segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

2010 - FILMES QUE FICARAM

Indiscutivelmente, o ano de 2010 foi um celeiro de filmes inesquecíveis. Foram muitos os filmes impactantes, relevantes, comoventes, engraçados, indispensáveis que assisti desde janeiro. Faço aqui uma singela retrospectiva daqueles que vi esse ano (tenham estreado em 2010 ou não) e me tocaram de alguma maneira. Filmes que ficam. Filmes que ficaram.
Direito de Amar (A Single Man)

A Fita Branca (Das Weisse Band)

O Golpista do Ano (I love you Phillip Morris)

A Origem (Inception)


O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas)

Onde vivem os monstros (Where the wild things are)

O segredo dos seus olhos (El secreto de sus ojos)

O fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox)

A Estrada (The Road)

Tudo pode dar certo (Whatever works)
Zumbilândia (Zombieland)

Um lugar qualquer (Somewhere)

Minhas mães e meu pai (The kids are all right)

domingo, 26 de dezembro de 2010

SOFIA CONSEGUIU NOVAMENTE

Johnny Marco tem uma ferrari que ele gosta de rodar em círculos, como um carrinho de controle remoto. Johnny tem mulheres lindas ao seu redor, que se despem e dançam para o seu entretenimento. Johnny Marco tem o mundo aos seus pés, as luzes dos holofotes, a curiosidade da imprensa e milhões de dólares de sua carreira de ator bem sucedido de Hollywood. Como um príncipe, vive acastelado no clássico hotel Chateau Marmont, em Los Angeles, onde atravessa seus dias que correm de forma circular, como repetições, a base de whisky, remédios e falsas companhias. Johnny Marco tem tudo. E, ao mesmo tempo, não tem nada. O que Sofia Coppola quer nos dizer com esse seu novo filme? Onde ela quer chegar? Melancólico e agridoce, "Somewhere" (Um lugar qualquer) não é trágico como "As Virgens Suicidas", frenético como "Maria Antonieta", tampouco, comovente como "Encontros em Desencontros" mas, como tudo na obra de Coppola, carrega a sua marca registrada: a crônica minimalista e silenciosa de protagonistas solitários em busca do entendimento de suas próprias vidas.

Stephen Dorff vive Johnny, um ator beirando os 40 anos de idade, que se vê preso num universo solitário, vazio e sem rumo. Pobre menino rico, sem conseguir se envolver verdadeiramente com ninguém, Johnny caminha como um morto-vivo, entorpecido por remédios, álcool e pura melancolia. Falta de destino. Sem um lugar para ir. Mora num hotel, onde é um ilustre hóspede bajulado constantemente por homens e mulheres em busca de se aproveitar de sua fama e riqueza. Os seus dias são inexpressivos, superficiais, e ele parece correr as ruas de Los Angeles anestesiado. 

Tudo isso muda quando sua filha, Cleo (Elle Fanning), vem morar com ele. Sua ex-mulher vai viajar e deixa a filha sob seus cuidados. A chegada de Cleo é, justamente, um ponto de mutação e iluminação. O filme ganha novos contornos, ganha música, e descobrimos que, na companhia de sua filha, Johnny Marco encontra a melhor pessoa que poderia ter ao seu lado. Algo reconhecido num momento comovente do filme em que percebemos a breve - e fundamental - mudança que a menina de 11 anos fez na vida de seu pai que, aparentemente, já havia dado tudo por perdido. "Me desculpe por não estar por perto", ele confessa, abafado pelo barulho das hélices de um helicóptero.

A convivência com Cleo promove uma revolução silenciosa na vida de Johnny que, num momento final de catarse, se questiona seu papel no mundo e decide, enfim, sair de sua mimada letargia e fazer algo a respeito de sua vida. Ele se descobre feliz, completo, na companhia de sua filha. E a repentina saída dela escancara o vazio completo que ele somente parecia suspeitar. Enquanto Cleo estava por perto, Johnny redescobriu o sorriso, a paz de espírito; não bebeu, não se drogou. A solidão expõe as suas feridas abertas, que parecem pulsar enquanto ele resolve ligar, justamente, para a sua ex-mulher. "Eu não sou sequer uma pessoa", ele confessa.

Mas também a falta de sua filha ilumina Johnny com algumas certezas  tímidas. Ele percebe que ainda que não saiba qual seja o seu lugar, pelo menos não é mais trancafiado nas paredes daquele hotel impessoal. Johnny decide que é hora de rumar a algum lugar seu. "Somewhere".

A visita inesperada de sua filha, Cleo, transforma o mundo de Johnny Marco por completo. Mas onde Sofia Coppola quer chegar com "Somewhere"? 

Definitivamente, "Somewhere", ainda que irmão de alma de "Lost in Translation", não é tão imprescindível quanto o filme que deu à Sofia o Oscar de melhor roteiro original. "Somewhere" mostra uma nova cor, um novo traço de Sofia. Um lado mais maduro, sem dúvidas, mais árido, melancólico, certamente mais europeu que americano. Ela não abusa, jamais, de suas cenas, mantendo quase todo o filme em planos estáticos, com diálogos breves que dão lugar a metáforas e pouco uso de trilha sonora (algo que me causou certo estranhamento, já que é tradição em seus filmes a utilização de músicas emblemáticas para a construção de cenas e sequências).

