quarta-feira, 1 de setembro de 2010

SETEMBRO

De todos, sempre, meu mês querido. Estava esperando por você. Bem vindo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

ILUSTRANDO

Modigliani - "Retrato de uma moça" (1917)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

SABER DA VIDA

"O que sei eu sobre a vida?". Esta reflexão é, para mim, tão antiga quanto as mais remotas lembranças. Lembro de ter pelo menos cinco anos de idade e, conversando com colegas de recreio, ter a plena certeza de que já havia "entendido" tudo a ser compreendido. Jovem, adolescente, universitário. Sempre me imaginava em plena compreensão da vida. E hoje, com três décadas completas, vejo o como eu realmente nunca soube de nada. No entanto, contraditoriamente, eu me acho novamente senhor de "tudo o que tiver a ser sabido sobre a vida".

Mas o que sei eu sobre a vida? Dada essa minha experiência de mais de 25 anos em, olhando para trás, perceber que eu nunca soube nada sobre nada; só posso crer que eu, realmente, não sei absolutamente nada sobre a minha vida. Sobre a existência. Ainda que eu ache que sei tudo. Porque tenho certeza que, quando completar 40 anos, olharei para esses dias de hoje rindo da minha inocência. E quando completar 50 darei risada dos meus 40. E assim por diante. Imagino.

Mas se, de fato, isso é algo progressivo, ou seja, nós sempre sabemos de tudo e vamos descobrindo gradualmente que não sabemos de nada, então não chegamos a nenhum lugar de plena sabedoria! Ou, pelo menos, sabedoria REAL. Porque, por esse meu raciocínio de filósofo de orelhas de livros, se eu chegar aos 100 anos vou me imaginar sábio e terei pena do meu eu aos 90. Mas e se eu fizer 110 anos me enxergarei ignorante aos 100!

Acho, em verdade, que não há nenhuma sabedoria a ser dominada no sentido de "saber sobre a vida". Talvez porque essa sabedoria tenha prazo de validade e expire conforme passem os anos. Afinal, que sabia eu da vida aos cinco anos? Sabia dos lanches, do recreio, das figurinhas e dos super-heróis. E sabia de tudo isso com muita propriedade. E, assim, sabia de tudo sobre a vida. Naquela época. O mesmo vale para as etapas seguintes, de modo que hoje eu sei tudo sobre a minha vida sem que isso exclua o fato de que, em 10 ou 20 anos, eu saberei que, na verdade, nunca soube sobre nada.

Haveria algo melhor, então, do que simplesmente viver um dia após o outro? Quando ingresso nessas minhas infrutíferas caçadas ao meu próprio rabo, constato que há uma bênção na mais profunda ignorância. No sentido em que o melhor a ser feito é abraçar o dia de hoje porque nada se sabe sobre o dia de amanhã. Com isso, essa angústia existencial é resolvida com uma xícara de café fumegante e a observação da chuva insistente na janela.

E sorrio, com a certeza, mesmo ignorante, de que sou feliz.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

"TODA VELHICE É UMA ESPÉCIE DE SAUDADE", DE JOSÉ REZENDE JR.


Microcontos de José Rezende Jr. de uma beleza que chega a doer:

"A mulher que se despia para nós penteava nossos cabelos, procurava sujo atrás das orelhas, conferia nossas febres. Feito mãe, só que pelada."

...

"Chamávamos o doido pelo apelido que mais odiava. Ele respondia com pedras pontiagudas e pontaria certeira. Mas acho que o feríamos mais."

... 

"Na missa, o sermão nos ameaçava com castigos atrozes. No banheiro, os gozos ardiam como se expelíssemos a própria lava do inferno."

...

"Matavam com gosto cobras e escorpiões. Eu morria de dó: de quem é a culpa, quando já nascemos com o veneno no corpo?"

...

"Meu pai escreveu num caderno o próprio nome e os nomes de cada filho. Continuou lendo, mesmo depois que as palavras perderam o sentido."

...

"Todos os anos o mesmo circo. A mesma menina trapezista, peitinhos sempre em botão, feito trapézios suspensos no tempo. Só nós envelhecíamos."

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

SIMON´S CAT - "A CAIXA"


Sempre hilário, adorável e absurdamente real.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

ILUSTRANDO

"Eros e Psiquê" - François Gêrard

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

PARA VER E OUVIR: MAYSA CANTA "NE ME QUITTE PAS"

Impossível não se curvar para esta mulher. Apresentação de arrepiar dos pés à cabeça.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A MANIA DE CHESTER


Alguns gatos gostam de roubar e esconder cotonetes, brincar com saquinhos plásticos e beber água da pia (relatos de experiências pessoais). Outros, como Chester, gostam, simplesmente, de ficar de mãos dadas...

