terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A MINHA TERAPIA

A minha terapia está em acordar e, realmente, não me importar em ir para o meu trabalho; melhor, gostar de ir para o meu trabalho. Gostar do que faço. É rir com os poucos - e bons - amigos. Andar de kart, falar de filme, rir de bobagens sem muita graça. É aguardar a hora do almoço, como criança. É dormir abraçado com a minha gatinha, entorpecido por um carinho gratuito de um ser não falante que depende de mim para sobreviver. 

É cantar uma canção no meu carro, sem pudor. É andar no meu carro. É fazer um sanduíche de queijo e geléia para tomar com café fresco e achar essa a melhor refeição do planeta. É ver algo bonito. É ler algo bonito, que me dá vontade de chorar. É chorar aquele choro gostoso, de purificação, que parece lavar o peso da alma aprisionado atrás dos meus olhos. 

É sorrir com meus filmes velhos, repetidos. É descobrir um filme novo que, rapidamente, se transforma no filme mais importante da minha vida. É gargalhar com as bobagens que só eu pareço achar graça. É conversar amenidades com uma senhora simpática no supermercado que me lembra a minha vó. É ir ao supermercado. É ler meu livro preferido, depositando-o cuidadosamente ao meu lado, ansioso pelo que ainda pode acontecer. 

É aguardar pela visita da minha mãe. É fazer a minha mudança, como um ritual religioso de quem aguarda a nova - e boa - surpresa da vida. É jogar os meus jogos solitários, numa catarse ao final do meu dia. Como se eu não tivesse problemas. É comer pão de queijo. É dormir o sono dos justos, aquele sono profundo que só quem não faz mal a ninguém consegue dormir. É sorrir para um estranho. Ou uma estranha. É fazer algo bom. É fazer algo bonito. É amar irremediavelmente, com a certeza inquestionável de que sou amado de volta. Na mesma proporção. Ou pelo menos aguardar para que um dia eu descubra realmente como é isso.

É escrever o que meus dedos parecem ditar, como se pensassem por mim. É ligar a televisão, num canal aleatório, e assistir a algo que realmente gostaria de ver. É mexer nas minhas fotografias. É refletir sobre as coisas antigas, sobre o que passou, sobre o que não volta mais. Por mais que isso me machuque. É acordar com chuva na janela. Ou com sol, quando tenho uma das minhas errâncias desimportantes e inadiáveis. 

É conversar com as pessoas que amo, muitas das quais nem sabem que as amo. Ou o quanto. É refletir sobre a metafísica dor de existir e, mesmo me afligindo mais do que o necessário, confortar o meu peito com a certeza infantil de que tudo dará certo. É expulsar as borboletas que vez ou outra nublam meu peito com pensamentos sombrios. 

É comprar algo que sempre quis - e muitas vezes nem sabia que queria - e ainda pagando pouco por isso. Ou caro, às vezes. É cozinhar o pouco que sei e que gosto. É abraçar a minha própria companhia em momentos de solidão quando me sinto a pessoa mais feliz do mundo por, justamente, me conhecer. É me entregar à arte, à poesia, ao cinema, à música, porque na arte encontro uma pedra de salvação, que tenho certeza que é o que me impede de enlouquecer. É saber que ainda existe gente boa neste mundo esquisito, de gente esquisita.

É ser feliz com pouco. E ser feliz com a ideia de que não quero muito mais do que já tenho. É celebrar as minhas vitórias, dando um tapinha nas minhas próprias costas, quando ninguém, só eu, parece perceber o meu feito. É ser o adulto mais chato e responsável do mundo, sabendo que há também um menino dentro de mim que ainda se veste com inocências e capas de super-herói. 

Minha terapia é sentar aqui, onde estou, trabalhando essas linhas sem ordem, sem começo nem fim, num dia tão longo quanto o de hoje. Minha terapia. Meu treino. Meu reino. Minha brincadeira de ser adulto. Meu medo de existir. O que me ajuda a seguir em frente. 

