segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O ABISMO AZUL


Ele não fazia idéia do impacto que sentiria, tão desprevenidamente, ao folhear a revista que há poucos segundos estava esquecida na sala de espera. Uma revista de turismo e aventura, daquelas que ele jamais cogitaria folhear. Sempre há tantas outras mais importantes, de assuntos tão mais interessantes. Mas aquela revista desinteressante, de páginas soltas, por alguma razão misteriosa, roubou seu olhar.

Na capa havia a foto de uma grande extensão de oceano, azul claro e cristalino, algumas ilhas breves desenhadas com graça abraçando um círculo azul escuro ao centro, como um olho índigo no meio de um céu de verão. Meia dúzia de palavras descreviam a edição daquele mês: “os misteriosos abismos azuis”. Quase em transe, como se estivesse com sede, correu dedos desesperados direto para a reportagem de capa.

“O que havia feito de sua vida?”, pensava tanto naquelas semanas que antecediam seus 40 anos. Quatro décadas. “Nós não somos treinados para completar 40 anos”, ele discutia ardorosamente consigo mesmo. É uma idade que não se deve alcançar. “O que havia feito de sua vida?”, ele pensava como um mantra insistente e amargo, a cada nova manhã, a cada nova xícara de café, a cada partida no carro. E a falta de resposta – ou pelo menos uma que fosse convincente – o deixava cada vez mais desesperado. “São anos que não voltam mais, nunca mais. É o começo indiscutível do fim”.

Sua vida, até aquele ponto, havia sido uma jornada de passos medidos, de decisões cautelosas e planos desenhados como uma equação que teria que dar certo. Só poderia dar certo. E a costura dos eventos vividos fora feita com uma linha morna de relacionamentos banais, empregos medíocres, o jantar solitário de todas as noites e mensagens em secretárias eletrônicas, para pessoas que ele sequer lembrava os sobrenomes. Amores e amizades, negligenciados pela passagem dos dias.

Naquela manhã comum, ele tinha uma consulta no oftalmologista. Nem havia a necessidade, para falar a verdade. Seus olhos estavam ótimos e ele sabia disso. Mas fazia parte de suas checagens anuais. Olhos. Dentes. Impostos. Fazia parte do plano. De um plano secreto, íntimo, para que ele não entrasse em colapso. Para que não se lançasse contra a parede como um trem desgovernado. São as correntes pesadas para fixar ao chão aqueles que flertam com o abismo.

Ao dedilhar cuidadosamente as páginas sobre os abismos azuis, fenômenos um tanto quanto misteriosos da natureza - que compreendem túneis de águas profundas em pleno oceano - ele sentia os olhos umedecerem. Na foto principal havia um mergulhador, flutuando como um anjo, descendo sob um manto de luz cortando um longo declive de escuridão azul. “O que haveria lá, que segredos habitavam os abismos azuis?", ele pensava ansiosamente. Outras fotos mostravam corais de múltiplas formas e cores e pedras estranhas, como se demarcassem pontos especiais do planeta. Marcas num mapa.

“O senhor já pode entrar”, disse a atendente, quase sussurrando, sem sequer tirar os olhos do computador. Silêncio. Os dedos interrompem a atrapalhada digitação para constatar que não havia mais ninguém lá na sala de espera.

. . .


“O senhor já pode entrar”, disse-lhe com forte sotaque, um sorriso sincero e um leve tapa nos ombros. "O senhor já pode entrar".

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

DEVANEIO EM 140 CARACTERES

Acordou. Na cozinha, mulher e filhos. Café. Conversas. Despediu-se. Já no carro se perguntou desesperado “quem diabos eram aquelas pessoas”.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

THE HYENA & OTHER MEN


Vale conferir o trabalho do talentoso fotógrafo Pieter Hugo, em especial as suas fotos dos "Homens Hiena" da Nigéria. As imagens mostram o trabalho destes homens que parecem habitar um mundo paralelo, desértico, apocalíptico. Eles são coletores de dívidas que visitam seus "clientes" acompanhados por uma hiena selvagem. Homens de um outro mundo, sem dúvidas. De uma África desconhecida, inóspita, inatingível, que não nos é compreensível nem no pior pesadelo. As fotografias de Pieter Hugo são de uma beleza crua e violenta, com retratos perfeitos da frieza destes homens e de seu trabalho. Absolutamente inacreditável.


domingo, 4 de outubro de 2009

"WOULD YOU ERASE ME?"


E se realmente fosse possível apagar memórias tristes das nossas mentes? Sumir com aquelas lembranças que nos fazem sofrer; as memórias que já não tem utilidade; eliminar qualquer vestígio de alguém que amamos perdidamente como num passe de mágica? Essa é a grande questão deste brilhante filme de Michel Gondry, lindamente protagonizado por Jim Carrey (no seu melhor papel dramático) e Kate Winslet, perfeita como sempre. O título é uma alusão à famosa citação de Alexander Pope: "Feliz é a virgem inocente. Esquecendo o mundo e por ele sendo esquecida. Brilho eterno de uma mente sem lembranças". A história transpira profunda beleza e metafísica ao narrar a vida de um casal infeliz que decide apagar um ao outro da memória por meio de um questionável procedimento médico. Joel e Clementine viveram juntos e chegaram a um ponto em suas vidas que simplesmente "não funcionavam mais". O fim do relacionamento é triste e doloroso e ambos decidem se apagar. Essa metáfora discute o caminho mais fácil, que sempre escolhemos: fugir, esquecer, apagar. O caminho mais difícil, mais longo, é sempre mais doloroso, porque envolve amadurecimento, comprometimento e aceitação. Mas será, mesmo, que seria tão fácil simplesmente apagar alguém das nossas vidas? Rompendo com pensamentos e memórias como se fossem arquivos de computador? Essa reflexão, durante o filme, é ambiguamente melancólica e romântica. Joel e Clementine, apesar de terem se apagado, nunca conseguem se "eliminar" por completo. Algumas memórias são fortes demais, presentes demais, o que faz com que ambos se reencontrem, eventualmente, e saibam, de alguma forma, que há algo ali e que eles precisam ficar juntos novamente. O filme é recheado de passagens comoventes, quando exprime na linguagem do filme, a confusa e misteriosa costura de lembranças, sempre caótica, sempre explosiva, sempre poderosa. Por fim, compreendemos que o amor genuíno é, em si, um conjunto de idéias conflituosas: paixão, raiva, desejo, admiração, pena, desprezo, cuidado, respeito. Algo simplesmente poderoso demais para ser apagado. E as nossas memórias, as piores e as melhores, são sempre um mapa para nos retirar do labirinto da estagnação; o farol que nos aponta o caminho de casa. "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" é um filme dificil, confesso. Mas, para mim, é mais que um filme. É uma experiência que merece ser vivida. Uma lembrança que merece ser registrada.   

sábado, 3 de outubro de 2009

A FILHA DO REI


Ninguém tinha muita paciência com aquela menina. Professores, amigos, nem mesmo os seus pais. Na escola era sempre motivo de piadas e dificilmente conseguia manter uma amizade nova. Todos a achavam estranha demais, uma criança excêntrica, quase assustadora. Ninguém se interessava pela companhia de uma menina como ela, que tinha um jeito diferente de abordar as pessoas e compreender o mundo. Enquanto todas as crianças de sua idade vinham em busca dos “porquês de adultos” ela entretinha-se de trazê-los suas próprias respostas.