PARA VER E OUVIR: DEATH CAB FOR CUTIE ("I´LL FOLLOW YOU INTO THE DARK")

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

ILUSTRANDO

Pela alegria de uma quarta-feira "banal". Ilustração de Amarílis Lage, no Cartolina.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

"UM DIA, MEU FILHO, VOCÊ SERÁ O REI DA SAVANA"

Flagra mostra um leão adulto caminhando com o seu filhote num rochedo na Tanzânia. Não dá para negar que a foto lembra a famosa animação da Disney, "O Rei Leão". Se tem algo, nesse mundo, do qual eu não me canso nunca é esta beleza profunda da natureza.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

CAFÉ PARA ALICE

Estavam exaustos. Haviam feito amor por toda a noite e já tinham perdido a noção do tempo. Ouviam a respiração silenciosa um do outro enquanto entrelaçavam dedos carentes e pés curiosos. Fazia calor e o teto do quarto parecia ganhar contornos especiais, com as sombras que começavam a se desfazer, feito nuvens num céu de mentira. Sobre os lençois, completamente desfeitos, os dois observavam o sol surgir preguiçosamente na janela. Raios irregulares de luz cortando o quarto como uma cama de gato.

Ele gostava de ver a luz contornando o lindo corpo de Alice, como uma cordilheira no horizonte. Ela estava de costas para ele, completamente nua, os cabelos avermelhados soltos sobre o travesseiro. E os olhos dele pontuavam, como cartógrafos, o brilho que gradativamente percorria seu pescoço, ombros, costas, cintura, nádegas, pernas, pés. Aquele corpo que ele buscava com avidez e que conhecia tão bem; cada esquina, cada rua e reentrância.

Esticou o braço direito como se apontasse para uma direção e tocou, com a ponta dos dedos, a tatuagem que Alice ostentava na base das costas. Um símbolo do zodíaco que ele nunca conseguia lembrar ao certo o significado. Mas não fazia diferença. Ele adorava aquela tatuagem, adorava beijar aquela tatuagem, e acariciava o pequeno desenho como se o refizesse por cima do original, observando os pêlos de Alice se manifestarem como grama alta no vento. De olhos fechados, o rosto completamente banhado na luz matutina, Alice agradecia os carinhos em silêncio.

Os dois se amavam e se conheciam há tanto tempo que já nem sabiam ao certo a contagem precisa dos anos. Mas eram muitos. Eles eram jovens, eram sós e tinham naquela cumplicidade misteriosa, naquela amizade de corpos e almas, um compromisso.

Mas havia duas coisas que eles não sabiam. A primeira era que Alice estava grávida. A segunda, é que ele iria embora naquela manhã.

Um cigarro aceso pendia desleixadamente da mão dele. A fumaça, cinza azulada, subia pelo seu rosto criando novos ares para as suas ideias confusas. Suas ideias desesperadas de fuga. Ele amava Alice profundamente, mas não conseguia mais suportar a ideia de pertencer a alguém. De alma livre, forasteira, ele queria fugir. E havia feito isso desde quando conseguia se lembrar. Ele fugia de todas as amarras, de todos os laços. Assim foi com a escola, com trabalhos prolongados, com a sua mãe e seus irmãos. Ele não criava raízes. Não por maldade, talvez por fraqueza. O fato é que ele era um fugitivo.

Alice havia adormecido. Cobriu o corpo e se encolheu de um lado da cama. Era assim que ela dormia, ele sabia. Olhou-a por alguns segundos, com uma mistura de raiva, dor e paixão, enquanto abotoava a camisa amassada. Enxugou uma lágrima solitária e se confortou com um pensamento rarefeito de que "assim é que são as coisas". Sem perguntas, sem respostas, somente o movimento. Seria melhor não para ele, mas, principalmente, para ela. "Alice merece tanto mais".

Calçou os sapatos e caminhou vagarosamente para a porta, de onde olhou para ela por mais alguns instantes. Guardaria para sempre aquela mulher inesquecível. Aquela menina, grande demais para o mundo, que possuia respostas para todas as perguntas e abraçava a vida como uma criança. Alice o ensinara a viver quando ele já havia desistido de tentar novamente. Nunca a havia amado tanto como naquele momento. Mas ele era um covarde e preferiu atender ao seu chamado original de ir embora, mesmo sem sequer saber para onde.

