domingo, 14 de novembro de 2010

SIGO-OS TODAS AS VEZES

Pela... centésima vez me proporciono uma sessão de "Lost in Translation" em minha própria - insone - companhia. É a melhor hora e, provavelmente, a melhor forma de se ver "Lost in Translation": uma sessão solitária, silenciosa e insone. A hora e meia que passa mais rápido de todas no relógio. E a saudade que fica, latejante, como na primeira vez. Sigo-a na rua e sigo-o na limousine. Todas as vezes. Mas me perco no caminho ou então simplesmente fecho os olhos ao som de The Jesus and Mary Chain. Como mel. Toda as vezes. Bob e Charlotte. Já estou morrendo de saudades.

Agora irei dormir.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

PAUSA PARA O LANCHE...

Novo filme do Simon´s Cat já disponível na página oficial do YouTube. Como todos, imperdível e absolutamente fiel à realidade...

PARA VER E OUVIR: SARAH MCLACHLAN ("LOVING YOU IS EASY")

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O MOTIVO NA RUA

As ruas, de uma forma ou de outra, são uma espécie de "não-lugar". Assim as entendo, pelo menos. Porque elas são sempre um ponto de transição entre um lugar e outro, nunca o destino final. Ninguém vai para a rua para estar na rua. Ela é um meio. O que é uma pena, acho, porque há um charme, uma atmosfera, uma alma na configuração destes não-lugares. 

A rua é pública, por natureza, e nos obriga - queiramos ou não - a partilhar nosso ar, privacidade, imagem, metro quadrado. Nada é nosso verdadeiramente. É o expoente máximo do socialismo. E mesmo que sejamos donos de um determinado pedaço, é sempre uma posse provisória porque rapidamente abandonamos a propriedade em detrimento de outra ao seguirmos um caminho.

Bom, onde quero chegar com mais essa reflexão de filósofo de orelha de livro? É que vejo, ocasionalmente, que muitas pessoas desconfiguram o não-lugar das ruas e fazem delas um ponto final. Um destino, mesmo que momentâneo.

Da janela do meu trabalho, por exemplo, tenho a chance de observar uma série de cruzamentos de ruas e, por se tratar de um centro comercial, esse espaço é um formigueiro diário de carros e pedestres. Que vem e que vão por entre as entradas, saídas, curvas e esquinas.

Mas eis que, nesta costura de caminhos anônimos, vejo alguém sentado sem nenhum desejo aparente de chegar a algum lugar. E não estou falando de pessoas que vivem nas ruas; esta não é uma reflexão de caráter social. Estou falando de pessoas comuns, que sairam pela manhã de suas casas e que, num dado momento do dia, param na rua por algum motivo. Ou sem nenhum motivo aparente.

Estarão pensando em algo? Algum tipo de aflição, preocupação? Um telefonema inesperado os imobilizou? Cansaço? Desânimo? Descanso? Vejo que estas pessoas param, não para aproveitar um banco ou sombra oportunos. Muitas vezes não há nenhum destes refúgios por perto. Estas pessoas simplesmente param, como se estacionassem o corpo momentaneamente. Na rua. E ficam ali, sentadas no chão, ou mesmo de pé, por alguns minutos, como se estivessem precisando organizar algo. Ideias, talvez. E, então, retomam o caminho.

Não sei se faz muito sentido esta minha reflexão ou se estou conseguindo configurá-la, em palavra escrita, da forma como penso. Provavelmente não. Pode parecer uma banalidade - e possivelmente é - mas desde sempre tive o hábito de refletir sobre o "irrefletível", algo que me rendeu dezenas de interrogações infrutíferas na escola, por exemplo. Talvez porque eu sempre tente enxergar além da realidade dos fatos ou sinta uma necessidade orgânica de encontrar profundidade onde muitas vezes ela não exista (e nem precise existir).

O fato é que da minha janela eu acompanho dezenas de pessoas, todas as semanas, que decidem interromper o desejo de ir do ponto A ao ponto B para, simplesmente, ficarem onde estão.

Eu só gostaria de saber o porquê.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

"O BOCÓ", DE MANOEL DE BARROS

"Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas
na beira do rio até duas horas da tarde, ali
também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaia
de ver aquele moço a catar caracóis na beira do
rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça
de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse
com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço
ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo
a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa
era ser bocó. Achou cerca de nove expressões que
sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E
separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é
sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é
uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de
conversar bobagens profundas com as águas. Bocó
é aquele que fala sempre com sotaque das suas
origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É
alguém que constrói sua casa com pouco cisco.
É um que descobriu que as tardes fazem parte de
haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que
olhando para o chão enxerga um verme sendo-o.
Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi
o que o moço colheu em seus trinta e dois
dicionários. E ele se estimou”.
Manoel de Barros

domingo, 7 de novembro de 2010

AMOR PLATÔNICO

Charlotte, de "Lost in Translation". Alma gêmea. Paixão instantânea, fulminante e irrecuperável. Até hoje sonho em dividir uma janela em sua companhia, correr as ruas de Tóquio ao seu lado e partilhar com ela todas as minhas angustiosas incertezas. Meu amor platônico eternamente perdido na tradução, eternamente trancafiado dentro de um filme, intocável a não ser pela ação dos sonhos. "Are you awake?", ela me perguntaria. Sim. Sempre. Infelizmente. Meu amor platônico, doce como mel.

ILUSTRANDO

Mais um lindo desenho de Amaílis Lage (Blog Cartolina) que, como quase todos dela, me atravessam a alma com essa profunda simplicidade. É mais pura (e triste) verdade. Eu achava que esse "verão" jamais passaria. Mas não é que ele passa?

sábado, 6 de novembro de 2010

SÓ UM GOSTINHO...

