mãe. Não como ele a recordava, aquela mulher carinhosa, de saúde frágil e o maior coração do mundo, com quem ele passou menos tempo do que gostaria e deveria. Mas a sua mãe na flor da idade, linda como uma atriz de cinema. Aqueles olhos profundos, melancólicos, aquele abismo de não ditos. Os cabelos negros, longos, lisos, dançando na brisa leve. A silhueta fina. Sim, era a sua mãe, aquela linda jovem, vindo lhe apontar um caminho.

Ela estendeu a mão, feito um convite. E ele foi ao seu encontro. Abraçaram-se por um tempo que pareceu durar um infinito. Ele depositou sua cabeça em seu ombro, os ossos magros espetando seu rosto de maneira confortável. O coração batendo no peito. Um tambor de compassos descansados, de guardas baixas.

E, sem trocar uma palavra sequer, sua mãe desfez seus labirintos. Feito fada. Tocou seu rosto, acariciou seu cabelo, enxugou suas lágrimas com as palmas das mãos. E mostrou-lhe, então, o caminho. O horizonte que habitava o teto sobre a sua cabeça. Aquele teto estrelado, aquele teto de possibilidades. Sorrindo, mãos dadas, ela parecia guiá-lo aos entendimentos que, durante anos, ele não conseguiu compreender, navegando, errante, ambulante.

Sua mãe apontava para as estrelas.

E foi como se aquela gravidade tivesse se convertido em mito, em lenda, em história. E no raiar daquela constatação, ele notou que também sua mãe desaparecia diante dos seus olhos, não sem antes lhe jogar um beijo. Um último sorriso. E então desaparecendo por completo.

Feito mágica, ele sentiu seu corpo levitar. Flutuando, como se nadasse na água, seu corpo sendo empurrado para cima, aquela anti-gravidade. Sua matéria leve, quase inexistente, ele sentia-se como o vento. Sem peso, sem sombra. E subia, subia, subia, feito um foguete preguiçoso, aquela poeira estelar enamorando cada poro do seu corpo. Aquele balão sem dono.

É que ele havia encontrado o caminho de volta.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

ÍTACA

ÍTACA
CONSTANTINOS KAVAFIS

Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posêidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o bravo Posêidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos Fenícios
e belas mercadorias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

PARA VER E OUVIR: HOWIE DAY ("COLLIDE")

DIA DE JORGE

Jorge sentou praça na cavalaria. E eu estou feliz porque também sou da sua companhia.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

15 DE ABRIL

Ela despertou com um susto. O coração na boca, como se tivesse acabado de sobreviver a um sonho ruim. Contemplou o teto do quarto por longos instantes. Suspirava. O seu marido dormia, alheio. Ela o observou por alguns instantes. Olhou aquele quarto, aquele apartamento, aquela vida. E, durante aqueles segundos, não soube responder para si mesma o que fazia ali. Queria fugir. Queria criar asas. 

Então lembrou dele. Aquele pensamento cortante, afiado, que a atravessou feito relâmpago. Pêlos arrepiados, o coração disparado, algo de vertigem, como se ele estivesse ali, do seu lado, sorrindo. Como naquelas lembranças há tanto perdidas. Como naqueles dias, aquelas horas, aquela colcha de lembranças que parecia abraçá-la. Era como se ela pudesse tocá-lo. Sentí-lo. Como se ele estivesse ali do seu lado, mãos enlaçadas, feito namorados. Porque ele diria a ela que estava tudo bem. E colocaria sua cabeça em seu colo e a cobriria de carinhos. E a faria rir.

E, como um passe de mágica, não havia mais nada ali. Fumaça. Apenas a noite. Apenas a janela, os silêncios, ela sentada diante da mesa da sala, contemplando a realidade dos seus próprios pensamentos. Queria ligar para ele, naquele instante, acordá-lo. Queria lhe entregar um ultimato. "Agora ou nunca".

* * *

Lembrou que ele também havia se casado. Lembrou que ela estava ali, nas primeiras fileiras, vendo-o sorrir, aquele dia feliz, festivo, em que suas despedidas pareciam definitivas, escritas em pedra. Aquelas duas criaturas adoráveis, e que poderiam ser tão felizes juntas, mas que haviam se especializado em se despedir. Revezavam-se em se despedir. E era ele quem ia embora naquele momento. 