Curiosamente, ela era amada pelos animais, que se aglutinavam ao seu redor como se atraídos por um farol. Passarinhos pousavam em sua cabeça, cachorros interrompiam o latido incessante diante da sua presença ou mesmo insetos, grandes e pequenos ficavam imóveis na palma de suas mãos pequeninas. Aquela era, inegavelmente, uma menina doce, solitária e reflexiva. Um pouco silenciosa, claro, mas não havia motivo para ser tão hostilizada.

A verdade é que ela parecia pouco se importar. Quando sua mãe a repreendia mesmo sem razão, ela sorria e a abraçava. Quando seu pai a castigava, aceitava quase feliz a punição, ainda que não entendesse sua culpa real. Os amigos que a perseguiam na escola ela já nem perdia tempo em ouvir. Apenas os olhava, sem julgar nem sentir raiva. Ás vezes sentia pena, até. E nunca, nunca, sentia-se só ou triste. Mesmo quando nada no seu dia dava certo, ainda assim ela olhava para cima e se confortava em aquecer as bochechas ao sol.

A menina adorava a natureza e parecia ser adorada por ela também. Nunca tropeçava numa pedra, nunca pegava uma gripe de chuva, nunca cortava seus pés descalços, nunca comia uma fruta estragada. Havia algo para ela, na estranheza daquele mundo tão imenso - e que em nada a intrigava - a certeza de que ela sempre estava na melhor das companhias. Gostava do frescor do vento e da água gelada, da grama molhada e da areia áspera, da casca das árvores e das rochas imóveis, das gaivotas e dos besouros. Tudo, para ela, era uma doce companhia.

Os passeios da escola sempre criavam inúmeras situações para que ela fosse alvo de mais piadas e perseguição. Não que ela se importasse, pelo contrário, mas é que se sentia um pouco cansada daquilo, de vez em quando. Feliz, porém, com seus sete anos recém completos e mais um dia ensolarado, ela deixava para lá e os ignorava. Se não havia motivos para que gostassem dela, para que procurar entendê-los?

Os banhos de lagoa eram muito divertidos, no entanto. Os meninos e as meninas se ocupavam com tanto esforço em ignorá-la, que nem percebiam que ela era a única criança cujos pequeninos pés se equilibravam gentilmente acima da fina superfície das águas.

Era quando ela mais ria de tudo aquilo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO...


Parabéns, Rio, cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

CENAS INESQUECÍVEIS DE "AMADEUS"


Salieri esquecido pelo tempo: "você não se lembra de nenhuma de minhas canções?"


Salieri se recorda da música de Mozart: "era a voz de Deus"


Mozart defende "As Bodas de Figaro": "ele está apenas medindo a sua cama..."


O humilhante duelo entre Mozart e Salieri: "Grazie signore"


Mozart perde seu pai e compõe "Don Giovanni", a mais obscura de todas as peças


A mais linda e comovente de todas as cena: Salieri em êxtase apenas em ler as partituras originais de Mozart

CURTINDO A VIDA ADOIDADO


Começo o mês de outubro em clima de nostalgia, ao lembrar de um dos filmes mais importantes para mim e mais emblemáticos para nós que éramos adolescentes inocentes dos inesquecíveis anos 80. É impossível não se deixar contagiar pelo filme "Curtindo a vida adoiado" (Ferris Bueller´s Day Off). Neste cultuadíssmo filme de John Hughes, Ferris é a representação de uma época. Do nosso tempo. Uma era em que achávamos, realmente, que poderíamos ser heróis, que mudaríamos padrões e venceríamos o sistema. Ele é o símbolo dos valores de uma época: não se deixar sucumbir pela escola, enganar os pais, driblar os diretores e superar toda e qualquer forma de autoridade enquanto, de quebra, se aproveita a jornada. "Aquilo que sempre sonhamos fazer, Ferris fez tudo em um dia e dirigindo uma ferrari emprestada" é o mote do filme. Na deliciosa e inesquecível história, Ferris (Matthew Broderick) leva seu melhor amigo Cameron (Alan Ruck) e sua namorada Sloane (Mia Sara) numa jornada de um dia que eles jamais se esquecerão. No caminho, uma trama inteligente para despistar o diretor Rooney, maravilhosamente vivido por Jeffrey Jones, um almoço de graça num bistrô chique de Chicago, uma visita a um museu de arte e a participação numa parada comemorativa no centro da cidade, num caminho recheado de estripulias. E quem viveu nos anos 80 sabe que a melhor forma de assistir a esse filme é vendo a versão dublada, com a voz de Nizo Neto dublando Ferris. "Curtindo a vida adoidado" é uma das melhores formas para se fazer uma viagem rápida aquelas memórias que gostamos de sacar, vez ou outra, para aquecer o coração e trazer um sorriso ao rosto.

Uma cena emblemática de um filme emblemático: Ferris Bueller dubla "Twist & Shout"

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

DESPEDIDA E ACEITAÇÃO


"Quando você viu seu pai pela última vez?" não é simplesmente um filme sobre a perda. É sobre a passagem, o aprendizado, o entendimento real de se dizer adeus, essencialmente, a uma parte fundamental de nós mesmos. Neste filme precioso, engraçado e melancólico sem exageros, Jim Broadbent e Colin Firth interpretam, respectivamente, um pai (Arthur) e um filho (Blake) que tiveram uma vida inteira de desentendimentos.  Os dois não conseguiam "funcionar" juntos. O pai, por ser um eterno garoto, feliz, inconsequente, determinado em viver cada minuto da vida, sem se levar muito a sério. O filho, oposto de tudo isso, por ser um jovem adulto, sério, envergonhado, muito mais interessado pelos livros que por viver de verdade. Ambos passam anos se testando mutuamente, numa guerra de amor e ódio em que fica parecendo para nós, espectadores, que o filho não gosta do seu pai; quando, justamente, tudo o que ele mais quer é a sua admiração e respeito. A solução que Blake encontra é a mais fácil e ele se afasta de seu "antagonista" para descobrir um caminho próprio para sua vida. Mas é justamente a vida que lhe faz a chamada de volta, para reencontrar o seu pai nos últimos dias. O retorno traz consigo lembranças, reflexões, mágoas antigas, memórias felizes, dúvidas e, inevitavelmente, o entendimento da perda que, para Blake (para nós, nem tanto) é surpreendente e atinge-o como um trem desgovernado. Por fim, este não é um filme indispensável, tampouco se predispõe em sê-lo, mas não deixa de ser uma linda história sobre pessoas simples diante da constatação do inevitável. A pergunta que dá título ao filme é, sem dúvidas, a mais bela e comovente do filme, e encerra-o, como um epílogo. E faz com que nós mesmos repensemos tanta coisa que talvez ainda possamos ver e fazer, antes que seja tarde demais.