Para o deleite dos fãs (eu entre eles), a Focus Features acaba de lançar um trecho do novo filme da Sofia Coppola, "Somewhere" ("Um lugar qualquer" é o possível título do lançamento brasileiro). A história narra o conflito existencial de um ator de Hollywood (Dorff) que vê seu mundo mudar com a visita da sua filha (Fanning). O Chateau Marmont, tradicional hotel californiano, será o principal cenário da história que, segundo alguns críticos, pode ser considerada uma irmã espiritual de "Encontros e Desencontros". O breve trecho me faz concordar, resta esperar. O filme chega aos cinemas americanos em 22 de dezembro deste ano. Para ver, basta CLICAR AQUI.

A trilha sonora oficial (algo tão aguardado quanto os filmes) também já foi divulgada:
Love Like a Sunset Part I (Phoenix)
Ghandi Fix (William Storkson)
My Hero (Foo Fighters)
So Lonely (The Police)
1 Thing (Amerie)
20th Century Boy (T.Rex)
Cool (Gwen Stefani)
Che si fa (Paolo Jannacci)
Cool (Gwen Stefani)
Teddy Bear (Romulo)
Love Theme From Kiss (Kiss)
I’ll Try Anything Once (The Strokes)
Look (Sebastian Tellier)
Smoke Gets In Your Eyes (Bryan Ferry)
Massage Music (William Storkson)
Love Like A Sunset Part II (Phoenix)

SOBRE MOMENTOS

"Quando me lembro de Lisa, não é do seu trabalho ou suas roupas que me recordo. Mas do seu cheiro, seu gosto, e a sensação de sua pele na minha".

Com essa reflexão começa o surpreendente e minimalista "9 Songs" ("9 Canções"), filme de Michael Winterbottom sobre dois jovens que se conhecem em Londres e vivem um relacionamento intenso, apaixonado, extremamente carnal, tendo como cenário uma série de shows e concertos na capital inglesa. 9 shows, como sugere o título, de bandas como Franz Ferdinand, Elbow e Primal Scream. O primeiro impacto surge, obviamente, com as cenas explícitas de sexo, algo estranho para um filme totalmente mainstream. Mas, ao mesmo tempo, as cenas altamente gráficas e realistas não são em nenhum momento gratuitas. A maneira como o filme é feito (belamente dirigido e editado, diga-se de passagem) cria uma atmosfera de tamanha intimidade entre os dois atores e, inevitavelmente, entre eles e nós (expectadores) que não dá para se chocar muito tempo com as cenas explícitas. Porque é um filme com o qual podemos nos identificar. Quem quer que já tenha vivido um relacionamento profundo, passional, desesperado, imediatamente se relacionará com a relação de Lisa e Matt, escancarada por pouco mais de uma hora na tela. 
9 canções marcam o começo e o fim (?) de um relacionamento passional entre Lisa e Matt

Existe arte, jamais exploração, no retrato dos corpos, dos beijos, das explosões de paixão e desejo. É tudo muito humano e verdadeiro. Amor, medo, solidão, insegurança, dúvida. Uma incerteza sobre a fragilidade da vida que imediatamente me fez lembrar de filmes como "Lost in Translation" e "Antes do Amanhecer". A ideia de ser jovem, estar apaixonado, e não desejar nada na vida a não ser aquela pessoa que é o alvo inequívoco do nosso amor. Lisa e Matt vivem algo intenso, físico e melancólico que cria um retrato fiel da relação verdadeira entre um homem e uma mulher: a descoberta, a entrega, o estranhamento e, naturalmente, a separação.
Matt e Lisa se amaram por um verão e 9 canções

Matt sobrevoa a Antártida, enquanto se recorda de Lisa. Por que fugir para o canto mais gelado do mundo justamente para lembrar de um tempo em que seu corpo e alma pegavam fogo? Há algo profundo neste pequeno e delicado filme mas que, ao mesmo tempo, é um terremoto de silêncios eloquentes. Um filme surpreendente para quem se permitir despir de preconceitos e banalidades. A morte, como o amor, fazem parte da existência. Por que haveríamos de nos espantar com a exposição de algo que é tão inerente a nós?
Permita-se (não) se chocar pelo explícito em "9 Songs" e você se surpreenderá com esta história minimalista sobre a efemeridade


"9 Songs" é um filme que fará você pensar por bons minutos quando subirem os créditos, disso eu tenho certeza. A necessidade de finais felizes, ou quaisquer finais por assim dizer, é algo muito supérfluo se pararmos para refletir. A vida, morte, dor, sexo, alegria, melancolia. Tudo que compõe a existência é constituído por momentos. Uma costura incessante de breves momentos. É dessa matéria misteriosa que se fazem as memórias. E foi sobre isso que "9 Songs" me fez refletir.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

"GARRAFA"


Adoravelmente triste. Curta de Kirsten Lepore.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

ALICE E A ÁRVORE

No ano de 1983, Alice completou 4 anos e seus pais compraram uma casa com um enorme jardim. Na verdade, era um pequeno quintal onde mal cabiam uma mesa e um punhado de cadeiras, mas para os olhos de Alice, era um jardim gigante, repleto de segredos e mistérios. Não havia nada ali, além da grama e uma árvore solitária. 

Mas Alice descobriu, rapidamente, que amava aquela árvore. E a abraçou carinhosamente no primeiro dia em que chegaram à nova casa. Quando a menina sumia, algo que adorava fazer, várias e várias vezes seus pais a encontravam abraçada à árvore que, naturalmente, foi batizada de "A árvore de Alice"

Sob a sua sombra, Alice comemorou seu aniversário de 5 anos. Ao seu redor, conduziu chás e casamentos entre príncipes e bonecas. Colecionava suas folhas caídas e gostava de comparar as manchas na casca a zebras e tigres africanos. 

Alice amava a sua árvore mas, com o tempo, também começou a se entediar dela. 

Sentia raiva, porque a árvore nunca se mexia, nunca emitia som qualquer. Alice a chutava com força, mas ela não respondia. No verão e na primavera, a situação amenizava, porque Alice gostava de ver a a sua árvore cheia de vida. Mas no outono e no inverno se enfurecia novamente, porque a árvore estava feia e triste. "Fale!", Alice gritava a plenos pulmões, os olhos cheios de lágrimas. "Ande!". "Não perca as folhas!". Mas a árvore nunca respondia. Era difícil para a árvore vencer sua natureza de árvore e agradar à menina.