Fechou a porta com cuidado para não acordá-la. Preferiu as escadas ao elevador. Na calçada, fez um aceno breve para um táxi, que parou metros adiante. Caminhou, sem olhar para trás, até parar ao lado do carro branco e azul. O motorista o observava, com um misto de dúvida e impaciência, mas ele se recusava a entrar. Desculpou-se e fechou a porta, vendo o carro partir em velocidade. Sorriu e atravessou a rua, para onde um homem corpulento e simpático abria uma padaria.

Subiu correndo as escadas, que rangiam sob os seus pés afoitos como se uma multidão aplaudisse aquela curta maratona. E abriu a porta do quarto com pressa, encontrando Alice de pé, à janela. Ela sorriu melancolicamente e os dois parlamentaram em silêncio por não mais que três segundos. Era tudo tão simples, afinal de contas. Alice era a exceção.

"Achei que você tivesse ido embora".

"Achei que você gostaria de pães e café".

Viveriam juntos, até o final de suas vidas.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

PARA VER E OUVIR: SARAH MCLACHLAN ("DO WHAT YOU HAVE TO DO")

CINEMATERAPIA COM "ASSASSINATO POR MORTE"

Os melhores detetives do mundo são convidados por Lionel Twain, um excêntrico milionário, para um casual "jantar com morte". Ao chegarem na mansão de Twain, os experts são recepcionados por um mordomo cego, uma copeira surda-muda e uma série de eventos estranhos que envolvem todos numa rede sem pé bem cabeça de mistérios. Esse é o enredo de "Assassinato por Morte" (Murder by Death). O filme, de 1976, é uma paródia às tramas de mistério (em especial as de Agatha Christie), nas quais um círculo de pessoas se vê diante de uma série de mortes em que todos são suspeitos. Trancafiados na casa, eles têm até a manhã seguinte para solucionar o assassinato do próprio anfitrião e ganhar um milhão de dólares como prêmio. Ao final, uma revelação bombástica e sem nenhum compromisso com a verossimilhança. Absurdamente hilário. No elenco de estrelas, destaque para o indefectível Peter Sellers, Alec Guiness e Truman Capote. Um filme delicioso, com um humor inocente, completamente do bem, mas que rende situações simplesmente hilárias. Uma das minhas cenas preferidas: o ataque do inspetor Perrier ao se "envenenar" com um "vinho de má safra". Imperdível cinematerapia da melhor qualidade.

ILUSTRANDO

Di Cavalcanti - "Casal e Gato"

sexta-feira, 30 de julho de 2010

PARA VER E OUVIR: KEANE ("EVERYBODY´S CHANGING")

ILUSTRANDO

Keith Haring (sem título) - 1979

quinta-feira, 29 de julho de 2010

PARA VER E OUVIR: RADIOHEAD ("FAKE PLASTIC TREES")


Obs.: Não é o clipe oficial da música. Mas combinou com o dia, hoje.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

"O QUE NÃO PARECE VIVO, ADUBA. O QUE PARECE ESTÁTICO ESPERA"


Leitura
Adélia Prado

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras,
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.

Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?

Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

DEUS, OS GATOS E A IRRESISTÍVEL PIRRAÇA

Eu não tenho a menor dúvida - há um bom tempo - que os gatos são uma das melhores invenções de Deus. Ele estava muito inspirado no dia que os inventou, porque os muniu de personalidades incríveis, manias engraçadas e características físicas e de personalidade que fazem deles seres absolutamente adoráveis. Mas tenho para mim que o Criador, como nós, também não resistiu à tentação de pirraçar um pouco alguns pobres bichanos. As fotos abaixo falam por mim. Qualquer semelhança com um famoso ditador alemão seria mera coincidência? Ou o que Ele tinha em mente quando fez isso?
Tadinhos...

terça-feira, 27 de julho de 2010

segunda-feira, 26 de julho de 2010

ANTÍDOTO CONTRA O MAU HUMOR DE UMA SEGUNDA-FEIRA (OU DE QUALQUER DIA)





IMPROVÁVEL FILME PERFEITO


Esses dias cheguei à conclusão que "Indiana Jones e a Última Cruzada" é o filme perfeito. Claro, adoro filmes cult, indie, metidos às filosofias; profundos, repletos de devaneios melancólicos; comédias inteligentes; filmes complexos, esquisitos e difíceis de entender. Adoro. Mas, para mim, ao final do dia, não dá para errar com "A Última Cruzada". Porque está tudo ali. Pelo menos, tudo o que é preciso para duas horas do mais puro, profundo e verdadeiro entretenimento (ajuda muito, também, ser fã das aventuras do famoso arqueólogo).