PARA VER E OUVIR: CAT STEVENS ("FATHER & SON")

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

QUE MISTÉRIOS ESCONDE O DISTRITO 9?


Num futuro fictício, uma gigantesca aeronave alienígena flutua sobre a cidade de Johanesburgo (África do Sul). Após tentativas fracassadas de contato, o governo local decide enviar uma missão de reconhecimento à ilha de metal que encobre a cidade e lá descobre uma raça de seres extraterrestres doentes e famintos. Os aliens são trazidos para o solo, onde passam a habitar uma zona de quarentena chamada "Distrito 9". Rapidamente, os "camarões", como são chamados pela população local, assumem comportamento humanizado e, quando o governo percebe, o Distrito 9 já se transformou numa favela, consumida por violência, exploração sexual e tráfico de armas. Diante deste cenário caótico, onde a população se vê obrigada a conviver com uma raça marginalizada, começam a surgir eventos de crise social onde há um aumento vertiginoso da criminalidade, transformando Johanesburgo num palco de tensões entre os alienígenas, que vivem de forma "sub-humana" e querem ir embora, o governo que os mantém "seqüestrados" para descobrir seus segredos tecnológicos e o povo que não os quer por perto. Uma divisão militar privada resolve invadir o Distrito 9, para impor uma política de despejo e conduzir os "camarões" a um campo de refugiados. No entanto, há segredos demais sob os escombros e a sujeira do Distrito 9. E são esses segredos que se desenrolam na tela neste filme brilhante, instigante e original de Neill Blomkamp (com apresentação de Peter Jackson). "District 9" é uma mistura extremamente coerente de gêneros, com doses certas de mistério, humor, ação e ficção científica. Costura-se com referências a clássicos como "A Mosca" e é um dos filmes de ficção mais originais, na minha opinião, comparável a "Alien" e "Blade Runner". O filme assume o tempo inteiro uma linguagem documental/investigativa, que faz o cenário parecer extremamente verossímil. É preciso alguns segundos, acabado o filme, para lembrarmos que aquilo nunca aconteceu no planeta. Completamente imperdível para fãs do gênero. O filme estréia em breve nos cinemas brasileiros.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O PODER DA DISNEY EM FAZER A VIDA SER PERFEITA NOVAMENTE



"Up - Altas Aventuras" é um deleite, um deslumbramento, um presente para os olhos e a alma. Dos mesmos criadores de preciosas animações, como "Procurando Nemo" e "Toy Story", "Up" conta a aventura de um vovozinho extremamente convencional: mau humorado, solitário e sistemático. Ele vive na última casa que sobreviveu ao surgimento de um bairro moderno, cheio de arranha-céus e todos os dias se recusa em aceitar propostas de compra para a sua casa - reformada por ele e sua mulher e seu refúgio pessoal. O filme começa com uma seqüência docemente comovente, que resume a vida de um casal, com todas as suas alegrias e tristezas até a constatação inevitável da finitude. Poesia pura, intensa, original.



Após uma vida inteira de viagens planejadas e não realizadas, o sr. Carl Fredricksen está prestes a ser enviado a um asilo. O sonho de sua mulher, Ellie, era conhecer uma terra de cachoeiras, na América de Sul e Carl prometeu levá-la até lá um dia. Ao se lembrar dessa promessa que fizeram quando crianças, Carl amarra sua casa numa nuvem de balões coloridos e parte rumo ao sul. O que ele não contava era com alguns imprevistos, como uma tempestade, um vilão, uma matilha de cães perigosos e uma trupe inusitada para acompanhá-lo até o fim: Russel, um esforçado escoteiro gordinho, uma ave colorida chamada "Kevin" e um cão falante chamado "Doug". Juntos, os quatro atravessam florestas e montanhas enquanto somos agraciados com um banquete visual e de emoções. Como tudo na Disney, "Up" faz a vida ser bela de novo, colorida e cheia de esperança. E essa animação imperdível é completa e competente na sua missão de divertir e emocionar. Ao pegar carona na casa voadora do sr. Fredricksen, encontramos uma jornada de risos e lágrimas. Mas que, ao subir dos letreiros, nos subtrai quilos da alma. É um filme lindo, absolutamente lindo, com conteúdo para adultos e crianças. Uma animação incrível que, pelo seu poder de nos fazer sorrir, também nos faz voar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

domingo, 20 de setembro de 2009

O DESTINO DA PIPA AMARELA

A Pipa Amarela procurou pelo Vento, mas não conseguiu achá-lo em canto algum. "Onde você se escondeu hoje, meu doce amigo?", perguntou gentilmente. Mas era como se o Vento não estivesse ali. "Você me deixou?", continuou a Pipa Amarela. "Você sabe que sem você eu não posso ir a canto algum... por que não me leva com você pelos oceanos, pelos céus, desertos e florestas?". A Pipa Amarela estava desolada. "Não me acha mais interessante?", seguiu questionando. "Deixe-me voar com você e lhe prometo ser eternamente fiel", a Pipa Amarela implorava. Mas o Vento continuou ignorando-a friamente. "Você esqueceu das nossas promessas? Voaríamos juntos por reinos e países!", exclamou indignada. Mas o Vento não se interessava por suas palavras. "Parece-me, meu doce amigo, que você não me ama mais", concluiu, melancólica. "Percebo que minhas sedas e hastes não são suficientemente fortes para lhe cativar o coração", disse a Pipa Amarela, comovida.

E, então, o Vento decidiu olhar para ela.