Como vento nas velas. Como combustível de foguete.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ILUSTRANDO

Warhol - "Freud"

domingo, 8 de janeiro de 2012

"EVERYBODY WANTS TO BE FOUND"

ILUSTRANDO

John Everett Millais - "Ophelia"

sábado, 7 de janeiro de 2012

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A CONFISSÃO

A minha mãe morreu quando eu não havia completado nem cinco anos de idade, de maneira que foi o meu pai quem me criou. Ele era um homem simples, engraçado, de hábitos comuns. Não era muito dado às artes, nem às leituras. Gostava de corridas de carros e tudo mais que fosse relacionado a automóveis. Era esse o grande prazer do meu pai.

Éramos amigos. E não havia como ter sido diferente. Tínhamos costumes, rituais, hábitos só nossos. O principal deles era consertar um velho Maverick que o meu pai tinha desde quando era jovem e que havia se transformado num projeto de vida. Reformar o velho Ford era o epicentro de sua existência.

Todos os dias, quando eu voltava da escola, corria para a garagem de casa, onde já encontrava o meu pai deitado no chão, coberto de graxa, fazendo barulho e, eventualmente, xingando alguma bobagem por conta de parafusos e cabos que pareciam ter vida própria. Ele era um homem forte, habilidoso e dedicado. Só não tinha o dinheiro necessário para consertar aquele carro na velocidade que desejava. Seu sonho era rodar com o velho maverick dourado pela cidade, exibindo as listras de corrida com orgulho; aquele carro que haveria renascido de suas mãos. "Meu tesourinho, meu filho, meu tesourinho".

Mas isso nunca aconteceu.

Aos quinze anos, eu consegui o meu primeiro trabalho num frigorífico, o que me rendia mãos inchadas ao final do dia e um salário rizível ao final do mês que eu empregava quase inteiramente no conserto do carro. Meu pai relutou muito no começo, mas foi se acostumando com a ideia. Começamos a dar ritmo à empreitada. O Maverick estava renascendo.

Sentados juntos, no chão da garagem, dávamos risadas, refletíamos sobre banalidades, bebíamos cervejas inocentes e o meu pai contava histórias sobre mamãe, que eu praticamente não havia conhecido. Uma doença a havia levado cedo e meu pai nunca se recuperou dessa perda. Não havia se casado novamente e nem manifestava qualquer desejo sobre isso. Ele era um homem solitário, mas feliz. E gostava de se dedicar ao carro.

Quando eu completei 20 anos, saí da cidade para estudar. Sei que o meu pai não gostou disso mas também não demonstrou resistência. Ele estava orgulhoso e triste. Meu pai não tinha muito jeito em lidar com a saudade, e hoje lembro daqueles dias com arrependimento. Eu não deveria ter deixado ele para trás. A partir dali, eu o veria cada vez menos até perdê-lo por completo.

O Maverick havia ficado de lado, esquecido na garagem. Não que meu pai não quisesse mais consertá-lo. Ele queria, acho que só lhe faltava ânimo. Todas as vezes que voltava para casa eu ía até a garagem, tirava a lona que cobria o carro e tentava estimulá-lo a vir trabalhar. Mas ele não queria. Pelo menos, não queria fazê-lo sozinho, algo que ele deixava escapulir vez ou outra, dizendo "quando você estava aqui, a gente fazia mais rápido".

Repentinamente, meu pai decidiu se casar. Surgiu uma ruiva de meia idade em sua vida e, por medo da velhice, da solidão, ou ambos, em poucos meses os dois já estavam morando juntos em nossa casa. Eu nunca gostei daquela mulher. Não por ciúmes ou qualquer coisa assim, mas porque eu sabia que o meu pai estaria melhor sozinho. Ela era uma mulher implicante, impaciente, intransigente e que, naquela altura da vida, queria mudar todos os hábitos do meu pai. Mas ele se dizia feliz e eu respeitava, contra a minha vontade. Por ele, tolerava aquela mulher quando voltava para casa, algo que, com o tempo, foi ficando cada vez mais raro. Por ela, por causa daquela ruiva de meia idade, de hábitos suspeitos e olhos dissimulados, eu passei a ver meu pai cada vez menos. Algo de que igualmente me arrependo.