O elenco, como sempre, é bem escolhido e Dorff e Fanning brilham juntos em grande sintonia, como se fossem realmente pai e filha ligados (e separados) pela falta de convivência. A ausência de Lance Accord (diretor de fotografia dos seus últimos 3 filmes) também não me passou despercebida. Senti falta, sem dúvidas, da iluminação poética e profunda de Accord que sempre enriqueceu os filmes de Sofia. 

Em hipótese alguma me permito sequer cogitar que "Somewhere" seja um filme ruim. Primeiro, pelo capricho mimado de fã. Segundo, porque fica evidente que o filme não é tão acessível quanto os últimos.  "Somewhere" é um filme que pede um pouco mais de paladar, um pouco mais de atenção, para que ele germine em nossas mentes. "Somewhere" não é um filme para ser visto. É um filme para ser REvisto.
"Um lugar qualquer", um filme sobre parenthood. Apenas isso. Ou tudo isso.

A grande discussão proposta por Sofia Coppola é a paternidade/maternidade, sem dúvidas, e também esse tema transita pela alienação e o limbo que Sofia sempre propõe em seus filmes. Pais "perdidos", filhos "perdidos". Não necessariamente. E aí entra Elle Fanning que brilha, como uma estrela doce e incandescente na tela. O nosso desejo imediato é de correr para ali, adotá-la, provê-la com carinho, atenção e curiosidade para suas histórias e atividades. Numa cena de profunda comoção vemos esta menina absolutamente rara, especial e encantadora engolindo um choro tão sentido porque sua mãe não disse quando voltaria e seu pai viaja o tempo inteiro. Um choro angustiado, de solidão antecipada. É uma das cenas mais comoventes do filme e que, como o próprio filme, pode ser partida em muitas camadas de reflexão. "Pais sejam bons para as suas filhas", poderia dizer John Mayer com a sua emblemática canção "Daughters"; "mães sejam boas para as suas filhas também". É a mais pura verdade.

Johnny descobre que precisa encontrar um lugar seu. Um destino. Um lugar qualquer.

"Somewhere", filme sobre o qual nutri tantas expectativas, surge, para mim, como um filme que mostra um pouco mais de Sofia Coppola como diretora, mulher e mãe. Seu filme, centrado na reflexão da responsabilidade de pais sobre os seus filhos, talvez seja um ato muito pessoal de Sofia sobre a sua própria maternidade recente. 

Este não é um filme sobre garotas adolescentes, sobre paixões inesperadas numa cidade improvável ou delírios de uma rainha infantil. É um exercício de arte sobre quem somos nós, primeiramente diante de nossas vidas, e, naturalmente, diante das vidas daqueles que trazemos ao mundo. O compromisso. A ideia de que esse é um contrato para sempre, imutável, sem espaço para negociação. E, possivelmente, o melhor contrato já concebido. "Os filhos são as melhores pessoas que você conhecerá", diz Bob à Charlotte, em "Lost in Translation". E, justamente sob esse prisma, "Somewhere" é um triunfo. E assim sorrio, diante dos créditos finais, com a certeza inquestionável de que Sofia conseguiu novamente.

domingo, 19 de dezembro de 2010

PARA VER E OUVIR: BROOKE FRASER ("DECIPHERING ME")


Um pouco de Lost in Translation e um pouco daquilo que me encanta em Sara Bareilles. Incrível descoberta. Passarei a ficar de olho nesta mocinha.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O AVISO QUE NINGUÉM QUIS ESCUTAR

De dentro de uma prisão, ainda nos anos 1920, Adolf Hitler escreveu um livro que até os dias de hoje é sinônimo de ódio e segregação: Mein Kampf (Minha Luta), a auto-biografia e programa político que dizia abertamente o que ele tinha em mente caso chegasse ao poder. Uma década depois, nomeado democraticamente chanceler da Alemanha, Hitler empreendeu cada um dos pontos defendidos no livro, como se seguisse um cronograma: a restrição dos direitos sociais, o rearmamento, a criação de um Estado policial, o belicismo, a tomada de territórios vizinhos, a invasão à União Sovitética e a perseguição e aniquilamento do povo judeu. E tudo isso foi anunciado anos antes, muito claramente. Por que ninguém fez nada? Ou melhor, por que o livro - apesar de ter sido um best-seller à época (e curiosamente até hoje!) - não fez com que os governos se mobilizassem contra o perigo latente e, assim, evitassem que a história fosse escrita da forma que foi, com a destruição das instituições, o extermínio de inocentes e a condução do mundo à guerra? Hitler foi lido, compreendido, e jamais escondeu as suas reais intenções. Documentou tudo neste livro que foi traduzido em todos os cantos do mundo. Ainda hoje, Mein Kampf é um livro carregado de dor, veneno e proibição, como se portasse uma maldição que muitos não querem tocar. No entanto, ainda bate recorde de vendas - sobretudo em países muçulmanos - criando dúvidas sem precedente: por que Hitler ainda desperta tanta curiosidade? Por que tantas pessoas ainda querem ler este livro? 
Quando ainda estava preso, Hitler destilou o ódio num livro que se tornou best-seller mundial. Ninguém parece ter levado-o a sério. E o resto é história