O famoso arqueólogo nascendo das estripulias de um escoteiro irresponsável

No primeiro ato, vemos o jovem Indy em uma de suas primeiras errâncias como escoteiro. Ao esbarrar, acidentalmente, em ladrões que acabam de encontrar uma relíquia "que deveria estar num museu" ele não pensa duas vezes em enfrentá-los de igual para igual. No percurso extremamente acidental, afunda num poço cheio de serpentes (referência à sua fobia maior no futuro), machuca o rosto com um chicote (duas referências imediatas à famosa arma e à cicatriz no queixo de Harrisson Ford) e acaba vencido por um homem que, entendemos, será para sempre uma referência central no imaginário de Indiana: um destemido aventureiro que tenta consolá-lo ao depositar seu próprio chapéu (mais uma referência) na cabeça do menino derrotado enquanto diz: "não é porque você perdeu hoje, garoto, que precisa se acostumar com isso". Com o pai - presente/ausente - estudando no escritório, naquele instante são formadas as bases do herói incrível que ele viria a se tornar: um menino solitário, órfão de mãe, que descobre em sua independência prematura o caminho não apenas da sua liberdade, mas da sua própria carreira.

Sean Connery e Harrisson Ford como uma das melhores duplas que o cinema já viu

Em seguida, já no tempo presente (década de 30), vemos o sempre assediado professor universitário diante de uma nova aventura: seu pai, o famoso professor Henry Jones (interpretado magistralmente por Sean Connery), desaparece enquanto investigava o mistério do Santo Graal, em Veneza. Indy recebe o diário de seu pai, com valiosas anotações de toda uma vida, e parte para a Itália em companhia do sempre adorável e desorientado Marcus Brody, que rende, mais adiante, uma cena simplesmente hilária. Em Veneza, os dois são recebidos pela charmosa femme fatale Elza Schneider, a professora alemã que ajudava o pai de Indiana Jones e a última pessoa que o viu antes do seu desaparecimento. Indiana e a perigosa loira naturalmente se envolvem amorosamente e partem para a Áustria onde, supostamente, o velho professor está sendo mantido prisioneiro. Mal sabe Indy que Elza está levando-o para uma armadilha já que ela, como era de se suspeitar, é uma agente do III Reich.

Indy sabia que não deveria confiar em ninguém em Veneza. Elza parecia "confiável".

Num castelo medieval Indy encontra seu pai, vivido por Sean Connery, e que é responsável pela maioria das cenas inesquecíveis do filme. Primeiro, ao arrebentar um vaso chinês na cabeça do filho (achando que ele era um nazi) e, mesmo com Indiana cambaleando pela dor, o velho fica radiante ao constatar que se tratava de uma imitação. Depois, na fuga de moto, seu rosto de orgulho ao ver o filho empunhar uma lança como um cavaleiro medieval. E, mais adiante, a famosa cena em que ele espanta pássaros na praia para derrubar um caça alemão que os perseguia. Feliz da vida, com o guarda-chuva nos ombros (como uma espada), ele completa sua atuação com a frase famosa de Carlos Magno: "que meu exército sejam as pedras no chão e os pássaros no céu". O deleite de ver Sean Connery e Harrisson Ford como pai e filho é impagável.

Indiana Jones frente a frente com ninguém menos que o próprio Adolf Hitler que, numa das cenas mais emblemáticas do filme, interpreta que Jones estava li apenas para pedir um autógrafo.

O terceiro ato começa com a fuga da Áustria. Não antes de Indy tentar despistar os nazis ao dizer que Marcus Brody, que "fala mais de 12 idiomas e conhece todos os costumes", já está há dois dias no Egito, provavelmente com o cálice em mãos. E eis que vemos o pobre Brody em Iskanderum, sendo assediado por vendedores de galinhas e perseguido por temíveis agentes da Gestapo. Indy quer ir ao seu encontro, mas seu pai o convence a voltar justamente para Berlim, no meio da boca do leão, para recuperar o seu diário onde ele anotou as respostas para os desafios do Graal. Na capital alemã, Indy se vê engolido por uma parada do orgulho ariano e inevitavelmente esbarra no próprio Hitler que, ao pegar o diário em mãos, pensa que Jones é mais um jovem oficial em busca de um autógrafo. É simplesmente bom demais para ser verdade.
Um cavaleiro espera por 700 anos para passar adiante a responsabilidade de proteger o Santo Cálice