Um belo dia, ao voltar para casa, vi que o Maverick não estava mais lá. Havia sido vendido. A mulher havia exigido, já que precisava do espaço que "o carro velho" ocupava. Fiquei surpreso, furioso, não apenas pela perda do carro mas por meu pai ter aceitado aquilo. Aquele carro era nosso, nossa história, nossa vida, o fio condutor de praticamente toda a minha juventude ao lado do meu pai. E, por causa daquela mulher, o carro havia sido vendido. Pior, durante os dez anos que se passaram, ela nunca usou o espaço para nada. Ficou para sempre aquele vazio, aquela ausência, do carro que ela havia obrigado meu pai a vender. Procurei o Maverick, tentei comprá-lo de volta, mas o novo dono não aceitou nenhuma de minhas ofertas.

Anos depois, num dos dias mais tristes de minha vida, descobri que meu pai estava padecendo de Alzheimer. Lembro de me esconder no banheiro de casa, para chorar quieto, sem que ele percebesse. Nem ela. Principalmente ela. Infelzimente, a doença o pegou de assalto e a progressão foi vertiginosa. Cada vez que voltava para casa, encontrava o meu pai mais distante, mais ausente. Mas o que mais me entristecia era ver seu abandono. Eu achava que aquela mulher cuidaria dele. Mas isso não acontecia. Quase nunca eu a encontrava em casa. Meu pai estava sempre sozinho, eventualmente na companhia de um enfermeiro ocasional. 

Ele estava sempre mal vestido, despenteado, com a barba por fazer, o quarto sujo. Eu o abraçava, longamente, afagando sua cabeça enquanto disfarçava os soluços que iam escalando a minha garganta. Ajudava-o a tomar banho, penteava seu cabelo, fazia sua barba, arrumava o quarto e sentávamos juntos na cozinha para comer e conversar. Tentar conversar. Meu pai me olhava, aquele olhar aguado, perdido, que já nem me reconhecia.

Então eu o levava de volta para a sala, onde tentava fazê-lo assistir a alguma fita com as corridas que ele gostava; mas era em vão. Ele nem percebia ou pelo menos não demonstrava. Ficávamos horas na sala até adormecermos. Eu fazia café e ocasionalmente meu pai lembrava de algo, mas esses momentos eram raros e fugazes. Eu segurava em sua mão, do outro lado da mesa, vendo o café dele esfriar lentamente, intocado. O sol ía se pondo vagaroso na nossa janela, sussurrando a lembrança de dias mais felizes.

Na última vez em que vi meu pai, chovia torrencialmente. Eu o abracei, na soleira da porta, e ele me abraçou de volta, pela primeira vez em muito tempo. Senti o vigor dos seus braços ao meu redor e, por breves instantes, ele estava de volta. A mulher nos olhava, sentada na sala, aquele rosto de megera. Até que meu pai sussurrou baixinho em meu ouvido:

"Foi-se embora o meu tesourinho, meu filho, foi-se embora o meu tesourinho".

Sorri, disfarçando minha tristeza sob a chuva. Fiz um último afago em meu pai e voltei para o carro, onde explodi num choro longo e desesperado. Um choro represado, de impotência, de infelicidade, de culpa, de arrependimento. De vontade de voltar no tempo.

Meu pai morreu dois dias depois daquele dia.