Antoine Vitkine tenta responder a esta e a muitas outras reflexões com seu livro "Mein Kampf: a história de um livro". Com um texto jornalístico e envolvente, Vitkine nos conduz por uma história que começa na prisão de Landsberg, na Alemanha dos anos 20, onde Hitler escreve o que viria a ser conhecido como "a Bíblia nazi". Contar a história de Mein Kampf leva, inevitavelmente, a contar uma história de guerra e morte num continente que jamais pode se dizer iludido pelos planos de Hitler. Ele sempre foi muito claro. O que espanta o autor - como a todos nós - é como este símbolo de totalitarismo e ódio ainda é tão cultuado em países que hoje tentam emular as circunstâncias que levaram o Nacional Socialismo ao poder, na década de 30. A crescente corrida por Mein Kampf e outras literaturas similares deixa muito claro que Hitler pode estar morto, mas suas ideias perduram como fantasmas que ainda demonstram vigor e sedução. O poder e o veneno das ideias destiladas no livro deixam claro que as sementes daquele movimento ainda estão vivas, ainda estão entre nós e ainda podem ser cultivadas. O perigo e a lição para que os mesmos erros não voltem a ser repetidos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ANIVERSÁRIO

Não é uma questão de fé, crença ou religião; mas, para mim, é impossível não refletir - todos os anos - que celebramos em dezembro a vinda ao mundo de um menino tão pobre, nascido no deserto e em meio aos animais, mas que mudaria a história para sempre. Dois mil e dez anos que lembramos deste aniversário. E acho impossível também não me comover com este pensamento. 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O NATAL TAMBÉM CHEGA PARA OS GATOS...

E não podia ser diferente com o gato do Simon. É Natal para ele também...

domingo, 12 de dezembro de 2010

IMPROVÁVEL E IMPERDÍVEL

Steven é um homem exemplar. Filho adotivo, criou uma família religiosa, é casado e pai de uma filha. Seria tudo perfeito se ele não descobrisse, repentinamente, que é gay e estelionatário. Que adorável surpresa esse filme "O Golpista do Ano" (I love you Phillip Morris), estrelado por Jim Carrey e Ewan Mcgregor. Não sabia muito da história, mas imaginava ser uma comédia típica de Jim Carrey. É e não é. O começo rende cenas insanas, inacreditáveis, nas quais Jim Carrey desfila as caretas e trejeitos que o fizeram famoso. Ele vive o pacato Steven, um homem que tem uma epifania após um acidente de carro que quase leva a sua vida. Ele descobre que é gay, que quer outra vida e parte em busca dela. No caminho, se envolve com Jimmy (vivido por Rodrigo Santoro em mais um papel de meia dúzia de falas) e percebe que a vida de gay não é barata. Para sustentar o luxo, então, ele decide fazer todo o tipo de golpes, transformando-se rapidamente num habilidoso estelionatário.

Ewan Mcgregor e Jim Carrey vivem um casal improvável em "O Golpista do Ano"

Inevitavelmente, esse comportamento criminoso o leva à cadeia, onde ele conhece Phillip Morris, vivido pelo sempre competente Ewan Mcgregor. Os dois se envolvem afetivamente na cadeia e, a partir daí, a história passa a contar os eventos do relacionamento dos dois. Mas os golpes continuam; e com eles, mais cadeia e surpreendentes tentativas de fuga. Este é um filme muito especial, porque transita com facilidade em vários gêneros sem jamais ser superficial. Quando quer ser comédia é hilário. Quando drama, comove. Quando romance, convence. Jim Carrey está maravilhoso, como há muitos anos não conseguia ser em cena, e sua atuação é enriquecida pela presença marcante de Ewan Mcgregor, que dá vida a Phillip Morris com muito realismo: um homem delicado, frágil e inocente por quem o golpista se apaixona. Esta é uma história de risos fartos e um romance verdadeiro, baseado em eventos reais que aconteceram no Texas durante a década de 90. Improvável e absolutamente imperdível.

sábado, 11 de dezembro de 2010

ILUSTRANDO

Mais um lindo desenho de Amarílis Lage (Blog Cartolina). Um devaneio emprestado. Às vezes é só isso que precisamos; um pouquinho de silêncio.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

"DESCE?"

O que aconteceria se fossem misturados, num mesmo filme, o Diabo e uma história da Agatha Christie? Bom, o resultado - apesar de não passar nem perto de ser um resultado perfeito - seria, sem dúvidas, esse filme: "Devil" (Demônio). "Nada dá certo, quando o Diabo decide fazer uma reunião. Ele se passa por um de nós e vem até a terra para primeiramente atormentar as almas que ele pretende capturar", nos diz o narrador logo nos primeiros minutos.