Os anos passaram, Alice cresceu e foi uma questão de tempo para que as visitas à árvore se tornassem cada vez mais esporádicas. Alice já não dava muita bola para ela e às vezes meses se passavam sem que ela sequer se lembrasse da existência daquela árvore solitária que havia visto a menina crescer.

Quando Alice completou 19 anos foi morar em Roma. Lá conheceu um rapaz de pé no chão e olhar nas estrelas que viria a ser o seu marido por toda a vida. E no dia em que descobriu que estava grávida, foi como se tivesse tido uma revelação. Ela precisava voltar. Precisava saber que sua árvore ainda estava de pé, solitária, no quintal da casa dos seus pais.

Chegando em casa, correu para o quintal e ninguém conseguiu celebrar apropriadamente a notícia da gravidez de Alice. Ela queria correr para o quintal. Queria abraçar sua árvore e dizer para ela de tudo que havia acontecido em sua vida. Ela estava grávida e a árvore precisava saber.

Atravessou a porta dos fundos com medo de não encontrar a sua árvore solitária, mas eis que descobriu que há muitos anos a árvore não estava mais sozinha. Seu pai havia erguido um pomar modesto, que abraçava a árvore como um colar furtacor. E entre frutas e flores, de todas as cores, lá estava ela. De pé, com a copa cheia. Como se estivesse vestida para receber Alice.

Alice correu e abraçou a árvore com uma saudade repentina que se transformou numa chuva de lágrimas inesperadas. Uma sombra enorme criava um santuário sobre Alice e seu filho, como num templo. Um vento fresco mexia folhas e cabelos numa sinfonia de sensações que fizeram Alice fechar os olhos. Pássaros cantavam sons variados como se parlamentassem. E Alice teve certeza que a árvore a abraçava de volta.

Ali, naquela casa, Alice viveria com seu marido por longos anos. E, naquela mesma casa, numa manhã agridoce, cheia de chuvas e silêncios, os dois também terminariam juntos a vida. Uma casa de lembranças felizes, um pomar colorido e uma árvore solitária que definhava lentamente no quintal.

MEU QUERIDO PRESIDENTE

Não tenho a menor dúvida em dizer que Jânio Quadros é uma das melhores coisas que o Brasil já inventou. E não falo aqui de política, economia, história ou mandato presidencial. Porque o presidente não me desperta tanto interesse quanto a figura de Jânio. Ele era um personagem de livro. Um personagem vivo, detentor de diálogos impensáveis, improváveis e absolutamente geniais. Ele não queria agradar ninguém - longe disso - possuia opiniões polêmicas e um domínio monástico da última flor do Láscio. Falava tão bem o português que nós, terráqueos ignorantes, achávamos que ele falava errado. Jânio nunca pertenceu a essa dimensão, acho. A esse planeta. Era um extraterrestre, um adorável extraterrestre, como tantos que já passaram pela Terra. Para enriquecer essa minha reflexão, faço referência a um post maravilhoso do blog do Augusto Nunes. Nunes, que teve o privilégio de conviver com Jânio, narra em seu blog diversas passagens impagáveis. A minha preferida é a que ele narra um encontro com o neto de Jânio, o economista Jânio John Quadros, americano, nascido em Houston. Falando português, com forte sotaque texano, o neto de Jânio se recorda de alguns momentos em companhia do avô, como na vez em que quis saber por que Jânio se dirigia a ele por "senhor". Ele tinha 8 anos quando interrompeu o avô com esta indagação. Ora, se ele podia chamar o avô por "você", por que diabos o avô chamava seu neto, um garoto de 8 anos, por "senhor"? Ao que Jânio respondeu, sem cerimônia, que "o protocolo proíbe intimidades entre um ex-presidente e meninos imbecis. Imbecis e insolentes como o SENHOR". Com uma mistura de carinho e devoção o neto define em poucas palavras o avô: "ele era maluco".

OS CAMINHANTES DE UM CAMINHO (AINDA) INCERTO

Assisti, com muita expectativa, a estreia na FOX do episódio-piloto da série "The Walking Dead". Sou um fã confesso de filmes de zumbi. Simplesmente adoro histórias sobre a temática, porque possuem uma curiosa mistura de terror, humor e pós-apocalipse que funciona muito bem (pelo menos para mim). Filmes como "Madrugada dos Mortos", por exemplo, já perdi a conta de quantas vezes revi. Bom, a série tenta transportar para a TV essa linguagem que consagra os filmes de zumbi ao contar uma misteriosa epidemia que assola os Estados Unidos repentinamente transformando cidades inteiras em desertos repletos de mortos-vivos. 
O seriado é baseado em histórias em quadrinhos e cria com muito cuidado a atmosfera de caos e perigo do mundo pós-apocalíptico

"The Walking Dead" é baseado em quadrinhos de Robert Kirkman e produzido por Frank Darabont e Gale Ann Hurd (conhecidos pela produção de "Um sonho de liberdade" e "O exterminador do futuro"). Bom, o episódio-piloto não é nada tão extraordinário a ponto de me deixar sedento por novos capítulos, mas é competente em, pelo menos, instigar a curiosidade. Há tudo o que se pode esperar de uma boa história de zumbis: um policial baleado acorda de um coma num quarto de um hospital destruído. Caminha por ruas desertas para descobrir que sua família sumiu e que algo muito estranho está acontecendo. Mortos-vivos caminham a céu aberto e poucos sobreviventes se escondem em casas abandonadas. O policial Rick Grimes (Andrew Lincoln) resolve então se armar até os dentes e rumar para Atlanta, onde supostamente há um abrigo que oferece resistência. No caminho, sangue, tripas e cabeças explodidas. É basicamente isso. O episódio inicial é bom (não é extraordinário) e, para mim, exagera levemente na vontade de comover ao nos obrigar a simpatizar rapidamente com os personagens iniciais. Não sei dizer se será uma boa série. Para começar, está mediano. Pouco suspense, nenhum susto, sanguinolência moderada. Há algo de belo e tosco em filmes de zumbi que precisa ser respeitado. Se "The Walking Dead" fizer isso, o sucesso do seriado será uma questão de tempo. Mas promete.