"Minha doce, inocente, amiga. Jamais acredite nas promessas do Vento. O destino da pipa é colorir os céus e adornar os dias com sua pele delicada e sua dança comportada. Você não deve se atrever em aventurar-se, mas sim continuar a fazer cócegas nas nuvens e divertir as crianças. Ontem, desejamos ser amantes dedicados. Mas, hoje, quero correr só. Quero voar, irresponsável, pelas bandeiras e saias das moças. Quero revirar jornais, folhas secas e desfazer cabelos. Ontem voamos juntos. Hoje, quem sabe, voarei pelas pastagens africanas, pois não tenho lar nem jamais terei. Mas voarei só. Guardo em mim apenas desejos e caminhos. Sou efêmero. Não poderei amá-la. Não mais. E devo partir, agora". E o Vento se foi. E a Pipa Amarela o observou ir embora, com lágrimas nos olhos, enquanto mantinha sua dança de fada infeliz.

E, sozinha, chorou, chorou e chorou...

E as suas lágrimas deixaram-na ensopada e pesada como uma pedra...

Até que ela não mais conseguiu mais flutuar... e caiu, rapidamente, para o seu túmulo de pipa, no chão.

Ao chegar no solo, foi rapidamente envolvida pela Grama, que a observava pender do céu. A Grama abraçou-a carinhosamente, enquanto a Pipa Amarela parecia se desfazer no solo.

"Eu sempre te observei, aqui de baixo. Mas você não passava de um sonho impossível para mim, sempre lá no alto, voando com o Vento. Agora que você está aqui, comigo, te amarei para sempre, minha amiga querida, porque seremos um só com a terra", sussurrou a Grama nos ouvidos da Pipa Amarela.

E a Pipa Amarela sorriu. Ela estava em casa.

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("AUGUST MOON")

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"THE BEATLES ROCKBAND"


O jogo "The Beatles Rockband", que acaba de sair para os consoles de última geração, oferece a experiência de tocar, como os próprios Beatles, a discografia mais amada do planeta. O jogo, sem dúvidas,  merece todo o alvoroço que está sendo feito sobre ele. E esse vídeo de abertura é, simplesmente, incrível. Em pouco mais de dois minutos, a inocência, o fanatismo, a psicodelia, todas as cores e sabores que fizeram desta a maior banda de todos os tempos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

POR TRÁS DA CORTINA DO PODEROSO CHEFÃO


A trilogia de Francis Ford Coppola, “O Poderoso Chefão”, baseada em livro homônimo de Mario Puzo está entre os filmes mais cultuados de todos os tempos. Nenhum elogio é exagerado. A trilogia é perfeição. O primeiro filme foi lançado em 1972 e é estrelado por Marlon Brando no inesquecível papel do “padrinho”, Vito Corleone. O filme ganhou 3 Oscars e conquistou uma legião de fãs que, até hoje, se encantam com o universo criado por Puzo e Coppola. Existem ótimas curiosidades sobre o primeiro filme da saga:
- Polêmica na produção: Joe Colombo, um mafioso americano, promoveu uma cruzada contra a filmagem dos filmes do “Poderoso Chefão”. Ele ameaçou roteiristas e acusou a Paramount de realizar um filme “anti-italiano”. Permitiram que ele se envolvesse na produção e ele solicitou que termos como “Máfia” e “Cosa Nostra” jamais fossem usados e ainda impôs que companheiros atuassem como extras e consultores.
- Marlon Brando decidiu fazer Vito Corleone como um bulldog, por isso o algodão nas bochechas. Insatisfeitos com a maneira como Coppola dirigia o primeiro filme da trilogia, executivos da Paramount consideraram substituí-lo por Elia Kazan. Eles achavam que Kazan trabalharia melhor com o notoriamente difícil Marlon Brando. Ao saber disso, Brando anunciou que se Coppola fosse demitido ele sairia do filme no mesmo dia.
- O diretor Sergio Leone, famoso precursor do gênero “faroeste espaguete” (filmes de faroeste rodados na Europa), foi convidado para dirigir “O Poderoso Chefão”. Ele recusou, afirmando que não gostava da história que, além de glorificar a máfia, não era interessante. Anos depois ele se arrependeu da decisão e acabou dirigindo o aclamado filme de gângsters, “Era uma vez na América” (Once upon a time in America), em 1984.
- O famoso gato segurado por Marlon Brando, nas cenas iniciais de “O Poderoso Chefão” era um gatinho de rua, que o próprio Brando achou nos estacionamentos da Paramount. Ele era louco por Marlon Brando (quem não era?). Em cena, ele ronronava tanto nos braços de Brando, que algumas cenas tiveram de ser refeitas, para que alguns diálogos não se perdessem. Detalhe: O gato não fazia parte do roteiro original.
- O tradicional gorro siciliano, usado, por exemplo, pelos guarda-costas de Michael Corleone, se chama “coppola”.
- Existem 61 cenas no primeiro “Poderoso Chefão” onde as pessoas estão comendo ou bebendo alguma coisa.
- Segundo Al Pacino, as lágrimas de Marlon Brando eram reais na cena do hospital.
- “O Poderoso Chefão” foi eleito “O melhor filme de todos os tempos” pela Entertainment Weekly.
- “Sonny” era o filho mais velho de Don Corleone (Santino, interpretado por James Caan). Esse apelido, escolhido por Mario Puzo para o seu personagem, era o mesmo do filho de Al Capone. As semelhanças, porém, acabam aqui. O filho de Al Capone nunca “entrou nos negócios da família”.
- Quando a Paramount comprou os direitos de “O Poderoso Chefão”, o livro sequer havia sido finalizado e mal tinha 20 páginas.
- Os avós de Al Pacino também são imigrantes vindos de Corleone.
- Orson Welles pediu a Coppola o papel de Vito Corleone, mas ele já havia dado a Marlon Brando.
- Os atores que fazem os filhos de Don Corleone eram, na vida real, pouco mais jovens que Marlon Brando.
- No primeiro filme há 18 mortes (cavalo incluso).
- A versão inicial do primeiro filme tinha 126 minutos e foi considerada curta pela Paramount.

"Bonasera, Bonasera. O que eu te fiz para você me tratar com tanto desrespeito?"

PARA O RESTO DE NOSSAS VIDAS

Um dos meus filmes mais queridos, sem dúvidas, é "Para o resto de nossas vidas" (Peter´s Friends). O filme, de 1992, fala do reencontro de seis amigos que não se viam há 10 anos e que conseguem se reunir e perceber como as suas vidas mudaram (ou, em alguns casos, nem tanto). Andrew, um executivo inglês infeliz e "ex-alcóolatra", que leva a sua esposa (uma atriz de Hollywood); Sarah, uma "ex-ninfomaníaca" acompanhada por seu namorado do momento; Mary e Roger, um casal devastado pela perda de um filho; Maggie, a amiga boazinha e viciada em auto-ajuda; e Peter, filho de uma tradicional família britânica. Ex-atores de teatro amador, a turma é convidada por Peter a passar junta o ano novo na mansão, no interior da Inglaterra, que ele acaba de herdar do pai. O filme parece combinar com a Inglaterra, seu clima, seu humor, sua névoa, com tons e nuances de histeria, melancolia, confusão e felicidade. O reencontro dos amigos de Peter rende risadas, lágrimas, brigas, redenção e, por fim, uma notícia - o motivo da reunião - que surpreende a todos imensamente e ajuda-os a repensar suas próprias vidas. Acho que esse é um daqueles filmes que muitas pessoas acabam não dando muita bola, injustamente. O filme é maravilhoso, delicado, engraçado. A trilha sonora é incrível e o elenco reúne grandes estrelas como Kenneth Branagh (que também dirige o filme), Emma Thompson, Stephen Fry e Hugh Laurie (hoje bem conhecido por seu papel como o dr. House na famosa série de TV). Recomendo. É um filme que fica.