A trama e o cenário não poderiam ser mais simples: 5 estranhos se veem presos, por acaso, num elevador de um prédio comercial. Seria uma manhã qualquer, chuvosa, na Filadélfia, se não fosse pela série de eventos estranhos que aconteceriam sucessivamente. Primeiro, um suicídio que leva o oficial Bowden a investigar justamente o prédio onde as 5 pessoas estão presas num elevador: uma velha cleptomaníaca; um vendedor de colchões; um segurança; uma mulher misteriosa e um ex-fuzileiro naval. Mas que segredos esses estranhos escondem? E será que, de fato, eles estão presos ali por acaso?
Pessoas comuns estão presas num elevador qualquer, num dia qualquer. Será?

"Devil" não é um filme perfeito, tampouco inventa a roda; mas capturou minha atenção sem esforço. Bem dirigido por John Erick Dowdle ("Quarentena") e produzido por M. Night Shyamalan ("O Sexto Sentido"), o filme consegue criar uma atmosfera de perigo, suspeita, mistério e claustrofobia constantes e com tão poucos recursos disponíveis. Poucas pessoas, alguns metros quadrados de confinamento e, misteriosamente, cada um deles morre estranhamente sob o olhar - de espanto - de todos. As luzes se apagam e eis que surge mais uma vítima. 

O que está acontecendo? Alguém os está matando? Realmente existe uma energia maligna tomando conta daquele prédio ou esta é uma mera história de assassinato, com vítimas e um único culpado? "Devil" consegue sustentar esta dúvida até os instantes finais, onde tudo é revelado sem modéstia.

Confesso que me surpreendi muito com esse filme. Esperava bem menos dele e fui "assistindo para ver onde chegava". E, assim, me vi acompanhando os créditos finais. A impressão que tive era que apenas cinco minutos haviam se passado. Este é um filme modesto, enxuto, completamente despretensioso mas infalível na sua missão essencial de tensionar e assustar ao nos fazer refletir sobre o que está acontecendo a aquelas pessoas. 

Se você, como eu, decidir entrar no elevador em "Devil", esqueça da claustrofobia e esteja preparado para uma estranha viagem que vai mexer com a sua ideia sobre comuns e inofensivos elevadores. Não chega a ser como "Tubarão", de Spielberg, que conseguiu fazer com que o "mar nunca mais fosse o mesmo". Mas passa perto. Muito perto.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

domingo, 5 de dezembro de 2010

PRETTY MUCH IT...

Hoje eu acordei meio monossilábico. "My low-carb birthday". Pretty much it.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

MEU HERÓI NÃO É IMORTAL

Revendo "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" (o quarto da série) consegui compreender, mais claramente, o porquê de eu me sentir tão dividido em relação a este filme. Gosto e não gosto dele. Como fã, naturalmente, adorei o filme e a possibilidade de acompanhar mais uma aventura de Indy que, de todos os meus heróis, sempre ocupará a posição número 1. Mas, justamente como fã, há algo no filme que me é completamente devastador. Constatar que Indy não é imortal e que, como todos os homens, também ele envelheceu. Ele não decepciona, claro, nunca! E dá conta do recado 99% das vezes. Ainda mostra vigor, força. Continua charmoso, engraçado; não há como dizer que aquele ali na tela não é Indiana Jones.

Meu maior herói também envelheceu...

Mas é que, apesar de ser Indiana Jones, ele não é mais o jovem Indy da trilogia clássica. E mesmo torcendo por ele, neste último filme, não foram poucas as vezes em que senti um desejo desesperado de entrar na tela e pedir para que os vilões não batessem nele, não o machucassem demais. "Será que vocês não percebem que não podem mais tratá-lo desta maneira?!", queria muito dizer para os russos que, como os nazis, não demonstram nenhuma compaixão. Indy está velho. Mais frágil, mais cansado, demonstrando mesmo no seu sorriso mais heróico, que o tempo também passou para ele.

É uma constatação boba, óbvia, quase banal.
Indiana Jones não é mais jovem. Eu sei. Só não quero pensar muito sobre isso.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

POR TRÁS DAS CÂMERAS DE "UM LUGAR QUALQUER"

O IMDB acaba de publicar um featurette exclusivo de "Somewhere" ("Um lugar qualquer"). Apesar de curto, o vídeo oferece alguns insights de Sofia Coppola sobre o novo filme. Para quem, como eu, aguarda ansiosamente pela estreia, recomendo. Não consegui subí-lo para o blog, mas para quem quiser ver, o vídeo está AQUI (em ótima qualidade, por sinal).

DEZEMBRO. COM NAT


Que melhor forma de começar dezembro que com Nat King Cole cantando "The Xmas Song"?

domingo, 28 de novembro de 2010

PARA VER E OUVIR: PEABO BRYSON & REGINA BELLE ("A WHOLE NEW WORLD")


Alguém deveria tombar a voz deste sr. Peabo Bryson como patrimônio da humanidade.