Ela o observava, em silêncio, e achava-o o homem mais bonito do mundo naquele traje simples que ele escolheu para se casar. Ela sabia que ele odiava "roupa de noivo" e que "jamais vestiria uma no seu casamento"

E lá estava ele. Como prometido. Um terno preto, camisa branca, gravata preta, um botão de rosa vermelha. Ocasionalmente ele olhava para ela, sorria, como se trocassem aquela confidência. E ela chorava, um pranto discreto, quase invisível. Porque mulheres se emocionam em casamentos. Sim. Mas eis que ele voltava os olhos para sua futura mulher. Sob a luz calma daquela capela discreta em que não mais de vinte pessoas testemunhavam aquela cerimônia simples. 

Ela apertava suas mãos. Aquele desejo de fugir. Aquele desejo de desaparecer com aquelas pessoas e dizer a ele aquele caleidoscópio de lembranças, carinhos, palavras, segredos. Aquele baú de lembranças inesquecíveis, que sobreviviam ao tempo; a saudade dos seus corpos órfãos, as imagens mentais, os não ditos, não feitos, não vividos. 

Porque havia tempo. Ainda havia tempo. Haveria tanto tempo mais. Quem ele pensava que era? Onde ele estava com a cabeça? Porque eles pertenciam um ao outro e nada daquilo fazia sentido. Como não fez sentido algum, anos antes, quando ele a olhou se casar. Ali, sozinho, fazendo sua própria despedida. Observando-a da última fileira. Uma lágrima no canto dos olhos, desaparecendo antes que a cerimônia acabasse.

Aquelas pessoas felizes. Aquela simplicidade que a devastava. O jeito dele de fazer as coisas. Porque um casamento é feito de mãos, de beijos, de confidências e de promessas. E depois uma fuga. Discreta. Elegante. À francesa. Nada mais que isso.

Ela o viu partir. Ele sorria, sob o sol, o cabelo bagunçado de uma maneira que ela sempre se impelia a arrumar. Ele acenava, como se fosse uma criança. E parecia ser o homem mais feliz do mundo. Como ela o conhecia. Aquele homem feliz.

E então ele olhou para ela. De longe, pouco antes de entrar no carro. Pela primeira vez um olhar sério, um sorriso de canto de boca, e os dois parlamentaram por horas apenas naqueles olhares. Ele também sentia sua dose de luto. E os dois sabiam disso. Quem ela pensava que era, afinal, onde ela estava com a cabeça, anos antes, quando decidiu ir embora?

Vagarosamente, ele foi ao seu encontro. Atravessando aquelas pessoas que queriam tocá-lo, abraçá-lo. E era como se ele estivesse vencendo uma selva até chegar a ela. Ela. Tão linda. Aquele vestido de verão, aquele lindo cabelo preto, preso ao lado do pescoço, aqueles olhos pequeninos, eloquentes. A boca que por tanto tempo ele venerou. O corpo mais bonito, a pele mais branca, o cheiro de infância que emanava de cada poro dela. Deram-se as mãos, ele segurou seu pescoço por breves instantes, aquele arrepio instantâneo em ambos, aquele arrepio que antecedia seus beijos. Beijou-a no rosto. 

E então ela percebeu que também havia lágrimas em seus olhos. Aquelas lágrimas misturadas, aqueles olhos vermelhos, aqueles soluços discretos. De olhos fechados, despediam-se, sem a necessidade de palavras mundanas. 

Era hora de ele partir. Eis a caótica tapeçaria da vida.

O telefone tinha o peso do mundo em suas mãos. A madrugada sussurrando em seu ouvido, embalada pelo relógio da cozinha, martelando a passagem dos segundos. Ela precisava ligar para ele. Ela sufocava, engasgava. Precisava ouvir a sua voz. Ligava e desligava o aparelho. Não sabia o que dizer. Não saberia. Tantos anos haviam se passado. Tudo estava há tanto tempo para trás. Mas aquilo era mais forte que ela. Como uma onda, uma avalanche, como uma dor sem fim. E ela sabia que a cura era ele. 