Quando saem (ou melhor, fogem) de Berlim, Indiana Jones e seu pai tomam o caminho para o Oriente Médio onde, supostamente, está o Graal. No caminho, uma batalha aérea e uma corrida desesperada contra um tanque em pleno deserto: a famosa cena que culmina com a "morte" de Indiana Jones, que retorna para ver seu pai, Brody e Sallah, lamentando a perda em mais um momento engraçado e inesquecível. É o começo do ato final, em que todos chegam ao templo para enfrentar os três desafios mortais que aguardam quem tenta encontrar a taça utilizada por Jesus Cristo em seu último encontro com os apóstolos.

Já perdi as contas de quantas vezes vi esse filme e ele me emociona como na primeira vez, quando minha mãe me levou ao cinema para vê-lo em 1989. E nunca, em nenhum momento, o filme perde ritmo, fica chato ou sem propósito. Ele transpira, exala, esse humor inocente e o amor de atores que se entregam sem medo na tela. São os atores, as cenas, os diálogos memoráveis, a música emblemática, o conjunto perfeito, afinado como uma orquestra impecável, que me faz ver tudo aquilo, ali na tela, com um sorriso em 180 graus no rosto. Verei tudo - ou quase tudo - que surgir no cinema e que me pareça minimamente interessante. Choro, rio, me angustio e gargalho com filmes que me marcam, me marcaram e que ainda me marcarão no futuro. Mas, não tem jeito, é na "Última Cruzada" que encontro sempre a minha primeira opção quando quero, simplesmente, me perder para me achar numa sessão de cinema sem pretensão. Imperdível. Inesquecível.

sábado, 24 de julho de 2010

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("AUGUST MOON")


Aos mais observadores, sim é um post (intencionalmente) repetido.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A FITA E A SEMENTE DO ABSURDO

Por onde começar para falar deste filme tão inacessível? "A Fita Branca" (Das Weisse Band), de Michael Haneke, não é um filme fácil em nenhum sentido. É difícil falar sobre ele; explicá-lo; muito menos recomendá-lo. Na tela, vemos uma explosão silenciosa, letárgica, num preto e branco austero, gélido, onde um narrador conta eventos macabros que se passaram num vilarejo alemão do começo do século XX. A pequena vila vive sob o domínio de um barão, rico fazendeiro que emprega metade dos cidadãos e, por causa disso, é temido e respeitado como um senhor feudal. As mulheres são inexpressivas donas de casa, os homens respondem pelo trabalho braçal e as crianças se esforçam em não incomodar. Não há sentimentalismos tampouco há algum calor humano sob nenhuma perspectiva neste ambiente que - supostamente - se propõe a ser um microcosmos da Alemanha pré-I Guerra Mundial. Todos vivem uma existência bucólica, construída em torno do trabalho, da colheita, da escola e da igreja, sem grandes ambições ou perspectivas.

Que pessoas serão, no futuro, essas crianças tão reprimidas? Aí está o questionamento de Haneke

Eis que no centro desta vila pacata começam a surgir misteriosos acidentes e eventos violentos, marcados por morte, espancamento e tortura. Ninguém sabe ao certo o que se passa e as investigações não rendem grandes resultados. Atento a esses acontecimentos, vemos um jovem professor (que também é o narrador, já idoso) compreendendo que algo muito errado está acontecendo enquanto tenta, com esforço, se aproximar de uma babá por quem está apaixonado. Mas rapidamente ele se vê vencido por uma estrutura social rígida e que não aceita seus questionamentos e suposições sobre a possibilidade que as crianças sejam responsáveis pelas atrocidades. A fita branca, que dá título à história, é referência a um dos mecanismos repressores utilizados pelo pastor local, que amarra um laço no braço dos seus filhos para lembrá-los da pureza e da inocência. Uma metáfora poderosa para emoldurar a ideia de uma geração antiquada e violenta que, a partir de uma brutal repressão moral, social, sexual e religiosa, moldou com mãos habilidosas as jovens mentes alemãs que, décadas depois, levariam o nazismo ao poder. Lindo e horrendo filme. Difícil de recomendar. Ao mesmo tempo, é impossível não fazê-lo. 

quarta-feira, 21 de julho de 2010

CARTOLINA - BLOG DE AMARÍLIS LAGE

Lindo, lindo blog de ilustração, cultura e arte que esbarrei inusitadamente ao final do expediente de trabalho hoje. Fortuita descoberta quando tudo já parecia desenhado como um final de dia qualquer: Cartolina, blog de Amarílis Lage, editora da Revista Criativa, que "vive rodeada por papéis e canetas. Ganha a vida escrevendo e perde a noção do tempo desenhando". Merece ser visto, revisto e compartilhado. Sem pressa. Queria poder guardar esse blog no bolso.