AMOR PLATÔNICO

Sofia Coppola. O que dizer? Provavelmente, 40% deste blog é inteiramente dedicado a ela. Linda, sob todos os aspectos possíveis e imagináveis. Talento e sensibilidade à flor da pele. Doce melancolia. Perfeitamente imperfeita. Musa, ídolo, símbolo. Espelho definitivo da arte que me agrada. Referência inequívoca de como me entendo no mundo. A rainha máxima do silêncio eloquente. Japonesa, suicida, arquiduquesa, um turbilhão de emoções delicadamente sustentadas por um rosto de pura serenidade. Fico na fila para ver uma folha em branco apresentada por Sofia Coppola. Meu cinema de cabeceira. Porque Sofia me entende.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ILUSTRANDO

Pablo Picasso - "Mere Tenant un Enfant"

28/01/2011

Estréia brasileira de "Somewhere" ("Um Lugar Qualquer") marcada para 28 de janeiro de 2011. Agora é esperar.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

PULANDO A CERCA

Vídeo promocional do novo livro do Simon's Cat: "Beyond the fence".

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

AMOR PLATÔNICO

Claire, de "Elizabethtown". Por onde começar para falar de Claire? A cada avião em que embarco fantasio a possibilidade impossível de que ela atenda ao meu voo. Um voo da madrugada, naturalmente. Um red light solitário e silencioso em que ela não consiga evitar me acordar com perguntas impertinentes, mapas de guardanapo e fotografias mentais. Mas ainda assim eu pediria ajuda a Claire para lidar com meus fantasmas e tentaria convencê-la de que ela é tão infinitamente mais especial do que imagina. Claire, difícil de lembrar e impossível de esquecer. Eu a entregaria meu mundo, de olhos fechados, para que ela o mudasse de ponta cabeça. O fracasso, como um sucesso, é só um conceito. Sem dúvidas. Claire, um mapa de som e de fúria, de lágrimas inesperadas e cinzas lançadas em homenagem a um dinossauro ou a uma árvore sobrevivente. Desisti das comédias românticas, Claire. Mas não desisti de você. Do meu microfone imaginário eu te diria, de peito aberto e a plenos pulmões, sem cerimônia: "I like you".

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

HISTÓRIA DE VAMPIRO

Esqueça tudo o que você ouviu falar até hoje sobre vampiros, porque a história que eu vou contar em nada se assemelha à cultura pop e milionária de livros e filmes da atualidade. Essa é a breve história sobre o curto tempo em que eu convivi com Andrzej Popescu.

Quando eu tinha 15 anos, consegui meu primeiro trabalho como assistente num velho teatro no centro da cidade. O local, apesar de ainda ostentar uma fachada art déco e cadeiras de veludo vermelho puído, era um pouco decadente e esquecido como tudo naquele emaranhado caótico de ruas e avenidas. No entanto, aquele era o último reduto que ainda oferecia projeção de filmes antigos e apresentações de peças independentes. Os demais teatros e cinemas do centro, como é comum, já haviam se transformado em pontos de encontro para todas as práticas sociais do submundo. 

Menos o Theatro Apolo. Quem ía até lá queria ver filmes e peças. Não estava interessado em outra coisa além disso. Eram pessoas solitárias, insones, um pouco marginais, que se encontravam ali, nas sessões que aconteciam tarde da noite. Era como se habitássemos numa ilha, cercada de tubarões. Mas ali, naquela ilha decadente, não havia riscos. E eu gostava de trabalhar lá.

O dono do velho teatro era um homem de meia idade, bem apessoado e muito discreto. Andrzej dizia ser filho de ciganos e o fato é que ele falava com certo sotaque. Era difícil adivinhar; a pele tinha um tom castanho incomum, olhos e cabelos muito escuros, mas nenhum traço identificável. Pelo menos não para mim. Mas eu era um menino de 15 anos, não um antropólogo. Ele era estrangeiro, não havia dúvidas. Muito silencioso, reservado, poucas vezes me recordo de ter conversado com ele mais do que alguns minutos e, sempre, para receber instruções. Ele não falava de sua vida ou de assuntos pessoais. Apenas trabalho.

Também o via muito pouco. E somente à noite, quando o espaço funcionava madrugada a dentro. Pela manhã, quando eu ía lá para fazer trabalhos diversos, geralmente nas sextas e segundas, nunca o encontrava. A chave estava, como sempre, escondida atrás de um tijolo falso. Eu entrava, fazia o que tinha que ser feito e ía embora, apenas para retornar à noite. Andrzej vivia como artista. Dormia ao longo do dia para respirar os ares da madrugada. Foi assim durante todos os dias em que convivemos.

Mas ele não era um boêmio. Nunca o vi beber, fumar ou apresentar qualquer tipo de conduta questionável. Nunca. Ele se encontrava com alguns rapazes, à noite, no seu quarto, mas o real sentido deste hábito eu só fui compreender muitos anos depois. Naquela época, ele me dizia que receberia alguns amigos e me dispensava mais cedo. No resto do tempo era um patrão agradável, educado e cordial. Parecia educado demais, até, refinado demais. Como se não pertencesse aquele resto de lugar.

Isso era evidente no seu tom de voz, baixo e melodioso, mas sem afetação. Os gestos contidos, elegantes, o caminhar imponente, de quem parece marchar. Um olhar penetrante, sábio e negro como o de um tubarão; um olhar de quem enxerga de cima, sem se misturar mas, ao mesmo tempo, sem ser pretensioso. Uma expressão impávida e sedutora. Algo de nobre.