No retorno de seu funeral, a viúva me pediu uma carona de volta para casa. Ao celular, conversando com alguma outra velha trágica, ela não parecia se importar muito com os acontecimentos daquele dia. Apertei o couro do volante com uma força que me machucou os dedos. O couro rangia como pele de pescoço. Com os olhos fixos na estrada, voltei para a casa da minha infância, onde olhei a mulher entrar lentamente, fechando a porta atrás de si. Naquela casa que não era dela.

E, confesso, foi naquele momento que fiz algo de que jamais me arrependerei.

Com o dinheiro da casa vendida, consegui enfim comprar o carro de volta. O carro que hoje é meu e que desfilo orgulhoso na cidade. Todos os anos, sem exceção, visito meu pai, para lhe contar sobre minha vida, de meus filhos, dos meus sonhos. E me despeço, trocando as flores da sua lápide, sempre da mesma forma. De um jeito que me dá a certeza que, em algum lugar, ele está sorrindo para mim. Aquele seu riso largo, de quem dorme sem culpas. Aquele sorriso que eu nunca esquecerei.

"O nosso tesourinho voltou, papai. O nosso tesourinho voltou".

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ILUSTRANDO

Joan Miró - "O Gatinho" (1951)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

RESOLUÇÃO

2011 foi um ano sem inspiração, sem musa, sem criatividade. Quero postar mais em 2012. Será que consigo um post por dia? Desafio lançado.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

domingo, 1 de janeiro de 2012

sábado, 31 de dezembro de 2011

ADEUS A 2011

Numa retrospectiva recente, lembro que 2008 foi um ano feliz, 2009 foi um ano para ser esquecido, enquanto 2010 é um ano que me deixa saudade até hoje. 2011, como 2009, é outro ano para ser esquecido. O 11 não foi um bom ano para mim, ainda que eu tenha celebrado um punhado de felicidades efêmeras. Mas as decepções e perdas foram maiores. 2011 foi batalha morro acima, todo o tempo e chego a esse dia 31 com uma sensação de exaustão. Exaustão na alma, acho. Talvez eu não deva ter muita sorte com anos ímpares. Será? Por esse ponto de vista, então, 2012 deverá me trazer mais felicidades; algo que me agarro como a um talismã. O que importa - ou já não importa, sei lá - é que 2011 vai embora hoje. 

Que vá, então, e nunca mais volte.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

EM DEZEMBRO DE 2012

Falta um ano para retornarmos a Terra Média. Em dezembro de 2012 estreia a primeira parte de "O Hobbit", dirigido por Peter Jackson. Começa a espera.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

PÔSTERES JAPONESES

Adoro pôsters de filmes. Se pudesse, teria paredes recheadas com eles. E o que dizer dos pôsters japoneses? Incomparáveis. So cool.
Bastardos Inglórios
Viagem a Darjeeling
Maria Antonieta
Os Goonies
A Árvore da Vida
Beleza Americana

AMOR PLATÔNICO

Sara Bareilles, "a pequena voz". Não sei o que é. Não sei se é essa beleza morena, de nariz proeminente, meio greco-marroquina, ou a voz avassaladora, que sai desse corpo magrinho e pequenino, e me emociona em tantas músicas que já sei cantarolar de trás para frente. Se são as letras, que falam de coisas sentidas, vividas, de mágoas, de cicatrizes latejantes, ou de paixão, amor, felicidade pura. De que não é preciso asas comuns para se voar de volta para quem realmente amamos. De que é possível acreditar no amor, ainda que haja tanto sofrimento e decepção. Ou se é o seu jeito moleque, que não se importa em ser rude, em falar palavrões, em ser criticada. Ou se é simplesmente por ela usar vestido e tênis all-star. Eu tenho um fraco por meninas de vestido e all-star. Eis mais uma paixão platônica e à primeira vista (ou ouvida).




domingo, 25 de dezembro de 2011

A PRISÃO SEM MUROS

Por onde começar, para pelo menos TENTAR falar sobre esse filme? "A Pele que Habito" (La Piel que Habito) não é apenas o melhor filme de Almodóvar; é um dos melhores filmes que já vi em toda a minha vida. Uma história eletrizante, que deixa os olhos secos pela impossibilidade de piscá-los enquanto a trama se desenrola na tela. 