PARA VER E OUVIR: JOSÉ GONZALEZ CANTA "FAR AWAY" (TEMA DE RED DEAD REDEMPTION)


José Gonzalez canta "Far Away", parte da trilha sonora do aclamado jogo western "Red Dead Redemption", blockbuster da Rockstar para Playstation 3 e XBOX 360.

PEQUENO FILME DE GRANDES CENAS

"The Last Station" ("A Última Estação") é um filme baseado na biografia do cultuado autor russo Leo Tolstoy. Mas, apesar de se propor a narrar os últimos momentos da vida do escritor, o grande triunfo deste pequeno filme é o seu elenco. Chrisopher Plummer interpreta Tolstoy com muita propriedade e Paul Giamatti convence como o seu melhor amigo, o perigoso Vladimir Chertkov. No entanto, Helen Mirren, como a esposa explosiva e possessiva (Condessa Sofya) e James Mcvoy, como o jovem aspirante a escritor, Valentin, é que brilham (e que, não por acaso, desenvolvem grande cumplicidade na trama). Pertencem a eles duas cenas que, sozinhas, são motivos para se assistir a esse filme. Na primeira, Valentin vai às lágrimas quando Tolstoy pergunta a ele sobre seus textos ("Eu sou um zé ninguém e você, Tolstoy, pergunta sobre o meu trabalho?"). Na segunda, Sofya consegue um raro momento de intimidade com o seu marido, o que rende uma cena engraçada e absolutamente adorável no quarto do casal.

Helen Mirren (Sofya) e James Mcvoy (Valentin) roubam o filme com atuações comoventes

Por fim, Tolstoy não é o que mais interessa no filme (e fiquei em dúvida se isso foi algo intencional ou não) porque "A Última Estação" é, primeiramente, sobre o amor e, consequentemente, sobre os seus complexos desdobramentos. O que o filme retrata, ao mostrar o círculo social dos meses derradeiros de Tolstoy, é uma rede de idealizações intermináveis: um rapaz que se apaixona por uma menina indomável. Um escritor que só tem olhos para o seu melhor amigo. Uma esposa que se sente abandonada e vive em busca de um marido ausente. Um amigo que enxerga Tolstoy como um profeta. Não são relações funcionais do ponto de vista da realidade mas, nem por isso, permitem que sejam estes casos de amor superficiais. Imagino que, justamente, o grande pecado cometido por todos eles, sem exceção, é o amor em excesso. Aqui está um filme muito discreto, dono de uma trilha sonora modesta e tocante e formado por um punhado de cenas memoráveis. Não é a estação final, absolutamente, mas uma parada bem vinda para respirar beleza e calor humano. 

domingo, 18 de julho de 2010

"OS MEUS LIVROS" - JORGE LUIS BORGES


Os Meus Livros

Jorge Luis Borges ("A Rosa Profunda")


Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

PARA VER E OUVIR: SARAH MCLACHLAN ("HOLD ON" - MIRRORBALL LIVE)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

FAMOUS LAST WORDS

Da janela do seu apartamento ele imaginou ter enxergado o diabo. Amanhecia lentamente e, ao acender mais um cigarro, ele percebeu que talvez estivesse alucinando. Não havia ninguém lá, apenas a rua, calma e deserta, com tons acinzentados gradualmente amarelando com as primeiras luzes, mais impertinentes, que começavam a preencher as sombras da madrugada.

Levou a mão à boca e tragou ainda mais lentamente, de olhos semi-cerrados, sentindo a fumaça cobrir o seu rosto por inteiro. Via pingos de luz como se estivesse escondido por detrás de uma cortina. Debruçou-se então sobre o parapeito e ansiou por reflexões de alguma relevância, mas foi como se abrisse uma gaveta vazia ou uma caixa de fotos insignificantes. Nada.

Sentou-se na janela, com os pés descalços voltados para rua e roçou-os com preguiça contra o muro de pedra fria. Havia um vento, um musgo, uma poeira e ele sentia aquela mistura lhe cobrindo os calcanhares de maneira irresistível. Pensou num punhado de pessoas e eventos passados; coisas perdidas no caminho, apostas mal sucedidas, amizades desfeitas e romances medíocres. Por alguns instantes sentiu saudade de sua família, mas também esse pensamento se mostrou rapidamente rarefeito. Não sentia saudade de ninguém.