As roupas, porém, eram muito simples, mas isso não desmerecia sua postura. Os cabelos, também muito negros, sempre mantidos curtos e nenhum acessório. Não usava relógios, correntes, pulseiras, chapéus. Havia um anel, pequeno, com uma pedra vermelha, que ele mantinha no dedo mindinho. E só. Andrzej era um homem fino, de hábitos simples e que se esforçava, justamente, em não chamar atenção.

Ele seria apenas mais um na multidão se não fosse por uma particularidade. Andrzej era um vampiro.

Mas ele não era sombrio. Não rejeitava crucifixos, nem alho, nem espelhos. Dormia manhãs e tardes inteiras, é verdade, mas de resto, era um homem comum. Se bebia sangue, não sei. Nunca o presenciei fazendo isso. No entanto, tampouco lembro de tê-lo visto bebendo ou comendo qualquer coisa. Andrzej também não dormia num caixão. Na única vez em que vi o seu quarto, quando suspeitei que o teatro poderia ter sido roubado, vi um cômodo pequeno, simples, sem nenhum luxo. Cortinas pesadas, uma cômoda, uma cama de solteiro e só. O quarto parecia muito mais com uma cela num monastério.

Como eu sei, então, que ele era um vampiro, você me perguntaria.

Porque ele simplesmente assim me disse. Foi a única vez em que falou sobre ele mesmo. E, mesmo assim, não me disse em pessoa, mas por meio de uma carta que guardo até hoje. Num dia qualquer em que cheguei para trabalhar, encontrei o lugar completamente abandonado. Primeiramente imaginei que o teatro havia sido assaltado. Subi às escadas nos bastidores em direção ao quarto de Andrzej e não o encontrei lá. Em nenhum lugar. Ele havia ido embora.

A única coisa que havia restado era uma carta, escrita em papel cartão grosso, com uma linda caligrafia e um selo em cera. Coisa de filme, pensei. Andrzej era um fugitivo, como todos da sua estirpe, ele relatou. Nômades, sem lar, sem família, sem laços. Eram hóspedes de um tempo e de lugares que jamais pertenceriam a eles verdadeiramente. Partiam, sem deixar rastro, no momento em que percebiam que seus refúgios poderiam ser maculados. Há algo de sagrado no repouso de um vampiro, como um santuário que não pode ser invadido. É assim que se mantém um segredo tão antigo quanto o homem. Eles estão entre nós, disse-me Andrzej.

"Procure-nos entre os insones, entre os solitários, entre poetas desolados e os músicos mais melancólicos. Procure-nos nas ruas da noite porque nós estaremos lá".

Andrzej me desejou boa sorte. Agradeceu pelos serviços que eu havia prestado e deixou outro envelope com dinheiro suficiente para pelo menos quatro meses de salário. Um tempo razoável para que eu arrumasse outro emprego. Não deixou endereços, nem contatos ou uma pista qualquer de seu destino. Flertava com a luz, dizia ele na carta, mas tomaria precaução em se refugiar num lugar tão confortável quanto o velho teatro. E assinou, sem datar a carta, com um simples "A.P".

Atualmente, já não existe nenhuma sombra do velho Theatro Apolo. Meses depois que Andrzej foi embora, o lugar acabou sendo demolido e reformado. A prefeitura o transformou num centro de auxílio social e recolocação profissional. Até pesquisei, à época, os detalhes da transação para descobrir alguma novidade sobre o paradeiro de Andrzej Popescu, mas fui informado que a prefeitura recebeu o prédio como doação de um estrangeiro que estava indo embora do país. Não havia nenhum detalhe, nada. Andrzej havia desaparecido.

Ainda hoje, tantos anos depois, me pego ocasionalmente pensando onde estaria Andrzej Popescu. Se estaria vivo, se seria mentira toda aquela história, se ele não seria um louco para quem eu havia trabalhado alguns meses. Provavelmente. Eu jamais teria como saber. Mas sempre gostei, secretamente, de imaginar que um dia trabalhei para um vampiro. Melhor, no teatro de um vampiro.

* * *

"Imagine que este conto pertence ao meu bisavô. Meu pai dizia que ele era um ótimo contador de histórias, mas que esta seria a única que ele havia registrado em papel. Era a sua história preferida". 

* * *
"Empresário europeu reforma velho hotel no centro da cidade", dizia notícia do caderno Cidades no dia em que Bento releu o conto do seu bisavô pela centésima vez. Ele folheava o jornal à procura de emprego e a notícia parecia animadora.

Anotou o endereço. Hotel Apolo, aparentemente.

domingo, 21 de novembro de 2010

PARA VER E OUVIR: "HEY JUDE" (DE "ACROSS THE UNIVERSE")

ELES NÃO ESTÃO NEM AÍ...