 

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

TODO MUNDO CONHECE UM GATO COMO O DO SIMON

Para quem adora os vídeos impagáveis do gato do Simon ("Simon´s Cat"), criação de Simon Tofield, uma ótima notícia: o famoso gatinho impertinente, folgado e autoritário acaba de ganhar "o seu próprio livro" para a alegria de mais de 25 milhões de fãs. O livro é adorável, recheado de ilustrações complementares às desventuras do gato.
Além das travessuras convencionais, conhecemos também um pouco mais do rico universo do bichano, que envolve muitos amigos, caçadas a passarinhos, frustradas aproximações com o sexo oposto e uma curiosa amizade com um anão de jardim."Todo mundo conhece um gato como o do Simon" diz a contra-capa. É a mais pura verdade.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

FÉRIAS EM TWIN PEAKS

Assistir a todos os episódios das (infelizmente apenas) 2 temporadas de Twin Peaks é como tirar férias. Mas não férias comuns, longe disso. Férias marcadas por muita excentricidade, chuva na janela, café fumegante, pessoas pitorescas e muitas fatias de torta de amora. Porque chega um ponto em que já nem importa mais tanto o mistério em torno do assassinato de Laura Palmer, ou das esquisitices que orbitam a pequena cidade americana que, por alguma razão mágica, física ou por mera coincidência, é um imã para todo o tipo de gente estranha. Acompanhar Twin Peaks até o final - mergulhando de cabeça no "sentido sem sentido" de David Lynch - é de alguma forma se sentir parte daquela comunidade que parece habitar um tempo próprio, uma dimensão própria. É como se conhecêssemos aquelas pessoas e lugares: a lanchonete da Norma, a serraria, a delegacia, o hotel Great Northern, as andanças do agente Cooper, personagem impossível de não adorar. Aliás, vale assistir aos episódios de Twin Peaks simplesmente para acompanhar Kyle Maclachlan que está perfeito no papel do excêntrico agente do FBI. Chega um ponto, sobretudo nos episódios finais, em que a cidade se torna uma ópera do absurdo, com paixões repentinas, alienígenas, possessões espirituais, portais dimensionais, projetos secretos das forças armadas, anões que falam de trás para frente e mapas rupestres. E até desejamos descobrir - ou não - se toda essa teia sem pé nem cabeça chegará a algum lugar. Mas esta é uma curiosidade menor, se comparada ao sentimento de empatia que inevitavelmente desenvolvemos por aquelas pessoas e situações. Nos tornamos vizinhos e, de uma maneira ou de outra, cúmplices da insensatez de Lynch. E é uma surpresa, quando sobem os créditos finais; a saudade que fica. Porque somos obrigados a ir embora de Twin Peaks. As férias chegam ao fim. Mas, como o próprio Dale Cooper, tudo o que mais queremos no mundo é ficar por lá.

"OS OUTROS CARAS"

Will Ferrell e Mark Wahlberg surpreendem ao compor uma dupla - improvável - e que funciona. Bem. Muito bem. Os dois protagonizam o filme "The Other Guys" ("Os Outros Caras"): uma aventura bem sessão da tarde (no melhor sentido possível) que narra a vida de dois policiais que, por coincidência, acabam trabalhando como parceiros em Nova York. Gamble (Ferrell) é um policial da contabilidade forense (com um passado universitário muito duvidoso) e que nos dias de hoje investiga fraudes imobiliárias. Hoitz (Wahlberg) é um tira sangue quente que paga caro por um erro estúpido no começo de sua carreira. Trabalhando juntos, os dois se veem numa constante relação de amor e ódio em plena investigação de um bilionário que parece envolvido até a cabeça num golpe junto à loteria federal. 
Will Ferrell e Mark Wahlberg dão vida a uma dupla maravilhosa e improvável

Confesso que esse filme me surpeendeu. Mesmo sendo um fã incondicional do Will Ferrell (até em seus filmes mais condenáveis), não esperava muita coisa aqui. Mas Ferrell está impagável, bem à vontade, nitidamente improvisando em algumas cenas como ele adora fazer. Wahlberg, por sua vez, só tem me dado provas de que é mesmo um ator que merece respeito e atenção, não importa o tom e a importância do filme. Os dois, juntos, compõem um conjunto que funciona deliciosamente e que me rendeu risadas inesperadas. Poucas vezes consigo gargalhar sozinho, gargalhar alto, e esse filme conseguiu isso sem esforço. Os diálogos são bons, as cenas de ação são muito bem feitas, há uma ótima participação especial do Samuel L. Jackson, mas o que vale é o conjunto. São os olhares, situações, o desenrolar de eventos. É um típico filme para quem gosta de Will Ferrell, mas com um excelente contrapeso de Mark Wahlberg, que também mostra um interessante timing para comédia. Ótimo filme para quem quer um pouco de ação recheada de humor de qualidade (pastelão, naturalmente). Imperdível para fãs e para quem anda em busca de risadas renovadas. Ao invés de trailer, porém, compartilharei uma cena maravilhosa que ilustra perfeitamente a experiência de acompanhar as loucuras dos "outros caras". Nada demais, uma happy hour, após um dia estressante no trabalho.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

DIZEM QUE CHAPÉUS VOLTARAM À MODA...

Concordo.