Os amigos de Peter cantam juntos "The way you look tonight", numa das cenas mais bonitas do filme

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O ÚLTIMO LUGAR IMAGINÁVEL PARA ENCONTRAR A SI MESMO

Aguardo, com certa ansiedade, pelo lançamento do filme "Moon", de Duncan Jones que, por acaso, é filho de ninguém menos que David Bowie. O filme se passa um futuro não tão distante, onde o astronauta Sam Bell (Sam Rockwell) está quase terminando seu contrato de três anos de exploração na lua. A solidão e o isolamento permitiram que ele refletisse sobre a sua vida e os seus equívocos, enquanto seguia fielmente as obrigações de trabalho. Os dias passam e Sam trabalha no automático, pensando na volta à Terra e à sua mulher, Tess e filha, Eve. No entanto, duas semanas antes de sair da Lua, Sam perde contato com a Terra. Um acidente de mineração acontece e vemos Sam acordar confuso na enfermaria, onde o computador de bordo informa-o que ele esteve desacordado por alguns dias e que sofre de perda de memória. Ao sair da base, Sam encontra um homem acidentado não muito longe dali e descobre que o homem é, simplesmente, ele mesmo... que outros mistérios estarão escondidos na Lua? É por isso que aguardo, tão ansiosamente, pelo lançamento de "Moon".

domingo, 13 de setembro de 2009

"DON'T YOU FORGET ABOUT ME"


A década de 80 é um baú de tesouros cinematográficos. Na minha opinião, somente com filmes dos anos 80, seria possível fazer um top 10. Um ícone inesquecível é "O clube dos cinco" (The Breakfast Club). O famoso filme de John Hughes, de 1984, narra o encontro de cinco jovens, de mundos completamente diferentes. "Eles se encontraram apenas uma vez, mas isso mudou suas vidas para sempre". Numa manhã de um sábado qualquer, alguns adolescentes americanos estão de castigo: um atleta, uma patricinha, um nerd, uma excêntrica e um vândalo. Obrigados a dividir um mesmo espaço da biblioteca e a escrever uma redação sobre "quem realmente são", os cinco se descobrem numa jornada preciosa de auto-conhecimento. Preconceitos e estereótipos vão se desfazendo pouco a pouco enquanto vão cedendo as barreiras; e aquilo que parecia mais improvável acontece: aquele encontro se transforma num ponto decisivo na vida de cada um. Eles dividem sonhos e temores e vão se surpreendendo como, apesar de tão diferentes, são tão parecidos em suas inquietações. Algo muda em todos eles, ainda que isso pareça imperceptível. O filme é absolutamente brilhante e atemporal. Há pouquíssima ação e tudo basicamente acontece na biblioteca, onde acompanhamos os diálogos como se fôssemos o sexto membro honorário do clube. Sentimos empatia e saudade de todos quando esse encontro chega ao fim. Sinto em mim mesmo o impacto das conversas e reflexões tão interessantes. Ao final, um epílogo perfeito para encerrar essa fábula engraçada e melancólica, essa lembrança inesquecível de um tempo de inocências.

PARA VER E OUVIR: CARY GRANT & GINNY SIMMS CANTAM "YOU'RE THE TOP" ("NIGHT AND DAY - 1946)

sábado, 12 de setembro de 2009

O TREM


A grande verdade é que descobrimos mais cedo ou mais tarde que estamos viajando num trem no qual fomos simplesmente obrigados a embarcar. E que não pára. Nunca. Ele segue de estação em estação, nos trazendo pessoas, surpresas, lugares, lembranças, risos, lágrimas, flores e fotografias pelo caminho. E nos fazendo deixar muito de tudo isso para trás, também. Viajar nesse trem é dizer olá e adeus, sem parar. Às vezes é uma sensação agradável, a de estar correndo neste trem do qual não podemos descer. Às vezes é desesperador. Simplesmente desesperador.

É o simples medo de envelhecer, de enfrentar a vida sozinho. Quando chega a nossa vez, a nossa deixa, a hora de assumir o bastão desta corrida já vivida por tantos antes de nós. É que não queremos que a viagem acabe. Não queremos dizer adeus a quem amamos. É que não queremos ver os nossos pais irem embora. É agonia de nos enxergarmos mais velhos no espelho, quando sabemos como somos bons em "sermos jovens". 

Talvez seja a grande dificuldade de nos desprendermos, desapegarmos de tantas posses e propriedades mentais e materiais e dizermos adeus a pessoas e a momentos que simplesmente ficam para trás; não por que assim escolhemos, mas por que simplesmente a vida nos obriga que assim seja. Adeus e olá. Olá e adeus. Por que o trem segue seu caminho e nada nos resta a não ser abraçar seus inúmeros vagões e paradas, enquanto contemplamos o que passa por suas janelas velozes. Só não dá para parar o trem. Só não dá para descer. É um fato inquestionável.

Por isso enfrentamos a angustiosa necessidade de conversar com alguém, para encontrar alguma resposta, algum conforto. Buscamos nossos pais, avós e irmãos que já viveram o suficiente desta jornada, para nos explicar um pouco sobre o que ainda vem pela frente. Uma tentativa infantil, quase ingênua, de perguntar uma última vez se é possível descer do trem e voltar para casa, onde é seguro, nosso último bastião, dentro do qual não envelhecemos e a vida deixa de ser assustadora.

“Espere um pouco mais, acumule algumas décadas e renegocie a sua jornada”, tentam nos confortar com algum sucesso, “mas não pare nunca este trem, não troque por nada este pedaço do caminho que você já correu”. No fim das contas não devemos mudar nada do que construímos até onde estivermos e aceitar que o trem não pára mesmo. E ao invés de nos ocuparmos tanto em questioná-lo e tentar a qualquer custo tirá-lo dos trilhos, descobrirmos que pode ser boa a jornada. Por que ela subtrai na quase igual proporção em que soma. Não nos rouba nada, apenas negocia e renegocia. Estamos em troca, todo o tempo. E somos melhores a cada novo dia.