Mas como discutir esse filme sem confidenciar seus segredos? Como dizer do atropelamento mental que é essa história arrebatadora, sem revelar a caixa de mistérios que Almodóvar esconde com uma maestria que chega a comover? A genialidade deste filme dá vontade de chorar; o que é contraditório diante da tragédia inexplicável que se constrói diante dos nossos olhos incrédulos. 

Há uma beleza sem nome e um absurdo nomeado neste filme que só posso conceber como um mórbido conto de fadas às avessas. Passado nos dias de hoje em Toledo, Espanha, vamos pouco a pouco descobrindo a infeliz vida do Dr. Roberto (Antonio Banderas) que vive numa villa onde mantém prisioneira Vera (Elena Anaya). Ela habita um cômodo onde vive com conforto, com livros, exercícios e uma câmera de onde é monitorada 24 horas por dia, inclusive a partir de uma tela gigantesca no quarto de Roberto, onde muitas vezes Vera parece ser um quadro emoldurado.

Vera é prisioneira do Dr. Roberto, que a mantém praticamente emoldurada, como um fetiche voyerista

Mas por qual razão Vera é mantida presa? O que pretende o Dr. Roberto? Entendemos que ele está à frente de uma grande descoberta científica, uma pele modificada geneticamente e que é mais resistente do que a pele humana. Sua tragédia pessoal parece tê-lo motivado, já que Roberto perdeu sua mulher num incêndio.

Assim, vamos testemunhando o cativeiro de Vera que, aparentemente, parece estar se recuperando de algum tratamento. Em paralelo, pedaços e fragmentos de uma vida de tristezas, marcada por uma série de pessoas infelizes e decisões trágicas. 
O que é Vera? Um fetiche? Um brinquedo? Um desejo impossível de se reaver algo?

Mas há um propósito, uma finalidade, uma explicação que vamos lentamente decifrando até o confronto final que Almodóvar nos expõe. Com genialidade absoluta, o diretor vai nos conduzindo por um caminho de certezas e deduções até virar nosso mundo de ponta cabeça, similarmente ao que vemos na tela. 

Infelizmente, há pouco a se dizer sobre esse filme magistral, essa obra de arte inquestionável, sem revelar seus maiores tesouros que são justamente as descobertas que fazemos - e que devemos fazer sozinhos.

Um filme que me deixou em silêncio profundo, sepulcral, cativo de minhas próprias ideias. Um filme como poucos, um filme como não se faz ultimamente. Uma história brilhante, perturbadora, perfeita, ainda que beirando o limite da dor e da tragédia humana. Um filme importante além do importante.

Uma história sobre uma prisão sem muros, uma experiência a ser vivida.

sábado, 24 de dezembro de 2011

domingo, 18 de dezembro de 2011

ILUSTRANDO

"Insanidade" - Joseph Minton

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O AMOR E OS SALÕES DE DESEMBARQUE

"Like Crazy" (ainda sem título no Brasil) é um "daqueles filmes". Fica na memória, no coração, na alma. Doendo, fazendo rir, fazendo chorar. Há um bom tempo os filmes românticos não me afetam. É difícil sucumbir, confesso. Mas esse me atravessou de forma arrebatadora, como um atropelamento do qual até agora não consegui me recuperar. Sinto os olhos girarem, como vertigem. O corpo dormente, a cabeça embriagada por um caleidoscópio de sensações, lembranças, saudades. Esse é um filme de amor. Um filme sobre a saudade. Um filme sobre a caótica missão de existir.
Loucos de amor, Jacob e Anna vivem uma linda e dilacerante história

O filme conta a história de Jacob (Anton Yelchin) e Anna (Felicity Jones), um rapaz americano que conhece uma garota inglesa, durante a faculdade em Los Angeles. Como num conto de fadas urbano, os dois se apaixonam à primeira vista e vivem uma intensa história de amor. Até que o visto estudantil de Anna expira e ela precisa retornar ao Reino Unido. Cegos de amor, os dois decidem ignorar a proibição e Anna permanece nos Estados Unidos, violando sua permissão. Isso implica num banimento que a impede de retornar.