* * *

Por um tempo que pareceu infinito, os dois desenvolveram um código, um idioma. Viam-se pouco, em ocasiões planejadas com maestria, feito senhores da guerra. Viam-se, "ao acaso", em cinemas onde matavam a saudade nas últimas fileiras dos filmes que ninguém queria ver. Em supermercados, consultórios médicos, bancas de jornal, lojas de artigos inúteis. Ocasionalmente em pet shops.

Usavam músicas para confidenciar seus pensamentos. Escolhiam eufemismos, brincadeiras de palavras, confidências sussurradas feito mensagens engarrafadas. Encontravam-se, publicamente, como amigos discretos. Cumprimentavam-se, educadamente. E devoravam-se, nas sombras, em algum canto, assim que a oportunidade surgisse. 

Aquela energia represada, desesperada, que às vezes o fazia chorar. 

Viagens à trabalho, cursos, atividades ao ar livre. Inventavam todo o tipo de artifício para viver aquela vida juntos, aquela vida de sonhos, feito espiões, até que pudessem alinhar seus momentos, sincronizar suas vidas de uma vez por todas, até que pudessem resolver todas as pendências do campo da realidade.  

Liam os mesmos livros, combinavam de ver os mesmos filmes e até mesmo de conhecer - separadamente - os mesmos restaurantes. Porque havia algo de inebriante na ideia de que haviam fundado um país. Um mundo secreto do qual ninguém, além deles, tinha as senhas. 

Até que chegou o dia em que seriam felizes para sempre. O dia em que não haveria ninguém na platéia se despedindo. Um dia somente de sorrisos. Um dia de entrega, de completude, o dia em que tudo faria sentido. Aquele dia simples, com talvez nem dez pessoas presentes. O dia em que nenhum coração seria partido. 

O dia em que fugiriam juntos. O dia que, enfim, saberiam que era para valer.

Viveram uma longa vida juntos. E sorriram durante cada segundo.

Até o fim.

CAROLINA E O RATO

Na manhã mais linda do planeta nasceu Carolina. Uma menina linda, pequenina, de olhos azulados e cabelos castanhos clarinhos, quase avermelhados, como o seu pai, que estava há milhares de quilômetros dali. Longe, alheio, distante. Não porque ele fosse um pai ruim. Ele simplesmente não era pai algum. Não sabia da existência de Carolina, sequer da gravidez da sua antiga namorada com que não havia falado mais desde que tinham se separado. Ele seguiu seu caminho solitário, como lhe era habitual. A busca pelas novas aventuras, novos portos, novos ares. Seu mundo deveria caber em seu bolso, sem amarras, sem raízes, sem seriedades. Aquela criança irresponsável de 30 anos. 

Um arco-íris saudava Carolina, na janela do quarto em que ela e sua mãe se conheciam pela primeira vez.

Mas a vida foi dura com Carolina. Ela perdeu a sua mãe cedo e passou a viver com os seus avós. Aos 16, saiu de casa para viver com um namorado em Buenos Aires. Experimentou drogas, decidiu que não precisava estudar e que a vida seria a sua educação superior. Queria ser livre, errante, queria uma mochila nas costas e uma boa máquina fotográfica. E assim viveu por alguns anos difíceis, de grandes privações e perigos.

Aos 19 voltou para a casa dos seus avós. Parecia exausta daquela vida sem rumo. Queria um eixo. Queria cuidar-se. Magra como uma bailarina, fez sua vó chorar escondida. Os cabelos sujos, as unhas descuidadas, as roupas puídas, aquele punhado de objetos que cabiam numa sacola e eram todo o patrimônio de Carolina. Aquela menina linda, aquela menina perdida, aquela menina esquecida. 

Contra a vontade dos seus avós, decidiu procurar o seu pai que, àquela altura, deveria beirar pouco mais de 50 anos. Tinha uma foto antiga, aquele sorriso galanteador de homem metido à estrela de cinema, com óculos escuros e o cabelo cuidadosamente desfeito. Aquele homem que havia feito sua mãe em pedaços, aquele homem que sua mãe jamais havia esquecido. 