Abraçar a viagem. É difícil, mas é o que deve ser feito, dizem-nos os mais experientes. Abraçar a viagem. Dizer adeus aos nossos pais e olá aos nossos filhos, por que em breve será a vez deles, o momento deles de subirem no trem, seguindo a viagem que é só deles, e se preparando para nos dizer adeus. Por que tudo corre velozmente para o pleno fechamento de um círculo. E também este círculo não pára, por que é contínuo e se refaz em si mesmo, com a perfeita e magistral alternância de papéis. Pais que são filhos. Filhos que se tornam pais. Até todos irem embora e até todos chegarem. É o destino final. É o trem da vida. E, ao final do dia, tudo estará bem.

John Mayer canta "Stop this train" (Live in LA)

SAUDADES DA "BAÍA"




"Mungunzá"? Impagável...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

ILUSTRANDO

"Boulevard Diderot" - Fotografia de Cartier-Bresson

PARA VER E OUVIR: ERIC CLAPTON TOCA "TEARS IN HEAVEN" (JAPÃO)

UMA PROVA DE AMOR


A premiada propaganda (ganhadora em Cannes) da Niños con Cancer

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O MISTÉRIO DA TORRE NEGRA

Um detetive investiga o submundo de paris em 1818. Seu nome: Vidocq, um mestre do disfarce e o terror dos criminosos da França pós-revolucionária. O famoso detetive tem uma nova missão: investigar o mistério por trás da morte do príncipe Luís Carlos, filho de Maria Antonieta e Luís XVI. Oficialmente, o menino de 10 anos teria morrido brutalmente durante a Revolução Francesa, mas é possível que o jovem dauphin ainda esteja vivo, o que mudaria imensamente o cenário político francês. Como assistente, o excêntrico Vidocq convoca Heitor Carpentier, um estudante de medicina que ainda vive com sua mãe, uma viúva de posses razoáveis no Quartier Latin. Os dois esbarram num homem sem nenhuma memória de quem é, o que levanta suspeita de que ele talvez seja o príncipe dado como morto. A partir daí, um mergulho profundo em revelações e descobertas que levam o investigador e o seu assistente a conquistar justiça de qualquer maneira. Essa é a trama de "O mistério da Torre Negra", de Louis Bayard, um romance policial cheio de intriga, conspiração e o desejo de traçar a redenção de uma família real deposta e destruída pela revolução.

domingo, 6 de setembro de 2009

MOMENTOS INESQUECÍVEIS DE "OS INTOCÁVEIS"


Quatro homens batalhando heroicamente contra o império de Al Capone. Para tudo ficar ainda mais épico, tudo ao som de Ennio Moricone.


A famosa cena do tiroteio na escadaria. Tensão à flor da pele.


"Baseball": descobrindo a tirania e o sangue frio de Al Capone.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

DESVIO

"Três formas de amar" (Threesome) começa e termina com reflexões valiosas. Qual o verdadeiro significado da palavra "desvio"? Na sua origem etimológica, "sair do caminho". Eis a idéia central deste cultuado filme do anos 90. Escrito e dirigido por Andrew Fleming, "Três formas de amar" narra o encontro de 3 pessoas que, ao se encontrarem, se perdem por completo. Stuart (Stephen Baldwin) gosta de Alex (Lara Flynn Boyle), que gosta de Eddy (Josh Charles), que gosta de Stuart. Esse triângulo amoroso, nascido do mero acaso, constrói uma história cheia de nuances e reviravoltas interessantes. Mas esse não é um filme meramente de temática e conotação sexual (ou homossexual). Isso seria uma forma muito banal e óbvia de interpretá-lo. Para mim, é um filme muito maior que isso. É uma história sobre amor, descoberta, amadurecimento, separação. Um filme sobre a idéia de que nada é para sempre e que as nossas vidas são formadas por lembranças, momentos e encontros efêmeros, que se vão e até se perdem, mas não sem antes nos marcar para sempre. Esse filme é exatamente sobre isso. Um recorte, uma lembrança. Neste caso, "um desvio", numa viagem planejada, que acaba se transformando em seu melhor momento. Ou, pelo menos para Eddy, Alex e Stuart, o mais inesquecível.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

PARA VER E OUVIR: SARA BAREILLES ("BETWEEN THE LINES")



Linda que dói. Sempre.

A NOBRE ARTE DE RIR DA TRAGÉDIA

O fenomenal filme "A Queda! As últimas horas de Hitler" possui um gêmeo cômico, uma outra metade, uma versão light. Trata-se de "Minha Quase Verdadeira História" (Mein Führer). Escrito e dirigido por Dani Levy, essa comédia refinadíssima se propõe a documentar, de maneira "definitiva", os bastidores dos últimos dias de Adolf Hitler. Entre os inúmero trunfos deste filme delicioso está a catarse pura dos alemães ao falarem do maior pesadelo da história humana. Ao mostrar um Hitler chorão, deprimido, carente e inseguro, o filme destrói o mito e o medo, sem jamais negligenciar o genocídio, a psicopatia e a esquizofrenia de uma nação e de seu líder supremo.
A história se passa no final de 1944. Hitler está deprimidíssimo às vésperas de fazer um discurso de convocação da nação alemã à resistência. Mas como um homem deprimido poderá ser capaz de acender a chama nacionalista de um povo? Nem o próprio Hitler se recorda mais de como era o seu tempo de grande orador. Para contornar a situação, o Ministro da Propaganda, Joseph Goebbels (Sylvester Groth) decide resgatar um professor de teatro judeu de um campo de concentração: o famoso ator Adolf Grünbaum (Ulrich Mühe). O plano é simples. Com a ajuda de um "tutor" especializado em artes cênicas, o Führer será treinado para voltar à antiga forma e conquistar a nação. No entanto, isso é apenas um ardil do habilidoso Goebbels para executar um golpe de Estado e formar um novo governo na Alemanha. A partir desta premissa, o filme nos presenteia com situações esquisitas, inusitadas e até absurdas...
O que acontece, naturalmente, é que Hitler passa a adorar o seu "professor" e chega ao ponto de abraçá-lo tenramente, enquanto chama-o de “meu amigo judeu”. Para mim, o ápice do impensável é ver o ditador alemão, em crise de insônia, indo se deitar entre o judeu Grünbaum e sua esposa que, no meio da noite, tenta sufocá-lo com um travesseiro. O filme flerta em ser uma comédia de absurdos e algumas cenas nos convencem disso. Mas é impossível resistir a esse filme. Ele é simplesmente bom demais. E tudo é feito com muita qualidade e cuidado, ao mesclar imagens de época com atuais, alguns efeitos especiais e até citações à deusa imperfeita, Leni Riefenstahl (a cineasta oficial do partido nazista).
É difícil descrever esse filme, porque fica parecendo que a comédia perdoa e esquece. Mas isso jamais acontece. E está justamente aí a genialidade do diretor: falar sobre Hitler, fazermos rir de Hitler sem que, para isso, esqueçamos dos crimes cometidos por ele. O filme é absolutamente brilhante e em nenhum momento desrespeitoso com a história e a memória da civilização ocidental. "Minha quase verdadeira história" nos ensina a rir da tragédia, como um exercício saudável, não como humor negro. E por isso, também, esse é um filme tão belo e especial. Imperdível.