ILUSTRANDO

Vermeer - "Moça com brinco de pérola"

AMOR PLATÔNICO

Começo novembro inaugurando uma nova categoria no blog: "Amor platônico", reflexões sobre todas as mulheres reais, ficcionais ou meramente imaginárias, pelas quais já me enamorei em algum momento da minha vida mas sem a menor possibilidade de correspondência. Para inaugurar a série, ninguém melhor que a Rainha malvada da Branca de Neve. Enquanto todos sempre se derretiam pela doçura da Branca de Neve, era o charme perigoso da rainha que mexia com o meu imaginário. E partilho esse amor platônico com Woody Allen, que também preferia a Rainha bruxa à Branca, quando era criança. Foi quando ele descobriu "que havia algo errado". Acho que eu, como ele, sempre tive um fraco por "mulheres kamikaze". Bom, aí está. A Rainha malvada da Branca de Neve. Um dos meus primeiros amores platônicos (mal resolvido até hoje, confesso).

domingo, 31 de outubro de 2010

PAPO DE GATO


Para outubro terminar como começou. Com um "papo de gato", novo vídeo do Gato do Simon.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

MUNDOS MUDOS


Ser deixado sozinho no carro, quando criança, foi uma experiência aterrorizante para o fotógrafo Martin Usborne. Ele simplesmente achou que seus pais nunca mais voltariam e essa imagem ficou guardada para sempre no seu imaginário. Esse pensamento, eventualmente, o levou a refletir sobre a incapacidade dos animais de falarem, o que os deixa tão vulneráveis e indefesos. Algo que o próprio Napoleão Bonaparte também se questiona em suas memórias (o que querem dizer os animais?). A partir desta ideia, surgiu o ensaio "Mute: the silence of dogs in cars" (Mudo: o silêncio dos cães nos carros). O resultado é surpreendente.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

ILUSTRANDO

Edvard Munch - "Friedrich Nietzsche" (1906)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A DELICADA TRILOGIA

Quanta beleza, quanta eloquência, quanta delicadeza espalhadas por estes três filmes tão especiais que tive o grato prazer de rever. Na primeira vez que vi, anos atrás, não dei devido valor a esta mágica trilogia; mas a idade favorecia isso (acho que não tinha nem 15 anos quando vi pela primeira vez). Não havia apurado o paladar, acho. Hoje, com tantos mais anos e um olhar muito mais apurado, tive o deleite de redescobrir a "A Trilogia das Cores" ("Bleu, Blanc, Rouge") como ela deve ser apreciada: como uma experiência cinematográfica.

Juliette Binoche, maravilhosa como sempre, em "Azul".

São três filmes, escritos e dirigidos com grande maestria, por Krzystof Kieslowski. "A liberdade é azul" (Bleu); "A igualdade é branca" (Blanc) e "A fraternidade é vermelha" (Rouge). Três histórias sobre pessoas comuns, em situações incomuns, com destinos entrecortados pelas ruas de Paris. Os três filmes, porém, não são sequências um do outro; muito mais um panorama em três partes sobre uma profunda e extremamente comovente reflexão sobre a dor de existir. No caminho, vida, morte, sexo, perdas, traições, decepções, descobertas. No entanto, apesar de não haver uma lógica linear entre os três, eu acredito que é ideal assistir os filmes conforme a ordem das cores da bandeira da França: Azul, Branco e, então, Vermelho. 
"Branco": uma surpreendente história de amor e vingança

Assistindo nesta ordem, acredito, há uma percepção mais completa do que as três histórias querem construir. E há uma cadência muito evidente neste sentido. Em "Azul", vemos uma história se desenrolar com muito cuidado, lentamente, em explosões contidas, tendo o tom azul marcando uma história melancólica e dolorida, vivida pela sempre maravilhosa Juliette Binoche. Uma mulher precisa aprender a lidar com a perda de sua família e encontrar na sua dor a sua libertação. Um filme silencioso, discreto, comedido, como um cristal que pode se quebrar a qualquer momento. 


Em "Branco", o tom muda um pouco, fica mais ensolarado, ainda que carregue um pouco da melancolia deixada por "Azul". Acompanhamos o fim de um casamento entre um polonês e sua mulher francesa e os desdobramentos deste suposto fim de relacionamento. A imensidão gelada da Polônia cobre o filme com um grande manto branco que também é reforçado pela metáfora do casamento (vestido branco, véu branco). É encantador acompanhar as surpresas que a vida traz para o pobre Karol, um imigrante completamente perdido na tradução que chega a virar sem-teto em Paris por breves momentos até que o destino mostra que os homens são todos iguais e a história se transforma como mágica, como sonho. Um filme que, pouco a pouco, prepara o terreno para a explosão em vermelho a seguir.


Por fim, "Vermelho" é um deslumbramento. O filme é fiel à cor e trata de amor: fraterno, amoroso, do cuidado entre os seres humanos; a dignidade (ou a perda dela). É um vermelho de paixão que se reflete em inúmeras situações em torno de uma modelo que se vê presa entre o resgate de uma cadela atropelada, a amizade com um juiz excêntrico, o cuidado a um irmão problemático e a necessidade de reinventar a sua própria vida do outro lado do Canal da Mancha. Como nos outros dois filmes, a cor vermelha desfila pelas cenas só que de forma mais intensa, uma real explosão que não nos deixa esquecer em nenhum momento o tom que marca a história.


"Vermelho": um deslumbramento do começo ao fim e um final comovente para esta delicada trilogia

A experiência de ver os três filmes de uma vez, em sequência, rende uma grata satisfação ao final. O desfecho, a costura final, é surpreendente e comovente de uma forma como poucos filmes me tocaram. É uma beleza inacreditável, transpirada nos instantes finais, como uma constatação óbvia, mas ao mesmo tempo, surpreendente. Uma reflexão sobre a dor de existir. E, ao mesmo tempo, uma ode a ela.

domingo, 24 de outubro de 2010

O INOMINÁVEL SEGREDO DE GASPAR SOLANO

Gaspar odiava seu trabalho, sua vida, mas especialmente, o plantão da quinta-feira. Odiava. Todos odiavam. Era o notório "plantão solitário". Ninguém, absolutamente ninguém, ficava no Instituto Médico Legal a não ser pelo solitário plantonista. Nem mesmo o idoso segurança, que justamente neste dia tirava a sua folga semanal. O plantão da quinta-feira era uma longa noite de silêncios sepulcrais e barulhos eventuais que, misteriosos, faziam gelar a espinha.