Talvez por isso, justamente, a gente goste tanto deles...

sábado, 20 de novembro de 2010

SOFIA COPPOLA E O CONFINAMENTO

Me ocorreu que o tema central da obra de Sofia Coppola é o confinamento. Num primeiro instante, mais óbvio, o confinamento espacial, real. Mas, nas entrelinhas, um confinamento extremamente subjetivo (sua marca registrada e que faz seus filmes serem inconfundíveis). Porque os personagens de Sofia, se pararmos para pensar, são prisioneiros circunstanciais e de si mesmos. Eles gostam de contemplar horizontes, de observar janelas, com um olhar perdido como se estivessem buscando por respostas. E, de dentro destas prisões, constroem situações que fazem com que todos os filmes sejam especiais em inúmeras formas. 
As virgens de Sofia Coppola: prisioneiras circunstanciais

Se pensarmos sobre "As Virgens Suicidas", por exemplo, vamos observar um grupo de lindas meninas, reféns de pais excêntricos. Elas são prisioneiras, de fato, daquela casa onde suas liberdades e sexualidades são reprimidas de tal forma que ocasiona o trágico final retratado por Coppola com delicadeza e brilhantismo. As meninas são cativas de seus pais, mas essencialmente são cativas de si mesmas. Da falta de opções, das confusões da adolescência, de uma vida sobre a qual elas não tinham a menor compreensão ou controle. São punidas pela beleza, pelo corpo, pelo medo de seus pais que elas fossem machucadas. "Obviamente doutor, o senhor nunca foi uma menina de 13 anos". Confinadas naquela casa, não havia nenhuma fuga para as meninas Lisbon a não ser aquela que os garotos da rua jamais esqueceriam.
Charlotte e Bob querem fugir. Mas para onde?

Em "Encontros e Desencontros", temos um hotel do qual Bob anseia desesperadamente por um "plano de fuga". Ele quer fugir daqueles compromissos, daquele lugar, daquele idioma incompreensível. Mas, principalmente, ele quer fugir da estagnação da sua própria vida. Um casamento falido, uma carreira desaparecendo, a quase indiferença sobre si mesmo. Charlotte, igualmente presa à sombra do seu marido ausente, perambula pelo hotel e pelas ruas, sem a menor ideia de onde está indo pela simples vontade de se movimentar. "Estou presa", ela diz. Jovem, cheia de dúvidas sobre a vida, o casamento, a profissão, Charlotte observa a janela com os olhos do pássaro que sonha em fugir da gaiola. E os dois experimentam, na companhia um do outro, um suave sabor de liberdade, mas com prazo de validade. Há liberdade enquanto caminham juntos, mas os dois sabem que a separação é inevitável. Para onde fugir, então?

Maria Antoineta. Prisioneira de um palácio de sonhos artificiais

Mesmo em "Maria Antonieta", que poderia ser meramente um filme de caráter histórico, fica evidente essa reflexão. Uma rainha criança, estrangeira, indesejada, aprisionada por um conjunto de regras sociais num palácio que jamais seria o seu lar. "Lá vem a austríaca". Versalhes também é um hotel, se pararmos para pensar, e uma cadeia para Maria Antonieta que, não por acaso, demonstra inúmeras vezes o desejo de quase sufocado de fugir. Luís XVI até fabrica um refúgio para ela brincar de liberdade. Mas não havia nenhuma rota de fuga para Maria Antonieta a não ser uma festa sem fim, "a festa que antecedeu a revolução", para entorpecer a dor de sua existência e que, eventualmente, lhe custaria a cabeça. 

Um hotel nunca é um lar. Expectativas sobre "Somewhere"

As expectativas para "Somewhere", na minha opinião, também não ficam distantes deste pensamento recorrente. Não vi o filme, mas sei o suficiente para imaginar que também aqui Sofia Coppola não se afastará da sua reflexão do confinamento. Um astro de Hollywood, novamente preso numa vida superficial, num hotel de luxo, é sacudido pela visita de sua filha. Uma desculpa, uma rota de fuga ou, pelo menos, um novo prisma para repensar a sua vida.

Sofia Coppola aprisiona seus heróis e tenta compor uma linha, ainda que tênue, que possa dar-lhes uma esperança de fuga. É onde ela parece exorcizar seus fantasmas, suas próprias dores. Sua reflexão sobre a solidão na multidão, possivelmente o pior de todos os confinamentos. Os heróis de Sofia Coppola são frágeis, solitários, silenciosos. E com a ajuda deles ela cria esses filmes delicados, preciosos e absolutamente seus. E, de alguma maneira, "nossos" também. Nós que também enxergamos as dores camufladas, que ninguém faz muita questão de descobrir. Uma honestidade que despe a ela e a nós,  transpirada por todas as cenas, enquadramentos característicos e músicas que, juntos, fazem com que um filme de Sofia Coppola não seja como nenhum outro. Nunca. Sua compaixão pela fragilidade humana comove, é o seu maior trunfo, e a matéria com a qual ela costura estes filmes até imperfeitos, claro, mas simplesmente inesquecíveis.

O FERIADO

Naquela noite, particularmente fria e chuvosa, Joachim sentiu ainda mais medo do homem que gritava no rádio. Trovões e relâmpagos insistentes criavam sombras estranhas no apartamento e faziam aquela voz estridente ecoar pelas paredes e assoalhos como se ele estivesse ali, gigante, monstruoso, cheio de chifres, como Joachim assim o imaginava. O homem no rádio aterrorizava Joachim em seus sonhos e tudo o que ele mais desejava na vida era que ele desaparecesse. 