A partir deste momento, os dois precisam enfrentar um difícil relacionamento a distância, regado por saudade, lágrimas, e um desespero que corrói o peito. Tudo muito bem feito, muito sentido, muito doído, graças a uma atuação magistral do casal que simplesmente brilha na tela como se, de fato, eles fossem as únicas - e últimas - pessoas do mundo. É impossível não sucumbir ao amor de Jacob e Anna. E aqueles que já viveram um grande amor - ou, especialmente, um amor a distância - preparem-se para uma linda e dilacerante história. Destas que não é fácil esquecer. Destas que abrem os baús da memória e nos deixam com os sentimentos à flor da pele.
Um filme para deixar as emoções à flor da pele

Inevitavelmente, a "vida" acontece. E tudo fica complicado por conta de trabalho, desencontros, possíveis novos amores. Mas há algo ali, inexplicável, que aprisiona um ao outro e eles simplesmente não conseguem se desconectar, por mais que realmente queiram seguir em frente. Há algo que volta, um retorno retumbante, que os pegam de surpresa e eles se veem obrigados a voltar para os braços um do outro. Para soluções loucas, para planos infundados, para novos encontros apaixonados, novas memórias, novas fotografias, novas tristes despedidas nos aeroportos.
Uma história sobre a (agri)doce arte de se despedir

Há uma corrida contra o tempo. Um desejo de voltar, sabe-se lá para quê. Eles querem, precisam, urgem "como loucos" em voltar um para o outro. E, pelo curto tempo em que essa linda história se desenrola na tela, percebemos que, se a vida imita a arte, a recíproca também é verdadeira. Nada é muito fácil, o coração não equaciona como matemática, e somos todos realmente criaturas muito complexas.
"Like Crazy" é um filme sobre o amor que realmente existe. Que é parte da vida, caótico, confuso, doloroso

Este é um filme, pura e simplesmente, sobre o amor que realmente há por aí. Sem idealismos, sem fantasia de cinema. Um filme que me deixou em silêncio, com cantos de olhos muito chuvosos. Um filme sobre o amor nos salões de desembarque. Sobre uma impossível história que todos nós já vivemos em algum momento de nossas vidas.

E que dificilmente viveremos novamente.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

MEUS FILMES DE 2011

Foram muitos os filmes de 2011. No entanto, diferente de 2010, apenas poucos realmente "ficaram":
"A Árvore da Vida" (The Tree of Life). Meu filme de 2011, sem dúvidas. Meu filme, possivelmente. 
O arrebatador, devastador, transcendental "Melancholia" também ficou. 
O adorável conto-de-fadas de Woody Allen, "Meia Noite em Paris" (Midnight in Paris), foi uma grata surpresa. 
"Não me abandone jamais" (Never Let Me Go), um dos filmes mais sofridos - lindamente sofridos - que vi em toda vida.
"O Discurso do Rei" (The King's Speech), Collin Firth em seu melhor.
"O Cisne Negro" (The Black Swan), algo de sonho e pesadelo. Um filme quase perfeito.
"Um Dia" (One Day) cresceu em mim. Confesso que não gostei. Depois reavaliei meus conceitos e considero um filme especial, que realmente se distancia das "comédias românticas" rotineiras. Ficou também.

sábado, 3 de dezembro de 2011

DER SCHÜCHTERN MAUS

Ela passava as noites fora. Quase todos os dias, retornando com as primeiras luzes da manhã, para dormir como uma vampira até os primeiros suspiros do sol. Quase todos os dias. Era quando ele arriscava sair de sua toca, timidamente, tateando os contornos do seu buraco com medo de alguma emboscada. Era o seu celebrado banho de lua, as únicas ocasiões em que podia caminhar incólume.