Nunca havia acontecido um dia sequer de ação no plantão da quinta-feira. Nada de atropelamentos na madrugada; corpos baleados, esfaqueados, indigentes perdidos. Nada. Era como se houvesse um acordo com os astros. Na quinta-feira, o solitário plantonista não teria direito a qualquer diversão que não a sua própria companhia, café velho, água quente e uma pequena televisão cheia de chiados e fantasmas.

Gaspar chegou para o plantão e encontrou todos, de maletas e bolsas prontas, despedindo-se com contagiante satisfação. Todos saiam, ele entrava. O velho prédio colonial, de paredes carcomidas, chão de assoalhos soltos e janelas embaçadas tinha um aspecto de mausoléu. Um ouvido mais atento - ou atormentado - juraria que os corredores respiravam, calmamente, por entre as sombras. Curtas passadas de vento davam a impressão que transeuntes anônimos passeavam por ali. Dobradiças rangendo, cortinas puídas dançando, estalos na tubulação velha e um grande salão de armários e geladeiras repletas de corpos. Era preciso muito sangue frio para aguentar o plantão da quinta-feira e Gaspar ainda tinha suas dúvidas se tinha condições para isso. O aluguel ao final do mês, porém, não deixava muita opção.

Chovia forte. Trovões eventuais e um vento mais forte espancando as janelas velhas faziam Gaspar saltar da cadeira como se tivessem jogado água quente em seu colo. Murmurava um punhado de palavrões feios e praguejava contra o emprego como quem faz uma oração. 

A única atividade oficial da noite já havia sido feita: catalogar a última entrada do expediente, um homem de meia idade, cabelos brancos, sem marcas no corpo, sem documentos, bem vestido, encontrado morto na calçada por volta das 23h. Uma comprida etiqueta pendia do dedão azulado, como um mórbido colar. Gaspar deu um pequeno tapa na etiqueta, que balançou rapidamente, enquanto fechava o armário da câmara fria com desinteresse. O fecho estava quebrado e era preciso dar uma pancada forte, que parecia reverberar o edifício inteiro. Não havia nenhuma outra gaveta livre e Gaspar teve a certeza de que a porta não estava devidamente fechada. No dia seguinte, possivelmente, ninguém iria suportar o cheiro e, quem sabe, haveria algumas horas livres longe daquele lugar esquisito e fétido onde um punhado de pessoas infelizes ganhavam a vida.

Desceu, sem pressa, para a pequena sala na recepção, no andar inferior. Encostou-se na cadeira, pôs os pés descalsos sobre a mesa, e em poucos instantes já pestanejava diante de um diálogo monótono num destes filmes da madrugada que só damos algum valor em noites insones. Nem percebeu quando já dormia profundamente.

Barulho. Alto. Forte. Dezenas de objetos derramados no chão.

Gaspar levantou de um salto da cadeira, ainda confuso, sem saber separar sonho e realidade. Praguejou por conta do susto e pôs a mão no lado esquerdo do peito, que metralhava num compasso frenético e embriagado de adrenalina. Não havia nenhuma explicação para aquele barulho no piso superior, como se crianças estivessem brincando num quarto pequeno. E Gaspar sentiu medo. Muito medo. Enxugando um punhado de lágrimas curtas que, surpreendentemente, nasciam no canto dos olhos, teve a certeza, enfim, de que não queria ficar mais naquele lugar. Engoliu seco. Pegou uma lanterna que engasgava e uma vassoura.

E subiu, passo ante passo, pés descalços sobre o assoalho frio, como se houvesse uma gravidade diferente na escada. Ou melhor, como se não quisesse completar o percurso. Do final da escada, avistou uma luz ao final do corredor. De onde guardavam os cadáveres. Sentiu o coração acelerar em sua boca. A saliva desapareceu. As mãos tremiam e orações mal fundamentadas não ajudavam em nada em seu espírito que misturava pavor e curiosidade. Seguiu em frente, a passos curtos, como se a gravidade elevada da escada estivesse contagiando o corredor. Mais barulho de objetos derrubados. Queria e não queria descobrir a origem da luz.

Ao chegar na porta, posicionou o seu corpo como uma criança que tenta espiar aquilo que os adultos não a permitem ver. Esgueirou-se e, ao posicionar o olho esquerdo dentro do cômodo, avistou um homem nu, estirado no chão, ao pé de uma mesa virada, com diversos instrumentos espalhados no chão. O homem balbuciava alguma coisa e, ao ver a presença trêmula de Gaspar à porta, estendeu a mão azulada como que em súplica. "Me ajude...".

Foi quando Gaspar percebeu que aquele era o último homem da noite, que havia sido encontrado logo no começo da madrugada e dado como morto. Possível parada cardíaca. Praguejou novamente a incompetência decorrente do desespero em se encerrar o expediente. Ele havia trancado um homem vivo, entre os mortos, e para o seu azar ou sua sorte, o fecho quebrado permitiu um último suspiro de liberdade aquele homem nu, sem nenhuma dignidade, deitado no chão não como homem, mas como algo.

Gaspar esqueceu do medo, do pavor, do susto. Havia se tornado um homem prático naquele instante. Correu ao encontro do homem, segurou o seu braço e o ajudou até uma cadeira. O corpo gelado tinha uma textura diferente ao toque; parecia realmente segurar um pedaço de carne num frigorífico. O homem continuava balbuciando coisas sem sentido e sem responder a nenhuma de suas perguntas práticas. "Nome?", "família?", "o que houve?". Enrolado num lençol amarelado, o homem voltava à razão quando Gaspar percebeu sinais de embriaguez. 