ILUSTRANDO

"Mask of Fear" - Paul Klee (1932)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

CONVITE PARA UM SONHO


Existe um filme muito especial e muito pouco conhecido. Um sonho gravado em filme. Uma lembrança de infância materializada. Trata-se de um curta metragem francês (34 minutos), de Albert Lamorisse, rodado em 1956. Uma jóia pequenina, quase perdida, quase esquecida. Perfeito para todas as idades, eras e gerações, "O Balão Vermelho" (The Red Balloon/Le ballon rouge) é um filme composto por som, imagem e música, mas praticamente sem diálogos. É um filme sussurrado, silencioso, de uma delicadeza comovente. Pura poesia e beleza que convence que a vida é linda e perfeita. Tudo gira em torno de um garotinho, que encontra um balão vermelho preso a um poste. A partir daí, o balão "segue" o menino, onde quer que ele vá, como um cão. E como se tivesse vida própria, o balão demonstra vontades e sentimentos na tela, o que torna a experiência de assistir a esse filme algo incomparável e inesquecível. O filme ganhou o Oscar de melhor roteiro original. Imperdível.

SETEMBRO

Curiosamente, tenho uma relação especial com o mês de setembro. Destino ou mera coincidência, setembro sempre é mês de surpresas, renovação, recomeço e boas notícias. É o mês que aponta a luz no fim do túnel, a calmaria após a tempestade, a chegada da cavalaria. O mês que, já em seu nome, carrega meu número da sorte. 7. É o mês que merece todos os meus melhores clichês. Claro, tenho paixão pelo mês de dezembro - mais por razões biográficas - mas setembro é o mês que me chegou em silêncio e foi se mostrando especial e demonstrando que seria para mim um mês diferente dos outros. O mês de apostas certeiras, de esperanças e de expectativas. O mês do "tudo vai dar certo". Tem sido assim a uns bons anos e espero que continue a sê-lo. Setembro. Bem vindo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O QUARTO REINO


"Um dia, quando nós já não estivermos mais aqui, nestas montanhas o destino do mundo será regido. Eu sei, Excelência, nosso Führer não poderia ter escolhido lugar melhor para ressucitar".

*

Essa frase, proferida por um monge de Montserrat (Barcelona), ilustra um suposto encontro secreto com o reichführer-SS Heinrich Himmler em sua visita ao famoso mosteiro espanhol. A missão procurava esconder (?) o Santo Graal na região para o renascimento de Adolf Hitler e do seu império nazista no século XXI. Ao final da II Guerra Mundial, o III Reich começava a ruir, mas a semente do IV era plantada em solo espanhol. Essa é a premissa do livro "O Quarto Reino", de Francesc Miralles. A trama é protagonizada pelo jornalista Leo Vidal, que se vê preso até o pescoço numa guerra entre instituições poderosíssimas. De um lado, uma facção determinada a reerguer o Estado Nazista. Do outro, uma organização que não mede esforços para impedir isso de acontecer. O livro, apesar de previsível e até juvenil em alguns momentos, oferece uma leitura agradável e absolutamente aconselhável a todos que apreciam romances de forte poder cinematográfico e comercial como "O Código da Vinci". A história é dinâmica, com capítulos objetivos, e percorre cenários interessantes, como a Espanha, a Suíça e o Japão, enquanto vai descortinando os mistérios que cercam a ascensão (?) do Quarto Reino. No caminho, perseguições, assassinatos e enigmas a serem resolvidos. Ideal para um final de semana de chuva. Recomendo.

domingo, 30 de agosto de 2009

"TWO ENGLISH POEMS" - JORGE LUIS BORGES (1934)


I

The useless dawn finds me in a deserted street-
corner; I have outlived the night.
Nights are proud waves; darkblue topheavy waves
laden with all the hues of deep spoil, laden with
things unlikely and desirable.
Nights have a habit of mysterious gifts and refusals,
of things half given away, half withheld,
of joys with a dark hemisphere. Nights act
that way, I tell you.
The surge, that night, left me the customary shreds
and odd ends: some hated friends to chat
with, music for dreams, and the smoking of
bitter ashes. The things my hungry heart
has no use for.
The big wave brought you.
Words, any words, your laughter; and you so lazily
and incessantly beautiful. We talked and you
have forgotten the words.
The shattering dawn finds me in a deserted street
of my city.
Your profile turned away, the sounds that go to
make your name, the lilt of your laughter:
these are the illustrious toys you have left me.
I turn them over in the dawn, I lose them, I find
them; I tell them to the few stray dogs and
to the few stray stars of the dawn.
Your dark rich life ...
I must get at you, somehow; I put away those
illustrious toys you have left me, I want your
hidden look, your real smile -- that lonely,
mocking smile your cool mirror knows.

II

What can I hold you with?
I offer you lean streets, desperate sunsets, the
moon of the jagged suburbs.
I offer you the bitterness of a man who has looked
long and long at the lonely moon.
I offer you my ancestors, my dead men, the ghosts
that living men have honoured in bronze:
my father's father killed in the frontier of
Buenos Aires, two bullets through his lungs,
bearded and dead, wrapped by his soldiers in
the hide of a cow; my mother's grandfather
--just twentyfour-- heading a charge of
three hundred men in Peru, now ghosts on
vanished horses.
I offer you whatever insight my books may hold,
whatever manliness or humour my life.
I offer you the loyalty of a man who has never
been loyal.
I offer you that kernel of myself that I have saved,
somehow --the central heart that deals not
in words, traffics not with dreams, and is
untouched by time, by joy, by adversities.
I offer you the memory of a yellow rose seen at
sunset, years before you were born.
I offer you explanations of yourself, theories about
yourself, authentic and surprising news of
yourself.
I can give you my loneliness, my darkness, the
hunger of my heart; I am trying to bribe you
with uncertainty, with danger, with defeat.