Porque ele sabia que ela era esperta, rápida, mortal. Intuitiva, muitas vezes frustrava suas tentativas de liberdade antes mesmo que ele tivesse coragem de pôr os olhos para fora. Como mágica, surgia uma garra afiada, que quase reluzia, feito arma branca, assustando-o e empurrando-o rapidamente para dentro. Suspirava. Ainda não seria daquela vez. Uma, duas, três, cinco, cem vezes. Ele nunca conseguia vencer. Ela era mais rápida, mais inteligente, mais competente. Ele era mais lento, mais bobo, menos consciente dos perigos que o cercavam.

Ela era sua senhora torturadora. Às vezes não fazia absolutamente nada, como se não se importasse, como se duvidando, tentando-o a se arriscar. Outras tantas vezes enfiava os grandes olhos dourados por entre seu buraco, vigiando-o como dois faróis policiais. Esquerda, direita, em cima, em baixo. "Tente", parecia dizer. E ele se escorava num canto, e com as costas molhadas pela parede úmida rezava baixinho suas preces de rato: "Por favor, Deus, faça ela ir embora. Faça ela ir embora". Mas era como se o Deus dos ratos estivesse ausente.

Ele não possuia nada. Sem comer, começava a definhar. Se não fossem as migalhas que conseguia roubar à noite, quando ela saia, há muito tempo não teria sobrevivido. Brincava com um pequenino botão que, mesmo assim, a gata havia conseguido confiscar. De modo que não havia nada, naquele buraco, a não ser a escuridão e o silêncio. E um desespero que roía o ratinho por dentro.

Ele se questionava porque havia nascido rato? E não cão? E esse pensamento o deliciava profundamente... as imagens que se repetiam e se sobrepunham em sua pequenina mente, como um caleidoscópio. A gata sendo posta para correr, aterrorizada por sua violência impiedosa, sua vingança. Ele se imaginava como um cão gigante, negro, assustador. E, nestes seus devaneios, a gata nem cogitaria ameaçá-lo. Ela sentiria medo dele. Muito medo.

Mas esses pensamentos desapareciam como fumaça e rapidamente ele era lembrado de sua condição. Porque lá estavam os grandes olhos, as garras afiadas que vez ou outra adentravam o buraco tateando no escuro. Ou o rabo comprido, balançando preguiçosamente em algum canto da sala para lembrá-lo, formalmente, que ela estava lá. 

Um dia, exausto, ele meditou por horas diante da pilha de veneno estocada em todos os cantos de sua morada humilde. Olhou para a pilha fedorenta, ainda incrédulo sobre como podiam achar que um rato em sã consciência poderia ingerir aquilo? E sem titubear, avançou sobre o veneno, devorando tudo vorazmente até que começou a sentir-se aéreo, como se estivesse desaparecendo. Sua cabecinha girava e ele sabia que estava morrendo.

Então, como num susto, juntou as últimas forças que ainda habitavam seu corpo minúsculo e saiu vagarosamente de sua toca, colocando-se corajosamente diante daqueles olhos dourados, imensos, que o observavam como duas moedas gigantes. Aqueles rasgos negros, misteriosos, que ele aprendeu a temer durante cada segundo de sua vida. E, como um penitente, deitou-se sob a misericórdia da gata, que o imobilizou sob a pata esquerda e o abocanhou imediatamente.

Em segundos, a gata estava no chão, contorcendo-se em dor profunda. Ela se torcia e se revirava e miava em desespero absoluto, como se algo a estivesse destruindo. Era o pequenino. O ratinho tímido que ainda estava ali roendo suas entranhas de dentro para fora.