Um nome, um endereço, um telefone. Era fácil demais rastreá-lo. Queria encontrá-lo. Confrontá-lo. Dizer a ele uma torrente de ofensas guardadas, de mágoas, de faltas, de ausências. "Onde estava ele quando ela precisou? Onde estava ele para salvá-la, protegê-la dos perigos da noite?". Aquele fantasma. O príncipe. O vampiro. 

Carolina decidiu caçá-lo. Gata e rato.

Com grande facilidade, descobriu que ele havia embarcado num cruzeiro. Com ajuda dos seus avós, comprou passagem e acomodação modesta. Juntou suas coisas e foi atrás de sua presa. Tinha um roteiro muito bem definido de tudo que iria fazer. Tudo que iria dizer a ele. 

Ela o faria em pedaços. 

Encontrou-o no primeiro dia. Galanteador, saboreando drinks exóticos na piscina, flertando até com as gaivotas. E continuou observando-o, dia após dia, até encontrá-lo no bar. Aquele homem sozinho, de meia idade, vivendo um tempo que lhe havia escapado. Bonito, ainda, cabelos brancos, uma alma só. Apresentou-se, sem cerimônia, mas ficou sem reação ao testemunhar aquele homem se desfazer diante dos seus olhos. Aquele homem frágil, que buscou em seu colo um consolo. 

Não havia mais roteiro. Aquele encontro seria fruto de improviso.

Narraram as vidas um do outro, com facilidade. Alguns risos, algumas lágrimas, mãos e abraços desajeitados. Falaram de música, de livros, de arte. Tanto em comum. Discutiram sanduíches e queijos sofisticados; cervejas baratas e vinhos especiais. Falaram de filmes. De fotografias. De viagens inesquecíveis. Do tempo em que Carolina viveu em Buenos Aires, de quando ele visitou a Turquia. Tomaram sorvetes. Fumaram charutos e beberam whisky. Envoltos naquela fumaça saborosa, o oceano azul cortando as janelas atrás de suas costas, estavam ali pai e filha, aqueles dois estranhos com duas vidas tão semelhantes. 

Carolina tinha uma tatuagem no pulso direito, "713". Seu número predileto e justamente aqueles que eram os números da sorte de seu pai, "7" e "13". Assustavam-se. Falaram de amores passados, perdidos, corações partidos. Falaram de sua mãe, por um longo tempo, que ele lembrava com carinho e saudade. Ela mostrou uma linda foto, sua mãe sentada à janela, como uma pintura. Ele segurou a foto por longos instantes, suspiros, falta de palavras. Aquela dor, aquela culpa, aquela impossibilidade de refazer o que foi desfeito. Ele tocava o rosto de sua filha, seu cabelo. Olhavam-se, com espanto e curiosidade e enxergavam-se nos olhos um do outro. Eram pai e filha, não havia dúvida. 

E descobriam, ali, que não estavam mais sós.

Ele planejava. Carolina, aqueles olhos tristes, pequeninos, desconversava. A voz baixa, sussurrada, tímida. Ele queria refazer a vida dela, ajudá-la. Estudos, emprego, o conforto do seu apartamento. Carolina teria tudo, teria o mundo, teria a vida que sempre mereceu. Ele buscara Carolina na queda, não a deixaria cair. E cuidaria dela. 

Feito animal selvagem, ela cedia pouco a pouco. Porque ficou claro para ambos que não havia mentiras ali. Nem charme. Nem tipo. Nem pose. Nem tempo para nada disso. Havia uma menina com quem a vida havia sido muito dura. E um homem de meia idade, sem rumo, que descobria uma filha aos 50 anos. 

Aqueles dois órfãos. 

Carolina queria conhecer a Turquia, disse. Ele sorriu, concordando. "Sim, aquela viagem inesquecível"

Iriam a Disney World, primeiro. 

PARA VER E OUVIR: NORAH JONES ("WHAT AM I TO YOU?")

quinta-feira, 19 de abril de 2012

ILUSTRANDO

Joseph Minton - "Tempestade"

BLAME IT ON BUENOS AIRES

Olharam-se de longe, por momentos breves. Então se aproximaram, vagarosamente, rostos quase se tocando. Mãos e pernas inicialmente desajeitadas. Sem direção, sem papeis definidos. Os dançarinos.