Precisava se vestir para o trabalho. Mas era como se o seu corpo estivesse preso. Não se tratava de letargia ou preguiça. Pelo contrário. Ele não queria sair dali, não queria se levantar da janela. Queria permanecer ali, à mercê de si mesmo, contemplando o formigueiro urbano que gradualmente começava a se manifestar. Mexeu os pés para um lado e para o outro e se lembrou de quando era criança, com as pernas afundadas na grande piscina da casa de seus avós.

Para um lado e para o outro, para um lado e para o outro.

O vento ocasionalmente lhe desarrumava os cabelos. Passava a mão levemente sobre a cabeça, sempre pensando se haveria ali mais fios brancos. Mais um cigarro para aquecer o rosto e as mãos. Era uma manhã inesperadamente fria.

Havia algo, meio sem nome, dentro dele. Algo que parecia corroê-lo. Uma ânsia, uma raiva, uma mágoa que, misturadas, davam a sensação de que seu corpo poderia implodir, de dentro para fora, a qualquer momento. Lembrou, novamente, de pessoas e eventos passados. E brincou consigo mesmo de uma forma como há muito tempo não fazia. Imaginou-se com poderes mágicos. Fazê-los desaparecer. Não eram pensamentos de vingança. Não necessariamente.

Sorriu, deixando escapulir um último rastro de fumaça pelo canto da boca. Queria que aquelas pessoas o vissem naquele momento. Elas nunca iriam acreditar.

Ficou de pé no parapeito da janela. Abriu os braços em cruz. Fechou os olhos. Respirou profundamente.

E, então, voltou para o quarto fechando a janela atrás dele com um pensamento fixo em sua cabeça. Uma ideia resolvida.

"Decidi me tornar um homem mau".

quarta-feira, 14 de julho de 2010

FALANDO DE FUTEBOL

Passada a Copa na África do Sul, a copa HD, impossível não pensar, pelo menos um pouco, em futebol. Maracanã, final da Copa do Mundo de 1950. Tempo em que a vida ainda era analógica. Excêntrica saudade e nostalgia de um tempo que eu não vivi. Foto de José Medeiros (Acervo IMS).

segunda-feira, 12 de julho de 2010

"O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO CRESCER?"


É com essa famosa reflexão infantil que começa "O Pequeno Nicolas" ("Le Petit Nicolas"), filme francês baseado no livro homônimo de René Goscinny. Ministros, ciclistas, empresários, bandidos, policiais. São inúmeras as opções que o pequeno Nicolas vislumbra para os seus colegas de classe. Ele, no entanto, não consegue responder a essa pergunta. Porque Nicolas quer ser exatamente quem ele é: filho único, um menino amado por seus pais carinhosos e que vive uma vida confortável e alegre em Paris. Nicolas não quer ser bombeiro, cowboy ou astronauta. Ele quer ser, para sempre, o pequeno Nicolas. 

Nicolas quer ser exatamente ele mesmo quando crescer.

Essa premissa é mais do que suficiente para construir um filme absolutamente mágico e encantador, que se desenrola na tela como se estivéssemos ouvindo uma história de ninar. Mas eis que Nicolas suspeita que a sua realidade perfeita pode estar ameaçada: ele imagina que a sua mãe está grávida. A ideia de ganhar um irmão é absolutamente aterrorizante e Nicolas e seus amigos partem numa verdadeira cruzada para "resolver" esse problema com um arsenal de ideias que envolvem gangsters, intoxicação infantil, um cassino clandestino, entre inúmeros planos não muito bem sucedidos, mas que rendem situações absolutamente hilárias e improváveis.

Nicolas e sua trupe: criatividade para resolver o grave problema de se ganhar um irmão.

O filme é inteiramente construído de forma delicada e sutil, com muita dedicação em nos forçar a enxergar o mundo por olhos infantis: os planos baixos (com adultos gigantes), cenários exagerados para ilustrar a percepção sempre hiperbólica de uma criança e a deliciosa fantasia de que qualquer coisa no mundo é possível. "Le Petit Nicolas" consegue, ao mesmo tempo, manter esse tom infantil (quase bobo) sem jamais deixar de interessar os adultos. É uma linda história, sobre um tempo de inocências possíveis, onde meninos da década de 60 se divertem com pouco e fazem dos dias banais de escola aventuras inesquecíveis. Até que, enfim, entre tantas estripulias, Nicolas possa responder com muita convicção à pergunta impossível formulada por sua professora. Adorável, inesquecível e imperdível.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O "BOM DIA" DE UM GATO

Essa é Magic, a maior gata do mundo (raça Savana), dando bom dia. Só quem tem gato sabe como é.