Num lapso curto de pensamentos encadeados e concretos, o homem explicou o pedido urgente de ajuda. Falou sobre uma intriga confusa de homens e dinheiro que levou Gaspar a pensar em filmes sobre a máfia, enquanto o homem falava sem parar à sua frente. Mas voltou a atenção rapidamente ao narrador quando ouviu as palavras "carro, mala, duzentos mil dólares, chave, escondida". O homem estava pedindo auxílio para recuperar o dinheiro guardado num carro na rua e fugir. Naturalmente, Gaspar seria remunerado por sua ajuda providencial. 

Breve silêncio. Os dois homens se entreolhavam com a chuva espancando a janela atrás deles. Gaspar olhou-o, com olhos de gato, olhos amarelados, de cálculo e pensamentos distantes, assentindo vagarosamente. Apontou um avental para o homem, jogado no chão ao lado dos refrigeradores. "Para você cobrir o corpo". E caminhou, lentamente, para a vassoura encostada na porta. Segurou-a como quem empunha um instrumento de esporte enquanto o homem se curvava com dificuldade, expondo ainda mais a sua frágil nudez. 

* * *

Não havia jeito, a porta da gaveta só fechava com um solavanco forte, que fazia o prédio tremer. Último cadáver da noite. Possível parada cardíaca. Sem documentos.

Na manhã seguinte, Gaspar não foi mais trabalhar.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

EU SUSPEITAVA...

...que Stanley Kubrick era um legítimo "cat person"...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

OS COELHINHOS SUICIDAS

Para quem não conhece, algumas imagens engraçadíssimas dos coelhinhos suicidas, do livro "The Book of Bunny Suicides: Little Fluffy Rabbits Who Just Don't Want to Live Any More" ("O Livro dos Coelhinhos Suicidas: coelhinhos fofinhos que simplesmente não querem mais viver"). Trata-se de uma coleção de ilustrações hilárias, no melhor humor negro, de Andy Riley. Completamente genial.



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

QUARTA-FEIRA COM CHUVA E RISO


Acordei hoje com saudade da maravilhosa Maria Alice Vergueiro. "Tapa na pantera" ainda é, para mim, uma das coisas mais engraçadas que a internet já viu.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

PARA VER E OUVIR: JOHN MAYER ("ASSASSIN")


Pode não parecer, mas é um fan video. Excelente por sinal.

sábado, 9 de outubro de 2010

CINEMA DE ALTA COSTURA

Recentemente, eu assisti ao filme nacional "Do Começo ao Fim" que, com seu argumento polêmico, se propunha a ser uma peça de impacto ao narrar uma relação homossexual e incestuosa. No entanto, é um filme insosso e incapaz de chocar ou comover em qualquer aspecto. "Direito de Amar" (A Single Man) é tudo o que o nacional "Do Começo ao Fim" poderia - e gostaria - de ter sido. Eis um filme igualmente de temática polêmica, que retrata as dores e angústias de um professor de inglês homossexual em plena década de 60. "Direito de Amar" comove como uma peça de arte que independe de seu assunto, porque ele não tem o menor interesse em falar do amor entre dois homens puramente, mas do amor como uma expressão verdadeira da natureza humana. E, neste sentido, o filme é um espetáculo para os olhos e os sentidos do começo ao fim. E há muitos motivos que justificam isso.
Discreta homenagem de Tom Ford a Hitchcock, com cena de "Psicose". "O medo é o centro da questão"

O primeiro - e talvez mais importante - motivo é o fato de "A Single Man" ser escrito e dirigido por Tom Ford, estreante no cinema, mas veterano ícone da moda que ganhou renome à frente da Gucci. E Ford consegue transpor toda a sua sensibilidade e delicadeza diretamente dos seus traços e cortes para a esta sua primeira tentativa como diretor. Fica evidente, já nos primeiros instantes do filme, que há um esteta exigente e perfeccionista por trás das câmeras; um homem de alma feminina que consegue comunicar com honestidade a paixão, o amor e a devoção que dois homens podem sentir um pelo outro. Homossexual assumido, Ford não se priva em nenhum momento de conduzir o seu filme com a mesma marca com que sempre conduziu a sua moda. Este é um filme de alta-costura.
"A Single Man" é inspirado num polêmico livro dos anos 60. E quase um monólogo brilhante para Colin Firth

O filme é baseado no romance autobiográfico de Christopher Isherwood, que gerou grande repercussão na década de 60 ao retratar a história de um professor homossexual que não consegue atravessar o luto pela perda de um companheiro com quem viveu por 16 anos. No papel principal, do professor George Falconer, está Colin Firth, possivelmente em seu melhor momento. Firth está sereno, bonito, comedido, com gestos delicados mas jamais afetados e que nos dão a certeza necessária para nos relacionarmos com a dor daquele personagem na tela, absolutamente devastado pela saudade e ausência do seu verdadeiro amor. O filme é praticamente conduzido sozinho por Firth, como um monólogo (inclusive narrado em muitos momentos por ele). Mas há importantes participações, como Julianne Moore, que interpreta Charlotte, um amor passado e sua melhor amiga; e Nicholas Hoult que cresceu muito (ele é o garotinho de "Um grande garoto", com Hugh Grant) e vive um estudante que parece conseguir vencer um pouco das barreiras que o professor Falconer ergueu ao redor de si mesmo.
Julianne Moore é um acessório de luxo nesta peça de alta costura cinematográfica lindamente criada por Tom Ford

Tom Ford nos leva, com muita habilidade, e imensamente apoiado no talento de Firth, numa jornada extremamente bela e tocante sobre um homem que, por falta de qualquer expectativa, decidiu morrer. Não há nada mais que pareça prender George no mundo e ele planeja minuciosamente seus últimos passos. A saudade, a ausência, a perda, fazem com que ele sobreviva aos dias e ele cansou desta árdua tarefa. E apesar deste enredo melancólico, não há absolutamente nenhuma grama de melodrama ou comoções forçadas. 
A estréia de Tom Ford no cinema é um primor