Gradualmente, envolveram-se numa guerra física em que hora agarravam-se apaixonadamente, hora afastavam-se como se desejassem ficar indiferentes um ao outro. Aquela dança de beleza e caos. Aquele tempo fora do tempo, aquele mundo secreto.

Pernas entrelaçadas, dedos curiosos, carinhosos, olhares que gritavam desafios, confidências, segredos. Dançaram por horas, até a exaustão; os cabelos ensopados de suor, a respiração ofegante, e dois corpos que pareciam não querer trégua. Travavam sob os ares de Buenos Aires uma guerra sem fim, rompido um antigo armistício.

Aquele vazio convertido em eloquência, feito alquimia. Blame it on Buenos Aires. Procuravam-se, afastavam-se, aquela sedução meio infantil, de quem brinca com o objeto do desejo. Ou como se aproveitassem algo que fosse durar para sempre. Ou desaparecer como mágica diante dos seus olhos.

Aqueles reis sem reino.

Os dançarinos se entregaram sem medo após algum silêncio educado. Um silêncio elegante. E então destruiram o silêncio com o barulho da cadência dos seus passos, seus corpos, aquele calor, como se causassem combustão juntos. Aquela dança incendiária.

A cidade parecia sorrir para os dois. Aquela ciudad vieja, um personagem mágico que fazia daquela dança um triângulo amoroso.

Abraçados, olhavam-se, sem pressa, como se tivessem todo o tempo do mundo, como se não dançassem sob o martelo das horas que devoravam o relógio com voracidade; aquelas 24 horas, aquela contagem regreessiva, aqueles instantes mágicos, fugazes, saboreados feito vinho; passageiros como a água que corta o Puerto Madero.

Porque eles tinham todo o tempo do mundo e tempo algum. Tudo e nada. Tinham a si mesmos, tinham aquela dança sem fim, tinham seus corpos exaustos, enamorados como se seguissem orientações de Pablo Neruda.

Precisavam se devorar naquela dança. Não poderia haver meio termo. Não seria justo. Era a maneira que tinham de testar-se para constatar que podiam ser um corpo só naquele xadrez de mãos e pés inquietos; daquelas bocas que não queriam perder tempo com palavras; aquelas bocas que eram apenas saliva, apenas língua, apenas promessas flutuantes, seladas sob a névoa da respiração ofegante, do compasso dos dois corpos, que se movimentavam juntos, feito barcos ganhando o oceano. 

Então tocaram-se uma última vez. Beijos tímidos, últimos olhares espremidos na soleira da porta, o dia nascendo preguiçoso na janela, aquelas largas avenidas, cheias de luzes e silêncios. Despediram-se, amantes oponentes, sem vitória nem derrota, aquele empate escrito com a marca dos seus corpos nos lençois desfeitos, ainda mornos.

Porque haviam fragmentado aquelas horas e transformado-as em anos.

E assim disseram adeus, sem saber quando se veriam novamente. Com paixão, com saudade, com desejo. E com olhos de carinho e pecado.

Como se dança o tango.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

terça-feira, 17 de abril de 2012

PARA VER E OUVIR: JOHN MAYER ("NOT MYSELF")


Absurdo o tempo que levei para "descobrir" essa canção há milhões de anos empoeirada no meu iPod. Eu deveria ser multado por isso.

ILUSTRANDO

Henri Gervex - "Le Bal de L'Opera 1886"

O LADRÃO DE MOMENTOS

Os dois eram amigos há mais tempo do que conseguiam lembrar. Inseparáveis, incansáveis, aquelas duas almas refletidas num espelho. Aquelas duas metades de uma mesma pessoa. Ele e ela. Amigos de gostos iguais, opiniões, vontades, aventuras. Sabiam tudo, absolutamente tudo sobre as vidas um do outro. Amores, conquistas, tristezas, decepções, frustrações, sonhos, desejos, segredos. Eram confidentes. 

Apenas um pequeno grande detalhe os separava. Enquanto que para ela ele era um irmão entregue pelo destino, ela era o completo, perdido e desesperado amor de sua vida. Ele colecionava seus sorrisos, como um fotógrafo. Mapeava seu corpo, cada canto, cada imperfeição, cada sinal, feito um cartógrafo. Desenhava seus contornos com dedicação e paciência. Ela era sua religião, seu templo, seu destino, seu horizonte. Sua doença sem cura.