Esses poemas fazem parte do "Selected Poems", que pode ser encontrado na Amazon.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

ERA DE MUDANÇAS


Definitivamente, 2009 tem sido a minha "Era de Mudanças". Dourada, prateada ou incolor, essa era que tenho vivido a alguns meses tem me ensinado muita coisa. Hoje é mais uma data a ser acrescentada a essa caixa de lembranças, eventos e acontecimentos. Vida que não corre, voa. Tempo de (re)aprendizado e (r)evolução. Frio na barriga, medo da novidade. Mas faz parte da brincadeira difícil de existir; como tudo mais. Vento novo que leva o balão em outra direção, quando pensamos que o último (e seguro) caminho já começava a esgotar as suas possibilidades. É um mundo redondo e imenso, para ir, vir e explorar. É basicamente o que tenho feito na era de mudanças.

domingo, 23 de agosto de 2009

"CANJA DE GALINHA PARA A ALMA"


Não canso de me surpreender com o poder hipnótico - às vezes quase medicinal - que os filmes podem ter sobre nós. Que filme lindo, absurdamente lindo, é "Elsa & Fred". A história conta sobre dois velhinhos que se encontram por volta dos setenta e muitos, na Espanha. Fred é um viúvo recente, já se despedindo da vida, com poucas alegrias, poucos risos e sufocado por sua filha. Elsa é uma senhorinha completamente louca, que ainda corre a cidade num suzuki velho, vive ao celular cor de rosa e não perde a oportunidade de aprontar alguma coisa. Esses dos personagens tão diferentes vão se encontrar e se apaixonar num momento em que todos nós julgamos não poder haver mais amor e paixão. Elsa surge como um furacão na vida de Fred, que decide abraçar a vida novamente. E os dois seguem juntos, entre planos, brigas e aventuras. É um filme doce, delicadíssimo, repleto de humor nobre e agradável. Faz bem ao coração vê-los em cena e torcemos, a cada minuto, para que esse não seja mais um daqueles filmes com lágrimas ao final. O sonho de Elsa, de entrar na Fontana de Trevi como em La Doce Vitta rende uma cena inesquecível e comovente. Ao final do filme, senti-me mais leve e feliz. E me surpreendi - novamente - como esse poder mágico que os filmes podem exercer sobre mim. Eu havia me fartado de canja de galinha para a Alma e a vida era linda novamente.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

MEDO NA DOSE CERTA


Eu definitivamente não sou fã de filmes de terror. Abro algumas (poucas e raras) exceções, porém, para alguns filmes de zumbi. Passo longe de filmes com imagens subconscientes, crianças japonesas ou mulheres de corpos retorcidos. Passo longe! Mas vez ou outra eu esbarro em um filme de horror com enorme potencial e sou fisgado. Um exemplo é o filme "Abismo do Medo" (The Descent). Na história, um grupo de amigas decide explorar uma caverna desconhecida nos Estados Unidos. O plano era para ser bem simples: diversão, adrenalina e um punhado de aventuras para criar um final de semana inesquecível. Mas o que era para ser diversão se transforma no pior pesadelo possível. O grupo acaba se aprisionando na caverna e sem a menor noção de como sair. E quando elas achavam que o pior já havia passado, descobrem que não estão sozinhas lá embaixo... Claustrofóbico, angustiante, bem escrito, bem dirigido e com sustos de fazer pular da cadeira. Para quem procura um filme de terror com conteúdo, sem medo gratuito, vai a dica. E o que há lá embaixo, de tão assustador? E as amigas, vão escapar? Só quem resolver se aventurar no abismo do medo vai descobrir e voltar vivo, ou não, para contar...

domingo, 9 de agosto de 2009

A DELICIOSA TERAPIA DE "BLACK BOOKS"


Black Books é uma pequenina livraria escondida em algum canto de Londres. Seu dono é um irlandês mal humorado e anti-social chamado Bernard. Com ele, trabalha o Manny, que é faxineira, amigo, contador, vendedor e bicho de estimação. Para completar o grupo, Fran, uma mulher com a cabeça no mundo da lua. Esses personagens protagonizam um seriado britânico muito pouco conhecido no Brasil, chamado "Black Books". As histórias são hilárias, os diálogos são inteligentes e tudo é regado a vinho, cigarro e o melhor humor britânico: ácido, sarcástico e sem nenhuma vontade de ser politicamente correto. Deliciosa terapia para um final de semana (com chuva!) e vinho. Depois de alguns episódios, dá até vontade de fumar. Imperdível.


sábado, 8 de agosto de 2009

A ALQUIMIA DO TALENTO

Talento é uma das coisas que mais me comovem, que mais mexem comigo. Talento puro, que emana da alma. Todo mundo já deve ter ouvido o hit "The Climb", popularizado pela voz da menina prodígio Miley Cyrus (ou é Hanna Montana? Não sei desvendar esse mistério). Pois é, linda música de origem duvidosa. Enfim. Uns caras resolveram sentar para dar uma "repaginada" na música. Abaixo o vídeo e a prova de que o talento é alquimia pura. Tudo vira ouro...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

PARA VER E OUVIR: TEARS FOR FEARS ("FAMOUS LAST WORDS")

NECESSÁRIA LICENÇA POÉTICA 3


Marília Gabriherpes recebe Marília Gabriela. Imperdível. Impossível não postar.

sábado, 1 de agosto de 2009

UM FILME SOBRE DIGNIDADE

A beleza por trás da guerra está na dignidade das pessoas, que se unem, no espírito coletivo de pesar, dor e simpatia. "O retorno de um herói" é uma jóia silenciosa, que demonstra esse sentimento de forma tocante. É um filme sobre dignidade. Um filme sobre um homem bom. Um filme sobre uma nação em prantos, ferida, com cada novo soldado morto em combate. Estrela Kevin Bacon que, na minha opinião, apresenta um dos melhores papéis da sua carreira como o tenente coronel Mike Strobl. O filme conta a história de um alto oficial do exército americano que se oferece para escoltar o corpo de um soldado morto no Iraque até sua cidade natal. No caminho, acompanhamos o cuidado, o respeito e a humanidade que são oferecidos ao corpo do soldado, até ser entregue à família. E, no trajeto solitário do coronel Strobl, observamos cidadãos comuns absolutamente comovidos pelo estado em que seu país se encontra. Jardineiros, empregados de aeroportos e companhias aéreas, motoristas, todos se compadecem e se comovem com o caixão envolto na bandeira norte americana, conduzido de forma honrada pelo oficial Strobl. É possível criticar, odiar até, os americanos pela postura que assumem em relação ao mundo. Mas algo não se pode dizer contra eles quando se trata do espírito de nação que eles partilham, patriotas como nenhuma outra civilização. E é justamente isso que comove nesse filme. O espírito de uma nação de luto, mas unida e orgulhosa daqueles que se oferecem para defendê-la. Um lindo, discreto e silencioso filme que merece ser visto.