Correu para abraçar a barra da saia de sua mãe, que repousava diante da janela. Joachim queria saber "quando o homem que gritava no rádio morreria".

"Ele morrerá num feriado, meu filho", disse, olhando-o nos olhos e acariciando o rosto do menino.

Ao que Joachim observou-a, sem entender.

"Porque o dia em que ele morrer será um feriado".

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

ÀS VEZES, TUDO O QUE A GENTE MAIS QUER...

É ficar bem escondidinho...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

ILUSTRANDO

Alguns pôsteres internacionais do filme "Maria Antoineta", de Sofia Coppola
Brasil
Estados Unidos
França
Alemanha
Holanda
Itália (meu preferido) 
Japão
Taiwan

O JANTAR

Chegou mais cedo do trabalho. Intencionalmente. Depositou o paletó sobre a cadeira, com certo zelo e nenhuma pressa. Dobrado em duas partes, usaria novamente no dia seguinte. Colocou algumas sacolas de compras sobre a mesa, arregaçou as mangas da camisa e lavou as mãos com cuidado, entrelaçando dedos, como um cirurgião, na espuma produzida pela água fria que jorrava com força da torneira da cozinha. Não era um dia especial. Longe disso. Era um dia qualquer, mas ele estava determinado a fazer aquele jantar.

Com planejamento, esvaziou as sacolas, organizando itens por categoria e propósito. Um bom vinho a ser resfriado rapidamente. Apenas um susto, para não esfriar demais. Vinho branco, naturalmente.

Frutas da estação, flores comestíveis, folhas variadas, lascas finas de queijo parmesão, presunto cru e um punhado de sementes para compor uma salada colorida, banhada por não mais que um fio de azeite português, um pouco de sal e pimenta do reino.

Um pequenino pote de sorvete de cereja no refrigerador. Para depois. Somente para depois. O gelo machucando delicadamente a ponta dos seus dedos enquanto guardava a iguaria posterior. Sorvete de cereja, um pote pequenino para não cometer exageiros. Não mais que algumas colheradas. Era o suficiente. Mesmo num dia frio e chuvoso como aquele. O suficiente.

Água borbulhante no pequenino fogão de duas bocas. Panelas suadas exalando aromas variados de tomate, cebola, alho, pimenta calabresa, canela, noz moscada. Ervas variadas, um pouco de sal, um pouco de açúcar. No forno, um belo filé de salmão, fresco como se tivesse sido pescado minutos antes.

Para fazer companhia ao peixe vermelho, um pouco de arroz selvagem, alguns legumes e um molho saboroso e levemente picante. Sua receita secreta. 

A sala do pequeno apartamento já estava tomada por um aroma mediterrâneo, como se houvesse, lá fora, um sol amarelo e um mar cintilante, muito gregos, e não aquela chuva forte e acinzentada que fazia tremer a janela. Acompanhou todos os preparativos com olhos atentos, mãos habilidosas, paladar apurado e cuidado com todos os detalhes.

Arrumou a mesa com uma qualidade obsessiva, prestando atenção a todos os itens do seu check-list mental. Toalha de linho (a melhor que tinha), guardanapos de pano, talheres de prata, a melhor louça, os melhores copos, taças. Uma flor solitária, amarela, para adornar o centro da mesa. Um castiçal de prata de três pontas, aceso, para agraciar o ambiente com uma adorável meia luz.

Apagou o fogo, desligou o forno, abriu o vinho para que ele respirasse alguns instantes. Um disco na vitrola antiga acariciando o ar com uma melodia adorável e banal, necessária porém fácil de ser ignorada. Arrumou a louça suja, panelas e utensílhos na pia, um pano com detergente para corrigir eventuais excesssos. Tudo pronto. Decidiu, então, tomar banho.

Arrumou-se também sem pressa e com esmero. Uma camisa branca, calça cinza, ambas de algodão. Confortáveis e elegantes. Sapatos pretos, cabelos penteados, barba, colônia. Mangas dobradas, cinto, relógio.

E caminhou lentamente para a sala. Serviu-se dos pratos, sem exageiro. Primeiro a salada, depois o peixe. Um gole de vinho para antecipar os sabores que estavam por vir. Guardanapo dobrado sobre o colo. Um lindo guardanapo. E uma luz trêmula e confortável dançando sobre a mesa.

E, então, apreciou sozinho o seu jantar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

AMOR PLATÔNICO

Maria Callas. Não sei bem até que ponto é um mundano amor platônico ou desejo espontâneo de serví-la como quem anseia servir a uma rainha. É um amor respeitoso, de quem observa à distância sem o atrevimento de se aproximar demais. Nós e ela. Diva, máxima, inigualável, incompreendida, insuperável. Beleza transpirada, respirada, consumida numa voz trêmula inconfundível, um rosto de arte, uma alma atormendada. Um pássaro de asas quebradas. Uma semideusa mediterrânea, imperfeita. Eterna.