Vamos apreciando, lentamente, as memórias de George - com o uso de flashbacks precisos e elegantes - e assim compreendendo o peso e a profundidade de sua dor. A apresentação é supreendente quando paramos para lembrar que é um diretor inexperiente que está conduzindo esta história. Percebam a trilha sonora delicadíssima, os enquadramentos, o figurino obviamente perfeito, as nuances e variações de cor que ilustram as emoções de George quando ele está triste, emocionado, excitado. A paleta de cores se transforma na tela - e de uma maneira sutil e talvez imperceptível para alguns - de uma forma como eu não me recordo de ter visto antes. Não consigo pensar, honestamente, o que mencionar contra "Direito de Amar". Ainda que não seja um filme perfeito (que filme é?!), Tom Ford ingressa no mundo do cinema com uma pequenina obra de arte que merece ser vista por todos. É um filme de temática gay, claro, mas esse detalhe me passou despercebido durante os breves 90 minutos de filme. Comovente, muito comovente, esta história que o Sr. Ford decidiu nos contar. E uma experiência cinematográfica que ninguém deve deixar passar. Um filme que fica. E absolutamente imperdível.

MÃES E MÃOS

Quando era criança, ele sempre pedia a sua mãe que o fizesse animais de papel-cartão, ao que ela, tão habilidosa, atendia prontamente. Girafas, gaivotas e elefantes. Animais de papel, dobrados com mãos quase japonesas. 

Mas ele reclamava, com convicção, porque ainda que os animais surgissem com perfeição, nasciam sempre manchados e nunca ficavam branco-algodão, como ele exigia. Ao que sua mãe respondia, tão carinhosa, "que talvez eles estivessem brincando na lama".

* * *

Quando se despediu de sua mãe, pela última vez, lembrou de seus animais de papel. Um pensamento inesperado, que o atravessou por completo, como um relâmpago. E soluçou baixinho, não somente pela ausência mas porque compreendeu, apenas então, "que ela cortava os dedos ao fazê-los".

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

SURPRESAS DE UMA JANELA

Uma inesperada - porém momentânea - mudança no trabalho me trouxe uma oportunidade coroada de borboletas na barriga, confesso. Mas eis que descobri hoje, ao final do dia, que há um parque de diversões na minha janela. E ele brilha, incandescente, como se todos os dias fossem Dia das Crianças. E me ajudou a lembrar que - ainda que me assustem bastante - também me agradam as surpresas...

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"APRESENTANDO O HARVEY"


(Mais) um destes casos de propagandas maravilhosas. A essência da boa publicidade.

ILUSTRANDO

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"O BRASIL TE CHAMA"


Vídeo de promoção internacional do Brasil como chamada para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Filme da Embratur produzido por ninguém menos que Fernando Meirelles. De arrepiar dos pés à cabeça.

domingo, 3 de outubro de 2010

MEU MISTÉRIO

Certa vez, eu ouvi dizer que o segredo de todos os relacionamentos amorosos é o mistério. A maneira como conseguimos surpreender, encantar, despistar e, assim, manter o mistério. A capacidade de não entediar os nossos parceiros seria a chave do sucesso.

E eu acho que isso é absolutamente correto. Preciso. E lamento, de certa forma, não ser tão qualificado nesse aspecto quanto você. Até acho que tenho meus truques e vejo que muitas vezes não te deixo bocejar na platéia. Mas você, mais do que ninguém, sabe que eu não me privo de algumas piadas repetidas.

Você não. Você é inédita, sempre. Porque não há nada, simplesmente nada, repetido ao seu respeito. Você é imprevisível, inconstante. Riso e raiva. Você é volátil. E, assim, completamente misteriosa. E eu te sigo, onde quer que você vá, ansioso,  curioso sobre o seu próximo passo. Porque o seu mapa é mutante. E, ainda que você me dê pistas e desenhe caminhos, jamais encontrarei o "X" que marca o lugar. Porque também os seus "X" se mudam. Seus tesouros se desenterram e se enterram novamente em lugares diferentes.

Porque eu te compreendo sem te compreender. E te leio, ainda que eu perca muito nas traduções. Hoje, após esses anos todos ao seu lado, posso dizer que sou fluente em você. Mas isso não me impede de confundir a cabeça entre os dialetos que você inventa ao longo do dia. Como mulher, menina, mística, mestra, você carrega o "M" de mistério nas veias, como DNA.

O jogo de xadrez invencível, a maior estrategista despida de estratégias de todo o planeta. Porque você não planeja, não antevê, não estabelece. Você se arrisca, salta ao abismo, e descobre no caminho uma forma de sobreviver à queda. A queda que você transforma em voo porque sabe que, mesmo que dê tudo errado, você tem a mim, lá embaixo, para te amparar nos braços. Porque eu, estabanado planejador, na tentativa de antever os seus saltos, me posiciono logo abaixo para te dar segurança.

E percebo que essa nossa matemática funciona, ainda que de uma forma meio louca, até hoje. Sinto isso em cada centímetro e segundo do meu corpo, porque quando eu te beijo é como se eu estivesse conhecendo o seu beijo pela primeira vez. E quando sinto o cheiro da sua pele e a sensação do seu cabelo em meu rosto é como se tudo isso fosse novo. E ainda adoro a sua risada e ainda sinto borboletas na barriga quando vejo que é você no meu celular.

É essa arte que você parece trazer tatuada em sua alma, de ser nova todos os dias para mim. Eu te entendo sem te entender, apanho sem cometer crime algum, te faço rir sem intenção e me pego, assim do nada, como hoje, tentando imaginar como será você daqui a mais cinco anos. E percebo, subitamente, o quão difícil é fazer essa previsão. Porque, honestamente, não sei como você será daqui a cinco horas. E sigo, assim, fiel, como seu mais ávido leitor, aguardando pelas próximas linhas e capítulos que você até me permite protagonizar. Seu mistério está em ser. E o meu mistério é você.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

SONHO DE GATO


Não dá para começar outubro de forma melhor.