A gata sufocava em sua própria saliva, embriagada pelo veneno forte. Até que não se mexeu mais.

Vitória. 

O rato matou o gato.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

ILUSTRANDO


Giorgio DiChirico - "Rua" e
"Nostalgia do Infinito"

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

SONECA


Qualquer pessoa que tenha dois gatos em casa (sobretudo com boa diferença de idade) sabe que é EXATAMENTE assim...

sábado, 19 de novembro de 2011

ILUSTRANDO

Hung Liu - "Lavagem Vermelha"

ARVEL E A GUERRA

Todos os homens na vila guardavam uma lança de combate em casa, que rezavam todos os dias para que nunca precisassem usar. Eram tempos de paz, inegavelmente, ainda que o rei insistisse que todos os homens saudáveis estivessem sempre prontos para tomar armas. A guerra podia chegar. Mas ela nunca chegava.

Alguns creditavam a paz aos feitiços dos druidas que dançavam, meio loucos, no topo do morro, com seus cabelos espetados e roupas esfarrapadas. Outros às mulheres que cantarolavam aos deuses que livrassem seus maridos da guerra enquanto cuidavam das costuras ou do peixe defumado. Alguns outros à inexistência de inimigos aparentes ou suficientemente fortes. Não havia perigo, de fato, e os anos eram uma sucessão de rituais felizes que envolviam as colheitas, o crescimento das crianças e as festividades. 

Mas não para Arvel. Galês, nunca havia se sentido plenamente em casa ali. Vivia, cuidava da sua lavoura, do gado, dos filhos que nem sabia se eram seus. Mas era tão infeliz que já nem sabia ao certo como era a sentir-se de outra forma. Tinha lembranças, claro, mas eram pedaços etéreos e desconexos que envolviam cheiro de carne de porco, joelhos ralados, arcos de freixo pequeninos, maçãs colhidas nas árvores e os cabelos ruivos desgrenhados de sua mãe, Erce.

Arvel tinha seis filhos - sem contar três que não haviam sobrevivido mais que um punhado de semanas - uma casa de barro batido, alguns bois e uma pequena plantação que abastecia sua casa com grãos suficientes para o inverno. Nem muito, nem pouco, o suficiente. Havia lenha na lareira e roupas de lã que, ainda que velhas, puídas e mal costuradas, aqueciam seu corpo magricela nas noites mais impiedosas. Ele era casado com a filha do ancião da vila - algo que dava certo status naquele círculo social rudimentar.

Mas Arvel não era feliz. Dos seus filhos, não tinha certeza se pelo menos um era dele. Sua mulher infernizava cada hora de seu dia e não havia nada, naquele amontoado de cabanas úmidas, que ele pudesse chamar de lar. Arvel já nem lembrava que raios, que ventos tinham levado-o para aquele lugar. Coisas dos deuses que deveriam ter algum propósito para a sua existência. Faltavam tantos séculos até que os homens pudessem descobrir a depressão. Pobre Arvel. Não havia caprichos como esses em seu tempo. Era uma época de embrutecimentos, poucos dentes e vidas curtas. 

Não que sua vida fosse ruim. Na verdade não era. Arvel só era infeliz. Verdadeiramente infeliz.

Mas um dia, afinal, a guerra chegou. E enquanto as mulheres choravam lástimas desesperadas sobre os ombros de seus maridos armados, Arvel era o primeiro da fila, em marcha orgulhosa, vestindo roupa completa de couro e ferro, capa, elmo e escudo. Um sorriso largo o denunciava a quilômetros de distância.

Arvel não estava indo para a guerra. Arvel estava indo embora.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

NO RADAR


Trailer oficial de "Like Crazy". Número 1 no meu radar de filmes que desejo (PRECISO) ver em breve.

PARA VER E OUVIR: STARS ("DEAD HEARTS")

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ILUSTRANDO

Renee Magritte - "Saudade de casa"