Ele sabia os seus cheiros, suas roupas, seus trejeitos, manias, seus sabores preferidos. Era dono de cada sorriso, cada lágrima de que conseguia lembrar. Ela era seu livro, sua música, sua arte, sua profissão. Sua especialização.

Consolava-a, com paciência, todas as vezes que seu coração era partido em pedaços. Mais, ajudava-a a colá-los todas as vezes. Conhecia todos os seus códigos, suas senhas. O que funcionava, o que não funcionava com ela. E ria, um riso largo, ao testemunhar os passos em falso dos inúmeros pretendentes que tentavam conquistá-la em vão. Eles faziam tudo errado. Ela também. Sofria e ele acabava sofrendo também porque a coisa que ele mais detestava na vida era vê-la chorar.

Aquele álbum de fotos mentais. Sua coleção particular, seu mundo secreto. Aquelas milhares de fotos que ele folheava insistentemente. O dia em que se abraçaram sob um mesmo guarda-chuva. Sua respiração ofegante. A vez em que ela o puxou pela mão, ao atravessarem a rua. O cheiro dela que inundava a sua roupa. Sua cabeça, sobre o seu ombro, quando viam filmes juntos. A sensação do cabelo dela em seu rosto. Aquele cabelo levemente ondulado, com cheiro de infância. Seu choro compulsivo com os filmes românticos. O jeito de comer brigadeiro, feito criança, sem receio de lambuzar cabeça, tronco e membros.

Quando dividiam alguma bebida e ele fazia questão de provar onde ela havia deixado a marca de sua boca. Aquela centena de beijos perdidos. Ele tocava onde ela havia tocado, pisava onde ela havia pisado, feito um fantasma. Gostava de visitar seus lugares preferidos, mesmo só, porque a via em todos os cantos que olhava. Sua amiga, sua senhora. Ele era o barco, ela o vento.

A primeira vez que a viu maquiada. A primeira vez que a viu num vestido de baile. Seu cabelo comprido, feito o de uma princesa. Seu cabelo solto no vento, parecendo ter vida própria, cobrindo seu rosto das formas mais encantadoras. Seu cabelo curtinho, rebelde. Seu cabelo preto, castanho, vermelho, amarelo.

Sua adorável inconsistência. Seus sapatos jogados sobre o tapete da sua casa. As coisas que ela perdia e ele achava. As camisas que ela pegava emprestado. E não devolvia. O primeiro beijo escorregado, quando por muito pouco seus lábios não se encontraram. Sua alegria contagiante com as coisas mais banais. Sua mania de chorar com as coisas mais banais.

Ela era linda, ela era perfeita, sua garota, sua menina urbana. Seu sonho acordado. Inacabado. Mas ela não tinha olhos para ele. Ele, o ladrão de momentos, que tinha de se contentar com os fragmentos deixados pelo caminho. Porque ele não tinha morada em seus olhos. Ele era fugaz, feito paisagem na janela do trem. Ele era levado junto, nunca era o ponto de chegada.

No dia do seu casamento, ela estava linda como nunca. Uma rainha sem coroa, caminhando em passos flutuantes, para aquele altar que, para ele, tinha a dimensão do infinito. Aqueles passos lentos, calculados, para cada vez mais longe. E era como se ela desaparecesse na linha do horizonte. No seu horizonte. Ela sorria, feliz, aquele brilho inconfundível no olhar que as pessoas ostentam quando acreditam que será para sempre. E ele estava lá, seu padrinho ilustre, acompanhado apenas por um botão de rosa na lapela e a mais sincera lágrima entre todas no mundo. 

"Você deve estar tão feliz", sussurravam em seu ouvido. Aquelas pessoas sorridentes.

Ele a observava de longe, um sorriso de canto de boca. Desconversava.

"Estou dizendo adeus".

quinta-feira, 12 de abril de 2012

segunda-feira, 9 de abril de 2012

PARA VER E OUVIR: BILL WITHERS ("AIN'T NO SUNSHINE")

ILUSTRANDO

José de Togores - Desnudos en la playa