O EXPRESSIONISMO DE JOSEPH MINTON

"Decepção" (2007)
Joseph Minton é um pintor expressionista contemporâneo. Conhecido por linhas dramáticas e melancólicas, com uma arte muito inclinada ao dark e à fragilidade dos seres humanos. Não é uma beleza fácil de ser percebida e apreciada, mas ela surge vagarosamente na delicada costura de emoções que ele impõe aos seus quadros. Nascido em 1974, Minton é um autodidata que começou a pintar aos 18 anos. Sem nenhuma formação tradicional, desenvolveu suas próprias técnicas, que consistem em combinar cores semitransparentes em linhas grossas, com pouco interesse em movimentos precisos e controlados. Um reflexo das emoções condensadas que ele tenta demonstrar em suas obras.

"A Tempestade" (2008)

"Dezembro" (2007)
"The Beckoning" (2008)
"O mundo não vai esperar" (2008)

"Mulher de cabelos vermelhos" (2008)

terça-feira, 6 de julho de 2010

O MELHOR ANTIVIRUS DO MUNDO

6 DE JULHO DE 1907

Pintando "As duas Fridas", em 1939. Em lembrança do aniversário de Frida Kahlo. Se viva, completaria 103 anos hoje.

domingo, 4 de julho de 2010

INSIGNIFICÂNCIAS IMPORTANTES


Confesso que me surpreendi bastante com o filme "Remember Me" ("Lembranças"), estrelado por Robert Pattinson e Emilie de Ravin. Talvez por implicância ou puro preconceito, mas a verdade é que assisti a esse filme esperando desistir dele na primeira meia hora. Não é nenhum filme especial ou memorável, absolutamente. É mediano em praticamente todos os sentidos, mas também é um filme honesto, bem intencionado e completamente despretensioso e, talvez por isso, eu tenha me deixado convencer. 

"Lembranças", em verdade, é um diamante bruto. Falta lapidação, só isso. Poderia ter uma trilha sonora mais envolvente, uma fotografia mais elaborada, direção mais ousada. Mas o elenco é bom, dedicado, e consegue inflar muita energia à história. Robert Pattinson está muito bem (talvez sua melhor atuação até hoje) e raras foram as vezes em que lembrei do vampiro que o consagrou. Consegui enxergá-lo, realmente, como um rapaz da alta sociedade novaiorquina, perdido e indeciso sobre a sua própria vida. O mesmo vale para Emilie de Ravin, a famosa Claire de "Lost". Ela também me convenceu como uma garota especial, interessante e que luta para sobreviver a um grande trauma de infância. O elenco é o grande trunfo deste filme que, por muito pouco, não é um pequeno grande filme. 

A história conta as vidas de um grupo de pessoas que, por um acaso urbano, acabam se entrelaçando. Tyler (Pattinson) é um rapaz solitário, reflexivo, e que não tem a menor ideia do que fazer da própria vida, apesar de, no fundo, ansiar muito em fazer 'algo'. Vive à sombra da morte prematura de seu irmão mais velho e se vê preso entre a necessidade de cuidar da sua irmã caçula e infernizar seu pai ausente e autoritário (interpretado muito bem por Pierce Brosnan). Tyler cita Gandhi, apropriadamente, quando diz que "tudo o que você fizer em sua vida será insignificante, mas é importante que você o faça mesmo assim". Ele conhece Ally (de Ravin), uma garota que perdeu a mãe tragicamente e que vive com seu pai (Chris Cooper), um policial que, anteriormente, havia prendido Tyler por causa de uma briga de rua. 

Os dois se envolvem e os distantes mundos em torno de ambos começam a colidir, ora pacifica, ora caoticamente. Tyler e Ally pertencem a universos que dificilmente poderiam coexistir e isso determina uma série de eventos que, potencialmente, podem afastá-los. A grande beleza deste filme é acompanhar a trajetória de seus personagens centrais - e dos interessantes personagens secundários - enquanto eles vão desenhando as soluções, encontros e desencontros da difícil arte de existir. Tudo para que, num decisivo momento final, todos percebam que é preciso viver e seguir adiante, não importam os dramas individuais. 

Mas que, nem por isso, é preciso esquecer.

sexta-feira, 2 de julho de 2010